Something In The Way

1 Capítulo 01 - Rotina Quebrada


Acordo cansado, como se a noite de sono não tivesse sido suficiente para repor minhas energias. Está frio e escuro dentro do quarto, como sempre. Levanto-me devagar, como se algo me prendesse à cama. Não queria acordar, mas Madison precisa ir à escola.

Relutante, caminho até a cortina e abro. A luz atinge meus olhos como fogo queimando, demoro para me acostumar. Em seguida, vou até o banheiro e lavo o rosto. No espelho está aquele rosto desgastado, aqueles olhos presos para sempre em uma expressão de medo e desgosto. Tem sido difícil desde que Carol morreu dois anos atrás e a vida segue, pelo menos de acordo com as pessoas que vêm até mim com palavras confortantes que nunca funcionam. Eu não posso abraçar palavras à noite, não posso conta-las sobre o meu dia, então elas não funcionam. Não levam a dor embora.

Ao sair do quarto, acendo a lâmpada fluorescente do corredor e caminho até o quarto de Madison. Já consigo imaginá-la se recusando a ir à escola. Abro a porta e acendo a luz.

- Hora de ir para a escola, dorminhoca – Digo, antes de perceber que ela não está lá.

Olho pela janela, ela não está no quintal.

- Madison? – Chamo, mas ela não responde – Madison? Querida, você tem que ir à escola!

Resolvo então procurar na sala, onde imagino que ela esteja, sentada em minha poltrona assistindo à uma sessão de desenhos animados matinais. Ela já havia feito aquilo.

No entanto, surpreendo-me ao notar que ela não está lá. A TV permanece desligada e a luz também, sem sinal de ninguém.

Neste momento, passa por minha cabeça que ela pode estar no banheiro, preparando-se para ir ao colégio. Corro até a porta e bato três vezes.

- Madison?

Ela não responde nenhuma das outras duas tentativas, então eu abro a porta, deparando-me com o banheiro vazio.

Começo a ficar preocupado e corro para fora de casa, mergulhando no clima gelado da manhã sem nem ao menos pôr um casaco. Meus olhos correm por toda a rua, observando algumas pessoas conversando e saindo para levar seus filhos para a escola, mas nenhum sinal dela.

Caminho pela grama morta do jardim até o senhor da casa ao lado, que dá água à suas plantas, enquanto assobia uma canção que eu sinto que conheço.

- Com licença, senhor – Digo, fazendo-o parar sua tarefa.

- Pois não – Ele responde, sem sorrir. Eu não sou o tipo de vizinho sociável, raramente converso com alguém e nunca falei com este.

- Você viu uma garotinha por aqui? Ela tem cabelos lisos e curtos com uma franja, mais ou menos dessa altura – Ponho minhas mãos na altura da cintura, demonstrando uma provavelmente inexata altura de minha filha.

- Não, não vi.

- Tudo bem, obrigado.

Frustrado e com medo, volto para dentro de casa e pego o telefone. Depois de discar o número da polícia e esperar três bipes, alguém atende do outro lado. Uma mulher.

- Departamento de polícia de Chicago, em que posso ajudar? – Pergunta ela, do outro lado da linha.

- Minha filha sumiu e eu não tenho ideia de onde ela pode estar – Digo, pensando mil coisas que poderiam ter acontecido.

- Senhor, peço que fique calmo e me passe as informações que pedirei a seguir.

- Tudo bem.

- Qual o seu nome?

- Edward Flanders.

- Agora me diga o nome e a idade da garota.

- Madison, 10 anos.

- Quando foi a última vez que a viu?

- Ontem à noite, eu a coloquei para dormir e quando acordei hoje, ela não estava mais em casa.

- E você não tem absolutamente nenhuma ideia de onde ela pode estar?

- Não, só moramos eu e ela aqui e não conhecemos muitas pessoas, não consigo pensar em um lugar para ela ter ido.

- Tudo bem, Sr. Flanders, nós precisamos esperar pelo menos 12 horas para começar as buscas, há quanto tempo ela sumiu?

- Eu não sei, talvez uma ou duas horas, eu não sei, não estava acordado.

- Nós recomendamos que você espere até anoitecer, se ela não retornar para a casa, volte a nos ligar e nós começaremos uma busca pela manhã.

- Eu não posso esperar tanto.

- Infelizmente nós não podemos fazer muito, pois não sabemos ainda se ela foi sequestrada ou apenas saiu de casa.

- Então vocês não vão procurar minha filha?!

- Senhor, nós vamos, se tiver algum motivo para procurar.

Furioso, desligo o telefone, colocando-o no gancho agressivamente. Eles não vão buscar minha filha! Madison provavelmente foi sequestrada, deve estar sofrendo e com medo, mas eles não vão procura-la! Em 12 horas ela pode está morta.

Sento no sofá e coloco as mãos sobre a testa, as lágrimas são inevitáveis. Eu preciso procurá-la, porque se eu não o fizer, ninguém mais vai. Como uma criança desapareceria sozinha? Ela não foi embora, nem mesmo saiu para ir ao mercado sem me avisar. Madison não faria isso, ela tem tanto medo da cidade quanto eu, medo de encontrar homens maus como os que tiraram a vida de sua mãe.

