Sombras do Passado

6 Capítulo 6 - Algo fica no ar


Notas iniciais
Obrigada aos que leem e se dão ao trabalho de comentar, sempre são estímulos no andamento da história.

***

Cristina fazia um grande esforço para desvencilhar-se do olhar de Federico que atraía-a, ela não podia negar, não pôde negar para si mesma e isso lhe provocou inquietude. Pela primeira vez se deu conta da beleza daqueles olhos e de como eles olhavam desejosos para ela. Mas aquilo não podia ser, Cristina sabia que não podia ser e Federico precisava saber também. Federico já descerrara seus lábios que estavam muito próximos dos dela quando ela virou o rosto e puxou as mãos rompendo o arroubamento de desejo que havia tomado conta de Federico. Sabia que não lhe era indiferente a ele, sempre teve a certeza de que ele se sentia atraído por ela, via como ele a olhava, mas aquele olhar... Aquele olhar tão diferente de como ela sempre havia visto ele lhe perturbaram.

_ Por favor, Federico! – disse ainda ofegante e assustada com o que havia acontecido.

_ Perdão, perdão, perdão! – ele desculpou-se ao mesmo tempo em que se recriminava passando a mão pelos cabelos.

Havia prometido a Cristina ganhar sua amizade e, na primeira oportunidade de contato que teve com ela, não resistiu e já ia tomá-la em um beijo arrebatador como sempre sonhava. Mas como resistir? Como resistir ao contato de suas mãos? Aos seus olhos aflitos? Ao fato de ela dizer-lhe que confiava nele? Se beijá-la, acariciá-la, fazê-la sua era o que ele mais desejava. Mas isso não era possível. Não imediatamente. Se ele tinha intenção de conquistar Cristina, tinha que ser devagar. Não seria coisa de dias, semanas... Talvez... talvez levasse anos e ele precisaria esperar. E esperaria! Esperaria por Cristina o tempo que fosse. Toda a vida, se necessário.

Cristina caminhou até a entrada da sede da fazenda perturbada, alterada. Como era possível que uma simples tentativa de Federico de beijá-la a descompusesse tanto? No fim, nem sequer havia acontecido nada. Então porque ela se sentia tão desestabilizada, preocupada? O melhor seria não dar importância àquilo. Sim! Aquilo não havia acontecido! Claro, não passava de nada mesmo.

_ Perdoa-me, Cristina. Foi um impulso, eu não queria... Não, eu queria... – Federico falava gaguejando.

_ Tudo bem, Federico. Não foi nada, não aconteceu nada. – Cristina tentava esvanecer os fatos por dentro e por fora – O que você precisa ter claro é que você não pode t­er impulsos como esse!

_ Sim, Cristina, não vai se repetir. Eu só não quero que você ache... Não quero que você pense...

_ Eu não acho e não penso nada, Federico. Não dê tanta importância a um evento tão... insignificante. – Cristina disse com um ar de desdém.

Cristina feriu sem piedade. Talvez por defesa, não queria sentir, seu coração estava fechado, não queria! E não sentiria, não se entregaria. O amor para Cristina era apenas uma lembrança e ela se conformava com isso. O que ela queria de Federico já tinha deixado claro, era sua amizade.

_ Sim, você tem razão. – Respondeu Federico abatido. – Não se preocupe, amanhã eu falo com sua irmã como você me pediu. Só não posso esperar que ela ligue porque tenho muito trabalho. Agora mesmo eu não devia estar em casa, vim só pegar um documento. Eu ligo para ela quando for manhã em Madri.

_ Obrigada, Federico. De novo, muito obrigada. Eu nunca vou esquecer tudo o que você está fazendo por mim! – agradeceu sincera.

_ Imagine. Nada disso me custa nada. – ele disse apressando-se por sair, por fugir.

Como podia permitir que Cristina o tratasse como um idiota? Como podia aceitar que ela o rejeitasse sem nenhum pudor? Federico não conhecia de amor, jamais havia amado nenhuma mulher, a não ser Cristina. E com ela só conhecia o lado amargo do sentimento. A fragilidade e a dor que a rejeição e o desdém provocavam. Isso fazia com que ele se endurecesse, se armasse.

