Something In The Way
9 Capítulo 09 - Sr. Simpson
Paro meu carro em frente à casa de Larry. Desço do carro olhando para os lados e caminho pela passarela de pedra até a porta e bato. Ele me atende com um rosto cansado, vestindo um roupão. Provavelmente estava dormindo. Eu não pareço tão melhor do que ele.
– Houve uma morte – Digo.
Ele faz uma cara de confusão.
– Como assim?
– Ele matou alguém.
– Você está falando sério?
– Sim.
– Quem?
– Eu não sei, uma mulher que conheci ontem... O meu banheiro estava cheio de sangue e havia um bilhete em cima da cama.
– Que bilhete?
Não digo nada, apenas entrego o papel que estava dobrado no bolso do meu casaco. Ele olha para mim, talvez esteja pensando mil coisas.
– Você bebeu ontem?
– Sim, mas o que isso tem a ver com o bilhete?
– Você se lembra do que aconteceu ontem?
– Não muito bem, mas...
Paro de falar e logo percebo o que ele pensa com isso.
– Você acha que eu a matei?
– Não, não, mas seria muito estranho pensar isso?
– Claro que sim, eu não sou um assassino!
– Tá, desculpa, desculpa, eu não quis dizer nada... Vamos considerar que ele entrou no seu quarto e essa mulher foi assassinada enquanto você estava dopado, você estava correndo um grande perigo então, ele poderia ter te matado lá mesmo, só que não quis.
– Você tem razão, ele estava lá, tão perto de mim, eu não posso acreditar, por que não me matou? Por que fez aquilo com ela?
– Como ele a matou?
– Eu não sei.
– Você não sabe?
– Não, o corpo não estava lá, apenas o sangue.
– E como você sabe que é dela? Talvez você tenha se cortado ontem.
– Não, não é meu sangue, se for de alguém, é dela, foi a única pessoa com quem mantive contato ontem.
Ele coça o queixo, pensativo.
– Você acha que pode ser da Madison?
Ele olha para mim, sem responder “não” prontamente, como faria antes.
– Eu não sei.
– Oh meu deus.
– Não vamos tirar conclusões precipitadas.
– A camareira entrará lá dentro, eu não sei se limpei todo o local... Estou deixando rastros para a polícia me achar, quer dizer, os rastros levam a mim, mas não sou eu quem os deixo, talvez ele queria me entregar.
– Não, isso não faria sentido, afinal, se ele quer lhe ver preso, por que ainda está com sua filha?
– Eu não sei.
– Você ficará aqui hoje, não pode voltar para o motel, é muito perigoso.
– Tudo bem – Normalmente eu não aceitaria, pois não gosto de dar trabalho, mas eu realmente não queria mais ficar sozinho.
– Olha, eu preciso sair e resolver alguns problemas da casa, mas você vai ficar bem?
– Sim, tudo bem.
Ele se levanta do sofá e vai até o quarto. Eu fico sentado no sofá, olhando a sala em silêncio. Algum tempo depois, volta de lá vestido e com um envelope amarelo na mão.
– Se estiver com fome, pode pegar algo da geladeira e tem TV a cabo, sinta-se em casa, eu volto em uma hora e meia, mais ou menos.
– Ok.
– Até logo.
– Até.
Quando ele chega à porta, eu o interrompo chamando seu nome.
– Larry!
Ele olha para mim esperando eu falar algo.
– Obrigado por tudo.
Ele dá um sorriso e vai embora. Pela janela, posso vê-lo caminhando em direção ao seu carro.
Me encosto no sofá e dou um suspiro. Não sei o que fazer.
***
O filme ao qual eu estava assistindo acaba e eu desligo a TV. O tédio me consome.
Já passaram-se duas horas desde que Larry saiu.
Alguns segundos depois, o celular toca, acho que é ele. Pego o aparelho do bolso e vejo o número, que já salvei como “A”, é o sequestrador. Atendo e não digo nada.
– Edward? – Pergunta ele.
– Estou aqui.
– Eu cansei de brincar.
– O quê? – Fico desconfiado com o que aquela frase pode significar.
– Você quer sua filha de volta e eu não a quero mais, simples assim.
– Você vai devolvê-la para mim?
– Sim, mas é claro, achou que eu iria matá-la? Não sou um monstro, Edward, não gosto de ter sangue de pessoas inocentes em minhas mãos.
– E John Steele? E a mulher que conheci na noite passada?
– John Steele não era um homem bom e a mulher... Bem, você sabe, leu o bilhete.
– Eu não fiz aquilo.
– Eu também não fiz, Edward, vasculhe sua mente, você vai descobrir a verdade... Mas eu não quero falar sobre isso.
Neste momento, Larry entra pela porta da frente.
– Cheguei – Diz ele, sem perceber que eu estava ao telefone.
– O que você quer agora?
