Sombras No Espelho: Parte 2 - A Criança
17 Um Encontro
Notas iniciais
Boa leitura ^^
― Meu... sósia? ― Rodrigo estava evidentemente atordoado.
Nuvem o encarou com pena. Sabia que ele não tinha culpa disso. Ninguém tinha culpa disso na verdade. Apenas, talvez, a Morte.
― Está me dizendo, então, que ela só se apaixonou por mim porque eu me parecia com o ex dela? ― Rodrigo perguntou num tom quase inaudível. Tinha medo da resposta.
― Isso eu já não sei ― respondeu ela erguendo as sobrancelhas e voltando os olhos para o horizonte novamente. ― E acho que só vai ter essa resposta conversando com ela.
O bruxo pareceu pensar no assunto e então voltou o olhar para a esposa, que retribuiu com um olhar confuso. E se essa fosse realmente a verdade? E se ela não o amasse por quem ele era e sim pelo que ele se parecia? O que ele faria dali para frente? Como viveria sem ela, caso isso viesse a ocorrer?
Então o bruxo tomou uma decisão. Falaria com ela naquele exato instante.
Porém, antes que pudesse dar o primeiro passo na direção dela, sentiu a bússola vibrar em sua mão. Aquilo teria que ficar para mais tarde.
Então ele abriu o instrumento, revelando um ponteiro desgovernado. Era um sinal.
― Chegamos ― disse ele virando-se para Nuvem.
A Senhora Eterna sorriu e então parou a embarcação.
― Trovão, chegamos! ― gritou ela para o irmão. ― Precisamos descer!
O Senhor Eterno se levantou num salto e caminhou até a irmã, sendo seguido por Guerra e Morte.
― Hora de conhecer a criança? ― perguntou ele empolgado.
Nuvem assentiu sorrindo e então fez algo estranho. Por um instante, Rodrigo achou que ela estivesse passando mal, mas depois notou que ela estava encenando alguma coisa. E só depois o bruxo entendeu de que se tratava de uma música.
― O que ela está fazendo? ― perguntou Rodrigo preocupado.
― Ele sempre canta quando acontecem coisas boas ― respondeu Trovão de braços cruzados enquanto encarava a irmã de sobrancelhas franzidas. ― Mas dessa vez está dando medo mesmo.
A música que Nuvem cantava era ritmada, rápida e tinha uma rima muito boa. Mas Rodrigo achou que aquele tipo de música era humana demais.
― Agora podemos ir ― disse ela sorrindo quando finalizou.
Trovão, erguendo as sobrancelhas e descruzando os braços, fitou cada um na embarcação e então pronunciou com voz firme e grave:
― Per tonitrui, descendere!
Num piscar de olhos, o cenário à volta deles havia mudado completamente. Agora se encontravam numa longa rua, em frente a uma casa verde-limão de dois andares.
― Acho que é aqui ― disse Rodrigo olhando o ponteiro ainda desgovernado.
Depois o bruxo ergueu o olhar e encarou a esposa. Ainda se sentia aflito por conta da revelação que apertou seu coração com uma mão gelada.
― Então, o que estamos esperando? ― perguntou Guerra alternando o olhar entre Rodrigo e Morte. ― Vamos entrar!
Nuvem deu alguns pulinhos e segurou a mão do irmão, o puxando em direção a casa. Guerra franziu as sobrancelhas, ainda encarando Rodrigo, e depois se voltou para a casa, seguindo Trovão e Nuvem. Júlia encarou Rodrigo e franziu as sobrancelhas.
― Amor, está tudo bem? ― perguntou ela com doçura.
― Claro ― respondeu ele e forçou um sorriso. ― Vamos, temos que entrar! ― e puxou a namorada em direção a casa.
Guerra logo apertou a campainha, que soou como uma espécie de trepidar elétrico. Porém, não obtiveram nenhuma resposta. A Senhora Eterna repetiu a ação e logo uma voz feminina perguntou:
― Quem são vocês e o que querem?
― Sou Rodrigo, enviado da Terra ― se pronunciou o mestiço.
A porta se abriu rapidamente. Do outro lado estava uma mulher de cabelos loiros e assustados olhos verdes.
― Enviados da Terra, é verdade? ― perguntou ela.
― Sim, senhora ― respondeu Guerra lhe estendendo a mão num cumprimento. ― Sou Guerra, filha da Terra.
― Sou Adriana, mãe da criança ― respondeu a mulher lhe cumprimentando. ― Mas entrem. Não é seguro aí fora.
Assim que todos entraram, Adriana os guiou até a cozinha. Lá, Matheus, Lucas, Fernanda e Marcelo estavam reunidos à mesa.
― Foi assim que achamos vocês ― disse Lucas, até então desconhecido pelos enviados da Terra.
― Quem são esses? ― perguntou Morte intrigada. ― Tem cheiro de mestiços.
― Bem, esses são Lucas, Matheus, Fernanda e Marcelo ― disse Adriana enquanto cada um fazia um gesto. ― Lucas e Matheus são mestiços, Fernanda é minha guardiã e Marcelo é meu marido. ― E fez uma pausa para encará-los. ― E vocês?
