Someone Like You
14 Sexta ligação – Dick Avery
Dick sabia que aquela seria uma manhã bastante atribulada. Tinha que fotografar para o editorial de uma importante revista de moda e a nova editora era bastante exigente, embora fosse uma pessoa legal e agradável de trabalhar. Não era nenhuma Miranda Priestly(1) estava mais para Maggie Prescott(2).
–Dick, ainda não está bom. Não está do jeito que eu quero. Sinto que falta algo. O que você acha?
–Não sei Kay. Que tal se nós trocássemos a modelo? Acho que você ficaria bem melhor. Daria a elegância e naturalidade que está faltando.
–Dick, não gaste suas cantadas comigo. Sua fama corre pelo mundo da moda – disse Kay rindo.
–Eu só estava brincando com você, Kay.
–Mas numa coisa você tem razão. Está faltando mais naturalidade e elegância. Está tudo muito artificial.
–Hey, Watson. É o Sr. Richards na linha. Ele quer falar com você e parece ser importante.
–Obrigada, Owen. Dick, vamos fazer uma pausa. Enquanto isso vai pensando sobre o que estávamos discutindo.
Dick recebeu uma ligação de Louise:
–Alô Louise.
–Oi Dick, você ainda está na revista.
–Sim, estou.
–Da última vez foi tão rápido. Algum problema.
-Eu sei. É que mudaram a editora e ela está sendo muito cobrada, então está cobrando de todo mundo.
–Mas nosso almoço ainda está de pé? Quero dizer, você acha que termina até a hora do almoço.
–Espero que sim – respondeu Dick sem animação, mas com sinceridade.
–Eu também.
–Louise, eu preciso desligar agora.
–Está bem! Tchau!
–Tchau!
Dick já não sentia o mesmo entusiasmo em relação à Louise, ele nunca tinha conhecido uma mulher tão incrível até encontrar Jo. Ficou pensando o que tinha dado errado. Eles se amaram muito, mas a relação chegou num ponto nocivo para ambos. Na opinião dele, eles eram almas gêmeas que não conseguiam conviver. Pensava como isso era poético e cruel ao mesmo tempo. Não poder ficar ao lado da mulher que ele mais amou na vida simplesmente porque eles não foram feitos para viver juntos.
–Dick, é a Kay na linha. Ela pediu para reunir toda a equipe criativa para uma reunião. O que inclui você e eu.
–Ok. Espere só um minuto que eu vou pegar um café porque pelo jeito isso vai demorar.
–Ah! Nem me fale!
Quando estão no elevador, Dick se dá conta de que havia esquecido o celular.
–Ai que merda!
–O que foi cara?
–Eu esqueci o meu celular lá no estúdio, Bill.
–Não se preocupe, você não poderia atendê-lo mesmo. Se fizesse isso no meio da reunião a Kay mataria você.
Os dois homens entreolharam-se e riram.
A reunião demorou um pouco, mas para a felicidade de Dick, foi mais rápida do que ele esperava. Já no estúdio ele foi informado a respeito do seu celular:
–Nossa, Dick!Tem alguém que realmente quer falar com você. O seu celular não parou de tocar. Nós quase colocamos no vibracall.
–Obrigado! E me desculpem por isso.
Dick tinha certeza que era Louise ligando insistentemente para falar sobre o almoço, o qual ele não queria ir, mas para seu espanto eram todas ligações da Jo e havia vários recados. Ele ouviu atentamente cada um deles e ficou bastante preocupado e angustiado. Tinha medo que Jo pudesse fazer alguma besteira, mas ela não faria isso. Ou será que faria? Ligou várias vezes, mas Jo não atendeu. Deixou um recado na esperança de que ela retornasse:
–Oi Jo, aqui é o Dick. Eu sei que você deve estar furiosa comigo e eu não tiro a sua razão. Você tem motivos para isso. Eu queria que você soubesse que eu não atendi as suas ligações porque eu estava numa reunião, então não pense que foi porque eu não quis. Eu nem sei o que lhe dizer, porque eu sei que nada do que eu disser vai mudar tudo de ruim que aconteceu. Eu acho que precisamos conversar, mas não dá para ser por telefone. Este é um assunto que devemos tratar pessoalmente. Podemos almoçar ou jantar juntos hoje, se você quiser. Eu queria me desculpar com você. Eu sei que no final eu não fui muito bom, poderia ter sido melhor. Desculpe por lhe fazer sofrer. Eu realmente não queria. Não queria que você sofresse. Não queria que as coisas tivessem terminado daquele jeito, deveria ter sido de outra forma. Eu sei que vai soar estranho o que eu vou dizer agora, mas eu também amo você. Por favor, me ligue assim que ouvir essa mensagem.
