Sombras do Passado
9 Capítulo 9 - Não sou eu, é o destino!
Notas iniciais

***
Luciano chegou correndo e parou ante aos olhares entre Carlota e Cristina. Os dois estavam dentro de casa quando ouviram os gritos de Amanda e correram para ajudá-la. Cristina estava totalmente surpresa. Era muito complicado pensar no que sentia em ver Carlota depois de tanto tempo. 10 anos, 10 anos. Ela havia partido no dia seguinte a seu casamento com Federico, o mesmo da morte de Severiano e ela, em todo esse tempo, tratou de suprimir a existência de Carlota. Queria esquecê-la, à sua traição, à sua insensibilidade e à tudo que poderia ser diferente em sua vida se não houvesse sido a interferência da irmã.
_ Nossa! – foi o que conseguiu dizer Cristina. – Isso que é uma surpresa.
Voltou o olhar para Amanda. Acariciou seu rosto. Que menina linda! Tinha os olhos claros. Provavelmente os herdara de Carlota. Independente dela e de suas mágoas, seu coração sempre pensava em sua sobrinha. Em conhecê-la manter contato. Era estranho porque o que ela queria evitar de Carlota, era o que ela queria de Amanda.
_ Então você é minha sobrinha. – disse Cristina dirigindo-se à criança. – Eu sempre quis te conhecer.
_ Eu não sabia que tinha uma tia. Ainda mais uma tia tão bonita. – elogiou a vivaz Amanda.
_ Surpresa, Cristina? Surpresa? – indagou Carlota altiva. – Nós avisamos a Federico que vínhamos. Ele não te disse nada?
_ Claro que sim. – confirmou Cristina. – Mas não deixa de ser surpresa, Carlota. Faz muito tempo...
_ Espero que não tenhamos conflito em nos acomodarmos na Plantanal no tempo que passaremos aqui. – insinuou Carlota.
_ A fazenda também é sua Carlota. Foi o único bem comum que nos designou nosso pai. Você pode ficar na Plantanal o tempo que queira.
Nesse momento voltou a dirigir seu olhar à Amanda que, apesar de ter à sua frente os pais, não se afastou de Cristina que acabava de conhecer.
_ Você e sua família são bem vindos aqui. – disse Cristina, com um sorriso para a pequena. – Podem ficar o tempo que quiserem.
_ Ficaremos por volta de um mês, Cristina. – Manifestou-se Luciano tratando de amenizar o clima beligerante que se podia sentir entre as irmãs. – Temos assuntos de trabalho na Espanha, Amanda têm que voltar à escola.
_ E foram bem recebidos? Já se acomodaram? – claramente se dirigia à Luciano com os braços sobre os ombros de Amanda, evitando o contato com Carlota... como sempre fizera.
_ Sim, muito bem... – Respondeu Luciano interrompido pela autoritária esposa.
_ Por certo, o que aconteceu aqui? Porque você estava gritando, filha?
Nesse momento foi até Cristina e puxou Amanda. Já se incomodava com aquela latente e estranha familiaridade entre elas. Não queria a filha tão próxima de Cristina. Agachou-se e conferiu a integridade física da criança.
_ Um cachorro, mãe. – respondeu Amanda.
_ Yator é um dos cães da fazenda. Ele é dócil, mas não é confiável ante estranhos. – Explicou Cristina.
_ E que descuido foi esse? – Disse Carlota com seu característico tom impositivo de voz. – Como deixam esse animal solto. Ele podia ter machucado à minha filha!
_ É que não esperávamos ninguém estranho. Com os demais moradores da fazenda ele não se altera. – Respondeu Cristina com um olhar imponente.
Não se intimidou frente à ela. Se Carlota esperava que ela fosse a mesma menina tonta e submissa de quem ela alterou a vida, estava muito enganada.
_ Pois vocês deviam estar atentos à detalhes como esse! – sentenciou Carlota puxando Amanda pela mão.
_ A Plantanal vai muito bem, Carlota como você e Luciano poderão constatar. Federico e eu cuidamos de cada detalhe. Não há nenhum que precise de mais atenção.
Enquanto ela completava a frase Carlota entrava na sede puxando a filha pela mão, seguidas por Luciano. Cristina olhou em volta e sentiu tantas, tantas coisas virem à tona. Não era só Carlota que havia voltado. Havia trazido com ela coisas que ela queria esquecer, lembranças de sua adolescência e todas as marcas que os fatos daquele período de meses haviam deixado nela. Tudo o que ela era agora havia sido condicionado por aqueles eventos. E Carlota os reviveu e reviveria, ela sabia.
