Sombras do Passado
10 Capítulo 10 - Se não é amor...
Notas iniciais

***
A convivência entre Carlota e Cristina nos dias que se seguiram foi, do mesmo modo, tensa. E agora Cristina tinha que lidar com um clima também estranho e tenso entre Federico e ela. Desde aquele beijo os dois não conseguiam mais manter a naturalidade um com o outro. Sustentar o olhar era coisa rara. Sempre que os olhares deles se encontravam, desviavam-se. Com Carlota, Cristina evitava falar. Mas não se afastou de Amanda. Nem que quisesse poderia. A pequena estava de tal modo apegada com ela que, entre as duas, se construiu um laço que nem mesmo a dureza e autoritarismo de Carlota podiam romper e, maquiavélica como era, sabia que se forçasse a barra, poderia ver a filha se voltar contra ela. Desse modo, Carlota passou a insistir com o marido para que eles apressassem o que tinham que fazer ali para voltarem para Madri. No quarto com Luciano, ela esbravejou:
_ Luciano, não sei o que você vai fazer, mas nós vamos embora, nós temos que ir embora.
Luciano era completamente manipulado por Carlota e explicou-lhe que tanto ela quanto ele, depois de tanto tempo longe de seu país, tinham assuntos legais pendentes que não podiam resolver por terceiros.
_ Então voltemos Amanda e eu, e você fica resolvendo essas coisas antes de ir nos encontrar. – sugeriu ela desesperada
_ Por que essa pressa, Carlota? Nossa filha está gostando de conhecer nossa cidade, a minha família, a sua.
_ Por isso mesmo! – gritou Carlota – Amanda está encantada pela fazenda e por Cristina. Ela não pode amar esse lugar, Luciano! Não pode amar à Cristina!
_ Eu nunca vou entender todo esse seu rancor por sua irmã. Ela é a família que te resta, Carlota. O que ela te fez?
_ Cristina é uma devassa promíscua! Eu já podia perceber isso quando éramos jovens e mais agora. Não a quero perto de Amanda, ela jamais vai se aproximar de Amanda!
_ Calma, Carlota, acalme-se. – sugeriu Luciano. – Nós vamos embora logo. Você não pode ir antes porque também tem assuntos legais para resolver aqui. Coisas da sua herança. Você sabe que precisamos de dinheiro. Temos que conseguir capital do meu e do seu dinheiro. Se vamos agora, sem conseguirmos o capital econômico que precisamos em nossos negócios de Madri, como vamos sobreviver lá? Teremos que voltar para o México de todo modo. Teremos que voltar para Teapa próximo à sua irmã. É isso que você quer?
_ Não, isso nunca! Não podemos ir à falência, Luciano você tem que dar um jeito nisso. Não seja tão inútil! – a ideia a aterrorizava mais que tudo.
_ Ofender-me não vai resolver nossos problemas econômicos. Você precisa acalmar-se e parar de criar aborrecimentos desnecessários. Deixe que Amanda se divirta na fazenda, se entenda com sua tia. Ao final desse mês voltaremos para Madri com o dinheiro que precisamos e nossa filha nunca mais terá que voltar para cá e se esquecerá de tudo o que viveu aqui, será só uma recordação distante de sua infância.
_ Sim, Luciano! É isso! Não podemos voltar a viver em Teapa, Amanda não pode estar sob a nefasta influência de Cristina. Eu vou educá-la da maneira correta. Ela terá uma vida impecável! – Disse Carlota com um brilho de raiva no olhar. – Você sabe que Amanda não pode se apegar à nada em Teapa, Tabasco e nessa região, não sabe?
_ Sim, eu sei. – Concordou Luciano.
_ Amanda têm que ter suas raízes construídas e afixadas longe daqui! – sentenciou.
***
Apesar do esforço de Carlota, Cristina e Amanda cada vez tinham mais proximidade. Certa tarde, após o almoço, apesar de inúmeras advertências de Carlota, conseguiu sua autorização para levar Amanda à Teapa. Ela fazia comentários agressivos, ameaçava negar-se, mas era convencida pela filha no afã de não transformar-se na megera, enquanto Cristina era a boazinha. Isso não permitiria.
Cristina pretendia fazer com Amanda, algo que não costumava fazer muito. Desde que terminou seus estudos, visitava a cidade pontualmente, apenas para tratar com fornecedores e compradores. Os víveres da fazenda costumavam ser comprados por Federico ou algum outro empregado, ela não se incumbia dessa tarefa apesar de dominá-la tão bem como qualquer outra.