Como mostrar-se frágil, apaixonado diante de uma mulher que deixava claro que não queria nada que pudesse vir dele? Que rejeitaria a todas e a cada uma das incursões românticas que ele ameaçava fazer? Sim, porque nunca havia sido mais do que ameaças, jamais se concluíram positivamente para ele. Definitivamente não podia deixar que sua situação ante Cristina seguisse da mesma maneira.

Ele era um homem, um homem! E sempre havia sido um homem muito audaz para aceitar tantas humilhações e permanecer agindo tão submisso frente à Cristina. A partir daquele momento, a partir dali presentearia Cristina com o que ela tanto queria: distância dele. Não agiria mais como um marido apaixonado, afoito por conquistar a mulher que ama e sim como um homem que tem dignidade e amor próprio. Se Cristina não o queria, outras como Raquel estavam disponíveis quando ele quisesse. Porque sofrer pelas rejeições dela, por quê? Porque ela é única – disse internamente.

_ Cristina nunca mais vai me ver com uma atitude medíocre diante dela, nunca mais!

Ainda que apenas para si mesmo, naquele momento, Federico proferiu um juramento.

***

*2 anos depois*

Cristina chegou de uma caminhada que havia saído para fazer na fazenda por volta das 4 da tarde. Já há algum tempo, sentia-se incomodada com o tédio e o isolamento em que havia se convertido sua vida. Não que sua vida com Federico fosse ruim, mas era incompleta, insuficiente. Eles tinham uma relação cordial e o respeito entre eles era latente. Porém, o que faltava à sua vida ele não havia podido dar ou ela havia recusado o que, efetivamente, dava no mesmo.

A busca de sua filha, sempre frustrante e sem resultados deixavam-na ainda mais fracassada, vazia. Sua vida, apesar de ser como ela havia decidido, era cheia do que ela sempre rejeitou: superficialidade e vazio. Vazio provocado pela nostalgia, pela ausência, ou ausências. Sua vida não era como ela havia sonhado e, a cada dia, ela tinha mais a impressão de que estava passando por ela. Nesse contexto passou a sentir uma imensa necessidade de procurar algo com que preencher-se, ocupar sua mente. Tudo o que ela tinha naquela casa era insuficiente.

Surpreendeu-se ao ouvir a voz de Federico que falava ao telefone. Conseguiu ouvir uma parte do diálogo:

_ Imagine, não é nenhum trabalho, precisando, conte conosco por aqui... Claro que sim, eu lhe digo... Muitos abraços. Abraços à família. Ao Luciano e... à filhinha. – falou com um sorriso. – Às ordens! – Disse encerrando a chamada

Nesse momento ele já havia percebido a presença de Cristina e foi até ela amigável.

_ Estranhei que você não estivesse em casa. – disse puxando-a pela mão para sentar-se no sofá.

Era um aparente convite para que ela falasse com ele, conversassem como faziam muitas vezes quando tinham oportunidade. Apesar das barreiras que Cristina impunha para outros temas. Como amigos, funcionavam muito bem, sempre falavam em confiança sobre tudo, pouquíssimos temas eram tabus entre eles por motivos óbvios.

_ Realmente é de se estranhar, eu não faço outra coisa. – respondeu Cristina descontente.

_ Eu senti frustração em sua voz? – observou Federico

_ Como não sentir? Como não sentir com essa vida? – Lamentou-se Cristina.

_ Não fale assim, Cristina. Você fala como se fosse uma inútil. – Federico tratou de confortá-la.

_ E não é o que eu sou? Não faço nada, Federico, nada além de ver a vida passar nessa fazenda e pensar em minhas perdas. – Disse Cristina com um tom lamentoso.

_ Não perca a fé, Cristina. Nós vamos encontrar sua filha, vamos encontrá-la. – Federico entendeu claramente a raiz daquela frustração. – Um dia eu te fiz uma promessa. Te fiz uma promessa e vou cumprir. Vou colocar de novo sua filha em seus braços ao preço que seja! – Comprometeu-se o fazendeiro.

_ Eu sei. Você não tem culpa desse meu sentimento de frustração. Mas eu não vou parar de pensar nisso se não tiver outra coisa que fazer da vida. 2 anos é tempo suficiente de luto. Já vivi o luto por meu pai, o luto pela perda do meu bebê que vai voltar para mim – disse levantando os olhos buscando encontrar os de Federico que sempre lhe davam força quando se tratava de encontrar a criança – e o tempo do luto por...

