Sombras do Passado
15 Capítulo 15 - Razão e Emoção
Notas iniciais

***
Ela ainda permaneceu perdida por alguns segundos, encarando-o descrente. Deu-se conta que nunca havia parado para pensar em Federico positivamente. Sim, às vezes chegava à conclusões positivas sobre ele, mas era algo que encontrava no percurso, não no ponto de partida. Talvez ele não merecesse o julgamento tão duro que ela fazia dele. Mal ou bem, ele sempre havia estado ao seu lado e ela, injustamente, muitas vezes não lhe dava a chance de se defender, de se deixar conhecer.
Fechara-se para Federico de todos os lados. Não gostou de perceber que podia ter sido injusta com ele, de perceber que, talvez, fosse sempre injusta e desse muito pouco à Federico que sempre esteve ao seu lado, sempre estava ao seu lado. Apesar da situação tão desfavorável ele ali permanecia.
_ Não vai me responder, como não respondeu ao Joaquim? – indagou Federico – O que está acontecendo com você?
_ Nada! – finalmente reagiu – Nada! Eu vim jantar, mas... Acho que vou dormir, não estou muito bem.
_ O que você está sentindo? Quer que eu te leve ao médico, vá à farmácia buscar um remédio? – Mostrou-se novamente solícito e prestativo.
_ Eu quero... Quero que você me responda uma pergunta, Federico. – Apesar de se dirigir à ele, seu olhar estava perdido no vazio.
_ À que você quiser? – ele concordou. – Vem, sente-se aqui.
_ Não! Falemos aqui mesmo. Responda-me, Federico. Por que você nunca foi embora? – Cristina foi inteiramente direta surpreendendo ao marido.
_ O quê? – Federico ficou totalmente desconcertado com a pergunta.
_ É isso mesmo, Federico! – ela finalmente direcionou o olhar concentrando-se no dele – Quero que você me diga por que depois de tanto tempo, quase 18 anos, se eu não te dou nada de volta por que você continua aqui? Por que diabos você não vai embora, Federico? – a alteração era evidente nas palavras e na forma como ela olhava o marido.
_ Por que você pergunta isso? Quer que eu vá embora, é isso? – Federico sentiu algo muito estranho naquele rompante da esposa que, para ele, vinha do nada.
_ Federico, não me faça outras perguntas, não fique tentando me decifrar! Responda o que eu te perguntei. – Cristina mostrou-se autoritária e decidida. – Por que você não foi embora dessa casa se eu nunca aceitei ser sua esposa como você sempre esperou?
_ Você não sabe? – Ele permaneceu na atitude de responder perguntando.
_ Claro que não! Se eu soubesse não te perguntaria! Não faz sentido, Federico! Por que você não vai embora?
_ Porque eu te amo! – ele confessou. – Te amo e por mais irracional e sem sentido que possa parecer, Cristina, eu sigo alimentando uma esperança, uma esperança que você me aceite, aceite o meu amor, me deixe te fazer feliz. – ele disse caminhando apressadamente e encarando-a nos olhos, ficando com o rosto a poucos centímetros do ela.
Do mesmo modo que, em suas palavras apareciam essa esperança de que ele falava, também aparecia a revolta e o descontentamento por aquela situação tão lacerante. Ele sentiu ânsias de beijá-la, olhou-a nos olhos enquanto ela esperou que ele o fizesse. Quase fechava os olhos, esperando receber um beijo dele, quando ele suspirou e se afastou deixando-a muito confusa.
Cristina caminhou até o sofá, colocou sua mão sobre o detalhe de madeira acima do encosto e, mais uma vez, lançou seu olhar no vazio. Aparentemente estava calma e até mesmo insensível, mas era só aparência. O mundo passava dentro dela naquele momento, ela se confrontava consigo mesmo, com suas verdades, com as que eram realmente verdades e com as que ela havia inventado para si mesma para conseguir suportar a dura realidade de sua vida.
_ Eu acho que você devia ir embora, Federico... Sim, ir embora. Você devia de parar de perder seu tempo aqui. – Ela sentia-se tão indigna dele, que o havia feito tanto mal que só conseguia pensar que o melhor para ele era estar longe dela.