Federico sim costumava ir muito à cidade para tratar desses temas e de suas coisas. Isso não mudava com o tempo, o fato de Federico possuir seus mistérios e desaparecer de vez em quando. Cristina jamais questionava seu comportamento, sabia que não era conveniente naquela situação. Naquela tarde estiveram durante horas, só ela e Amanda, passeando pelas ruas de Teapa. Ela comprou presentes para a sobrinha, tomaram sorvete juntas e, depois, Amanda insistiu para conhecer toda a cidade. Não era uma grande cidade, mas seria um passeio longo. Cristina ameaçou negar sabendo que Carlota se incomodaria, mas não resistiu aos olhinhos verdes de Amanda pedindo-lhe que fosse com ela.
Visitaram alguns lugares antigos que guardavam muita história, fizeram um passeio de turista. Mas, para Cristina que sempre havia vivido ali também foi um momento de descobertas e de lembranças, um verdadeiro confronto entre passado e presente na mente dela.
_ O que é aqui, tia Cristina? – indagou Amanda, curiosa, apontando para uma construção simples e antiga que tinha um ar de abandono.
_ Não sei o que seja hoje, Amanda. Mas há 10 anos era uma escola. — recordou
_ Uma escola? – os olhinhos dela brilhavam de curiosidade. – Você estudou aí? Minha mãe?
_ Nenhuma de nós, pequena. Era uma escola para crianças pobres.
_ Então como você sabe que era uma escola?
_ Eu conhecia alguém que trabalhava aí. Um professor. – olhava a casa com olhar perdido.
Lembrou-se de tantas vezes que ficou ali na porta esperando que as aulas de Hernán terminassem para que os dois estivessem juntos. Parecia que estava vendo crianças saindo correndo fazendo barulho lá de dentro e ela sorridente e cheia de sonhos encontrando o sorriso de Hernán na porta de uma das salas para ela. Como o tempo havia passado... Como o tempo havia cruelmente passado e tudo isso agora parecia tão distante, tão fora da realidade.
_ Ele era seu amigo?
_ Sim... Podemos dizer que sim. Eu tive bem poucos amigos na vida, Amanda então... Por mais que passe o tempo, não dá para esquecer aqueles que foram marcantes. Pessoas e lugares que marcaram nossas vidas. Como essa escola e... essa pessoa.
_ E onde está ele agora? – a curiosidade parecia incessante.
_ Ele não está mais aqui... Ele se foi. – Sentiu um imenso pesar em dizer à Amanda que Hernán estava morto.
Não sabia por que, ela não o conheceu, mas não queria, não conseguia dizer isso à sobrinha. Tratou de distraí-la com outras coisas, convencendo-lhe a sair dali. Nem se dera conta em que momento havia ido parar ali, mas não podia com as lembranças. A inocente curiosidade de Amanda, inconscientemente, provocava-lhe mais dor. Uma dor que ela não podia apagar, por mais que tentasse.
Sempre era doloroso falar sobre Hernán, mas com Amanda... Com Amanda era ainda mais difícil. E naqueles dias, o reencontro com Carlota, aquela briga e novamente Federico fazendo com que ela se confrontasse com o tipo de relação que queria ter com seu passado. Definitivamente, era um momento especial.
O dia já quase terminava quando as duas se organizavam para ir embora. Já estavam no carro, rumo à fazenda quando Amanda viu um vendedor de algodão doce e pediu para Cristina. Ela, pacientemente, parou o carro e as duas desceram para atender ao capricho da criança. Quando ela pagava ao vendedor surpreendeu-se com a observação de Amanda:
_ Aquele não é o tio Federico? – indagou apontando uns 60 metros abaixo, naquela mesma rua.
Cristina estarreceu com o que viu. Federico estava de perfil, da posição que ele estava não era possível vê-las ali. Raquel estava agarrada ao pescoço dele e mordiscava sua orelha, Cristina viu claramente esse movimento e ficou sem reação. Ele olhava para os lados, aparentemente incomodado, mas o fato é que aquilo acontecia no meio da rua, como Federico era capaz? – questionava-se Cristina.
_ É, filha. É ele sim. Vem, vamos para casa. – apressou-se Cristina.
_ Nós não vamos falar com ele? – perguntou Amanda inocente.
_ Não... Ele tem assuntos a tratar com a... amiga dele. – Cristina respondeu irritada.
