Somewhere Only We Know
2 As Lamúrias estão apenas começando
Notas iniciais
Quando cheguei em casa fui direto para minha camacérebro-bom-o-suficiente, dormi até as três da tarde, minha mãe foi me acordar com toda a sua delicadeza que consistia em bater na minha porta o mais forte que pudesse e gritar “Acorda e vai estudar!”, parece que o “querida” do dia anterior, já havia morrido.
Obviamente eu acordei e fui direto para meu computador dar uma olhada nas minhas mensagens, e uau! Haviam quatro — nunca haviam mais de duas —, a primeira era do meu querido Frank, ele estava comentando que eu estava meio dispersa de manhã e perguntava se eu estava bem, e um coração no final — UM CORAÇÃO! — Que fofinho. Já a segunda era da minha melhor amiga Bárbara, também me perguntando o que tinha acontecido, a terceira da Sara, novamente perguntando qual era o meu problema, a quarta, adivinhem, minha amiga Cho me perguntando se eu estava bem. Brilhante, quatro mensagens sobre o mesmo assunto. Como sou muito preguiçosa resolvi escrever uma mensagem apenas e copiar e colar pra todos, basicamente a mensagem era “Estou bem, só sono, tchau”. Não sou muito espirituosa nas redes sociais, sou uma pessoa que gosta do cara a cara. Então fui estudar, porque minha mãe mandou e ela infelizmente ainda manda em mim — e me alimenta.
Passei o resto do dia pensando em como iria dar a noticia, minhas amigas iriam pirar, daqui a dois anos começaríamos a faculdade, significava perder todo o ensino médio, mas esse nem era meu maior problema. Eu não falava francês, não conhecia ninguém que falasse, tinha um inglês razoável, fruto de anos pagando as melhores escolas de línguas do Brasil, mas francês... tudo o que eu conhecia da França vinha do filme do “Ratatuille”, como eu poderia morar lá por dois anos inteiros? Estava começando a achar um bom número de falhas no plano brilhante dos meus pais, mas obviamente não comentei sobre o assunto com eles. Decidi que ganhava muito mais voltando ao meu computador, Frank já tinha respondido, e estava on-line, decidi dar uma palavrinha com ele.
Frank: Tem certeza que está tudo bem?
Eu: Sim, foi só uma noite mal dormida.
Frank: Ok. Têm planos para agora?
Eu: Como assim? Tipo... agora?
Frank: Preciso falar com você.
Eu: Quer vir na minha casa agora?
Frank: Sim, preciso muito mesmo falar com você.
Eu: Okay
Frank: Estou indo.
Eu: J
Aguardei ansiosa, o que ele tinha pra falar comigo que não poderia esperar até amanhã? É claro que ainda eram 18 horas, mas ainda assim estava muito suspeito. Suspeito ou não, eu era uma adolescente esperando o namorado, tive que me arrumar.
Eis um fato para os espertos de plantão: Quando seu namorado vai lhe visitar, você tem que se maquiar e se arrumar de uma forma que não pareça que você se maquiou e se arrumou, então coloquei uma roupa mais bonita, mas não bonita demais, coloquei uma maquiagem, mas não maquiagem demais — não queria que ele pensasse que eu era uma doida que fica se maquiando o dia todo —, e arrumei o cabelo em uma desordem previamente planejada, não ache que eu sou uma usuária afinca da maquiagem, porque eu não sou, eu apenas acho que me arrumar um pouco não me faz mal.
Ele tocou a campainha exatamente hás 18h43min, eu flutuei para o lado de fora. Sim, ás vezes sou uma adolescente bem bobinha, e Frank me fazia sentir como a Taylor Swift ao escrever Love Story, o que era ótimo, como eu já disse tinha dezesseis anos, tinha esse direito.
Quando eu cheguei ao meu portão, sabia que algo estava errado.
— Oi — Falei segurando meu casaco vinho bem firme, a noite estava prometendo chuva, tipo de coisa clichê que acontece na minha vida.
— Oi — Ele não sorriu, péssimo sinal.
Ficamos em um silêncio meio constrangedor, foi uma coisa estranha e de alguma forma assustadora, mesmo antes de namorarmos nós conversávamos o tempo todo, sobre todos os assuntos possíveis, nós sempre fizemos isso, então silêncio era algo bizarro.