***
Tapachula — Chiapas – México
_ E me conte. Como se sente meu amigo às vésperas de um momento tão especial? – indagou Benito animado.
Hernán chegava de uma tarde de orações e sentou-se para conversar com Benito que era seu amigo e seu guia espiritual e havia sido uma figura tão importante em sua vida.
_ Olá, Benito. Pois não sei... Não sei explicar, é uma sensação estranha. Vai ser a primeira vez que eu me torno padre na vida. – Disse com um sorriso aparentemente de alegria.
_ Então você a esqueceu? Esqueceu aquela mulher que tanto amou, Hernán? Deixou esse amor para trás, vai conseguir servir a Deus por inteiro? – Benito que conhecia bem sua história o inquiriu.
_ Isso eu não vou poder, Benito. Jamais vou poder. Estou consciente da minha vocação e da vida que eu escolhi desde que ingressei nesse seminário pela sua mão e que, a partir dos próximos dias, quando faço meus votos, se tornará minha única dedicação. Deus me resgatou quando eu estava submerso à depressão, quando eu não podia mais resistir à dor da morte de Cristina. Mas esquecer... Esquecer eu não vou poder.
🎶Estoy a punto de emprender un viaje
Con rumbo hacia lo desconocido
No se si algún día vuelva a verte
No es facil aceptar haber perdido🎶
_ Mas Deus entende, Hernán. Deus conhece e entende bem tudo o que você tem no coração. As pessoas acham que os sacerdotes não têm uma história. Mas todos nós, antes de nos dedicarmos à Deus tivemos que passar por caminhos aparentemente incompreensíveis. Entretanto se for nosso destino entregar-nos à Deus, todos os caminhos vão inexoravelmente trazer-nos à ele, meu caro Hernán. – disse Benito com sabedoria.
_ Eu sei Benito, eu sei, sou consciente. No momento em que Carlota me contou que Cristina havia morrido, e morrido muito sofrida por nossa história eu soube que não poderia ser o mesmo. Nunca mais poderia. Foi e é a dor mais aguda que eu já conheci na vida.
_ Sim, eu me lembro como você estava quando nos conhecemos naquele hospital onde eu fazia uma visita para dar conforto aos pacientes. Sua tristeza imediatamente tocou meu coração. Você, claramente, havia desistido, Hernán.
_ Mas como não desistir, Benito? Como viver em um mundo em que ela não existia? Como sorrir de novo, amar, ser otimista sabendo que a mulher que eu amava havia morrido de tristeza aos 17 anos por causa do empenho de seu pai em separar-nos? – Hernán demonstrou que a revolta com tudo aquilo ainda estava viva.
_ E você não conseguiu encontrá-la... – recordou Benito.
_ Não! – Lamentou Hernán. – Eu a busquei, a busquei Benito. Procurei desesperado por uma pista de Cristina, mas o que eu podia contra seu pai? E Carlota...
_ Por que ela foi tão cruel com vocês dois, Hernán? Por que fez tudo para que a história de vocês não se concluísse de forma justa?
_ Porque ela não queria a felicidade da irmã, Benito, ela não podia aceitar que nos amássemos tanto. Talvez por inveja, por despeito... Carlota é uma pessoa totalmente amarga. Ainda assim, ela foi o único elo que eu tive para saber notícias dela. Até aquela notícia. A notícia que mudou minha vida.
_ Mas você saiu do hospital mais conformado.
_ Conformado não é a palavra, Benito e sim, resignado. – Discordou Hernán. – Depois daquele acidente eu percebi que estava me perdendo... Que estava me perdendo, a vida não fazia mais sentido. Sei que foi Deus quem colocou você na minha vida. Para que eu encontrasse meu destino. O sentido da vida em um mundo sem Cristina. – proferiu essas palavras cheio de dor.
🎵De que me sirve la vida
Si eres lo que yo pido,
Los recuerdos no me alcanzan
Pero me mantienen vivo🎵
_ E dez anos foram suficientes, meu filho? Dez anos dedicado ao trabalho aqui no convento até decidir ingressar no seminário e se tornar um sacerdote. Esses anos foram suficientes para que esse amor não seguisse provocando dor no seu coração? Para que essa perda não te machucasse tanto.