_ Ah, ela é sua amiga. Por isso está abraçando ele desse jeito. Dá para ver que ela gosta muito dele, não é?
A observação de Amanda a incomodou ainda mais. Sim, dava pra ver que ela gostava muito dele. Tratou de contornar a curiosidade da sobrinha, mas não conseguiu tirar aquela imagem da cabeça. Ao mesmo tempo, refletia sobre as palavras de Amanda: “ela gosta muito dele”. Não era segredo para ninguém que Raquel era apaixonada por Federico, todos sabiam na cidade e comentavam. Também comentavam que eles tinham alguma coisa, mas ela nunca colocou importância nessas fofocas, isso seria confrontar-se com aquela venda que ela tinha sobre os olhos. Sabia que Federico tinha direito à sua vida. Se ela não o aceitava, não aceitava seu amor ele teria que buscar fora. Era claro e estava cada coisa em seu lugar.
Então por que a incomodava e irritava daquele modo vê-lo em intimidade com Raquel? Os dois não tinham nada, não eram nada! Não era nenhuma novidade para ela, ela já havia ouvido muitas vezes, mas ver... Como lhe doeu ver, pela primeira vez que Federico não era dela, Federico não lhe pertencia. A imagem que ela tinha dele era do homem apaixonado, rendido à seus pés que fazia tudo para conquistá-la. Mas aquela imagem fez com que ela se desse conta que ele não estaria ali para sempre e que poderia perdê-lo, em algum momento poderia perdê-lo. Perceber isso arremeteu-lhe uma grande dor que ela não esperava.
***
Naquela mesma noite, quando todos já haviam se recolhido, Cristina passava frente ao quarto de Federico no corredor, no exato momento em que ele abriu a porta. Ela lhe lançou um olhar frio e ameaçou ignorar sua presença e continuar, mas ele segurou-a pelo braço.
_ Que bom que te encontro sozinha. Quero falar com você. – disse imponente, másculo.
_ Sobre o quê? Eu já estava indo dormir – Cristina falou diretamente para evitar uma conversa mais longa.
Ela não queria falar sobre o que tinha acontecido na cachoeira, queria enterrar aquele assunto de uma vez, não era conveniente construir quimeras com Federico, ela sabia que seu coração não poderia, não estava pronto. Nunca ia estar, não voltaria à abri-lo. Muito menos depois de tudo o que havia acontecido à tarde. Ao mesmo tempo em que recordava o frescor e inocência de seu amor juvenil com Hernán, viu Federico como ele era: um mulherengo! Como ter uma visão romântica dele? Seria idealizá-lo. Ele era um homem aventureiro demais para entregar-se ao amor puro e verdadeiro de uma única mulher. Sim! Fechar-se era a decisão mais acertada à se tomar.
_ Entre aqui, falaremos mais à vontade. – apontou a porta do quarto.
Cristina gelou. Não gostava de entrar no quarto de Federico, era uma situação que lhe provocava desconforto, não sabia bem por quê. E muito menos à noite. Conviviam durante as refeições, conversavam amigavelmente sobre diversos assuntos, e inclusive lhe agradava a presença dele porque era espirituoso, divertido, mas havia um limite entre eles que ela insistia em manter. E esforçava-se, não era simples. Não muito por ele, mas mais por si mesma. E um desses limites era evitar a privacidade e intimidade dos quartos. Tentando dissimular essas sensações ela seguiu sua sugestão e passou pela porta que ele fechou atrás de si.
_ Não vamos demorar, sim? Estou com muito sono. – ela disse nervosa observando seu movimento de fechar a porta.
_ Não vamos demorar, eu só quero te fazer uma pergunta.
_ Pois pergunte... Se é sobre a fazenda...
_ Não, Cristina, não é sobre a fazenda. – Ele nem sequer deu tempo para que ela fugisse. – Você gosta de estar sempre recordando as condições entre nós dois e deixar claro que não somos mais que amigos.
_ Sim, Federico, eu gosto que isso esteja claro. É para seu próprio bem.
_ Mas acho que depois de tanto tempo juntos, um pouco de sinceridade nós merecemos, não?
Cristina puxou o ar, preocupada.
_ O que você quer saber, Federico? – impaciente rogou para que ele fosse direto ao ponto.
_ Aquele dia, na cachoeira... – ele começou confirmando suas suspeitas.
Cristina caminhou apressada e nervosa até a janela. Sim! Ele queria falar sobre o beijo. Algo que, ao mesmo tempo que gritava dentro dela para que os dois falassem sobre... também algo ali dentro desesperava por calar.