Não continuou por respeito a Federico. Não deixou de olhá-lo, mas ele desviou o olhar porque sabia o que ela ia dizer. E mesmo que não dissesse, mesmo que não concluísse a frase, estava em seus pensamentos. Não havia como lutar contra ele, não poderia.

_ Estou muito cansada de não fazer nada, Federico. Não posso passar assim toda minha vida. – Cristina retomou ignorando o ponto onde tinha deixado a frase anterior.

_ À maioria das mulheres, sobretudo nessa cidade, se contentam em cuidar de sua casa, de seu... – Federico começou uma observação comum que também não concluiu.

Entre eles estava ficando comum as coisas pela metade, as palavras não ditas e o pior: engolidas, os silêncios cheios de significados.

_ Sim, Federico, de seus maridos, de suas famílias. Mas nós dois não somos uma família. Somos dois amigos que compartilhamos algumas coisas, não é assim? – Ela indagou mais como uma afirmação que como uma pergunta.

_ É claro! – Federico quis aparentar desinteresse ao falar daquele tema. Há muito tempo ele havia decidido não se rebaixar mais. – E é claro também que você não é uma mulher comum. Isso fica claro a olhos vivos.

_ Você deve ter razão. À maioria das mulheres não aconteceram as coisas que me aconteceram. Isso deve me transformar em uma pessoa incomum, de fato.

_ E, por isso mesmo, admirável! – elogiou Federico. – Para qualquer homem inclusive... um amigo.

_ Obrigada. – Agradeceu Cristina sincera.

_ E você já pensou em algo? – Cristina olhou-lhe int­errogativa. – Do trabalho... – ele esclareceu ao observar a dúvida no olhar dela.

_ Já! – Cristina respondeu totalmente decidida, algo característico dela. – Tomei uma decisão Federico, diga-me se você concorda.

_ Como se você precisasse de minha autorização para qualquer coisa. – Disse Federico com um sorriso de resignação. – Você sabe bem o que faz, Cristina. É a mulher mais decidida que conheço. – Elogiou com um sorriso.

_ Para começar quero te ajudar. Conhecer o funcionamento da fazenda, uma coisa que nunca me interessou, mas sei que, preciso tomar conhecimento como você mesmo sempre me deixa claro.

_ Claro! É sua fazenda, Cristina, seu patrimônio. Você precisa tomar posse dela! Quando você queira.

_ Pois eu quero para já! Para este momento. – Seu ar decidido que tanto encantava Federico não deixava de aparecer.

_ Agora? – ele estranhou. – Está no fim da tarde, nessa hora os trabalhadores estão se recolhendo, não há muito para ver pela fazendo nesse horário. Mas se você quiser, te mostro.

Federico nunca chegava tão cedo em casa. Se os trabalhos na fazenda se encerravam no fim da tarde, o que ele fazia até por volta das 8 da noite quando chegava para jantar? Às vezes ele lhe dizia que ia ao bar do Gabo jogar sinuca, beber um pouco, falar com os amigos. Mas às vezes não dizia nada. Para onde ele iria sempre? – Questionou-se Cristina. Logo se censurou por preocupar-se pelo que fazia Federico. Ele não lhe devia aquele tipo de satisfações, isso não cabia na relação deles.

_ Então podemos começar amanhã de manhã se for do seu interesse. – Cristina sugeriu.

_ Claro que sim. Só louco que eu vou recusar sua companhia. – Não podia evitar ser galante.

_ Então temos um compromisso a partir de amanhã. Você vai me mostrar o funcionamento dessa fazenda e me colocar à parte de tudo, de nossos negócios, certo?

Federico gostou quando ela disse nossos, sorriu.

_ Te espero de manhãzinha. – ele acertou. – Tomamos café juntos e você me acompanha no meu trabalho. Conhece os negócios externos também, enfim, passa a se familiarizar com o trabalho.

***

Federico e Cristina fizeram como haviam acertado na tarde anterior. Depois do café da manhã começaram a Percorrer a Plantanal e Cristina a observar o trabalho feito ali. Aquela fazenda era sua casa desde menina, mas ela nunca havia querido que fosse. Sempre quis “ir embora” dali. Agora, como uma adulta, não mais como uma menina, passou a encarar a vida como era e conformar-se com o destino que lhe cabia. A Plantanal era sua realidade, como Federico também, mas isso era um tema mais complicado.

