Sombras do Passado

5 Capítulo 5 - Assumindo as Rédeas


Notas iniciais
Obrigada aos que estão favoritando e comentando a história!!

***

_ Vem Cristina, sente-se aqui, vai ser uma conversa longa. – chamou Federico.

Cristina sentou-se intrigada por saber o que Federico lhe diria. Mentiria se dissesse que não estava curiosa. Apesar de ser um momento duro, com a morte do pai e a situação de não saber o destino de sua filha ela tinha claro que a morte de Severiano a desobrigava de estar casada com Federico. Que agora, finalmente, ela tinha nas mãos o destino de sua vida como sempre quisera, embora agora essa conquista tivesse um gosto amargo com as mortes de Hernán e Severiano e, sobretudo, com a ausência da criatura a quem havia dado a vida. O sentir que não voltaria a ver sua menininha era o mais terrível para ela.

_ Como você bem disse, nosso casamento não se deu em condições normais. Foi uma articulação de seu pai...

_ Com a qual você esteve totalmente de acordo e até teve influência, Federico, não se faça de vítima! – censurou Cristina.

_ Sim, eu reconheço. Pensamos pouco em você Cristina e... eu também. Agora que eu sei o que, de fato, aconteceu durante esses meses percebo que toda essa situação foi extremamente injusta para você.

_ Então você concorda que não faz sentido que permaneçamos casados? – indagou Cristina acredit­ando, nesse momento, que a proposta de Federico se trataria de concordar com o divórcio ou a anulação do casamento.

_ Não exatamente. Não é isso o que eu estou querendo dizer. – Federico estava com dificuldades para ir direto ao ponto.

_ E o que é? – Levantou-se Cristina novamente, desconfiada, caminhando até a escada.

_ Cristina você mesma disse na nossa noite de núpcias que percebe como eu te olho... Que sabe que não me é indiferente e imagino que isso esteja claro para você...

_ Mas eu não tenho certeza de que esse tenha sido seu único interesse em se casar comigo Federico. E isso eu também deixei claro naquela noite. – Cristina recordou totalmente arredia.

_ Eu estou consciente, Cristina, consciente que você não confia em mim e em minhas intenções. Mas eu quero uma chance. Uma chance para provar que você está errada e conquistar ao menos aquilo que você me recordou que eu nunca tive de você: sua amizade.

_ Amizade? – surpreendeu-se Cristina. – Mas se é minha amizade que você quer porque insiste em que nos mantenhamos casados?

Federico caminhou calmamente até a escada. Ficou de frente para ela, pegou sua mão e sedutoramente e levou-a à boca beijando-a.

_ Você me fez ver que temos que começar pela amizade. É só o que eu quero de você no momento. E em troca dessa chance, dessa oportunidade eu te daria algo em troca. – acenou Federico.

_ O quê? – disse Cristina tirando sua mão da dele levemente.

_ Eu te ajudo a procurar sua filha. Eu conhecia seu pai, os contatos e relações dele. Você me conta como tudo aconteceu e eu posso encontrar elementos para investigar, te ajudar a encontrar sua filha.

_ Encontrar minha filha? – Perguntou sem poder evitar a surpresa.

Essas palavras mexeram fundo com as emoções de Cristina. Era tudo que ela queria e precisava ouvir naquele momento em que suas esperanças estavam tão desfeitas. De fato, ela estava perdida com a morte de Severiano. Sabia que com a morte do pai seria muito difícil encontrar a pista do bebê, mas Federico... Para Federico isso poderia ser mais fácil porque ele era próximo de Severiano.

_ Você não precisa me responder agora. – Disse Federico calmo. – Aliás, depois de tudo o que aconteceu entre nós e com você nos últimos tempos, tudo o que nós não precisamos é de pressa. O pai de sua filha não está e sozinha dificilmente você vai encontrar o paradeiro da criança. Você ainda é só uma menina, Cristina. – observou Federico estranhamente terno. – Deixe-me cuidar de você?

Essas últimas palavras ele disse levantando a mão para acariciar seu rosto, mas Cristina se afastou, desconfiada, arisca como havia se tornado.

_ Eu vou pensar! – sentenciou ela subindo um degrau da escada.