Federico caminhou até ela inconformado. Puxou-lhe violentamente pelo braço fazendo com que ela ficasse de frente para ele e encarou-a atingido:
_ Para você é muito fácil falar, não é mesmo? Claro, você não sente nada por mim, nunca vai entender! – Cristina fez menção de responder, mas ele a interrompeu – Não precisa falar nada, eu já sei o que você vai dizer, cansei de ouvir tudo isso esses anos todos: Federico, eu nunca te enganei, você sempre conheceu muito bem as condições! Não é isso que você vai dizer, Cristina? Não é isso? Que imprevisível você é! – observou com uma gargalhada sarcástica.
_ Como se você fosse muito imprevisível, Federico. – caçoou Cristina ferida.
_ Não, eu não sou! Com relação à você sou um bobo de tão previsível e você sabe disso e se aproveita, não é? – ele olhou-a com um certo cinismo.
_ Quase ao mesmo tempo em que você diz que me ama, você me ataca. Que curiosa classe de amor... – Cristina sentia que ele não estava mais a seus pés como antes.
Talvez, se algum dia a tinha amado como lhe disse há pouco, não a amasse mais, talvez o tivesse perdido por sua própria culpa. E lhe doeu pensar nisso.
_ Sim, você tem razão. Aliás, eu nem sei a razão pela qual você começou essa conversa e imagino que você não vá me dizer. Mas além desse fato há uma outra razão. Uma outra razão pela qual eu nunca fui embora. – disse Federico cerceando para voltar a ficar de frente para ela.
_ E qual é? – indagou Cristina voltando a fitá-lo sem medo.
_ Está vendo, não sou assim tão previsível. – sorriu um pouco menos armado.
_ Sim, você tem razão. – ela devolveu a simpatia e o sorriso.
_ A razão é simples, Cristina. Eu te fiz uma promessa. Há 18 anos, aqui mesmo nessa sala, eu te fiz uma promessa.
Cristina se virou. O medo que ela não sentiu ao olhá-lo no momento em que ele a desafiava apareceu quando ele falou sobre aquilo. Seus olhos se umedeceram, seu coração disparou. Aquela filha, aquilo que ela nunca tinha podido superar, a ferida mais dolorosa e viva de seu passado. Suspirou antes de concordar.
_ Sim... Você me fez. – recordou
_ E eu vou cumprir, Cristina. – ele voltou a puxá-la pelo braço para que ela ficasse de frente para ele. – Eu vou devolver sua filha em seus braços, não vou embora antes de encontrá-la. Posso ter todos os defeitos do mundo e você conhece vive me jogando na cara cada um deles. Mas eu sou um homem que cumpre suas promessas.
_ Federico... Federico... Você realmente, me deixou sem palavras. – ela respondeu sem jeito.
Os dois permaneceram assim, olhando-se cheios de desejo. Cristina nunca desejou tanto ser beijada por ele como naquele momento. E ele não o fazia. Olhava-a e hesitava. O que ela tinha de fazer para demonstrar a Federico que queria? Que queria que ele a beijasse? De tanto que ela havia se negado, talvez ele tenha tomado suas negativas e recusas em sério e agora, agora ela o havia perdido. Ele, novamente, se virou, temendo beijá-la e ser rejeitado por ela.
_ Você achou que eu tivesse me esquecido? – ele percebeu o motivo da falta de reação dela.
_ Naquela ocasião você ganhou meu respeito com essa promessa, Federico. Com o passar dos anos, eu vi sua dedicação nessa busca, ainda que, com tantas dificuldades, qualquer um teria desistido.
_ Sim, como muitos investigadores desistiram por não encontrar pistas.
_ Pois é! Com sua dedicação e persistência ao longo dos anos, além do meu respeito, você ganhou minha admiração. – ela também confessou-se.
_ Eu aprecio! Aprecio seu respeito, aprecio sua admiração, mas o que eu realmente quero de você, Cristina...
_ Não! Por favor, não falemos mais! – ela interrompeu-o sem entender bem porque o fazia. – Acho que entre nós hoje já houve sinceridades demais.
