Sombras No Espelho: Parte 2 - A Criança
1 Um Pesadelo
Notas iniciais
Espero que gostem ^^
A menina revirava na cama incessantemente.
Por que ficava tão preocupada com provas que poderiam acontecer no dia seguinte se havia estudado tanto? Só tinha dez anos, não devia ficar tão preocupada com isso. Se sairia bem, e ela tinha essa idéia na cabeça.
Cansada, bufou uma vez e abriu os olhos encarando o teto azul-escuro de seu quarto. Outra noite sem dormir. Não conseguia pregar os olhos há três noites. E, ela sabia, não era por culpa das provas. Era por culpa dos pesadelos. Sempre iguais: caindo de um prédio altíssimo e acordando logo quando ia se espatifar no chão de concreto abaixo. Balançou a cabeça negativamente e se levantou, passando as mãos pelo cabelo. Caminhou para fora do quarto, passando pelo corredor, e indo até a cozinha. Abriu a geladeira, pegou uma jarra de água e se serviu. A água gelada cortando sua garganta. Voltou a colocar a jarra na geladeira e ajustou a potência na porta para baixa. Depois voltou para o quarto e se deitou novamente. Até quando eles iam permanecer? Os pesadelos. Fechou os olhos, decida a dormir e imediatamente caiu no sono.
Sentia, ainda com os olhos fechados, uma brisa fresca roçar seu rosto. Abriu os olhos lentamente, ainda sonolenta. A primeira coisa que notou foi a enorme cor verde-clara acima de si. E notou também uma movimentação na cor, que tremulava entre o dourado e verde. Assim que seus olhos tomaram foco, notou que se tratava de folhas. Folhas verdes de uma árvore altíssima. O tremular das folhas era causado pela brisa fresca que ainda roçava em seu rosto. A menina sorriu, agradecendo, silenciosamente, por não estar caindo de um prédio. A sensação de estar ali era bem agradável. Como se estivesse envolta em seus cobertores quentes e confortáveis. Esticou o braço e tocou na grama verdíssima que estava sob si. Era macia. Não espetava como as gramas que via nos jardins por aí. Ela então voltou a fechar os olhos e a aproveitar aquele sonho maravilhoso.
― Olá ― ouviu uma voz vinda de cima de sua cabeça.
A menina ergueu a cabeça e voltou o olhar para lá, lentamente. Uma menininha, que parecia ser ainda mais nova que ela, estava parada sobre sua cabeça, a encarando com um sorriso infantil.
― Olá, pequena ― disse a menina ainda deitada sobre a grama.
A criança nada respondeu, somente sorria e a encarava. A menina então se sentou na grama e encarou a criança, curiosa.
― Olá, meu nome é Natália ― disse a menina ainda encarando a criança e colocando um sorriso amigável no rosto. ― Qual é o seu nome?
A criança ainda sorria, sem nada dizer.
― Eu... ― disse Natália ainda sorrindo, mas logo notando algo estranho na criança.
Cabelos longos e loiros; pele clara; olhos pequenos e castanho-claros; a boca fina e avermelhada. Usando um pijama branco com desenho de estrelas sorridentes e amarelas. Aquela não era uma criança qualquer. Era a própria Natália quando mais nova. Devia ser ela mesma quando tinha cinco anos.
― Eu sou você, Natália ― disse a criança inocentemente. ― Vamos brincar? ― E, num piscar de olhos, a criança já estava perto da menina.
― Não, obrigada ― respondeu a Natália mais velha. ― Eu preciso voltar ao meu mundo, desculpe.
― Você não pode voltar agora ― disse a Natália mais nova. ― Só quando eu quiser. ― Sua voz havia ficado muito mais grave agora.
E então a criança caiu com a face sobre a grama, sem tentar bloquear a queda. A Natália mais velha se levantou e começou a caminhar pelo bosque para bem longe daquela criança. Que tipo de sonhos era esse? Que tipo de lugar ela se encontrava? Foi quando viu um corvo negro a encarando, sobre um galho próximo. Ela encarou o animal e engoliu em seco. Por que ele a encarava? Natália tentou parecer indiferente, fingindo não vê-lo. Mas aqueles grandes olhos verdes fitados nela a estavam queimando. Ela se abaixou, pegou uma pedra e atirou contra o animal, que alçou vôo para longe dali.