Depois de ver o cultivo de bananas, Federico levou Cristina para conhecer os armazéns da fazenda, onde estocavam o produto o tempo que fosse necessário antes do transporte. Mostrou-lhe documentos no escritório improvisado ali e Cristina escutava tudo muito interessada. Logo foi chegando a hora do almoço.

_ Vamos voltar para a sede? Está na hora do almoço. – sugeriu Federico.

_ Tudo bem! – Concordou Cristina. – Mas você não precisa vir comigo. Nem sempre você vai almoçar em casa e tampouco tem horários fixos.

_ É pelo trabalho, Cristina. Às vezes eu me distraio nele e almoço por aí, na cidade, na Olho d’Água ou... ou fico sem almoçar.

_ Por favor, Federico, você precisa se cuidar. Você é o administrador de duas fazendas e, só por um dia, eu já me dei conta que não é um trabalho simples. – Preocupou-se Cristina.

_ Claro, não se preocupe. – Ele minimizou a preocupação dela.

Quando subiram à camionete para voltar à sede estiveram parte do caminho em silêncio. Até que Cristina o rompeu com uma curiosidade que a consumia desde a véspera.

_ Federico, ontem eu te ouvi dizer uma coisa que não sai da minha cabeça. – Confessou.

_ Eu? – surpreendeu-se Federico. – O que você ouviu?

_ Você estava falando com Carlota ao telefone, não? – questionou a jovem curiosa.

_ Sim, era tua irmã. Se eu não reporto todas as vezes que falo com ela é porque sei que não é do seu agrado, faço por respeitar sua decisão. – Justificou-se Federico.

_ Eu sei, eu sei, Federico, não é isso.

_ E o que é?

_ Por que você disse: “Abraços à filhinha”?

_ É o que você está pensando, Cristina. – Confirmou Federico. – Eles tiveram uma filha. Parece que conseguiram êxito nos tratamentos que foram buscar na Europa. Finalmente conseguiram o que tanto queriam.

_ Por agora? – Cristina estava totalmente surpresa.

Estranhamente seu coração deu um salto e ela não entendeu bem o que acontecia dentro de si. Sentiu uma emoção inexplicável, algo que gritava dentro dela.

_ Não sei. Não sei em que momento exato eles tiveram esse bebê. – Seguiu Federico enquanto dirigia alheio ao que acontecia dentro de Cristina – É que nessa ligação, falando com ela, percebi que havia uma criança na casa dela. A criança chorou e eu tive impressão que alguém lhe disse: “Sua filha”. Perguntei-lhe e ela me disse que não era adotada, que era filha dela e de Luciano. Que a tiveram de forma natural.

_ Que est­ranho. – Disse Cristina tentando recuperar-se daquela sensação tão estranha. – Ela sempre fala com Vicenta e ela nunca me disse nada. Será que ela não sabe?

_ Talvez saiba. Talvez saiba e evite lhe dizer por causa de sua própria história – Recordou a perda de sua filha – e já que você sempre demonstra que não quer saber nada de Carlota. – Ponderou Federico.

_ É, pode ser por isso. Em outro momento pergunto à Vicenta. Apesar de todas as arestas que eu tenha com Carlota, eu gostaria de conhecer minha sobrinha. – disse com um sorriso terno no rosto.

_ Em algum momento ela e o marido devem vir. Afinal, afinal essa fazenda também é dela, não?

_ Sim. – Concordou Cristina divagando.

Cristina ficou muito tempo refém dessa distração e não pôde evitar. Não entendia porque seu coração havia se alterado tanto ao falar da família da irmã. Será que sentia saudade de Carlota e necessidade de perdoá-la? Talvez... Sim, só podia ser isso. Talvez devesse retomar a relação com Carlota.

***

Durante vários dias Federico e Cristina seguiram essa rotina. Ele deixou de desaparecer nos fins da tarde, sobretudo quando estava dedicado à ensinar-lhe o trabalho da fazenda. Nenhuma distração lhe agradava tanto do que a companhia de Cristina. Cerca de um mês depois os dois jantavam e conversavam sobre o trabalho.

_ E, falando da fazenda, desculpe-me não vir almoçar sempre com você, Cristina. Quando nos separamos nos afazeres, nem sempre eu consigo vir. Às vezes o trabalho é mais pesado e tem a Olho d’Água.