Era medo! Medo de descobrir que ele não a amava mais... que o havia perdido. Era mais seguro que aquele amor permanecesse no campo das ideias, lá não havia rejeição.
_ Fale por você! – ele disse sarcástico. – Eu estou sempre aberto diante de você, com o coração escancarado, apesar de ir contra muito do que eu acredito, do que eu sou. Vem! – ele disse estendendo a mão. – Vem jantar comigo?
Cristina tomou sua mão com um sorriso e o acompanhou no jantar com calma e tranquilidade. E as ideias de Cristina dando mil voltas em sua cabeça.
***
Cristina saiu à cavalo naquela tarde. Queria observar a colheita, ver como estava o trabalho dos peões e também espairecer um pouco na cachoeira. Desde que ouviu aquela conversa entre Federico e Joaquim não conseguia mais ficar tranquila. Recordava a noite que passaram juntos e a decisão que ela havia tomado. Decisão que ela abortou por causa do que viu no escritório do armazém. Agora, tantos anos depois, ela começava a perceber que fazia sentido o que dizia Federico, que ele e Raquel não estavam na mesma sintonia naquela ocasião, que as coisas podiam não ter sido o que pareciam.
Ao mesmo tempo, refletia sobre a atitude de Federico. Tão bom amigo, prestativo, devotado. Devotado a ela, devotado à sua vida, devotado à sua busca e, até mesmo, às suas perdas. Aquela situação era injusta para ele, definitivamente era injusta e ela precisava tomar uma atitude, não podia deixar as coisas continuarem daquela maneira. De longe, observou, em meio ao bananal uma aglomeração. Viu a José Maria. Viu a Federico e aproximou-se cavalgando lentamente. Antes de descer do cavalo, ouviu a última frase de Federico:
_ Pois aqui, nessa fazenda você não manda nada! Você vai embora e vai embora hoje mesmo, seu insubordinado! – gritava dirigindo-se à José Maria.
_ O que você está dizendo, Federico? – Cristina não acreditou no que ouviu.
_ É isso mesmo! Estou demitindo José Maria e ele vai embora daqui agora mesmo senão eu o coloco para fora da Plantanal com minhas próprias mãos! – bradou sem importar-se com as consequências.
_ Federico, o que você vai fazer é se acalmar! – Cristina correu até ele tentando afastá-lo de José Maria.
_ Senhora Cristina! Acredito que seu marido esteja com a razão. A situação chegou num nível insustentável. O melhor será que eu vá mesmo embora daqui. – José Maria também estava nervoso e alterado com a discussão.
_ Claro, como sempre vai se fazer de coitadinho! – caçoou, Federico. – Se depender de você, o lucro dessa fazenda vai ser mínimo! E eu não vou permitir, José Maria, não vou permitir!
_ Federico, eu já disse para você se acalmar. – Cristina ainda tentava não desautorizá-lo na frente dos empregados, mas as coisas se tornaram insustentáveis. – José Maria não vai embora! Ele é meu empregado e deve render contas unicamente a mim. Você não tem autoridade para demiti-lo, entenda de uma vez!
Federico bufou de ódio com a forma como todos o olharam, principalmente José Maria. Um olhar vencedor, de triunfo. Subiu em seu cavalo e saiu dali galopante. Cristina pediu aos peões que voltassem ao trabalho.
_ E você, José Maria, não se preocupe. Vou falar com Federico, ele não vai mais te incomodar.
_ A senhora tem certeza? – José Maria se preocupou. – Ele pode lhe maltratar.
_ Não se preocupe! O trato de Federico comigo é diferente. E, quanto à Plantanal... Ele é um funcionário mais, é o administrador da fazenda, embora eu faça muito desse trabalho. Ele não tem o poder para demitir ninguém sem minha autorização. – garantiu Cristina.
_ Obrigada! – ele agradeceu sincero.
***
Quando Cristina passou pela porta, Federico correu até ela e segurou seu braço com força. A mesma força que ele havia utilizado anos antes em uma briga em que os dois se alteraram bastante. Cristina não se assustou. Mirou-lhe com o olhar decidido enquanto ele lhe reclamou:
_ O que você está pensando, Cristina? O que você está pretendendo? – o som de sua voz ecoou em toda a sede da Plantanal.
