Somewhere Only We Know

1 O dia em que o clichê se iniciou


Notas iniciais
Espero que gostem ♥
Agora no começo eu vou postar duas vezes por semana, e dois capítulos por dia.

Tudo bem, talvez eu não estivesse em um dia de todo ruim, era só mais um dia normal da vida monótona da Natália — que no caso sou eu — droga, já estou falando de mim mesma na terceira pessoa, não vou mais fazer isso, sério mesmo. Tudo bem, eu estava falando da minha vida monótona, voltemos ao ponto inicial, eu estava deitada na cama pensando se iria terminar aquele episódio ou ensaiar aquela música no violino, mas ficar deitada ainda me parecia a melhor opção. Começo chato, eu sei, mas vai melhorar, pode crer, ou não. Você decide se quer continuar, não posso te obrigar nem nada, não quero ser o tipo de narradora que manda o leitor parar no primeiro parágrafo, mas eu sou então... Pare se quiser, prometo não vou ficar magoada com você. Não que você se importe com a minha mágoa.

Parar de enrolar, tudo bem, parei.

Eu ainda estava deitada, tinha me decidido por assistir o episódio e estava reunindo forças para levantar — estava pensando no quanto eu era um ser humano improdutivo — quando meus pais bateram a porta do quarto e entraram sem esperar por resposta. O fato de eles se darem ao trabalho de bater a porta significava que eles queriam me amansar, logo, nós tínhamos uma noticia ruim no horizonte.

— Querida — ah cara, quando minha mãe começa com “querida”... Pode crer, não é legal — Temos uma ótima noticia — é claro que é, sempre é. Sempre é uma “aventura”. Alerta de sarcasmo.

— Um novo bebê? — sério? Dois não são suficientes?

— Não! — minha mãe segurou a barriga onde uma vez eu estive, urgh, eu usei essa expressão mesmo? — Essa fabrica já esta fechada.

— Então qual seria a “ótima notícia”? — com muitas aspas mesmo.

— Vamos viajar — ela disse. Aquilo parecia legal demais, levantei minha recém-depilada sobrancelha pra ela.

— E...? — é claro que tem algo mais, se não, não seriam mais meus pais, e o mundo deixaria de ser mundo.

— Vamos viajar por dois anos — ok, pausa de 5 minutos para eu ter a chance de pirar corretamente.

Provavelmente minha expressão naquele momento não foi muito digna, então não irei descrevê-la para você, apenas imagine uma adolescente de dezesseis anos muito surpresa, e tente pensar nela dignamente.

— Comassim? — perguntei assim que recuperei o folego.

— Seu pai recebeu uma grande proposta, você sabe como ele trabalha muito. — minha mãe dizia, meu pai estava sentado ao lado dela com uma das mãos em seu ombro, encarei-o com a minha melhor expressão de “seu traidor”, não pensem que eu desrespeito meu pai, porque eu não desrespeito, meu pai é meu melhor amigo no mundo, se não acredita pergunte pra ele — Querida, acredite, é o melhor pra nós — “é claro que não é” eu quis responder, mas não discuti, porque ela é minha mãe, e nessa hierarquia injusta imposta pela sociedade desde os primórdios da humanidade você obedece a seus pais, se não eles tiram sua internet.

— Tudo bem, estou calma — respondi, porque não pensei em uma mentira mais complicada que essa — Eu só preciso de tempo.

— Você tem todo o tempo que quiser — minha mãe me disse segurando minhas mãos, com um sorriso radiante. O que foi estranho, ela nunca faz isso — Desde que sejam menos que três semanas — Eu avisei... Sempre tem um “desde\contanto”.

— Por que três semanas? — perguntei com os olhos arregalados.

— Nós partimos em três semanas — ela me respondeu como se fosse a resposta mais óbvia do mundo, eu até conseguia ouvir ela me chamando de “tolinha”.

— Vamos lhe dar algum espaço — ela pronuncia amavelmente se levantando com meu pai em sua cola, ele havia se calado.

Estava um pouco — muito! — estupefata para ter alguma reação. Meus pais já haviam alcançado a porta quando me dei conta de que não havia feito à pergunta crucial.

— Para onde vamos? — perguntei para os traidores, minha expressão provavelmente ridícula, que possivelmente incluía a boca aberta e os olhos arregalados.

— Paris na França — uau. A cidade do amor, que ridiculamente clichê. Nunca vejo as pessoas indo para a África, ou pra Austrália. Seria legal morar na Austrália, mas não, vamos todos pra Europa!

Não vou mentir, não sou uma leiga quando o assunto é mudança, já me mudei pra vários estados, já fui de Manaus à Santa Catarina em menos de nove anos, sempre voltava para o Pará em algum momento, mas já morei em vários lugares. Já fui para fora do país algumas vezes também, mas tudo se resumia em viagens de duas semanas, a mais longa foi quando fiz um mochilão na Austrália no meu aniversário de dezesseis anos, precisei de muito choro e um bocado de democracia pra realizar, mas é minha lembrança favorita de vida. Foi logo depois dessa viagem, que cheguei a um estado de espírito que nomeei de “Bolinha Arco-íris” — Nome sujeito a alterações. Estou aberta a discussões.

Conhece aqueles incríveis momentos de pura alegria? Em que você sente que tudo está dando certo e o mundo é uma brilhante e colorida bolha de sabão? Se você está, esteve ou ainda estará em um momento como esse, deve saber que existem duas opções pra esses momentos, ou você vai morrer — fatalidade ­—, ou alguém vai chegar e estourar sem misericórdia sua bolinha de felicidade. A segunda opção aconteceu comigo, e tenho que admitir, na época eu preferia a morte, mas como o pessoal da TV diz o tempo todo “Dê tempo ao tempo”, particularmente essa frase nunca fez sentido pra mim, mas não faço as frases de efeito, apenas as sigo.

Oh vida, existe destino pior que esse? Gostaria de saber um poema bem profundo e bonito pra declamar pra você, mas eu não sei, nunca aprendi, então se contente em saber que eu passei a noite ouvindo “Hallelujah”, que na minha concepção é a música mais bonita e deprimente que já foi escrita por um cara, embora fale basicamente da luta de Davi contra a pornografia, e sobre uma garota, e absolutamente não tenha nada a ver com minha situação atual, eu achei a música deprimente o suficiente para a ocasião.

Se sinta mal por mim, sou uma adolescente, gosto que as pessoas sintam pena de mim embora eu nunca admita, acho que muitos adolescentes passam por isso, mas como eu disse, a gente não admite, que seja, fui dormir há uma da madrugada, simplesmente porque achei que devia isso a minha depressão, não preciso comentar que isso foi uma péssima decisão, já que eu tive que acordar hás cinco da manhã para meus compromissos matinais. Não lembro exatamente o que aconteceu naquele dia, não sou o tipo de pessoa que funciona sem uma boa noite de sono, então eu vaguei por aquela manhã como um zumbi que não acha um cérebro bom o suficiente para comer — não ligue se de vez em quando eu usar analogias sem sentido, faz parte da minha personalidade.

Notas finais
E então?