Ao subir mais dois, virou-se para Federico e disse:

_ Mas há dois grandes erros em suas palavras. Primeiro: eu não sou uma menina. Não mais, a mataram! Ela está morta. E segundo: Não espere que eu precise de alguém para cuidar de mim. Se há uma coisa da qual eu estou cansada, Federico, é de que cuidem de mim. Se eu estou sozinha foi uma escolha de Deus, da vida, do destino de quem seja e uma razão há para isso: eu me basto!

Federico olhou como Cristina subia às escadas com tanta segurança e lhe deixava com aquelas palavras tão firmes depois de pouco mais de 12 horas em que havia enterrado seu pai e não pôde evitar sentir admiração. Ela tinha razão quando dizia que não era mais uma menina. Com tantos sonhos e ilusões esmagadas ninguém permanece inocente.

***

Com o passar das semanas Cristina e Federico foram acoplando-se à companhia um do outro, algo que não era simples, principalmente para ela. Cristina foi se acostumando à presença de Federico e até desfrutando-a. Era fato que ela estava sozinha. Sozinha no mundo. Tinha à Vicenta que a havia criado desde a morte de sua mãe, mas havia perdido todas as outras pessoas que a amavam e a quem ela amava e havia amado. Havia perdido a Hernán para a morte, a Severiano para as mágoas e logo para a morte também, à sua filha de quem desconhecia o paradeiro e à Carlota. Sim, também havia perdido à Carlota ou escolhido não tê-la mais como irmã, isso não importava!

Havia confiado em Carlota. Confiado-lhe seus segredos e sentimentos mais íntimos e, em troca, recebeu dela a maior traição de sua vida. Por isso sentia-se uma pessoa sozinha, sem família, desgarrada. Só tinha à Vicenta. E esse isolamento forçado a aproximava de Federico que, em um momento tão conveniente lhe oferecia sua amizade. Claro que ela sabia que a Federico interessava mais, muito mais, mas ela não podia dar-lhe, e se ele conformava-se com isso, não seria ela a contestar-lhe.

Passavam parte do dia juntos, faziam as refeições, conversavam amenidades enquanto ele estava em casa como um casal normal. Não precisou que Cristina lhe respondesse com todas as letras que aceitava sua proposta para que ele entendesse, por sua atitude, que sua resposta era positiva. Ela nunca lhe disse que fosse embora e isso evidenciava que ela concordava com aquele casamento incomum nas condições que ambos colocaram. Ela muito mais que ele. Cristina exigiu um casamento sem intimidade, quartos separados, que não esperasse que ela agisse como uma esposa comum.

Ele não fez exigências, aceitou as dela simplesmente. Trabalhava na fazenda que Cristina herdou do pai, junto com a irmã Carlota, como trabalhava na produção das terras da dele, a Olho d’Água. Desde o momento em que se deu conta que Cristina aceitou sua promessa, passou a empreender uma intensa investigação sobre a filha dela. Cristina também se imiscuiu na busca, era impossível que não o fizesse. Estava em contato com o detetive que Federico contratou, às vezes viajava para a região erma de Villahermosa onde esteve durante sua gestação, e fazia perguntas, mas não encontrava nada.

A criada que a acompanhou, e também havia sido a pessoa quem fez seu parto, desapareceu juntamente com o bebê. Ninguém sabia dela, ninguém a conhecia e a investigação se mostrava, assim, um trabalho muito complicado. Quanto mais o tempo passava, mas aquela dor se enraizava e se alastrava pelo coração de Cristina. Ela não queria, não podia aceitar que viveria sua vida sem a filha, a única pessoa que lhe interessava ter a seu lado. Federico lamentava que as investigações não avançassem com a passagem de semanas. Não lhe doía como a Cristina, mas sim lhe afetava o desalento dela com a ação implacável do tempo que lhe corroía as esperanças.

Desse modo, passaram-se dois meses na pacata cidade de Teapa, onde a vida passava devagar e se em algum lugar a vida passava mais devagar ainda, era na fazenda Plantanal. No meio da manhã de uma quarta-feira, Cristina descia as escadas quando se encontrou com Vicenta.

_ Ia a seu quarto chamá-la, menina. Sua irmã está ao telefone.