_ Eu sei. E imagino que se administrar uma fazenda já é complicado, administrar duas deve ser ainda mais difícil. – Cristina mostrou-se agradecida com o trabalho que o marido fazia. – A partir de agora vamos dividir essa carga.

_ Imagine. Eu estou acostumado. É o trabalho que eu sei fazer e que eu gosto. Isso é fundamental para que o façamos bem. – observou Federico.

_ Sim... Precisamos fazer um trabalho que gostamos. – Cristina comentou um tanto amarga.

_ Por que você diz isso? Você não está satisfeita com o trabalho na fazenda, Cristina? Ele não têm conseguido te preencher, te ajudar a livrar-se daquela frustração que te incomodava? – Como sempre, Federico mostrou-se interessado nas ideias de Cristina.

_ Eu nunca sonhei com esse trabalho, Federico. Ele me foi imposto. – Federico levantou os olhos surpreso. – Não por você, pelo destino, pela vida. Além do trabalho na Plantanal que não vou abandonar por mim e por minha filha, decidi que vou estudar, Federico. Estive vendo um curso para formar professores na cidade. Não é muito longo e será algo que não só eu farei com gosto, mas também algo útil. É uma profissão que eu sempre admirei. Sempre admirei as mulheres e homens que dedicam sua vida à ensinar, sobretudo às crianças. E na nossa fazenda há tantas crianças que precisam de aulas, que vão mal na escola, e algumas que os pais não valorizam os estudos não as mandam para a escola. Alguém me disse uma vez que um dia ensinaria todas essas crianças... mas... Bom, ele não pôde.

“Alguém!” – pensou Federico. Claro! Ela só pode estar pensando nele. Essa deve ser a profissão desse maldito que nunca vai sair da cabeça dela. Nem morto! Nem mesmo morto ela deixa de falar e pensar nele com admiração. Nunca serei páreo para ele, como competir com um fantasma, alguém que sempre vai ser perfeito porque não está aqui para mostrar e viver seus defeitos? – Federico lamentava-se, impotente.

_ Você ouviu, Federico? – Cristina estranhou o silêncio dele.

_ Sim, claro que sim. Me parece... Me parece bom, Cristina, faça o que você achar melhor!

Cristina não entendeu a rispidez de Federico e temeu continuar a conversa. Talvez ele tivesse adivinhado. Talvez ele tivesse percebido que ela falava de Hernán. Cristina nunca falou o nome ou a profissão de Hernán para Federico. Nisso ela o respeitava. Sentia que seria um desrespeito, uma ofensa falar do único homem que havia ocupado e ocupava seu coração para ele, conhecendo seus sentimentos. Mas será que ele teria adivinhado? Será que estava tão claro assim, mesmo depois de tanto tempo o modo como ela via seu grande amor do passado, o grande amor de sua vida?

_ Aconteceu alguma coisa, Federico? Você ficou diferente. – Ela não pôde evitar indagar, interessavam-lhe as impressões de Federico.

_ Qual a profissão dele, Cristina? Qual a profissão do pai de sua filha? – ele indagou ríspido já totalmente alterado da expressão amena do início da noite.

_ Por que essa pergunta agora, Federico? – Cristina fingiu não entender.

_ É dele que você está falando, não é? – ele disse alterando-se batendo na mesa com violência surpreendendo Cristina – É dele que você fala com tanta admiração, não é mesmo? Claro, para você ele sempre vai ser perfeito! Ele não vai ter defeitos porque você o idealizou, Cristina. Esse maldito covarde desgraçado não era perfeito como você pensa, será que você não vê? – gritou.

_ Não fale assim dele, Federico, você não tem o direito! – Cristina reclamou exaltada.

Exaltada e surpresa pela briga que se formava entre eles.

_ E quem tem? Quem tem o direito? Ninguém não é mesmo? Porque esse imbecil não existe na realidade, está morto, Cristina, morto! Quando você vai entender isso? – gritou Federico com desespero.

_ Você está sendo cruel, Federico! – Ela reclamou ameaçando levantar-se da mesa.

Federico reagiu a esse movimento segurando-a com violência pelo pulso. Cristina olhou aterrada para a mão dele apertando forte seu pulso enquanto ele olhou-a nos olhos com fogo e voltou inquiri-la alterado:

_ Você não vai sair daqui sem me dizer qual era a profissão dele! – gritou sem nenhuma intenção de soltar o braço de Cristina.

***