***

As horas parecem passar devagar. Permaneço sentado no sofá com a cabeça entre as mãos. O silêncio às vezes é tão perturbador. Eu o odeio, odeio o modo como ele parece me encarar, parece que faz me propósito. Me deixa louco. Eu odeio o silêncio!

O relógio na parede me provoca, os segundos parecem minutos e os minutos parecem horas. Não posso aceitar o fato de que minha pequena Madison se foi. Não posso aceitar porque não é verdade. Ela não se foi, eu tenho certeza, minha garotinha ainda está por aí e não vai voltar a não ser que eu a busque.

Depois de algumas horas deitado no sofá, me levanto. Meu estômago implora por comida, mas minha mente não liga. Eu só quero encontrar minha filha.

Pego um retrato com a foto de Madison e retiro-a, sem seguida pego meu casaco, em cujo bolso coloco a foto, e as chaves do carro. Saio de casa. A rua está um pouco mais cheia do que hoje cedo, mas tem a mesma aura fria e obscura dos subúrbios de Chicago. Eu não consigo me sentir seguro saindo por aquelas ruas, na verdade, não consigo me sentir seguro em nenhum lugar deste mundo, não depois do que aconteceu com Carol.

Há um homem em minha calçada, a poucos metros de mim. Ele usa um sobretudo preto e parece ter uns 50 anos. Entre seus lábios há um cigarro aceso, o qual ele tira com os dedos logo em seguida, soprando uma nuvem de fumaça no ar quase igualmente poluído da cidade. Penso que ele quer falar comigo.

- Em que posso ajudá-lo? – Pergunto, fingindo ter paciência.

Ele não responde, apenas dá outra tragada no cigarro e solta a fumaça novamente. Eu o ignoro e começo a andar em direção a meu velho carro, estacionado a poucos metros.

- Eu vi a sua garota – Diz ele.

Eu viro rapidamente.

- O que você disse?

- Eu ouvi que você está procurando sua filha, eu a vi.

- Você fala sério?

Pego a foto – já meio amassada – dela do bolso e mostro ao homem.

- Essa foi a garota que você viu?

- Sim, essa mesma, estava aqui hoje de manhã, sentada no chão... Ela parecia triste.

- E você viu para onde ela foi?

- Ela entrou em um carro com um homem, pensei que fosse o pai dela.

Aquilo me atinge como uma pedra. Ela foi sequestrada. Fico mais assustado do que jamais estive, Madison é a última coisa que me sobrou na vida. Se eu a perder, estou perdendo todos os meus motivos para continuar vivo.

- Você lembra de qual cor era o carro?

- Uma grande caminhonete preta, com os vidros escurecidos.

- Você consegue lembrar da placa?

- Infelizmente, não.

- Obrigado, muito obrigado – Digo, apressado para localizar o sequestrador.

Ele atravessa a rua e entra em seu carro, depois vai embora. É estranho, mas eu não me importo, já tenho uma informação que pode me levar à Madison.

Estou com tanto medo, medo do que podem fazer com ela. É apenas uma garotinha. Qualquer pessoa procuraria manter a calma, mas eu não posso, não depois do que vi e vivi. Na vida real, os vilões não esperam os mocinhos para colocar em prática seus planos malignos.

Entro no carro e dou partida, sei que as chances de encontrar Madison e o agressor são poucas, mas preciso me agarrar a qualquer chance que tiver de encontrá-la.

Dirijo até o departamento de polícia, que não fica muito longe de onde moro.

Ao chegar ao grande prédio com várias viaturas estacionadas na frente, assim como no pequeno estacionamento ao lado, coloco meu carro embaixo de uma árvore e saio. O sol começa a aparecer timidamente e eu atravesso a rua sem olhar, fazendo um carro frear bruscamente.

Enquanto o motorista cospe um xingamento, continuo caminhando. Subo a pequena escadaria da entrada e cruzo a porta. No balcão estão duas mulheres, provavelmente uma delas me atendeu ao telefone. Dirijo-me até elas.

- Com licença, minha filha está desaparecida... Eu já informei sobre o acontecido, mas me falaram para esperar 12 horas.

- Você é Edward Flanders?

- Sim – Pela voz e pelo fato de ela ter me reconhecido, percebo que aquela é a mulher com quem falei ao telefone.

- É como te falei, não podemos fazer nada até ter certeza de que ela realmente está desaparecida.

- Eu tenho provas.

- Como assim?

- Um homem disse que viu minha filha entrar em um carro hoje pela manhã, e não era o meu carro.

- Você tem certeza de que não era a mãe dela ou um conhecido?

- Não temos conhecidos, e a mãe dela... – É difícil até mesmo falar – A mãe dela foi assassinada há dois anos.

- Essa informação é verdadeira

- Claro que sim.

- Então nós iremos registrar e as buscas começarão em poucas horas.

- Obrigado.

Sem esperar que ela diga mais nada, cruzo grande hall e saio do departamento de polícia. Não posso esperar nenhum segundo a mais, preciso encontrá-la.