_ Eu sei que você acabou de dizer que temos nos permitir um pouco de sinceridade, Federico. Mas você realmente acha que vale a pena falar sobre aquilo? – indagou Cristina sem coragem para olhá-lo.
_ Para mim vale! – ele disse sem titubear – Para mim vale mais a pena que qualquer outra coisa na vida.
_ Está bem! Faça sua pergunta. – ela virou-se em um surto de coragem. – Prometo responder com toda a sinceridade do mundo.
_ Você disse... Você disse que não era a primeira vez que me beijava. – Isso não saía da cabeça de Federico desde aquele dia.
_ Sim, eu disse. – ela confirmou engolindo seco.
Talvez não tivesse sido uma boa ideia concordar em falar com sinceridade, pensou Cristina. Mas agora, estava no meio do furacão.
_ E prometeu aqui agora ser inteiramente sincera... – ele aproximou-se dela de maneira perturbadora.
Federico parecia estar lendo-a, desassossegando-lhe intencionalmente.
_ Verdade, eu prometi! – ela confirmou respirando de maneira agitada.
_ Por que você disse isso, Cristina?
_ Você não sabe? De verdade não sabe, Federico? – ela indagou com a voz carregada. Ainda lhe magoava que ele não se lembrasse.
_ Você acha que se eu soubesse permitiria que suas palavras me perturbassem durante tantos dias? – ele respondeu com outra pergunta.
_ Pois a mim... A mim isso é algo que me perturba há anos, Federico. – ela confessou com a sinceridade que havia prometido.
_ Anos? – Federico estava cada vez mais surpreso. – Seja clara, Cristina! – ele pediu desesperado.
_ Você e eu já nos beijamos, Federico. Foi há muito tempo... Aqui mesmo nesse quarto. – ela disse virando-se sem conseguir evitar se emocionar.
_ Você está louca! Como podemos ter nos beijado se eu não me lembro de nada? Como eu poderia esquecer um beijo seu? Eu nunca esqueceria um beijo seu, Cristina, nunca! – ele disse galanteador.
_ Mas esqueceu! – Afirmou Cristina magoada virando-se e dando de cara com os olhos de Federico. – Você diz que era tudo que você queria... Que sonhava e fantasiava com isso...
_ Porque é a verdade. Mais uma verdade dentro dessas sinceridades que eu te peço. – ele disse não tão seguro.
_ Naquela noite de chuva... Quando Joaquim te trouxe para casa... – Calmamente Cristina começou a lembrar.
_ Sim, me lembro. Nessa noite você cuidou de mim bêbado.
Ao recordar isso um estalo aconteceu no cérebro de Federico.
– Bêbado! Bêbado! Foi isso? Nós nos beijamos naquela noite? Nos beijamos, Cristina? – falava com os olhos arregalados de incredulidade.
Ele não podia acreditar, não podia. Várias vezes havia tido flashes de um beijo com Cristina numa noite de chuva, em sua cama. Ela estava de camisola, tão linda. Mas parecia tão fantasioso que ele acreditou que fossem pedaços de algum devaneio mais. Uma fantasia mais de tantas que havia tido com Cristina. “Foi o melhor devaneio da minha vida”. Foi a frase que lhe veio à mente naquele momento.
_ Você me pediu um beijo... E o tomou antes que eu pudesse responder. – ela finalmente confessou.
Já era tempo de colocar aquilo à superfície, já havia passado do tempo, não devia mais seguir guardando aquilo que de verdade lhe machucava. Por sua parte, Federico também se machucava. Claro! – pensou ele. – Se ela tivesse tido tempo de responder, teria dito não.
_ Não é possível, Cristina... Aquele beijo, aquele beijo não pode ter sido real! – demonstrou que sim tinha a imagem do beijo dentro de si.
_ Talvez isso tenha sido o melhor, Federico! Que nenhum dos dois o tenhamos tomado como real. Se você se esqueceu dele e... E eu também – mentiu – é porque como aquele na cachoeira não devia ter acontecido. – Falou amargurada.
_ Não fale assim, Cristina! Ou, pelo menos, fale somente por você! – ele se exaltou. Ainda não se conformava de haver sido tão injustamente traído por sua memória. – Se você não valoriza algo tão significativo entre nós dois saiba que eu, que para mim significa tudo.