_ Benito, eu sou totalmente sincero. Totalmente inteiro e decidido a consagrar minha vida à Deus. Mas nunca vou esquecer à minha Cristina. Não vou poder, meu amigo, eu sei disso. Como você mesmo disse, todos os sacerdotes têm sua história. Essa vai ser a minha inexoravelmente. Cristina e o que eu vivi com ela vão sempre estar dentro de mim. Essas lembranças, essas recordações também vão ser algo sagrado para mim. E eu sei que Deus pode compreender isso.
🎵De que me sirve la vida
Si no la vivo contigo
De que me sirve la esperanza
Si es lo ultimo que muere
Y sin ti ya la he perdido🎵
***
Carlota não deixou passar muito tempo para mostrar que toda a amargura que sempre a haviam caracterizado, não a tinham deixado. Nem os anos que passou na Europa longe da irmã e da casa do pai ou a realização de seu sonho de ser mãe com Amanda puderam transformá-la. Carlota continuava obcecada em que Cristina não se realizasse na vida, era como se a felicidade de Cristina fosse sua própria infelicidade. Nos primeiros dias na sede da fazenda Plantanal observou a vida de Cristina e Federico. Alegrou-se ao constatar que os dois não dormiam no mesmo quarto e não haviam conseguido construir uma vida verdadeira de casal, provavelmente eram muito infelizes.
Amanda e Cristina se aproximaram de imediato e aquela proximidade também a incomodava. Ela não queria que a filha tivesse contato com Cristina e muito menos que tivesse uma boa impressão e relação com ela, mas não podia evitar era como se as duas estivessem interligadas por um laço excepcional que não estava em suas mãos e nem das duas próprias. Cristina e Amanda se entendiam às maravilhas mesmo sem a intimidade do contato longo e diário de uma vida.
Então, ela começou a observar a vida da irmã com intenção de fazer intriga, para que pudesse se vingar do que Cristina lhe fazia. Cristina a contrariava repetidamente, não agia mais com resignação e desprezo e indiferença era o que mais recebia da caçula o que lhe deixou ainda mais decidida a atingi-la.
Pouquíssimos dias depois de chegar à Teapa, em uma tarde, Cristina adentrou alegre ao seu quarto e surpreendeu-se com a presença de Carlota sentada em sua cama com um objeto que, de primeira, ela não pôde identificar.
_ O que você está fazendo aqui? – indagou Cristina sustentando a cabeça do alto.
_ Você sabe que me contraria que você saia por aí com Amanda, eu me preocupo com as ideias que você possa colocar na cabeça dela. Você não é boa influência para a menina. – reclamou Carlota direta.
Cristina não pôde evitar sorrir. Conhecia bem esse comportamento de Carlota. Percebia que lhe incomodava a vida que ela levava.
_ Ai por favor, Carlota. Amanda me acompanha no trabalho da fazenda. Ela quer conhecê-la, é seu patrimônio. Sua preocupação não é meu comportamento “moral” e como isso vai afetar a menina. Seu problema é o ódio que você sente por mim, sempre sentiu. Não quer que sua filha me ame como você não pôde fazer mesmo sendo minha irmã.
_ Não sinto ódio Cristina. Mas sim me preocupa que minha filha cresça achando que é comum um comportamento promíscuo como o que você sempre levou.
_ Hum... e como Amanda vai saber desse meu “comportamento promíscuo” por andar pela fazenda? – Disse Cristina virando-se para a penteadeira e mirando o espelho.
_ Você mesma pode dizer-lhe. Olhe isso! – Apontou impiedosamente para a caixinha de recordações de Cristina sobre a cama.
Era a esse objeto que ela manuseava quando Cristina entrou e ela não percebeu.
_ Você não tem esse direito, Carlota, não tem o direito de invadir assim à minha privacidade! – Bradou Cristina correndo até a cama e pegando a caixinha, conferindo se tudo o que ela guardava ali estavam na caixinha.
_ Eu tenho! Estou zelando pelas influências morais que chegam até Amanda. E por essa caixa com coisas relacionadas àquele seu amante, se nota que nem os anos te curaram de sua promiscuidade. E que você, ao invés de se envergonhar, se orgulha daquele pecado! – acusou a amargurada Carlota.
Cristina colocou a caixa sobre a penteadeira e começou a chorar. As lembranças daquela traição de Carlota a assaltaram e foram muito pesadas para ela.
