Sombras do Passado

34 Capítulo 34 - Vale do Éden


***

Cristina não mediu os riscos de ir sozinha àquele lugar ao anoitecer encontrar-se com alguém que, evidentemente, estava fora de controle, seu coração lhe dizia que era Raquel. Mas Aninha, aquela menina, sua segurança dependia dela e justo agora que ela estava grávida, não podia deixar uma criança em risco podendo fazer algo. Dirigia sem muita atenção na estrada que ligava sua fazenda ao Vale do Éden enquanto a luz do dia ia se esvanecendo no céu e a noite começava a chegar. Ao passar por uma encruzilhada, tomou a direção do Vale do Eden e, nesse exato momento, Federico, à cavalo, passava por aí, ainda envolvido nas buscas por Aninha. Ao ver o carro de Cristina tomar aquela direção ele se assustou e resolveu segui-la.

O que faria Cristina, aparentemente sozinha, tomando o caminho daquele lugar tão perigoso quando já anoitecia? Sem pensar muito, tomou a mesma direção ainda que não a alcançaria se ela não parasse, mesmo que cavalgasse muito rápido. Mas ele sabia que aquela estrada não tinha mais nenhum entroncamento, a única direção era o Vale e, por isso mesmo, ele resolveu segui-la tão decidido e preocupado.

Quando Cristina chegou ao local indicado por Raquel, ainda não eram 7 da noite. Já havia escurecido e ela, descendo do carro com uma lanterna, começou a procurar por pistas da mulher e da criança, assustada pelos perigos do local. Um pouco à frente, havia um penhasco que culminava em diversas pedras, característica do território rochoso da região, por isso o lugar era chamado de vale. Se alguém caísse ali, não teria nenhuma chance. O que estaria planejando Raquel?

Sem nenhum sinal de Aninha e nem da pessoa que entrou em contato com ela, Cristina foi se afastando do carro, para dentro do vale. Depois de alguns minutos, ouviu uma risada na direção de onde estava o carro. Virou-se e, com a luz da lanterna, a reconheceu ao lado de seu carro com uma faca na mão.

_ Raquel? Eu sabia que era você! – afirmou Cristina assustada, pensando em seu bebê.

_ Sabia, é? – Disse Raquel debochada. – Imaginei que você não tivesse desconfiado, como você veio... Então você é menos inteligente do que eu pensava.

_ Eu vim por Aninha! Onde está a menina? O que você fez com ela? – disse se aproximando hesitante.

_ A essa hora já deve estar na casa dos pais. – disse com uma gargalhada cínica. – Você foi muito idiota, fez exatamente o que eu esperava que fizesse.

_ Ela não está aqui? Você não a trouxe? Mas ela estava com você quando você falou comigo, eu a escutei... – Cristina mostrou sua confusão.

_ Sim, mas... tudo o que eu queria era trazer você aqui, à noite... Só nós duas. – tinha um tom de ameaça.

_ O que você fez com Aninha, você realmente não a machucou? – indagou Cristina quase chorando por ver que era uma armadilha.

_ A pirralha está bem. Ela passou a tarde comigo. Lhe dei sorvete, algodão doce, balas. O máximo de mal que pode acontecer a ela é ter uma dor de barriga por comer tanta besteira. As únicas coisas as quais eu fiz mal foram... aos pneus do seu carro.

Cristina voltou-se para as rodas do carro e se deu conta que os quatro pneus estavam vazios. Então foi para isso que ela usou aquela faca em sua mão.

_ Como você chegou até aqui, Raquel? O que você quer comigo? – Cristina indagou olhando para os lados.

_ Eu vim à pé. Você sabia que, pelo rio se chega muito mais rápido do que pela estrada? – disse em um tom sarcástico.

_ Claro que sim.

_ Na altura da sua fazenda eu vi que tinha muito movimento, provavelmente procurando à pestinha, não é mesmo? A deixei por lá. Se ela não for tão burra, já deve ter encontrado o caminho de casa... Agora você...

_ O que você quer, Raquel? Me matar? – indagou Cristina apreensiva.

_ Não coloque as coisas dessa maneira, Cristina. Eu só queria uma oportunidade de acertar as contas com você. É que você é tão egocêntrica, você e Federico também! Vocês não vão tratar como me trataram e as coisas ficarem por isso mesmo! – afirmou ameaçadora.

_ Raquel, olhe para isso... Você me atraiu para um local ermo, sequestrou uma menina, está com uma faca na mão, você acha que isso tem alguma chance de acabar bem?

_ Você ainda não viu nada. – disse com uma gargalhada. – Aquele tapa que você me deu ainda está doendo, sua idiota! Mas isso não é o pior. O pior é o que Federico sempre me diz. Que não me quer por sua causa!

