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Prefácio

Não se preocupe. - Disse a mulher com um toque de compreensão na sua voz ao que tocava sua delicada mão no ombro do homem de alta estatura, amparando-o. Sem largar-lhe, seu olhar sofrido convergiu ao impassível dele mirando os destroços do que um dia fora sua casa. A areia do gélido deserto parecia invadir todos os locais, como se somente assim aquela imensidão pudesse ser saciada. Cada grão de areia parecia trazer consigo um novo \"animal\" que, selvagem, complementava a incoerência trazida pela cena. Estavam a esmo. Neriel suspirou enquanto sua mão abandonava o ombro de Nnoitra direcionando-se à mão do mesmo fazendo com que seus dedos se entrelaçassem aos dele.

- Não importa... Estamos juntos. Nada pode nos acontecer... Nada mais.

Capítulo 1 — A Espera

Se em algum maldito dia o Hueco Mundo pareceu um lugar esquecido por \"Deus\" ou qualquer outro ser onipresente feito de amor, agora não havia dúvidas. Possuir uma lembrança feliz parecia algo impossível. Teriam eles, os Arrankars, vivido por todo esse tempo sob a ilusão de um único ser; sob a ilusão de Aizen Sousuke? Seres que um dia foram humanos, se tornaram Hollows e então novamente obtiveram sua humanidade de volta com a ajuda de um mero Shinigami, seu inimigo natural. Irônico? Improvável? Surreal? Passado.

A derrubada de Aizen por seus ex-companheiros Shinigamis significou também a derrubada de todo um Hueco Mundo visionário e controlado pelo mesmo. E os seres que lá sobreviveram? Poderiam eles agora, viver vidas pacatas como sempre o fizeram? Ou isso nunca aconteceu realmente? Se a lealdade e a vontade de lutar não mais existiam, o que poderia agora mover à frente o coração de seres hipoteticamente sem coração? O que mais poderia impulsionar tais seres à vida? Vida...?

~

Você acordou, Nnoitra? — Uma voz tão delicada poderia soar tão gélida assim?

Neriel fitou o espada com certo desgosto enquanto questionava sua sobriedade.

Cinco dias havia se passado desde o motivo da derrubada do quinto Espada: a luta com o Shinigami Zaraki Kenpachi, taichou do décimo-primeiro esquadrão. Sorte ou misericórdia? Neriel não entendia como alguém tão monstruoso quanto o oponente do Espada conseguira deixá-lo vivo mesmo após mostrar-se deveras sanguinário. Talvez ele não proferisse o último golpe em um guerreiro caído, ou talvez não tenha percebido como seu último ataque e uma espada cega não seriam o bastante para tirar-lhe a vida. A causa não importava, e sim a consequência.

Aquela garota humana, Inoue... eu agradeceria a ela se fosse você. Estaria morto se ela não o tivesse curado. Nunca vi um poder de cura como esse. Não, é mais que cura... — A ex-Espada levou a mão esquerda à ossificação em sua cabeça, dedilhando analista sobre a parte de sua máscara novamente intacta graças ao poder de Inoue.

Negar um evento; mesmo o tendo visto com os próprios olhos, ainda sim desacreditava que fosse possível. Como poderia ter restaurado o que restou de sua máscara e mesmo assim o sentimento de traição estar presente em seu peito?

Viu-se segurar o choro ao apertar os dedos contra o pano verde cujo qual cobria determinadas partes de seu corpo, sendo despertada de seus sentimentos ao finalmente ouvir a voz de Nnoitra.

Neriel?! — A voz rouca do quinto Espada inundou com grosseria e desconfiança todo o ambiente da espécie de caverna em que se encontravam meio ao deserto. Másculo, colocou-se sentado em um minuto, sem ao menos preocupar-se com ferimentos, caso estes ainda existissem. A boca de Nnoitra contorceu-se em desgosto ao estar vulnerável diante da mulher, o que o fez imediatamente atentar-se para a localização de sua zanpakutou. Estava sem sua arma, sem o tapa-olho, sem roupa e, aparentemente, sem paciência. — Quero minha espada, Neriel!

Animal, murmurou Neriel quando, sem nada questionar, jogou-lhe a enorme espada, observando-o pegá-la pelo longo cabo ainda no ar, antes que caísse. O dito guerreiro parecia completo somente quando junto de sua arma; com ou sem roupas. Algo deplorável para a ex-Espada.

Animal... — Viu-se murmurar mais uma vez, porém agora de forma audível a Nnoitra enquanto virava o rosto para que ele vestisse sua roupa visivelmente reconstituída pelos poderes de Inoue.

Mais respeito com o homem que um dia te derrotou, mulherzinha! — Aconselhou, ou melhor, parcialmente ordenou com seu tom de voz naturalmente imperativo e inconsequente. Uma vez vestido e armado, arrumou o tapa-olho sobre o buraco em seu crânio, virando-se de costas à mulher de cabelos verdes indicando sua saída e o ignorar desta, por ora. Mais importante que a nostalgia que Neriel lhe trazia, era reencontrar o maldito que fora incapaz de matar-lhe e humilhá-lo daquela forma tão deplorável. — Tch!Diante do som de desgosto proferido por Nnoitra, Neriel virou-se a encará-lo seriamente, ao que o mesmo parecia perceber a tempestade de areia que pendia há quase três dias inteiros.

Onde pensa que vai? — Questionou-o; a frieza em sua voz mais uma vez era visível. Era estranho desprezar e ao mesmo tempo preocupar-se com o homem cujo qual quase lhe acabara com a vida? Vá saber. - ... Aliás, tente.

Concluiu com cinismo antes mesmo de obter uma resposta por parte de Nnoitra. Ignorando, sem dúvida o tom de Neriel ou mesmo a pergunta desta, o quinto Espada adiantou-se à saída da caverna, regredindo um passo para trás antes mesmo que pudesse, de fato, sair.

Mas que porra é essa? — Sequer terminou a frase, virando a feição colérica à Neriel, revelando um corte em sua face através do qual um filete de sangue escorria. Estava evidente que, mesmo para alguém tão resistente como Nnoitra, a velocidade com a qual os grãos de areia se moviam em meio aquela tempestade era o bastante para feri-lo; ainda que superficialmente. Neriel pela primeira vez sorria. Era um sorriso de vitória, mesmo que isso não fizesse algum sentido àquela altura.

A ausência de resposta parecia ser o suficiente para despertar a fúria do quinto, o qual utilizou-se da técnica chamada sonido e em menos de um segundo, já estava diante da mulher com sua fina mão encaixada na garganta da mesma.

Eu te fiz uma pergunta, Neriel! — bradou.

Nel somente o fitou com escárnio erguendo sua mão e a colocando-a sobre a de Nnoitra, como se o aconselhasse a largá-la. - Vamos com calma. Talvez isso seja forte demais... surpreendente demais, para um animal como você compreender com rapidez... Nnoitra.

Provocação? Talvez. Ainda sim não mentira quanto aos adjetivos atribuídos à situação. O Espada largou-a desgostoso porém no aguardo de uma explicação.

Você já imaginou como seria o fim?

Mais uma vez, reflexiva, apenas pousou os olhos cansados sobre o Quinto Espada naquele quinto dia.