Sombras No Espelho: Parte 1 - Portais ~Reescrito~
2 O mestiço e seu treino
Notas iniciais
― Você não tem chance, Rodrigo Diem Nox ― o adversário lhe disse enquanto fazia seu chicote incandescente se chocar contra o chão, levantando várias fagulhas pelo ar. ― Desista enquanto tem tempo.
Rodrigo o encarou com um meio sorriso. Conhecia seu adversário apenas por observá-lo durante suas lutas anteriores. Era bom em lutas que usavam a força, mas não era um bom estrategista. Rodrigo poderia usar isso contra o adversário e a seu favor, o levando à vitória.
― É o que veremos, Jorge ― ele sussurrou para si mesmo e, drenando a energia do poderoso Sol de seu mundo, se preparou.
O inimigo rodou seu longo chicote e partiu na direção de Rodrigo, que deu uma piscadela e abriu os braços, o que inspirou ainda mais a fúria de Jorge. Ele corria o mais rápido que conseguia, levantando grande quantidade de areia no caminho. Rodrigo, por outro lado, parecia estar tão calmo quanto no início da batalha. Quem assistia, não previa um bom final para aquela cena. Não parecia ser possível que Rodrigo venceria uma luta corpo a corpo com o brutamonte que partiu em sua direção como uma locomotiva. Porém, no momento da colisão, o mais magro usou de sua vantagem: ser mais rápido. Ele se abaixou no último momento, se encolhendo como um obstáculo e esticando as mãos para segurar a perna do outro, fazendo-o tropeçar em seu corpo e rodopiar pelo ar antes de cair pesadamente sobre o chão, levantando uma nuvem de terra.
― Você viu?! ― perguntaram ao redor dos dois. ― Ele foi muito mais rápido! Que incrível!
O Diem Nox se levantou e limpou a poeira de seu traje, com apenas uma dor na perna, onde o outro tropeçara nele. O adversário, por sua vez, se levantara lentamente enquanto cuspia areia e observava o braço aranhado.
― Eu vou te matar! ― Jorge gritou enquanto se punha de pé novamente.
― Vem tentar a sorte ― Rodrigo provocou abrindo os braços novamente.
O outro soltou um grito de guerra e partiu novamente na direção de Rodrigo, desta vez rodando seu chicote várias vezes no ar enquanto milhares de fagulhas voavam para todas as direções. O Diem Nox sabia que não poderia usar a mesma estratégia desta vez, mas, àquela altura, já tinha planejado algo novo.
Quando o brutamonte já estava próximo o suficiente para que as fagulhas o acertassem, Rodrigo fez um gesto com a mão, fazendo o outro vacilar nas próprias pernas e cair pesadamente sobre a terra novamente.
― Eu não posso mexer minhas pernas! ― ele gritava em desespero enquanto tentava se erguer com as mãos.
Rodrigo sorriu e foi se aproximando aos poucos do inimigo.
― Você nem mesmo percebeu, não é mesmo? ― ele perguntou e deu uma risadinha maligna. ― Quando você tropeçou em mim, eu implantei duas dessas em você, uma em cada perna ― e mostrou em suas mãos, entre seus dedos, agulhas transparentes quase invisíveis. ― Com um movimento seu e uma ordem minha, suas pernas tornaram-se inválidas... Nada irreversível, não se preocupe. Mas agora temos que tratar de algo mais sério. ― E encarou o inimigo. ― Você se rende? Ou eu terei que terminar o trabalho?
Jorge deu outro de seus gritos, mas continuou a não conseguir se erguer. Pelos seus olhos, Rodrigo pôde ler, ele se viu impotente, coisa que nunca sentira antes. Pelo menos não ao portar seu chicote incandescente.
― Ops ― o Diem Nox lembrou-se da arma do inimigo, lançando outra de suas agulhas na direção da mão que a segurava, fazendo o outro desabar no chão por completo. ― Se rende?
Ele bufou e concordou com a cabeça.
― Eu me rendo, está bem? ― disse ele enquanto uma lágrima de ódio escorria pelo seu rosto.
― Tudo bem, então ― Rodrigo disse e estalou os dedos, fazendo as agulhas desaparecerem de vez, ― Pode se levantar?
O outro primeiramente se sentou, ainda abalado pelo que acabara de acontecer e com arranhões pelo corpo todo. Rodrigo se aproximou dele e lhe estendeu a mão, o ajudando a se levantar.
― Ótimo treinamento, Jorge ― ele disse e sorriu. ― Mas você deve estar preparado para o inimigo. Nunca se sabe o que ele pode usar contra você.
― Com certeza, mestre ― ele disse e fez uma leve reverência. ― Muito obrigado por me ensinar.
― Não tem de que ― O Diem Nox disse com um sorriso no rosto. Depois se virou na direção da plateia. ― Alguém pode dar sanationem para ele, por favor?
Três pessoas que lhes assistiam ampararam e acompanharam Jorge para fora da arena de terra enquanto uma quarta pessoa se aproximava de Rodrigo com os braços cruzados e uma expressão convencida.
― Mandou bem, mestiço ― ela disse com certa surpresa. ― Não esperava que o monstruoso Jorge pudesse mesmo te vencer, mas foi uma boa batalha.
― Sim, o Jorge foi muito bem para um iniciante em batalha ― o Diem Nox disse e esboçou um sorriso orgulhoso.
― Ele teve o melhor treinador ― ela disse e também sorriu.