_ Me solte, Federico! Comigo você não vai falar desse jeito! – Cristina gritou puxando seu braço, mas ele não o soltou.
_ Me humilhar! É isso que você quer, não é? Como você pôde me falar daquela maneira na frente dos peões? Na frente do José Maria? Eles nunca mais vão me respeitar depois disso!
_ Você provocou isso, Federico, eu não queria! Há muito tempo eu venho te deixando claro para não se meter com José Maria, mas você não me ouviu.
_ O que você tem com esse peãozinho? – indagou soltando o braço dela e virando-se. – Por que o defende tanto? Que ele está interessado em você eu não tenho a menor dúvida! Vejo na forma como ele te olha e em como me desafia, mas e você? Por que está se colocando contra mim para defendê-lo?
_ Eu nem vou levar em conta essas suas insinuações porque eu sei que você está muito nervoso. Vou respeitar porque sei que deve ter sido muito difícil para alguém tão ambicioso como você, ver que não é a maior autoridade da fazenda.
_ Não venha querer inverter as coisas, Cristina! O modo como você me tratou na frente dos funcionários mais baixos dessa fazenda hoje, só deixa claro a forma como você me vê. Como um nada! Um nada qualquer. Por isso aquele dia estava sugerindo que eu fosse embora, não é? – recordou magoado.
_ Uma coisa não tem nada a ver com a outra, Federico! Você precisa entender que você e eu temos visões diferentes de administração. Mas você não pode querer se sobrepor às minhas ordens quando se tratar da Plantanal porque eu sei o que faço e a fazenda está indo bem, muito bem! Não entendo essa sua atitude se a fazenda está rendendo tanto. O que é? A Olho d’Água não está rendendo, é isso? Por isso você se preocupa tanto com a produtividade da minha fazenda?
_ Cristina, eu jamais tirei um centavo da sua fazenda! O que eu tiro daqui é o salário que você, você determinou para o trabalho que eu executo. E esse salário é condizente com os lucros, foi você que quis assim. – Ofendeu-se Federico.
_ Você é ambicioso, Federico, eu sempre soube disso. Nunca te condenei porque... Bom, é sua maneira de ser, mas esse conflito com José Maria vem me demonstrando um lado seu que...
_ É claro que eu quero que sua fazenda dê lucro, Cristina. Que mal há nisso? Estou zelando pelo seu patrimônio, você é uma mal agradecida! – atacou.
_ Pelo meu patrimônio e por você mesmo, não é? Como você mesmo acabou de lembrar, quanto mais a fazenda lucra, mais você recebe! Além do seu salário você recebe uma porcentagem nos lucros porque é o que eu acho justo. Vamos, Federico! – ela disse desafiante – Assuma sua ambição! Não tente me enganar! Além disso, estando casado comigo, de uma ou de outra maneira você sai ganhando, não é mesmo?
_ Pois sim! – ele disse sarcástico caminhando até a escada. – Alguma compensação eu precisaria ter para sobrelevar a essa vida insuportável! – ofendeu-a de frente. – Algo eu teria que receber para aguentar essa vida com você!
Com esse ataque Cristina recuou. Ela havia instigado a Federico naquela tarde, mas isso ela não esperava ouvir. Virou-se na direção da porta e chorou.
_Pois... se é tão insuportável... Se a vida comigo é tão insuportável você já sabe a atitude que tem que tomar. Se nos divorciamos você vai ter sua parte, e isso vai te deixar feliz, não é? – voltou se para ele. – Nada te prende aqui, você não precisa me cumprir promessa nenhuma!
Cristina começou a andar depressa rumo à saída da fazenda, mas ele a alcançou no meio do pátio.
_ Espera, Cristina! Eu não quis... – disse segurando-a pelo braço, agora um pouco mais brando.
_ Eu não quero ouvir, Federico! Acho que não há a necessidade de seguirmos nos machucando! Solte-me, deixe-me ir!