Por mais que tentasse, Dick não conseguia se concentrar totalmente no trabalho e Kay percebeu que havia alguma coisa errada.
–Dick, aconteceu alguma coisa com você? Você parece diferente. Preocupado. Triste. Eu disse alguma coisa que lhe ofendeu?
–Não Kay. Você não fez nada. Não tem nada a ver com aqui. São alguns problemas pessoais.
–Deixe-me adivinhar, é problema com a mulher?
–Também. A Louise e eu não estamos bem, mas o problema não é esse. É a minha ex-namorada. Eu estou bastante preocupado. Tenho medo que ela faça alguma besteira.
–Que tipo de besteira? – perguntou Kay preocupada.
–Suicídio – disse Dick sentindo a voz sumir.
–Meu Deus, Dick! O que você estava fazendo aqui ainda?
–Eu tentei ligar para ela, mas ela não atendeu. Temo que isso seja um mau sinal.
–Dick, não está dando nada certo hoje mesmo. Como você mesmo viu, nós não conseguimos resolver todas as questões na reunião. Pretendo repensar todo o editorial. Então, pelo amor de Deus, vai atrás dessa mulher e a impeça de fazer uma besteira.
–Muito obrigado, Kay!
Dick tentou ligar mais uma vez para Jo, mas ninguém atendeu. Ligou para Amy na esperança de que ela tivesse notícias dela, mas estava dando sinal de ocupado. Decidiu ir até a casa de Jo.
Estava com o carro parado em frente ao prédio dela, mas uma hesitação tomou conta do seu ser. Resolveu ligar para Amy mais uma vez, antes de descer do carro. Desta vez, Amy atendeu e lhe contou tudo o que havia acontecido com Jo. Sentiu tristeza, culpa, raiva de si mesmo. Se ele tivesse atendido a primeira ligação, nada disso teria acontecido. Ou melhor, se tivesse terminado com Jo de modo mais delicado e com mais consideração, talvez nem a ligação tivesse acontecido.
Estava tremendo, achou que não teria condições de dirigir até o hospital. Ou então que precisariam lhe dar um calmante quando chegasse lá. Muitas coisas passavam por sua cabeça. Não sabia o que dizer a ela ou como iria conseguir encará-la. A verdade é que estava envergonhado, mas sabia que precisava ir até lá. Ele não sabia muito bem como seria o desfecho, mas sabia que precisavam de uma conversa definitiva.
Enquanto dirigia-se a porta do hospital recebeu uma ligação:
–Alô Louise.
–Oi Dick, eu estou aqui lhe esperando. Você está atrasado.
–Ah! Me desculpe. Eu esqueci completamente do almoço. Tive um problema e me esqueci de lhe avisar.
–O que aconteceu? Eu devo continuar lhe esperando?
–Não, não me espere. Foi um problema com a Jo.
–O quê? Dick Avery, não acredito que você me deixou plantada aqui por causa de um problema da sua ex-namorada.
–Louise é um problema sério.
–Sério? Você sabe o quanto ela é dramática.
–Louise, Santo Deus! Agora não é hora para isso. Ela é meio dramática às vezes, mas dessa vez é muito sério. Ela tentou se suicidar.
–Ela morreu? – perguntou Louise chocada.
–Não, não morreu. Parece que agora ela está bem, fora de perigo. Eu preciso vê-la.
–Dick, você não disse que ela está bem agora? Ela não é mais problema seu.
–O problema é meu sim quando é com alguém que foi muito especial na minha vida. E eu me sinto meio responsável. Ela ligou para mim diversas vezes antes de fazer isso. Se eu tivesse atendido, talvez nada disso tivesse acontecido.
–Ela é louca. Ela já está bem. Não acredito que você vai fazer isso comigo!
–Louise, você realmente prestou atenção no que disse? Ela precisa de mim agora. E eu vou você gostando ou não.
–Dick, se você me deixar aqui sozinha, não precisa me procurar nunca mais.
–Eu queria que as coisas terminassem de um jeito diferente, mas já que você quer assim. Eu estou aqui na porta do hospital. Tchau.
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