_ Não adianta chorar, Cristina! Isso não limpa pecados e sim o verdadeiro arrependimento! Quando você jogar fora tudo o que lembra a esse maldito infeliz você vai poder estar livre desses pecados. Tudo que aconteceu para encerrar essas história mostram que você tem que ser outra pessoa, Cristina. Nem mesmo o fruto desse pecado Deus permitiu que ficasse com você. Agora recordando, cultivando... Isso torna de você uma qualquer! E muito mais sendo uma mulher casada! Não é a toa o que todos falam de seu marido...
Cristina foi se enchendo de raiva. Não respondia, deixava as lágrimas caírem e Carlota parecia não se compadecer, pelo contrário, ela desfrutava. Desfrutava de remexer e revirar as dores de toda uma vida que lhe marcaram a vida.
_ Não é preciso fazer muitas perguntas nessa casa para que qualquer um aqui diga que seu marido tem outras mulheres, e até um caso de anos com uma tal de Raquel. Claro! Como alguém vai ser fiel à você que não é fiel à ele? Mas Deus já tratou com seus pecados, Cristina. Por isso você não é feliz! Por isso você não tem sua filha! Por isso ele está morto!
Cristina se virou de súbito e partiu para cima de Carlota. Agarrou-a pelos ombros e gritou:
_ Cale a sua boca! Não ouse recordar minha filha, não fale de Hernán, não fale de Federico! Você não tem moral para julgar a ninguém nessa vida, Carlota, a ninguém. Ou você se perdoa? Se perdoa pelo que sua amargura te levou à fazer?
Carlota soltou-se dela, caminhou para trás dando uma gargalhada de deboche.
_ Olha só... Ela defende aos dois com a mesma intensidade. É mesmo uma sem vergonha!
Cristina desferiu um tapa na cara de Carlota que há muito ela desejava haver dado. O impacto a desequilibrou e o fogo do ódio apareceu ainda mais vivo nos olhos dela.
_ Carlota, entenda que eu não sou a mesma! Não sou! Você não vai me ofender e depreciar a minha vida como fez há 10 anos. Não ofenda ao meu passado! Não ofenda ao meu presente! E não me ofenda! Saia do meu quarto agora!
_ Sua... – Começou Carlota
_ Então saio eu! E você não volte a entrar e mexer em nada aqui sem minha autorização! Você não tem esse direito.
Passando pela penteadeira Cristina recolheu a caixinha com as lembranças de Hernán e saiu do quarto. Federico e Luciano conversavam na sala quando ela passou correndo. Federico teve a impressão de que ela estava chorando e a chamou, mas ela não se deteve e saiu de casa. Federico recordou a mesma cena no dia da morte de seu pai e, sem pensar duas vezes, repetiu a atitude e foi atrás dela. Desta vez, quando ele a alcançou ela já estava na cachoeira:
_ Cristina! Cristina! – ele chamou ao que ela olhou para trás sem responder. – O que aconteceu? O que aconteceu com você, por que você está assim?
Cristina olhou para Federico como sempre cuidando-a e dedicando-se à ela e sentiu muita ternura misturada ao desespero da impiedade da irmã. Sem pensar em nada, lançou-se nos braços de Federico que a aninhou. Ela chorava copiosamente e segurava a caixinha com a mão apoiada nas costas do marido. Entre intensos soluços, quase não se deu conta quando ela caiu no chão e ela permaneceu no abraço. Durante alguns minutos permaneceram assim, enquanto ele acariciava seus cabelos tentando fazer com que ela se acalmasse.
_ Obrigada, Federico, obrigada. Você sempre... sempre está do meu lado quando eu preciso. – disse Cristina afastando-se lentamente de Federico.
Ele não a soltou de todo. Olhou nos seus olhos e, ternamente, começou a secar suas lágrimas enquanto acariciava seu rosto.
_ Se dependesse de mim, Cristina, você não derramaria uma lágrima. Uma lágrima que fosse.
Cristina imprudentemente levantou os olhos e se encontrou com os dele. Ela sabia que não devia fazê-lo, não devia, mas naquele momento de dor seu coração pedia a calma, segurança e ternura que os olhos de Federico lhe transmitiam. Federico ainda com a mão no rosto dela percebeu como ela o olhava... Seria o que ele estava pensando?
_ Há uma segurança, uma calma, Federico, que eu só sinto em você. Só em você! – Murmurou sem conseguir deixar de olhar nos olhos dele.