_ Aonde você vai? Não saia por aí assim, por favor! – ele começou a ficar muito preocupado.
_ Solte-me, Federico. – as lágrimas corriam por seus olhos deixando-a constrangida.
Federico soltou-lhe, impotente. Cristina tomou a direção da saída da fazenda destruída por mais uma briga com ele. Novamente montou seu cavalo e cavalgou por muito tempo. Deu muitas voltas pela Plantanal, foi até a Olho d’Água e, quando se cansou, e imaginou que o cavalo também estava cansado, parou. Estava numa altura do rio longe da cachoeira, mas que ela estava à vista, acima. Sentou-se em uma pedra e, ficou ali, sem noção do tempo pensando.
Percebeu que sua vida era uma sucessão de perdas e que, se ela olhasse bem, Federico era sua única constante, seu ponto seguro em meio à tanto caos. Por que eles não conseguiam se entender? Por que tinham que brigar tanto? Por que nos últimos tempos, cada vez que a insatisfação dele com a vida ao lado dela aparecia, lhe doía tanto? Por que ela agora sentia que nunca devia ter se negado tanto com ele, que devia ter aceitado seu amor?
Havia feito tanto para convencer a Federico e a si mesma que entre os dois não havia nada, mas, chegou em um ponto que não conseguia mais colocar a venda em seus olhos. Sentiu-se numa encruzilhada. Quase podia jurar que estava apaixonada por ele, por isso lhe importava tanto suas atitudes e suas palavras. Olhando o rio, jogou algumas pedras nele, como fazem as crianças, os jovens e, engolindo o choro, disse para si mesma:
_ É chegado o momento! Vou me separar de Federico, já nos machucamos muito.
***
Federico andava de um lado para o outro no quarto. Volta e meia chegava até a janela para ver se Cristina havia chegado, mas não via nenhum sinal dela. Às vezes sentava-se na poltrona, mas logo, a inação o incomodava e ele voltava a se levantar e andar de um lado para o outro e, chegar à janela seguidamente. Até que, já noite alta, viu quando ela adentrou aos limites da sede à pé. Havia ido à estribaria e caminhava com um olhar perdido pelo pátio enquanto ele observava à tudo isso da janela. Pensou em abordá-la no corredor, mas hesitou. O que lhe diria? Como justificaria aquelas palavras? Talvez o melhor fosse não dizer nada, seguir como se nada tivesse acontecido, mas aquilo não era possível.
No meio de sua indecisão, com o corpo colado à porta, e o ouvido atento ao que se passava lá fora, ouviu quando ela cruzou o corredor. Teve a impressão que seus passos se detiveram frente ao quarto dele, mas... certamente era só impressão. Entretanto aquela conversa não podia ficar para amanhã, não podia!
Cristina entrou em seu quarto, tirou suas roupas e foi direto para o banho. As águas abundantes eram um santo remédio para tudo, era do que ela precisava depois de tudo o que havia acontecido naquele dia, depois da decisão que ela havia tomado naquela tarde observando o violento e inexorável curso do rio. Calmamente sentiu a água e a espuma deslizarem por seu corpo, fechou os olhos as águas levarem parte daquela carga. Queria deixar ali todo o peso de sua vida, como se isso realmente fosse possível. Depois de muito tempo saiu da ducha sentindo-se um pouquinho mais leve. Abriu a porta do banheiro e caminhou calmamente até o meio do quarto. Estava de roupão, uma toalha envolta em seus cabelos, lindíssima, extremamente sensual. Ia sentar-se na cadeira em frente à penteadeira quando levou um susto:
_ Eu quero falar com você! – a voz grave de Federico foi totalmente inesperada dentro de seu quarto.
Na poltrona, ao lado de sua cama, no mesmo lugar daquela em que um dia ele passou toda a noite cuidando-a, Federico a estava esperando já há alguns minutos ouvindo o som do chuveiro de seu banheiro. Cristina levou a mão ao coração ao vê-lo ali e ouvir sua voz. Respirou fundo e disse:
_ Sim, Federico, chegamos em um momento definitivo. Vamos conversar!
***
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