_ Raquel, você vai mesmo fazer isso? Vai estragar a sua vida por despeito?

_ Não é despeito, não é despeito! A essa altura, Cristina, pouco importa minha vida, eu só quero me vingar de você.

_ E o que foi que eu te fiz? – Cristina indagou.

_ Você vai ouvir! Você veio até aqui hoje para ouvir e eu vou falar tudo o que está engasgado aqui toda a minha vida.

_ Você está louca! Eu não vou ficar aqui!

_ E como é que você vai embora? – indagou Raquel sorrindo.

Cristina olhou para os lados como imaginando fugir, mas, seria muito arriscado imiscuir-se na mata à noite, sozinha e... grávida. Mas ficar ali não teria sentido, Raquel estava louca. Ela se virou para tomar a direção do rio. Encararia os riscos já que Aninha, provavelmente estava à salvo.

_ Se eu fosse você, não faria isso. – advertiu Raquel.

Cristina se virou e deu de cara com Raquel apontando-lhe uma arma.

_ Raquel, guarde isso, você está louca? Você sabe usar uma arma? – indagou assustada.

_ Pode ter certeza que, se eu decidir dar um tiro em você, eu não vou errar. Ainda mais se você estiver de costas. Todas as vezes que eu imaginei um alvo, tinha o seu rosto.

Raquel foi se aproximando enquanto Cristina permaneceu parada, temendo afastar-se por não conhecer bem o terreno que era irregular e, qualquer pisada em falso poderia representar uma queda rumo ao penhasco.

_ Você sempre se achou muito importante, não é mesmo Cristina? Sim! Eu me lembro quando você era adolescente, na cidade. Você se achava melhor do que todas as meninas só porque era filha de um grande fazendeiro. Mas você não era ninguém. Só isso, a filha de alguém. E Federico, idiota, só tinha olhos para você. Eu sempre gostei de Federico, Cristina, sempre! E você se meteu entre nós.

_ Você está louca, Raquel, completamente louca! As coisas entre Federico e eu não foram assim e você sabe disso. Você coloca como se ele tivesse sido seduzido por mim ou algo do tipo, mas, Federico escolheu ficar comigo.

_ Você o manteve a seu lado por vaidade, Cristina! Pelo gosto de tê-lo ali, sabendo que eu o amava de verdade.

_ Federico permaneceu ao meu lado porque me amava, Raquel. Porque ele quis. Eu nunca o forcei a estar comigo.

_ Mas não o deixou livre! Ele teria ficado comigo, teria ficado se você não existisse, sua desgraçada! Mas acabou! É o fim da linha para você! – gritou empunhando a arma.

Nesse momento, Federico, atraído pela luz que viu daquele ponto alto do vale, as alcançou.

_ Raquel? O que você está fazendo? – ele disse ainda do alto do cavalo.

_ Não se aproxime! – gritou ela. – Se você chegar perto, eu vou matar Cristina. – voltou-se para a professora. – Nem para isso você serviu, sua inútil! Eu não te disse que você viesse sozinha? Por que o avisou?

Nesse momento Federico desceu do cavalo e foi se aproximando.

_ Eu não o avisei, Raquel, não sei como ele chegou aqui. – Respondeu Cristina chorando, agora sim, muito preocupada pela presença de Federico.

_ Mas é bom! É bom que nos encontremos os três. Assim colocamos tudo em pratos limpos.

_ Raquel, não há mais nada para ser dito entre nós! – afirmou Federico. – Porque você não entende de uma vez e some das nossas vidas, olha só o que você está fazendo.

_ Vocês se esquecem que eu não tenho nada, nada à perder. – ela disse entre lágrimas confusa, alternando em apontar a arma para os dois. – Tudo que eu fiz foi te amar, Federico, porque você não entendeu? Por que você rejeitou meu amor? – indagou se aproximando.

_ Raquel, isso não faz nenhum sentido. Nós já conversamos tanto sobre isso, será que você nunca me escutou? – indagou Federico.

_ Escutei! Escutei desprezos, humilhações e eu não merecia nada disso Federico. E tudo isso é por causa dela, não é? Pois... isso vai ter um fim.

Surpreendeu-se ao se virar para o lado em que Cristina estava e não vê-la ali.

_ Onde... – disse confusa.

Foi interrompida pelo impacto de uma pedra em sua mão que jogou longe a arma que ela segurava.

_ Mas eu tenho o que perder! – afirmou Cristina segura depois do golpe na mão da rival.

Ela correu até perto do carro de Cristina e para pegar a faca e Federico foi até ela para tentar impedir. A jogou no chão com violência e ela, conseguiu agarrar a faca enquanto os dois rolavam em uma luta agoniante. Cristina, nervosa, se preocupava por Federico e em onde aquilo ia dar, quando foi surpreendida por um grande impacto. Era o som de Federico rolando rumo ao precipício, empurrado por Raquel.