— Não quero deixar você triste — Ele iniciou, o que é estranho porque normalmente isso sempre começa frases que deixam as pessoas tristes — Porque você é minha melhor amiga — Outro mau sinal, péssimo sinal para ser mais exata — Mas eu não quero mentir, pra nenhum de nós — sabe, é extremamente chato quando as pessoas ficam postergando as más noticias, se você vai dar uma má notícia, conte logo, não vai doer menos, mas vai me dar mais tempo pra processa-la e supera-la.
— Porque você não experimenta chegar ao ponto? — Eu disse a ele com minha expressão vazia.
— Eu acho que nós não deveríamos mais namorar — Eu já sabia o que ia acontecer, só não estava exatamente pronta pra quando acontecesse.
Vendo agora acho que minha reação no momento foi extremamente sábia. Eu comecei a rir, sempre tive essa facilidade que naquele momento eu reconheci como um dom divino. Ele me olhou também com um sorrisinho no rosto.
— O que? — Ele me perguntou confuso.
— Eu — disse ainda gargalhando como uma louca — iria terminar — outra gargalhada — com você — mais uma gargalhada — Mas não sabia como. — Voltei a rir e ele me acompanhou dessa vez.
Não quero enganar você leitor, porque prometi a mim mesma que não esconderia nada de você, então direi a verdade, eu com toda a certeza do mundo não queria terminar com ele, até hoje não sei direito porque eu fiz aquilo. Pra me proteger, ou protege-lo, sabe, mesmo com esse fim, ele realmente se importava comigo, e eu amava ele, e ainda amo, mas você não precisa saber disso.
— Mas o que desencadeou isso? — Eu perguntei quando nós já estávamos sentados a uma distância segura no gramado em frente a minha casa, sob a luz da janela da cozinha.
— Ela — Quando Frank disse isso, eu quase desmoronei, provavelmente se algum dia ele ler isso vai saber como me senti, e vai ficar triste, mas meu querido amigo Frank, não se sinta mal, isso foi completamente necessário.
Ah e é claro que eu sabia quem era ela, ela era a ex super linda e desejável dele, vamos admitir eu tinha sido um ban-daid pra ele, por isso quando ele foi embora eu entrei, fui direto para a geladeira, peguei dois potes médios de sorvete — Tenho quase certeza de que eram diets, eu estava de dieta naquela semana —, peguei a cobertura e as bolachas doces no armário e um bom pedaço de pudim. Fui para o meu quarto, coloquei meu dorama deprimente favorito e comecei a assistir, doramas são novelas asiáticas que eu simplesmente adoro — tudo bem, não vou mentir, eu gosto de qualquer programa de televisão, sou viciada em TV —, enquanto eu assistia ao Yano — eu veementemente recomendo que todas as pessoas do mundo assistam Bokura ga Ita — perder o amor da sua vida talvez para sempre e chorava loucamente — tudo bem, eu não chorei, mas foi um quase —, minha mãe me avisou que minha amiga Bárbara estava no telefone, respondi a ela algo como “Só vou atender quando for o Papa” e ela não me importunou mais, quando já eram vinte e uma horas e eu já estava cansada de tentar chorar e tomar sorvete, deitei na minha cama e ouvi minha mãe entrar no quarto. A mensagem dela foi simples e a coisa mais espirituosa que ela poderia falar:
— Você ainda vai sofrer desilusões amorosas, essa foi só a primeira. — E o prêmio Nobel de sensibilidade vai para...
— Valeu mãe — Eu disse com todo o sarcasmo que consegui reunir.
Ela saiu sem dizer mais nada.
Acabei de perceber que você ainda não sabe como eu sou fisicamente, então vou tentar me descrever para que algum dia você me encontre na rua, possa me reconhecer e falar: “Ei, você é aquela garota estranha que escreveu sobre a vida no world e depois postou na internet”, e eu vou poder dizer: “Sou eu mesma” e nós vamos nos abraçar e viver felizes pra sempre correndo atrás do pôr-do-sol.