― Guerra ― disse ela apontando para si. ― Morte, Trovão, Nuvem e Rodrigo. ― E então encarou Adriana. ― Rodrigo é o mestiço da profecia. Ou melhor, era até descobrirmos sobre seu filho.
Adriana franziu as sobrancelhas.
― Filho? ― perguntou ela confusa. ― Estão falando da Natália?
Guerra parecia ofendida.
― O mestiço é uma menina? ― perguntou Guerra incrédula.
Adriana cruzou os braços e ergueu uma das sobrancelhas.
― Qual é o problema?
― Ora, nenhum ― disse Guerra dando de ombros. ― Mas, quantos anos ela tem?
― Dez ― respondeu Adriana sem entender direito.
Rodrigo estava chocado, boquiaberto. A criança da profecia era uma menininha de dez anos! Algo estava errado, não se encaixava.
― E onde ela está agora? ― perguntou Trovão com sua pose e voz séria.
― Tá dormindo ― respondeu Adriana simplesmente. ― Curou uma menina que veio junto com os mestiços.
― Curou? ― perguntou Morte assustada. ― Sem usar sanationem?
A bruxa assentiu com um sorriso orgulhoso.
― Isso é impossível! ― completou Júlia abismada.
Guerra somente sorria. Esse era apenas um sinal de que ela seria a garota certa. Nuvem ouvia e tentava assimilar tudo. Parecia surreal. E talvez fosse mesmo.
― Podemos apenas vê-la? ― perguntou Guerra quase emocionada.
Adriana voltou o olhar para Fernanda e Marcelo. Os dois assentiram levemente.
― Claro, venham comigo ― respondeu a bruxa e começou a guiá-los para o corredor, onde ficava o quarto da menina.
Assim que a mulher abriu a porta, arquejou e começou a tremer violentamente. Os outros entraram rapidamente, pensando que algo terrível tinha acontecido. E só quando olharam para a cama entenderam o que se passava.
Deitado ao lado da menina, afagando seus cabelos loiros, estava um Senhor Eterno que Rodrigo conhecia muito bem.
― Sonho?! ― perguntou ele abismado.
O Senhor Eterno o encarou com lágrimas nos olhos e um sorriso de pura felicidade no rosto. As asas, alvas como a neve, estavam paralisadas sobre a menina como uma espécie de proteção.
― Eu encontrei minha menina ― disse ele entre soluços. ― Encontrei minha menina. ― E desviou o olhar de volta para Natália.
Rodrigo franziu as sobrancelhas, assimilando tudo. Depois encarou Adriana, que ainda estava terrificada.
― Você o conhece? ― perguntou o mestiço.
― Eu já vi ele em um dos meus sonhos ― respondeu a bruxa entre soluços violentos.
― Então... ― disse Guerra finalmente entendendo tudo o que se passava ali. ― Não é possível... A menina é mestiça de bruxa com Senhor Eterno.
Adriana se permitiu cair ajoelhada no chão, chorando desesperadamente. Logo Fernanda, Marcelo e os outros dois mestiços apareceram na porta, assustados.
― O que tá aconte... ― disse Fernanda e então viu Sonho. ― Ai meu Deus! Não me diga que... ― e Rodrigo assentiu, tristemente. ― Isso não vai acabar bem.
― Meu amor, o que foi? ― perguntou Marcelo tomando a esposa nos braços e afagando seus cabelos carinhosamente. ― O que aconteceu, querida?
Porém a mulher não conseguia falar nada. Só soluçava e chorava como nunca tinha feito antes.
― Aconteceu que eu sou o verdadeiro pai da Natália ― disse Sonho sem pensar duas vezes. ― Não você.
Marcelo recebeu aquilo como um soco na barriga.
― O quê? ― perguntou e encarou a esposa, que só conseguia dizer: desculpa, desculpa, desculpa. ― É verdade, então?
Adriana chorou ainda mais. Sentia uma culpa terrível pesar seu coração. Foi quando a menina acordou, piscando lentamente.
― Ela acordou ― sussurrou Nuvem um tanto terrificada com toda aquela cena.
A menina, quando focalizou a mãe chorando, franziu as sobrancelhas e se sentou bem devagar na cama.
― Mãe ― disse ela suavemente. ― Não se assuste, nem chore. Eu já sei de tudo e entendo a minha missão para com toda a sua raça. ― Adriana engoliu em seco, parando de chorar imediatamente. ― Pai ― mas Marcelo não a encarou. Achava que não merecia mais esse título. ― Sei que está pensando que não merece mais ser tratado assim, mas foi você quem me criou. Eu vou, para sempre, te considerar o meu pai. ― E então Marcelo a encarou, já com os olhos marejados. ― Já os outros. ― E os encarou, um a um. ― Já está na hora de fazer alguma coisa por seu povo. Vamos acabar logo com isso e restabelecer a paz.
Rodrigo encarou a menina e logo uma onda terrivelmente calorosa e delicada passou por ele. Era como receber o abraço de sua mãe novamente. E, por um segundo, ele não se importou mais com Júlia ou com o que ela pensava dele. Só queria ir para a guerra e enfrentar aqueles malditos Senhores Eternos.
A menina então se colocou de pé, acompanhada de Sonho, e sorriu.
― Vamos, meus queridos ― disse ela infantilmente enquanto sorria. ― Vamos começar logo essa guerra.
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