Someone Like You
15 Reflexões – Jo Stockton
Jo estava na casa em Brighton com o pai e a mãe. Ela era só uma garotinha. Foi a época mais feliz de sua vida, foi a única vez na vida em que se sentiu realmente completa. Será que isso era morrer? Será que quando nós morremos, nós podemos ser plenamente felizes? Se isso for morrer até que não achava tão ruim. Finalmente abriu os olhos e constatou que não estava morta.
Acordou um pouco assustada porque não sabia onde estava. Deu uma boa olhada no ambiente a sua volta e descobriu que estava no hospital, então recordou o que tinha feito e entendeu porque estava ali.
Fechou os olhos novamente para tentar voltar à infância em Brighton, mas não conseguiu. Preferia estar lá. Já que não teve jeito, resolveu abrir os olhos e viver. Precisava refletir o motivo dos caminhos a levarem até ali.
Precisava voltar ao passado e relembrar alguns momentos da sua vida. Então sorriu. Um riso leve como há muito tempo não fazia. Pensou que seria legal imaginar a música “In My Life” dos Beatles tocando ao fundo enquanto visitava os seus momentos.
Estava em Brighton de novo com os pais. Sentiu-se feliz. Depois sentiu uma profunda tristeza. Tinha feito uma viagem maravilhosa com a mãe até Londres, mas quando chegou em casa, lembrou-se da dor e horror que sentiu quando viu o corpo do pai pendurado e sem vida. Pensou que a culpa podia ser sua. Será que ela fazia os pais infelizes? Lembrou que quase deixou a mãe louca de preocupação quando fugiu de casa. Os pensamentos estavam muito confusos na sua cabecinha de criança. Teve medo que tudo tivesse sido sua culpa e que sua mãe fizesse a mesma coisa que o pai, então resolveu fugir. Os vizinhos encontraram seu acampamento não muito longe de casa. Prometeu a mãe que nunca mais fugiria. Os primeiros meses haviam sido bem difíceis para elas, mas aos poucos as coisas iam ficando melhores.
Jo era uma criança tímida e tinha poucos amigos, depois do que aconteceu ela se fechou ainda mais no seu mundo. Começaram a surgir uma porção de boatos em relação à morte do pai, inclusive que não fora suicídio, mas sim homicídio. Que Elizabeth e um suposto amante haviam planejado tudo, uma grande mentira e injustiça, pois após o suicídio do marido, Elizabeth viveu para Jo, algumas vezes a protegia tanto que até sufocava. Algumas crianças se afastaram de Jo, orientadas por seus pais que não queriam que elas frequentassem a casa das Stockton. Outras não foram tão gentis e fizeram algumas piadas que deixaram Jo muito triste. Mas nem todas as pessoas foram ruins, muitas pessoas se solidarizaram com o sofrimento delas. Depois de um tempo todo muito esqueceu e a vida delas voltou ao normal. Na adolescência também não tinha muitos amigos, mas as coisas foram melhores.
Viajou alguns anos e lembrou-se como foi boa a época da faculdade. Sua mãe havia ficado muito orgulhosa por ela ter conseguido entrar em Oxford. Ficou preocupada em deixar a mãe sozinha em Brighton, mas Elizabeth ficou bem. Sentia-se sozinha em alguns momentos, mas sabia que precisa deixar a filha alçar voos mais altos.
Como ficou feliz, anos mais tarde, quando conseguiu o emprego no museu em Londres. Foi lá que conheceu Paul, ele também tinha acabado de conseguir emprego no museu como restaurador. Tiveram um relacionamento e quase casaram, mas Jo rompeu com ele para ficar com o vocalista de uma banda de indie rock. Como pôde ter feito isso? Devia ter se casado com Paul, seria a coisa certa a fazer. Hoje estaria casada e talvez com filhos. Dois? Quem sabe um casal, ela sempre quis ter um casal. Mas porque tinha que ser tão inconstante. Pensou em como o Paul deve ter sofrido com o término da relação.
Foi em Londres que conheceu sua melhor amiga Amy. Amy era um pouco intrometida e autoritária, mas era muito afetuosa e leal com os amigos. Ela era amiga do Dr. Robert Shankar e de sua esposa Latika, foi ela quem indicou o Dr. Robert para Jo. Com o tempo além de um bom médico, Robert tornou-se um amigo para Jo.
Jo voltou ao dia em que conheceu Dick. Como ela amou este homem. Ele era tudo o que ele não buscava em alguém, mas ainda assim ela não pôde evitar se apaixonar por ele. Não era calmo e previsível como era com Paul. Era intenso e imprevisível. Eles se amaram muito, mas só o amor não bastou. A relação foi ficando nociva para ambos e coube a Dick colocar um fim. Lembrou-se de toda a dor que sentiu com o rompimento e de como não conseguia imaginar sua vida sem o Dick.