_ Por favor, Federico, isso faz tanto tempo! Talvez se estivéssemos falando sobre isso alguns anos antes, mas agora. Agora não tem nenhuma importância. – ela tentou minimizar o efeito de falar sobre aquilo inclusive para si mesma.
_ Ainda que tivessem se passado mil anos. – ele segurou-a pelos ombros e encarou-a, galante. – Um beijo de amor sempre será importante. – encarou firme seus olhos verdes.
_ Amor? – indagou Cristina com um leve sorriso de dor, surpresa pela palavra e pelos olhos do marido fulminando-a de desejo.
_ E o que eu sinto por você? Se não é amor, o que é?
Aproximou-se do rosto do dela e pode sentir seu corpo trêmulo em seus braços. Seu olhar tão desnorteado, como seus olhos eram lindos. Como toda ela era linda... Queria beijá-la outra vez, senti-la! Desde aquela tarde na cachoeira não podia pensar em outra coisa. Sentir seu corpo, seu perfume, seu calor, seu gosto, beijá-la sem parar.
Ela desejava também, com a mesma intensidade, seu corpo a delatava, ele podia sentir sua agitação nos gestos, nos olhares, na respiração. Talvez assim... Talvez assim recordasse claramente aquele beijo. Cristina percebeu a intenção dele em seu olhar em seus olhos que conseguiam a singular proeza de conter, ao mesmo tempo, rudeza e ternura. E quem disse que não há ternura na rudeza? Federico era a prova viva disso e em seus olhos isso ficava claro como água. Aquela mesma força que ele utilizou para segurar seu braço na porta do quarto estava em seus olhos naquele momento. Com a respiração ofegante Federico terminava o movimento de aproximação de seu rosto, quase colava sua boca na dela e podia sentir também a agitação de sua respiração, via como ela olhava sua boca. O beijo já estava quase consumando-se, quando ela se virou abruptamente fazendo com que ele se detivesse a milímetros de sua boca.
_ Não! – negou-se sussurrando enquanto desvencilhava-se dele afastando-se e fugindo daquele olhar.
Respirou fundo antes de conseguir o equilíbrio suficiente para formular mais uma frase.
_ Se fosse amor... Se fosse amor, Federico, você não teria se esquecido daquele beijo, eu não teria que defender sua moral de minha irmã e de outras bocas maldosas, do que todos dizem.
Ela não podia esquecer a cena que havia presenciado naquela tarde.
_ Do que você está falando? – indagou Federico desconcertado.
Ainda sentia a decepção que emaranhava seu corpo por havê-la tido tão perto e não tê-la podido beijar, ser novamente rejeitado por ela. Como doía sua rejeição.
_ Aquele dia, no dia em que brigamos. Carlota me disse que todos comentam que você tem outras mulheres. E eu te defendi! Te defendi porque sei as condições especiais de nosso casamento. – contou aparentemente magoada.
_ Condições que foram estabelecidas por você mesma, Cristina! – ele recordou.
_ Eu sei. Eu sei e não te cobro por isso! Você é um homem e sabe o que faz e não deve satisfações à mim, não me deve nada! Mas quando você fica se agarrando com uma mulher como Raquel no meio da rua, me ridiculariza, Federico! – reclamou-lhe sem poder evitar.
_ Eu não fico me agarrando com Raquel... – ele tratou de se defender.
_ Mas isso não foi fofoca, Federico, eu vi! Hoje à tarde, com Amanda na cidade. Eu te vi com Raquel. Ninguém me disse, eu vi! – repetia sem medo encarando-o, acusando-lhe.
Federico olhou para Cristina com um misto de vergonha e alegria. Ele estaria vendo corretamente?
_ Você não vai dizer nada? Não estava há minutos me falando de amor? E agora fica calado? – Cristina incomodou-se por seu silêncio. – Claro! Você não pode dizer nada porque sabe que é verdade. Que age como um mulherengo qualquer se esfregando com uma vagabunda como aquela no meio da rua.
_ Cristina... Qualquer um que te visse agora, qualquer um poderia jurar que você está com ciúmes.
_ Por favor, Federico, não seja pretensioso! – ela assustou-se com as palavras dele.
_ Lembre-se que prometemos falar com sinceridade hoje, não foi assim? – ele recordou cheio de calma.
Ela não respondeu, apenas fez que sim com a cabeça.
_ Então responda, Cristina. Responda com sinceridade para mim e para você mesma. Coloquemos as cartas na mesa. Você ficou com ciúmes ao me ver com Raquel?
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