_ Eu não vou falar com Carlota, Vicenta. – Respondeu Cristina com calma.

_ Mas filha, ela está sempre ligando e a senhora nunca atende, ela está ficando nervosa. E você sabe que não é bom contrariar sua irmã. – Vicenta tentou amenizar as mágoas de Cristina.

_ A mim pouco importa, Vicenta. Se ela se chateia ou não porque eu não a atendo é problema dela. Eu não quero manter contato com Carlota e eu não vou agir com falsidade, que isso esteja claro para ela desde esse momento e para sempre! – Alterou-se Cristina.

Federico, que havia ido em casa pegar um documento que precisava regist­rar na cidade, ouviu e se surpreendeu com a atitude de Cristina.

_ O que está acontecendo, Cristina? Você não quer falar com sua irmã, é isso?

_ Não quero e não vou, Federico! – Cristina foi direta – Ela insiste em ligar, procurar falar comigo e eu quero que ela entenda de uma vez que eu não vou mais manter contato com ela. Ela não sabe como me alegra que ela tenha ido embora para a Europa. Que não volte nunca mais!

_ Cristina, independente dos conflitos que você tenha com sua irmã há assuntos que você precisa falar com ela. – Ponderou Federico.

_ Você está falando de nossa herança? – compreendeu Cristina.

_ Sim. Essa fazenda e tudo mais o que seu pai deixou...

_ Mas tudo está registrado no testamento. As propriedades e os outros bens estão cada um no nome de quem deve pertencer, exceto...

_ Exceto essa fazenda! – recordou Federico. – Sua irmã recebeu uma cópia do testamento e um advogado de seu cunhado está tratando da transferências dos bens com uma procuração dela para que ela não precise vir aqui.

_ Que informado você está, não, Federico? – observou Cristina com um tom acusador.

_ Claro que sim. As pessoas tratam desses assuntos comigo, Cristina. Falam-me disso na cidade por respeito ao seu luto e por saberem que eu sou seu marido. E eu rendo contas à você de tudo, ou não? – Federico mostrou-se ofendido.

_ Sim, desculpe. – lamentou-se Cristina. – É que eu fico nervosa... ao se tratar de Carlota. Vicenta, diga à Carlota que amanhã entro em contato com ela para tratarmos desses assuntos, sim? – dirigiu-se à empregada.

_ Claro, menina, eu lhe digo. – Concordou Vicenta retirando-se.

_Obrigada. – agradeceu Cristina descendo os últimos degraus da escada.

Federico a observou enquanto ela se sentava em uma cadeira da sala.

_ Então você mudou de ideia? Vai falar com sua irmã? – Questionou curioso.

_ Não! – ela disse seca. – Ah, Federico, se eu pudesse... Se eu pudesse eu venderia essa fazenda ou minha parte para Carlota. Para não ter nenhum vínculo.

_ Ela é sua irmã, Cristina. Você realmente quer cortar todos os laços que existem entre vocês? – Mostrou-se preocupado.

_ Sim! O que aconteceu entre nós foi muito grave, embora, ela aja como se não tivesse feito nada demais. Se alguém lhe pergunta, ela ainda terá a cara-de-pau de dizer que não fez nada demais. Só agiu para meu bem. Pois as boníssimas intenções dela destruíram minha vida. – Não pôde evitar a ironia.

Federico sentiu-se atingido porque quando ela falava dessa vida destruída estava falando dele e de tudo mais com ele. Essas coisas eram tudo o que Cristina repugnava e, nessas coisas, estava incluído ele. Ele representava a vida que ela não desejava e à que havia sido compelida contra sua vontade. E sempre recordaria disso: que havia sido contra sua vontade. Baixou os olhos e, mais uma vez, engoliu o orgulho.

_ Cristina, não diga bobagem, você não pode vender a fazenda.

Cristina estranhou porque aquilo não havia sido a última coisa que ela disse, mas respondeu-o:

_ E por que não, Federico? A mim não me importa fazenda, propriedades, nada!

_ Eu sei. – mostrou que começava a conhecê-la – Mas Cristina, você tem que agir racionalmente. Seu pai te deixou muito bem. Ele era um homem trabalhador, fazia essas terras renderem como nenhum outro fazendeiro na região. Não sei se eu...