Descrever-me nesse momento não é uma boa ideia, mas já que comecei vou terminar. Eu me olhei no espelho — porque se olhar no espelho ajuda na auto piedade —, meu cabelo preto na altura dos cotovelos estava todo bagunçado — dessa vez de verdade —, meus olhos castanhos estavam com bolsas gigantes — olheiras —, minha pele bronzeada — que é o que eu mais gosto em mim mesma — estava suja com os restos do rímel que eu passara mais cedo, eu não via mais gordura na minha barriga, mas quando se esta deprimida absolutamente tudo em você parece errado — quando se é adolescente também, mas só em alguns casos —. Limpei meu rosto o melhor que pude e peguei minha máscara fria — coisa de menina fresca, eu sei, mas foi necessário — pra que meu rosto não estivesse inchado no outro dia, deitei na cama e dormi instantaneamente.
No outro dia fingi a todas as pessoas que me perguntaram sobre o assunto, sorri o tempo todo, e é claro, não contei a ninguém sobre a viajem, ainda não. Cheguei em casa estudei, tentei chorar mais um pouco, fui para o computador, tentei chorar novamente, jantei, fiquei um tempo com a família, fui pra cama, dormi, acordei, passei o dia, cheguei em casa, dormi, e acordei me sentindo extremamente bem, fui a escola e decidi que finalmente havia chegado a hora de contar a verdade, então eu contei, primeiro para as minhas amigas, elas começaram a chorar e ficar tristes, e eu não posso culpa-las, claro que eu não chorei, fui a forte do grupo, não falei sobre o Frank, nem sobre mais nada, sabe eu não sou muito fã de chorar publicamente, prefiro sofrer em silêncio, e isso é um direito meu.
Após mais algumas horas de choradeira decidi ir pra casa, não me entenda mal, eu amo minhas amigas e tal, mas ouvi-las chorando no meu ouvido não é muito legal. Algo que eu tenho que deixar bem claro sobre mim é que eu não sou perfeita, não sou o ser humano mais legal do mundo, eu cometo erros o tempo todo, faz parte de ser uma pessoa, dito isto podemos continuar. Voltei pra casa e contei a noticia ao Frank, que ficou muito triste, segundo ele, não teria como eu saber por que nós estávamos no chat, e eu não leio expressões além dos emojis que ele me manda, decidi que era hora de voltar ao mundo real, fui ao banheiro e me olhei no grande espelho, tinha algo de errado comigo, é claro que na minha concepção de adolescente sempre tinha — acabo de perceber que estou muito depreciativa com a adolescência, vai passar —, mas naquele dia tinha algo mais errado ainda, o que era estranho já que tudo em mim era a mesma mesmice de sempre, foi então que eu notei qual era o problema, a “mesma mesmice”. Liguei para a cabeleira pensando em fazer algo como pintar todo o cabelo de azul, o que minha mãe não deixaria e pra fazer qualquer coisa no cabelo precisava do dinheiro dela, marquei um horário para aquele mesmo dia as 18horas, depois fui pedir permissão para minha mãe, eu sei que as coisas estão meio fora de ordem, mas foi isso que eu fiz. Minha mãe concordou e nós começamos a pensar em alternativas para o meu preto sem graça, que fique anotado que eu tentei a do cabelo azul, mas ela não me apoiou, ficamos nessa até o horário de ir ao salão de beleza.
Lá eu ainda não fazia ideia do que fazer, então fiz algo que nunca havia feito até aquele momento, mandei ver, falei algo como “faça o que tiver que fazer” e fechei os olhos esperando o pior, passei três horas inteiras no cabelereiro, cada segundo era uma tortura, mas eu não olhei em nenhum momento, a pior parte foi na hora de cortar, mas até a isso eu sobrevivi sem olhar, a cada segundo a curiosidade me consumia, e era cada vez mais forte, por fim ela deu a ultima escovada, não sei se sobreviveria a mais uma, abri os olhos e me deparei com uma Natália extremamente diferente da qual eu tinha visto da ultima vez, meu cabelo estava ainda preto, alguns dedos menor e com californianas, não sei porque eu nenhum momento eu pensei nisso, eu acho que o azul era mais atraente, mas estava lindo, nem parecia eu mesma, sorri para o espelho e ele sorriu novamente, e foi como se o resto do dia brilhasse só por uma mudança de visual.
Levantei mais um dia, me dando conta de que em apenas mais sete dias eu estarei fora do meu querido Brasil, ó Brasil, nem eu mesma diria que eu só voltaria a minha amada pátria muito tempo depois desse acontecimento.
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