Something In The Way

8 Capítulo 08 - Assassino


Já está anoitecendo, saio da casa de Larry e coloco as mãos no bolso do casaco, pois está frio. Caminho pela calçada até a esquina, onde deixei meu carro. Olho de relance para trás, há um carro preto no fim da rua, parado e com os faróis ligados. Ele começa a se aproximar, lentamente, e eu ando mais rápido, desconfiado.

Quando entro em meu carro, olho mais uma vez para ver, o carro parou novamente. Ligo o veículo e saio dali. Permaneço olhando pelo retrovisor interno, procurando ele atrás de mim. Só paro quando o vejo virando a esquina, vindo na mesma direção em que vou.

Acelero um pouco mais, passando um cruzamento sem prestar muita atenção. O semáforo estava aberto. Alterno minha atenção entre o caminho e o carro que ainda me persegue de longe. Começo a ficar assustado, talvez seja apenas coincidência, mas de qualquer forma é muito estranho. Ultimamente, toda a cidade parece estar me vigiando, ando sempre com medo, desconfiado de que sempre há alguém me observando de longe. São os sequestradores, estão atrás de mim agora.

Viro mais uma esquina e desta vez acelero ainda mais, na tentativa de despistá-lo. Não consigo, ele volta a me seguir, sempre a uma longa distância e com os faróis altos.

Meu celular, que estava jogado no banco ao lado com vários papeis, começa a tocar. Reconheço o número do sequestrador e atendo.

– Alô? – Digo, olhando pelo retrovisor o carro que continua me seguindo.

– Você não devia falar no celular quando está dirigindo – Fala ele.

– O que você quer?

– Neste momento você está olhando pelo retrovisor e temendo o carro que te segue, estou certo?

– Eu perguntei o que você quer – Digo firmemente, escondendo meu medo e mostrando minha fúria.

– Eu só quero reforçar o que eu disse... Não importa onde você esteja ou aonde você vá, eu saberei.

Penso em desligar o celular na sua cara, mas tenho medo de que ele possa descontar algo em Madison.

– Por que não acabamos logo com isso? – Pergunto.

– Como?

– O que você quer? Desta vez me responda algo sólido, eu estou cansado de jogar.

– O jogo só acaba quando eu mandar.

Mais uma vez ele desliga na minha cara. Olho pelo retrovisor e vejo o carro entrando violentamente em uma esquina, os pneus riscam o asfalto fazendo um ruído característico. Ele foi embora.

Estou cansado de ser manipulado, esta tortura psicológica está me matando e eu sinto falta de Madison como nunca senti. Não é apenas saudades, é medo. Temo pela vida dela, uma garota tão jovem e inocente, não tem culpa de nada. Na verdade, nem eu tenho, ninguém tem, apenas eles.

***

O relógio avisa que já passa das nove, estou deitado em minha cama, no motel. Olho para o teto me sentindo totalmente impotente. É torturante não poder fazer nada. Preciso de comida, há muito tempo não me alimento.

Levanto-me, visto me casaco e saio do quarto. Há uma lanchonete perto daqui.

Corredores, escada, recepção, sempre a mesma coisa, sempre a mesma idosa no balcão assistindo a algum show na mesma TV. Aquele lugar é o fundo do poço, talvez eu definitivamente esteja no fundo poço.

Saio na noite fria e começo a andar sozinho pela calçada. Muitos carros passam na rodovia, então não me sinto sozinho.

Depois de caminhar alguns metros, atravesso pela travessia de pedestres e estou do outro lado da rua. A lanchonete está a dois prédios da loja de bebidas à minha frente. Olho para a placa velha e para o interior da loja, onde um homem folheia uma revista atrás do balcão.

Começo a caminhar até a lanchonete.

Minutos depois, estou praticamente sozinho no estabelecimento, apenas eu e meu sanduíche. Os atendentes conversam atrás do balcão e um casal alimenta seu filho pequeno em uma mesa longe da minha, mas eu estou sozinho, completamente sozinho. Meus olhos lacrimejam, me pego chorando. Fico observando o casal a algumas mesas, eles parecem felizes. É claro que estão felizes, a coisa mais preciosa do mundo está bem ali, na frente dos dois.

Imagino o que Madison diria ao me ver chorando. Ela já havia me pego aos prantos algumas vezes. Era uma garota forte, a pessoa quem me controlava e me mantia olhando para cima. Ela não deixava que eu abaixasse a cabeça e desistisse.

A mulher percebe que estou observando e me olha. Ao perceber que estou chorando, ela faz uma expressão que eu conheço muito bem. Pena. Talvez pense que sou um mendigo, a julgar pelo meu estado. Cabelos despenteados, roupas amassadas e olheiras profundas.

Desvio meu olhar e coloco a cabeça entre as mãos. Fecho os olhos e respiro fundo, controlo o choro.

***

Na volta, paro em frente à loja de bebidas, sei que não devo, mas entro, fazendo um sino preso à porta soar. O homem na recepção para de folhear sua revista e olha para mim.

Caminho pelas prateleiras à procura do uísque mais barato da loja.

***

De volta ao meu quarto, sento-me na cama e abro a garrafa de uísque – não deveria –, tiro os sapatos e subo na cama. Começo a beber, é uma distração para a realidade obscura que estou vivendo. Não desistirei de Madison nunca, mas começo a achar que minha história não terá um final feliz.

Olho para minha arma sobre a cômoda, seria tão simples acabar com tudo isso, é só puxar o gatilho quando a pistola estiver apontada para minha cabeça. Minha filha é a única coisa que me impede de realizar meu maior desejo, fugir deste mundo.

Preciso ser forte, assim como seria se ela estivesse comigo, me abraçando.

As lágrimas começam a voltar. Este uísque me parece uma boa ideia agora.

***

Acordo novamente com uma enxaqueca terrível, mal consigo abrir os olhos pois a dor parece aumentar a cada movimento que faço. Luto para me levantar e percebo não uma, não duas, mas três garrafas de uísque completamente vazias sobre a escrivaninha do claustrofóbico quarto de motel. Começo a me lembrar de ontem à noite. Saí para comprar mais bebidas depois de acabar minha primeira garrafa. Eu fiz de novo.

Caminho até o banheiro, cuja porta está entreaberta e acendo a luz. Há rastros de sangue no chão, levando à banheira. A cortina do box está manchada com o mesmo líquido vermelho, como se alguém tivesse tentado segurá-la com mãos ensanguentadas.

Fico com medo do que vou encontrar do outro lado. Abro a cortina, tomando cuidado para não tocar no sangue, e não encontro nada. Apenas algumas gotas de água avermelhada. O que eu fiz?

Primeiramente, olho para minhas mãos, braços e pernas. Limpos, sem cortes. Levanto minha camisa e olho minha barriga. Nada. Vejo no espelho, meu rosto está intacto. Este sangue não é meu.

Saio do banheiro procurando uma resposta para aquilo. Olho embaixo da cama, dentro do armário. Não tem nada, nenhuma pista que pode me esclarecer o que diabos aconteceu.

Volto a lembrar da noite anterior, quando estava na loja de bebidas. Há uma mulher nos meus pensamentos embaralhados. Loira, alta e bela. Estava comprando um maço de cigarros na noite anterior, lembro-me de que conversamos, mas não consigo lembrar do que aconteceu depois.

Sem ter percebido antes, vejo um papel dobrado ao lado do meu travesseiro. Pego-o e leio. Fico extremamente perturbado. Há apenas uma palavra escrita com caneta preta, a qual tenho certeza que não escrevi.

“Assassino”.