_ Não! – gritou Cristina aos prantos.

Raquel ficou, durante alguns segundos, suja e desalinhada pela luta, olhando para o lugar para onde Federico tinha rolado, esperando alguma ação vinda dali, mas imperou o silêncio. Teria matado a Federico? Ela se deu conta que também estava sem a faca e Cristina havia tratado de desaparecer com a arma. Olhou para ela com desprezo e disse:

_ Não foi da forma que eu planejei, mas... de qualquer modo: acabou! – disse em tom de alívio.

Montou o cavalo de Federico e sumiu no caminho da estrada de Teapa. Cristina ficou imóvel pensando no que teria acontecido ao marido. Pegou a lanterna e foi se aproximando lentamente do despenhadeiro com o coração batendo descompassado sentindo o desespero lhe percorrendo. Não suportava pensar que o havia perdido.

***

Cristina iluminou timidamente o penhasco procurando algum sinal de Federico. Sentiu um alívio indescritível quando ouviu um gemido forte dele bem próximo do topo.

_ Ahhh.

_ Federico? Onde você está? – indagou procurando encontrá-lo, muito assustada.

_ Aqui, Cristina, me ajude! – pediu ele.

_ Oh meu Deus! – ela exclamou.

Tomou um susto ao ver que ele havia parado um pouco abaixo do pico do penhasco em uma grande pedra que era plana por cima e foi capaz de deter sua queda.

_ Vem, eu vou te ajudar a subir. – disse segurando sua mão.

Ele tinha muita dificuldade, pois estava com a perna machucada. Cristina conseguiu, com grande esforço, ajudá-lo a voltar para o pico. Os dois ficaram sentados, ofegantes, se olhando durante alguns segundos. Ao vê-lo ali, vivo e, relativamente bem, Cristina não pôde mais conter sua emoção. Abraçou-o e chorou copiosamente. Ele correspondeu ao abraço sentindo a mesma emoção e alívio dela de constatar que ela estava bem. Cristina tremia, naquela noite conheceu um medo que não sabia que era tão intenso: o de perder o marido da forma mais dolorosa de todas: para a morte.

_ Ah, Federico! Eu tive tanto medo de que você... de que você tivesse morrido. – disse Cristina mal conseguindo articular as palavras, emocionada. – Eu não ia suportar.

_ Calma, meu amor! Não chore assim. – pedia Federico acariciando os cabelos dela. – Eu estou bem. Graças à Deus você também está bem. – disse se afastando acariciando o rosto dela.

Cristina não conseguia deixar de tremer e chorar pensando na integridade de Federico.

_ Você está bem mesmo? – ela indagou incrédula.

_ Eu acho que machuquei minha perna. Espero não ter quebrado, mas não sei se posso andar muito. – ele contou.

_ Meu Deus! – ela disse iluminando a perna dele tentando ver algo.

_ Não, Cristina, calma. Pode não ser nada, mas... anoiteceu. – deu uma pausa, suspirou e voltou a passar a mão no rosto dela. – Se essa louca tivesse feito algo a você eu jamais me perdoaria.

Cristina voltou a chorar ouvindo suas palavras e novamente o abraçou.

_ Não diga isso. A culpa não é sua, você quase morreu. Não quero nem pensar se você não tivesse caído na direção daquela pedra que te aparou. – disse sem soltar-se do pescoço dele.

Com alguma dificuldade foram se acalmando e procurando encontrar uma maneira de sair dali. Era noite e o lugar oferecia riscos como animais e a própria Raquel que eles não sabiam se podia voltar. Os celulares não tinham sinal ali e o carro estava com os quatro pneus furados.

_ Não tem jeito, Cristina. Vamos ter que passar a noite aqui. – afirmou Federico.

_ Você precisa ir ao médico, Federico, ver essa perna... – ela disse preocupada.

_ Não se preocupe, não é nada demais, já está um pouco melhor. – ele disse acalmando-a. – Não é bom que passemos a noite no carro. Tem animais, Raquel pode aparecer...

_ Mas, o que vamos fazer aqui, no meio do nada? – indagou Cristina assustada.

_ Eu sei de um lugar. Bem perto daqui. Se você me ajudar, podemos andar até lá, eu te índico o caminho. Confia em mim? – o fazendeiro perguntou com ternura.

_ Claro que sim! – ela afirmou segura, ajudando-o a levantar-se.

Quando começaram a caminhar, um ingrediente mais daquela noite tão surpreendente apareceu, começou a chover inesperadamente.

_ E mais isso... – disse Cristina preocupada.

_ Calma! A cabana não está longe. Lá estaremos protegidos, inclusive da chuva. – afirmou Federico tranquilizando Cristina.