― Que droga de sonho é esse? ― se perguntou ela num sussurro. ― Por que eu não acordo logo?
Olhou em volta, intrigada com o bosque. Era tão silencioso que chegava a ser sombrio. Engoliu em seco novamente e continuou a caminhada para longe da criança caída sob a árvore. Foi quando se deparou com outro animal. Pêlo cinzento, olhos vermelhos como rubis e as patas cobertas com sangue. Um lobo cinzento! Natália ficou congelada. Não conseguia se mover. O animal a encarava e ela não conseguia nem sequer gritar. Nem mesmo desviar o olhar. Ele era hipnotizante. Então, o lobo mostrou as presas, rosnando. Natália, mais que depressa, despertou para o que estava acontecendo e correu na direção oposta ao lobo. Só então se dando conta de que corria de volta para a Natália mais nova. Passando pela mesma árvore, notou que ela não estava mais lá caída. Parou para constatar esse fato e escutou algo atrás dela. O lobo se aproximava. Continuou a corrida, tropeçando várias vezes em raízes e escorregando em folhas úmidas ou cobertas de limo. De vez em quando, virava-se para trás, para ter certeza de onde o lobo estava, mas nada conseguia ver. Então parou, ofegante e se escondeu atrás de uma árvore. Ouviu o som das patas do lobo passar correndo pelo local onde estava. Inspirou aliviada e se sentou, tentando acalmar o coração.
― Me procurando, gracinha? ― ouviu uma voz ao seu lado.
Natália virou o rosto rapidamente, somente para constatar que o lobo a encarava com uma espécie de sorriso maligno. Então, ele a atacou.
A menina despertou, ofegante e suando frio, em seu quarto.
― Querida, o que aconteceu? ― perguntou sua mãe preocupada.
Natália não conseguia responder. Estava assustada demais. O que havia sido aquelas coisas? Que sonho fora aquele?
― Eu e seu pai escutamos gritos do seu quarto e eu vim ver o que era ― disse ela. ― Ele deve tá na cozinha, pegando um copo com água e açúcar para você.
Natália assentiu e abraçou a mãe. A menina notou que estava tremendo. Mas não se importava. Começou a chorar no abraço da mãe, a apertando cada vez mais.
― Aqui, a água ― disse seu pai suavemente entrando no quarto e lhe entregando o copo com água.
Natália pegou o copo e o bebeu inteiro, devolvendo-o para seu pai.
― Filha, o que está acontecendo com você? ― perguntou sua mãe preocupada enquanto afagava sua cabeça. ― Já é a terceira noite que isso acontece.
A menina nada disse.
― Precisamos dar um jeito nisso ― disse seu pai. ― Não gosto de ver você assim. Não gosto que minha menininha fique assustada toda noite.
E um silêncio se apossou do quarto. Um silêncio profundo, somente quebrado quando Natália fungava.
― Podíamos levar ela ao psicólogo ― sugeriu sua mãe. ― Você quer ir, querida?
A menina assentiu e agradeceu a sua mãe, que lhe deu outro abraço apertado.
― Podem ficar comigo hoje? ― perguntou ela ainda fungando. ― Não quero dormir sozinha de novo.
Sua mãe e seu pai se entreolharam e assentiram.
― Tudo bem, querida ― disse sua mãe se deitando com ela. ― Só chega um pouquinho pra lá.
A menina deu espaço para seus pais pudessem deitar com ela e fechou os olhos, repousando a cabeça sobre o peito da mãe, que afagava seus cabelos e cantava uma canção de ninar. Desse jeito, Natália se sentiu protegida. Seus pais eram as pessoas mais importantes em sua vida e ela sabia que podia contar com eles para tudo. Inclusive com seus pesadelos malignos.
― Obrigada, mãe ― disse a menina. ― Obrigada, pai.
― Não precisa agradecer, querida ― disseram seus pais em coro, sorrindo.
E assim, os três pegaram no sono.
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