Federico não resistiu àquela proximidade, à seu hálito quente tocando seu rosto e àquele olhar de Cristina que parecia tão convidativo. Naquele cenário de águas tão fartas da cachoeira, lentamente terminou de aproximar seu rosto do dela e envolveu sua boca com os lábios dele. Com a mão esquerda puxou o corpo de Cristina para junto de si e logo a abraçou com a direita passando a acariciar suas costas, seus cabelos enquanto a beijava com ternura e, ao mesmo tempo, desespero. Às vezes abria a boca com tal aflição que grande parte do rosto de Cristina era devorado pela boca dele. Ela também o beijava, devorava seus lábios, sentia sua língua em contato com a dele, como ele recorria os cantos de sua boca com desespero. Com suas mãos, Cristina, envolveu seu pescoço e sentiu os lábios tão vorazes de Federico devorarem os seus, aos que ela também devorava, seu bigode roçando no rosto dela... há tanto tempo que não sentia aquele gosto, o gosto daquele beijo, como era bom. Giravam seus rostos ritimadamente como se já tivessem muito costume de se beijar e se acoplassem. De repente, as lembranças assaltaram-na e ela se soltou de Federico num impulso afastando-se, levando a mão à boca.
_ Não, Federico, não! – disse incrédula – Isso não pode acontecer.
Nunca pôde superar aquele beijo que se deram, tantos anos antes e o fato de Federico não se lembrar dele. Olhava para o rosto dele, mas logo fugia o olhar para o chão sem tirar a mão da boca.
_ Cristina, foi maravilhoso! – disse Federico maravilhado. – Foi a primeira vez... A primeira vez que você me beijou. – dizia abobado de sua conquista que tanto desejava.
_ Não foi a primeira vez! – retrucou ela, magoada.
_ Como assim? – Indagou Federico confuso.
– Mas o fato é que não devia, Federico... Não devia acontecer. – Repetia Cristina mais para si do que para Federico.
_ Por que não? Você queria eu vi nos seus olhos, eu senti.
_ Por que eu não estou no completo uso de minha razão. Eu estou confusa, destruída por uma briga horrível com Carlota... Tantas coisas, o passado. – Explicou ela.
Caminhou atrás de Federico e começou a juntar os objetos que haviam caído da caixinha quando ele a beijou. Ele observou e se deu conta do que se tratava.
_ Claro! – sentenciou inconformado – O passado.
_ Independente do que aconteça, Federico. De quem entre ou saia da minha vida e da pessoa que eu venha a me tornar, eu sempre vou recordar meu passado com carinho e respeito, entenda isso.
_ Você está bem? Se sente melhor? – ele preferiu encerrar o assunto, sabia que estava derrotado.
_ Sim. Obrigada, obrigada por se preocupar. – agradeceu Cristina sincera. – Saiba que eu nunca vou me esquecer de tudo o que você faz por mim, Federico.
_ Eu sempre vou me preocupar contigo, Cristina... – confessou cheio de sinceridade. — Agora, se você já está bem. Eu vou indo. Fique aí com seu... Com seu passado. – disse olhando com desprezo a caixinha de lembranças na mão dela.
Cristina sentou-se no chão e viu Federico afastar-se magoado. Sabia que lhe machucava o lugar que ela dedicava ao passado, mas não conseguia, não ia poder esquecer, era complicado que Federico não se conformasse com isso porque não havia remédio. E nisso pensava, olhando aqueles objetos.
🎵Escucha bien amor lo que te digo
Pues creo no habrá otra ocasion
Para decirte que no me arrepiento
De haberte entregado el corazon🎵
_ Sim, Federico! Em qualquer caminho que eu escolha, para qualquer coisa que aconteça em minha vida eu vou levar a Hernán e nosso passado comigo. Sempre vão ser parte de mim! Mas eu preciso... Preciso seguir em frente mesmo cheia de sombras do passado. – disse em voz alta abraçada à caixinha e olhando à abundância das águas da cachoeira sem que o gosto do beijo de Federico tivesse saído de sua boca.
🎵Por más que suplique "no me abandones"
Dijiste "no soy yo es el destino"
Y entonces entendi que aunque te amaba
Tenía que elegir otro camino🎵
Naquele instante, distante dali na pacata Tapachula, Hernán cumpria seus votos se comprometia a dedicar, daquele momento em diante, toda sua vida à Deus. A partir daquele dia, ele era um padre.
🎵De que me sirve la vida
Si eres lo que yo pido,
Los recuerdos no me alcanzan
Pero me mantienen vivo
De que me sirve la vida
Si no la vivo contigo
De que me sirve la esperanza
Si es lo ultimo que muere
Y sin ti ya la he perdido🎵
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