Então voltou ao presente na cama do hospital. Não podia consertar os erros do passado, mas poderia mudar o futuro. Como a vida havia lhe dado uma segunda chance, já que sua tentativa de suicídio não foi bem sucedida, ela decidiu viver. A mãe não merecia passar por isso de novo, tudo o que aconteceu com o pai já havia sido bastante para ela. Muitas pessoas acabaram envolvidas no caminho, Paul, Amy, Dick, Robert e talvez até o aleatório George. Ela não sabia se havia causado realmente preocupação a ele. Ela também não merecia mais isso, merecia algo melhor. Merecia ser feliz com ou sem o Dick. Decidiu reagir por si mesma e por todas as pessoas que amava. Talvez o caminho fosse difícil, mas ela ia tentar. Não ia desistir mais. Todo mundo algum dia vai se decepcionar ou decepcionar alguém. Finalmente ela tirou um peso de seus ombros.
–Ah! Que bom! Você já acordou – disse uma simpática enfermeira sorrindo para Jo. – Eu vou chamar o doutor.
O médico foi até o quarto de Jo verificar como ela estava e disse que Robert e George estavam lá. Ela pediu para falar com eles.
–Você nos deu um grande susto que bom que está bem! – disse Robert.
–Mas como vocês souberam que eu estava aqui? – perguntou Jo.
–Ah! Agradeça ao meu amigo aqui. O George ficou bastante preocupado com a sua ligação e me ligou. Achei o seu endereço no cadastro de pacientes e chamamos uma ambulância – explicou Robert.
–Obrigada. Doctor Robert, you're a new and better man. He helps you to understand. He does everything he can, Doctor Robert. If you are down he'll pick you up, Doctor Robert – Jo começou a cantar e George a acompanhou.
–Santo Deus! Agora vou ter que aguentar vocês dois cantando essa música para mim – disse Robert rindo com os outros dois.
–George, muito obrigada! E me desculpe por lhe envolver nisso. Peço que os dois me desculpem por isso. E muito obrigada por ficarem aqui comigo.
–Imagina. Não precisa agradecer e nem se desculpar. Nós fizemos o que deveria ser feito. Sua mãe e seus amigos estão a caminho, prometemos ficar até eles chegarem.
–Mas não é uma coincidência isso tudo. Eu preferia que vocês tivessem se conhecido numa situação melhor, como no vernissage que era onde vocês seriam apresentados, mas mesmo assim o destino conspirou para que seus caminhos se encontrassem. Curioso – disse Robert.
–Se é assim, então devemos nos apresentar direito. Olá, eu sou Jo Stockton – disse Jo estendendo a mão para George.
–Olá, eu sou George MacPherson. Muito prazer. Sabe, eu já ouvi falar muito sobre você e digo que você realmente parece ser uma pessoa muito especial e incrível – disse George apertando a mão de Jo.
–Não acredite em tudo o que disserem sobre mim. Hey Robert, que mentira vocês contaram para ele achar isso de mim – disse Jo rindo.
–Nenhuma, eu só disse a verdade – disse Robert – Bom eu vou ligar para Amy para dizer que você já acordou. Eu disse que você estava bem na última ligação, mas ainda assim ela parecia bastante preocupada. George, por favor, faça companhia a Jo.
–Pode deixar Robert.
Robert foi até o corredor e enquanto procurava o número de Amy na agenda do celular, ouviu um homem lhe chamar:
–Olá Dr. Shankar. Você esteve com ela? Ela está bem?
–Olá Dick. Ela está bem sim. Como você soube?
–Eu liguei para Amy porque estava preocupado com as ligações da Jo e ela me contou tudo. Eu gostaria muito de falar com ela.
–Dick, espere um minuto. Eu vou falar com ela, perguntar se ela quer falar com você. Você entende, não é mesmo?
–Sim, claro. Ela tem toda a razão e o direito de não querer falar comigo. Mas, por favor, pergunte a ela.
–Ok. Espere aqui que eu vou lá perguntar.
–Obrigado!
De volta ao quarto Robert dá a notícia a Jo:
–Jo, o Dick está lá fora. Ele disse que quer falar com você. Você quer falar com ele ou quer que eu o mande embora?
–Tudo bem, Robert. Diga a ele que eu quero falar com ele. Acho que vai ser bom. Acho que adiamos demais essa conversa. George, se não for pedir muito, por favor, não vá embora. Eu gostei muito de conversar com você.
–Tudo bem, Jo! Eu também gostei muito de conversar com você.
Robert e George deixaram o quarto para que Jo e Dick pudessem conversar com privacidade, mas antes advertiram Dick.
–Dick, ela disse que quer falar com você. Escute, eu não sei o que você vai falar lá dentro, mas se você magoá-la, você vai se ver comigo – disse Robert.
–E comigo também – disse George.
–Pode deixar dupla dinâmica. O que eu menos quero agora é magoar a Jo. Eu sei que errei, mas nunca tive a intenção de magoá-la. Não há com o que se preocuparem – disse Dick.
Dick entrou no quarto e ficou por uns instantes apenas observando Jo.
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