Federico interrompeu-se ao ver que Cristina via o brilho da ambição que havia em seus olhos. Ela sempre o acusava de ambição de querer somente à fazenda, de ser isso o que havia visto nela. Mas nem mesmo sua desconfiança podia ser um motivo para que ele não a protegesse.

– Eu e... e você poderemos fazer com que a Plantanal renda como rendia com seu pai. E ele te deixou bem de verdade. Você herdou propriedades, dinheiro, pode levar uma vida tranquila. Mas o que vai te dar lucro e fazer com que você sempre tenha uma vida confortável para oferecer à sua filha é a Fazenda Plantanal. Se você vendê-la ou abrir mão de sua parte para sua irmã estará abrindo mão disso. Além do mais, você precisa de dinheiro. Dinheiro para que a sigamos buscando.

Cristina levantou-se tocada. Se se tratasse apenas dela... Se fosse somente ela, jamais lhe importaria abrir mão de bens e dinheiro especialmente que vinham de seu pai, mas para sua filha... por sua filha ela tinha que manter-se firme. Federico tinha razão! Ela não podia abrir mão de uma fonte de renda tão abundante e segura como a Plantanal. Provavelmente precisaria de recursos para seguir buscando à menina, a busca se mostrava que não seria fácil e, muito menos, barata. Sentou-se novamente na cadeira ao lado de Federico e olhou-o, aflita.

_ Federico, você pode me fazer um favor? Mais um?

Cristina mostrou-se consciente da complacência de Federico para com ela. Mais do que consciente, mostrou-se agradecida o que agradou o fazendeiro.

_ Claro. O que você precisar de mim, Cristina.

_ Eu não quero, não posso falar com Carlota. Prefiro realmente que nossa relação seja indireta. O que eu puder fazer para evitar falar com ela, eu vou fazer.

_ Acho que estou te entendendo.

_ Não vou abrir mão da Plantanal. Não vou abrir mão para ela, não vou vender à minha parte, você tem razão.

_ Fico feliz que você tenha entendido. Para seu próprio bem, Cristina.

_ Então você fala com Carlota por mim? – indagou aflita

_ Cristina, às vezes você...

_ Eu sei, eu sei que às vezes eu falo com desconfiança. A vida me fez assim, Federico. Não consigo confiar por inteiro, mas sou consciente do quanto você têm sido eficiente na condução do trabalho na fazenda e do quanto você tem se mostrado prestativo comigo. Eu disse aquilo no calor da emoção, eu confio em você. – disse pegando a mão dele e colocando entre as dela.

Era a primeira vez que Cristina tinha um gesto de carinho para Federico, ele sentiu o coração disparar, a alma aquecida. Aquele contato o perturbou de tal maneira que ele ficou sem palavras, temeu que tanto nervosismo o delatasse. Levantou-se de impulso e levou à mão esquerda à dele juntando assim as duas mãos dela com as duas mãos dele:

_ Não se aflija, Cristina, não é necessário. Farei o que você me pede. Tratarei com Carlota e seu marido todos os assuntos relacionados à fazenda e à herança de vocês. Você não precisará falar com sua irmã se não quer fazer isso.

_ Obrigada, Federico. – Agradeceu Cristina com os olhos úmidos.

Nesse momento ela se deu conta de como as mãos dos dois estavam unidas. Olhou para as mãos de Federico nas dela, levantou os olhos e encontrou-se com os chamuscantes olhos verdes do marido que olhavam-na abrasadores de desejo. Ele mirava seus olhos e inexoravelmente direcionou o olhar para seus cobiçosos lábios com um anseio instintivo e foi, lentamente, aproximando seu rosto do rosto dela. Cristina sentiu um arrepio percorrer-lhe todo o corpo, um misto de medo e anelo, algo que ela não conseguia entender, fugia de sua compreensão, de tudo o que ela, até então conhecia e fazia parte de sua realidade, de seu mundo. Percebeu que ele ia beijá-la e não conseguiu tirar seus olhos dos olhos de Federico que, até aquele momento, ela nunca tinha reparado como eram tão bonitos.

***