Ele olha para mim e pergunta “é ele?” sem pronunciar nenhum som. Eu afirmo com a cabeça e ouço o que o sequestrador diz. Coloco no viva-voz.
– No caminho para Petersburg há um galpão abandonado, fica no meio de um campo deserto, não há como errar... Quero que vá até lá às onze da noite, sem polícia, sem ninguém, Madison estará esperando.
– O que você quer que eu leve?
– Nada, absolutamente nada.
Olho para Harry e sorrio, ele também.
– Por que está fazendo isso?
– Você descobrirá.
Tiro meu sorriso do rosto. Algo vai acontecer, ele não fez tudo o que fez para entregá-la assim, sem mais nem menos. Alguma coisa acontecerá às onze da noite e não pode ser algo bom.
– Adeus Edward.
Ele desliga o telefone, me dando adeus pela primeira vez.
Larry e eu nos entreolhamos.
– Você não pode ir – Diz ele.
– Eu sei, há algo de errado, mas eu preciso arriscar.
– Não, é óbvio que ele não vai devolver sua filha, é uma armadilha, Edward.
– Eu sei que pode ser uma armadilha, mas eu não vou sem defesa, é claro.
– Do que está falando? Não pode levar a polícia.
– Eu tenho uma arma.
– Uma arma não será suficiente.
– Esta pode ser a última chance que eu tenho, eu sei que ele não devolverá minha filha, mas não vai me matar, não faria sentido.
– Eu não sei... Estou com um pressentimento ruim.
– Eu não tenho nada a perder, a essa altura Madison pode já estar morta, eu vou tentar.
***
Os ponteiros do relógio se aproximam das onze horas. Eu estou sentado em um sofá e Larry no outro.
– Eu ainda acho que você não deveria ir.
– Eu vou – Digo, carregando minha pistola e colocando dentro da calça.
Levanto-me do sofá e visto meu casaco.
– Se eu não voltar...
– Eu chamo a polícia e conto a verdade, já sei.
– Que Deus esteja comigo.
– Quer que eu vá com você?
– Não, se nós dois sumirmos, não vai ter ninguém para avisar à polícia e nunca encontrarão Madison.
– Então boa sorte.
– Obrigado.
Pego a chave do meu carro e saio da casa, mergulhando no ar frio da noite. A rua está completamente vazia e meu carro está estacionado sob um poste cuja luz pisca como se fosse queimar a qualquer momento.
Entro no veículo e dou partida. Estou com medo, não posso negar, mas também estou curioso para saber quem é o sequestrador e o que ele realmente quer.
Minutos depois, estou dirigindo por uma pequena estrada que serve como saída de Chicago para a cidade vizinha, Petersburg. Poucos a utilizam, então está sempre vazia, praticamente.
Alguns postes estão distribuídos pela estrada, mas não a ponto de iluminar tudo.
Vejo o imenso galpão e diminuo a velocidade. A entrada para o local é um portão enferrujado e quebrado. Entro e estaciono em frente, em um amplo campo de terra e mato.
Desço do carro observando o local ao redor. Na beira da pista há um poste, mas está longe, então a maior parte da iluminação do local fica por conta da luz da lua cheia. Caminho até o grande e entreaberto portão do galpão. Coloco minha cabeça para dentro e vejo o interior. Está tudo escuro, mas posso ver um carro no centro, um sedan preto, o mesmo que estava no estacionamento.
Estou no lugar certo.
Entro no galpão e começo a caminhar. Está escuro, só posso ver as luzes do interior do carro, que está ligado.
Ao se aproximar do veículo, vejo que não há ninguém dentro, então as luzes fluorescentes do teto, que eu julgava estarem queimadas, são ligadas uma por uma.
Olho para os lados procurando a pessoa que as ligou. Não vejo ninguém.
Percebo que na traseira do carro, em cima do porta-malas fechado, há uma pequena pilha de papeis. Pego e vejo do que se trata. Depois de ler as informações, percebo que é uma ficha médica, de um homem chamado Donald Simpson. Aparentemente ele sofre de Transtorno Dissociativo de Identidade. Talvez seja o sequestrador.
Ouço um barulho e procuro de onde veio. Há um homem a alguns metros, ao lado de uma prateleira cheia de coisas velhas. Ele está usando uma camisa preta e uma calça da mesma tonalidade, com um cabelo longo até os ombros. Ele está fumando um cigarro.
Um arrepio percorre meu corpo. É ele.
Fico em silêncio, observando-o e pensando como seria pegar minha arma e atirar em sua cabeça agora mesmo, mas penso que não seria inteligente, ele não pode estar sozinho.
Ele começa a caminhar em direção a mim.
– Você é o sequestrador.
– Bingo – Diz ele, de forma irônica, com o cigarro entre os dedos e soprando fumaça.
– Quem é Donald Simpson? – Pergunto.
Ele se aproxima mais, dá outra tragada no cigarro e sopra a fumaça novamente. Em seguida responde.
– Você.
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