Something In The Way
2 Capítulo 02 - Acidente
Dirijo em direção à minha casa. Sinto falta da presença alegre de Madison, com suas histórias engraçadas sobre a escola. Tenho uma filha de ouro, que agora está perdida por aí, apenas Deus sabe aonde.
No caminho, paro em uma loja de conveniência. Desço do carro e caminho até o interior quase vazio, onde um jovem de vinte e poucos anos folheia uma revista atrás do balcão. Ele me olha quando entro, mas logo volta sua atenção à revista.
Caminho para a seção de salgadinhos e procuro algo que me agrade. Não gosto de comidas daquele tipo, mas meu estômago implora por algo. Ouço o sino da porta tocar e instintivamente olho. É um homem alto, com óculos escuros e cabelos penteados com muito gel.
Ele entra e vai até o freezer, de onde pega uma lata de refrigerante de cola. Em seguida, caminha até o caixa e paga. Enquanto o garoto recebe o dinheiro e organiza o troco, o homem olha ao redor da loja. Quando me vê, ele olha de volta para o garoto e parece ficar apressado.
Desconfio, mas ignoro. Em uma rápida passada na parede de janelas de vidro do local, vejo que há um novo carro no estacionamento, ao lado do meu. Uma caminhonete preta, com vidros escurecidos, do jeito que aquele misterioso homem havia descrito o carro onde Madison entrou. Percebo então que aquele é o carro do homem que está no caixa.
Quando ele termina de pagar, pega seu refrigerante e sai rapidamente, dando uma rápida, e talvez nervosa, olhada para mim. É ele.
Devolvo o salgadinho à prateleira e discretamente caminho para fora da loja. O homem entra em seu carro e dá partida. Eu faço o mesmo.
Ele vai embora e eu espero alguns segundos, observando-o pelo retrovisor. Quando ele entra na rua adjacente ao posto de gasolina onde a loja fica, eu saio. Começo a segui-lo discretamente.
Depois de alguns minutos o seguindo, ele estaciona seu carro no meio da rua e sai. Eu paro o meu observo ele atravessar a rua e entrar em um prédio por uma pequena porta no lado. Coloco a mão embaixo do banco e tateio em busca de minha arma. Ao achá-la, tiro do seu esconderijo. É uma Glock G23 com um silenciador. Depois que Carol morreu, me tornei um pouco assustado demais, precisei de algo para me sentir seguro.
Coloco a pistola dentro da calça, sentindo o toque gelado do metal em minha virilha. Saio do carro e coloco as chaves no bolso. Atravesso a rua olhando para os lados e entro na porta. É um prédio residencial, nada luxuoso. Não há ninguém na portaria, então subo correndo, para tentar encontrá-lo. Ao chegar ao terceiro andar, o encontro falando com uma senhora. Os dois sorriem como se fossem velhos amigos. Eu apenas observo de longe. Ele ainda não percebeu.
O homem termina sua conversa e entra em seu apartamento. A mulher faz o mesmo, pois mora no apartamento quase vizinho, distante apenas duas portas. Eu caminho pelo corredor vazio em direção à casa dele. Número 66.
Bato na porta e espero nervoso. Madison pode estar ali dentro. Não há olho mágico, então não tem como ele saber quem bate à sua porta. Ouço ele destravar suas duas trancas e em seguida a porta é aberta. O homem se assusta com minha presença e tenta fechar a porta, mas eu sou mais forte. Ponho-me para dentro do apartamento e fecho a porta. Ele está assustado.
– Quem diabos é você? – Pergunta ele.
– Onde está a minha filha? – Pergunto furioso, ignorando sua pergunta.
– O quê?
– Eu quero saber o que você fez com ela!
Começo a andar pelo apartamento, olho no quarto, não há nada, no banheiro e na cozinha também não. Quando volto à sala, ele está com o telefone em mãos.
– O que você fez com ela, seu filho de uma puta?! – Perco a cabeça e me jogo em cima dele, dando-lhe socos no rosto.
O homem cai e tenta se defender.
– Eu não sei do que você está falando!
– É claro que sabe, você sequestrou minha garota, eu só quero tê-la de volta!
Estou segurando-o pela gola da camisa e ele me olha com pavor. A boca sangrando.
– Eu realmente não sei do que você está falando.
Me levanto e respiro fundo. Em seguida tiro a arma da calça. Ele precisa pagar pelo que fez, não importa o quanto negue, foi ele.
Quando aponto a arma para ele, depois de carregá-la, ele ergue as mãos no ar.
– Não faça nenhuma besteira.
– Eu não vou fazer, contanto que você me diga onde ela está.
– Eu não fiz nada com sua filha, eu nem mesmo sei quem você é!
– Você foi visto, não adianta mentir.
– O quê?
Parto para cima dele novamente, dando uma coronhada em sua cabeça. Ele tenta segurar meu braço com uma mão e com a outra arranha meu rosto. Fecho os olhos sentindo uma ardência no olho esquerdo e continuamos a brigar, até eu ouvir o som da arma disparando. Sinto que ele parou de lutar e abro meus olhos. O buraco na cabeça dele não é muito grande, apenas do tamanho de uma bola de gude, mas foi suficiente para matá-lo.
O sangue começa a se espalhar no chão de madeira e eu me levanto, olhando de longe.
Finalmente admito, talvez ele fosse inocente.
***
Ninguém me viu sair. Atravesso a rua fingindo tranquilidade e entro em meu carro, largando a arma no chão. Estou tremendo e suando, minha mente permanece paralisada na imagem daquele homem morto. Eu o matei, eu sou um assassino.
Dou partida no carro e começo a dirigir. Eu deveria me sentir realizado por ter eliminado o sequestrador de minha filha, mas não me sinto, por dois motivos. Primeiro, ainda não sei onde Madison está, e segundo, não eliminei o sequestrador da minha filha.
Chego em casa e jogo meu casaco sobre o sofá. Caminho até a cozinha e bebo um copo de água, não estou me sentindo muito bem.
Não há mais nada que posso fazer a não ser deitar-me na cama e esperar a ligação do sequestrador ou da polícia, então é exatamente o que eu faço. Após me deitar, meus dedos encontram o caminho até a colcha e eu me cubro. Está frio, em todos os sentidos.
As imagens do corpo não saem de minha cabeça e eu não consigo pregar os olhos – nem devo. Cedo ou tarde as pessoas descobrirão o corpo do homem, e quando isso acontecer, a polícia começará a buscar pelo assassino. Temo que descubram minha identidade, mas não consigo pensar em uma maneira de isso acontecer.
Ninguém me viu. Ninguém nunca me vê.
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