Apoiado no ombro da esposa, rapidamente chegaram ao lugar que ele indicou. Realmente não era afastado do pico do vale para onde Raquel atraiu Cristina e era um lugar simples, porém agradável. Era uma cabana que contava com dois ambientes delimitados: um quarto com uma cama de casal e um guarda roupas e uma cozinha que tinha um fogão de lenha, uma mesa e uma dispensa acima de uma pia. A cabana tinha até um pequeno banheiro. Tinha água encanada que vinha de um poço ao lado da casa e o capricho da construção deixava-os bem protegidos da chuva e dos animais. Cristina se surpreendeu por Federico conhecer aquele lugar que, de certa maneira, era escondido na mata.

_ Como você sabia desse lugar? – indagou ajudando-o a se sentar em uma das cadeiras da mesa.

_ Meu pai o construiu. – disse Federico com certa emoção.

_ Seu pai? – ela indagou surpresa. – Você nunca fala de sua família, sei tão pouco de você.

_ Meu pai gostava de caçar. – recordou. – Eu sou filho único, isso você sabe, não?

_ Sim. – disse Cristina atenta.

_ Bom, desde que eu tinha uns 8 anos ele me trazia com ele. No começo ele armava tendas, fazia uma espécie de acampamento. Mas acho que, para que minha mãe não se preocupasse tanto com o fato dele me trazer, ele construiu essa cabana. Fazia muito tempo que eu não vinha aqui com o objetivo de ocupá-la, passar um tempo, mas eu sempre vinha abastecer minimamente a dispensa, deixar roupas, levar as que tem aqui para lavar. – contou.

_ Você perdeu seus pais muito cedo, não é? – indagou Cristina.

_ Eu tinha 16 anos. – contou Federico. – Eles morreram em um acidente com um bimotor, você sabe.

_ Sim, eu me lembro. E eu tinha 10 anos quando perdi minha mãe. Você estava lá... – disse Cristina levantando os olhos cheios de lágrimas.

_ Sim, fui te apoiar. – disse Federico segurando a mão dela.

_ E eu não fiz o mesmo quando seus pais morreram... – ela disse com pesar. – Eu não te mereço, Federico, definitivamente, não te mereço.

_ Ei, que bobagem é essa? – ele indagou forçando-a a olhá-lo. – Cristina, você é o mais lindo da minha vida. Eu já te disse, com você eu recuperei a sensação de família. Essa sensação que morreu com meus pais no meio da minha adolescência.

Levantou-se e, mancando, foi até ela, fazendo com que ela se levantasse e ficasse de frente para ele.

_ Isso quer dizer que você me perdoa? – indagou olhando-a cheio de ternura.

_ Não. – ela disse olhando-o maliciosa.

_ Não? – ele indagou confuso.

Cristina aproximou-se dele e, surpreendendo-o totalmente, beijou-o sem nenhum pudor, imediatamente correspondida por ele.

_ Isso! – referiu-se ao beijo que acabava de lhe dar – quer dizer que, se você ainda me quiser, EU quero você de volta, Federico Rivero. Te amo! – afirmou sem medo correspondida por um sorriso do marido.

Novamente voltou a beijá-lo de ternura, paixão, alívio e entrega. Ele esqueceu-se, por um momento, da dor na perna e envolveu sua cintura, beijando-a com a mesma paixão que a beijou na primeira vez. Sentiu sua respiração agitada, sua emoção latente, sua pele reagir, arrepiando-se e teve urgência em senti-la sua outra vez. Afastou-se e ficou olhando-a abobado, sem soltar sua cintura.

_ Se esse é o prêmio, tenho que agradecer a Raquel por tentar me matar. – disse Federico, apaixonado.

_ Não diga isso nem de brincadeira! – disse Cristina abraçando-o. – Eu não quero nunca mais sentir aquele medo, aquele medo de te perder.

_ Calma, meu amor! Já passou. – ele voltou a tentar acalmá-la por ver que ela voltaria a chorar. – Eu estou aqui, não estou? Todo sujo, com a perna machucada, mas inteiro!

_ Você não podia morrer! Se você tivesse... Eu tenho que te contar algo. – disse.

_ Mais cedo você disse o mesmo na fazenda, quando Paulina chegou. Conte-me.

_ Eu não quero nunca cometer o mesmo erro que cometi há 18 anos e isso ser um fator que...

_ Erro que você cometeu há 18 anos? Do que você está falando, Cristina? – ele indagou impaciente.

Ela não conseguiu conter as lágrimas, foi até ele, pegou sua mão direita e levou ao ventre dela. Federico ficou parado, olhando-a ainda sem entender o que significava. Ela finalmente disse entre soluços:

_ Federico, você não está mais sozinho. Você tem a mim e com o filho que estou esperando, vamos formar uma família.

***