Rodrigo, ainda sorrindo, encarou a outra. Era uma solinu da família Oceani, o que significava que ela tinha cabelos negros como a noite e olhos azuis como o céu. Significava também, e principalmente, que ela usava a água como força motora para fazer magia. Seu nome era Carolina e ela e Rodrigo se conheciam desde que nasceram. Os dois eram totalmente opostos. Carolina gostava de usar roupas coloridas e leves, enquanto Rodrigo gostava de roupas escuras e pesadas. Carolina preferia doce e Rodrigo salgado. Mas, de alguma forma, eram opostos que se davam muito bem.
― Rodrigo! ― alguém entrou gritando seu nome na arena.
Carolina e ele olharam na direção da voz e viram o mensageiro. Ele estava ofegante e um tanto suado, aparentando ter corrido muito para chegar até ali, então foram ao seu encontro.
― O que aconteceu? ― Rodrigo lhe perguntou de forma direta.
― Mestre ― o mensageiro lhe fez uma leve reverência, ainda meio ofegante. ― Temos uma nova aliada. Acabou de chegar às portas.
― Nova aliada? ― o Diem Nox perguntou confuso. ― Larissa não me informou de nenhuma nova aliada com chegada marcada para hoje.
― É porque, mestre... Veja bem ― ele ofegou um pouco mais antes de conseguir completar: ― Não é uma aliada qualquer. É uma Senhora Eterna.
Rodrigo arregalou os olhos. Quando Eternos se aliavam à sua causa era sempre uma experiência angustiante. Nunca se sabia se poderia ser uma experiência boa, com um Eterno de boas intenções, ou ruim, com um traidor mandado por seu inimigo. Só o tempo poderia dizer isso. E a cautela seria o bem mais precioso deles enquanto isso aconteceria.
― Eu vou até ela ― o Diem Nox disse respirando fundo. Depois se virou para sua amiga. ― Carolina, mantenha as pessoas da arena a salvo. Confio em você. Vou tentar analisar as intenções dessa nova Eterna.
― Deixe comigo ― Carolina assentiu séria.
Então Rodrigo e o mensageiro saíram da arena e se puseram a andar pelos corredores da mansão ao redor dela. Os dois estavam bem nervosos, mas só o mensageiro demonstrava. Rodrigo havia sido treinado desde pequeno para não demonstrar nada além do que ele queria que as outras pessoas vissem e, naquela hora, ele não poderia deixar mais ninguém ao seu redor nervoso.
Ao se aproximarem da porta, o Diem Nox engoliu em seco e respirou fundo, se virando para seu mensageiro.
― Pode voltar e avisar à Larissa que temos uma nova aliada ― ele disse. ― Eu vou enrolar ela um pouco e talvez fazer um tour pela mansão.
― Um tour pela mansão, mestre?!
― Preciso ver como ela reage às diferentes áreas que temos aqui. Talvez eu descubra seu interesse na nossa resistência.
― Tudo bem ― o mensageiro disse e fez outra reverência. ― Boa sorte, mestre. ― E correu de volta para dentro da mansão, indo ao encontro de Larissa.
Rodrigo, por sua vez, voltou a repirar fundo e pôs as mãos sobre as grandes portas duplas, as empurrando de uma vez só. A claridade do lado de fora quase o cegou, mas quando seus olhos se acostumaram, percebeu uma grande carruagem negra e dourada parada à entrada. Puxando-a estavam dois guepardos negros do tamanho de rinocerontes, que tinham seus olhos verdes cravados em Rodrigo.
Nas duas torres de vigilância, localizadas na frente da mansão, tinham dois aliados encarando a visitante. Estavam obviamente tensos, mas tentavam se controlar para reagir da maneira certa caso a Eterna em questão fosse uma inimiga.
― Eles precisam se acalmar ― disse a Eterna que Rodrigo só notara naquele momento.
Tinha a pele branca como mármore esculpido e um cabelo tão negro como a escuridão mais profunda. Seus olhos eram igualmente escuros e delineados por uma maquiagem leve e preta. Apesar do Diem Nox não ter visto nenhum sinal de batom, a boca da Eterna tinha um tom vivo de vermelho, como uma maçã madura. Estava usando um vestido preto de renda que ia até um pouco acima do joelho. Na cabeça estava um grande chapéu de feltro, também preto. Os coturnos de couro que usava só davam um último acabamento no visual gótico da mulher de dois metros que encarava Rodrigo com um ar divertido.
― Você deve ser o Rodrigo Diem Nox, não é? ― ela o acordou de seus devaneios. ― O solinu mestiço de quem todos falam.
Ele alternou o olhar entre os dois aliados nas torres e, desconfiadamente, desceu a pequena escadaria da mansão, indo na direção da Eterna, lhe estendendo a mão num cumprimento.
― Sim, esse sou eu mesmo ― ele disse a cumprimentando. ― E você é?
― Prazer, eu sou a Senhora Eterna da Morte.
Rodrigo queria arregalar os olhos, levantar os braços e sair gritando para longe dali com medo, mas algo na Eterna da Morte o fez ficar. Talvez o aroma de rosas que ela emanava ou sua inegável beleza. O que não podia se negar era que Rodrigo se sentia atraído por algo na Eterna. Como um inseto para a luz.
― Bem, então seja bem vinda a Illuminatoribus, senhora Morte ― ele disse sorrindo e cruzando os braços de maneira orgulhosa.
― Por favor, só Morte.
― Tudo bem, Morte. ― Ele se corrigiu e fez sinal para que os guardas nas torres se acalmassem. ― Gostaria de ver a mansão?
― Bom, primeiramente, eu gostaria que alguém levasse meus guepardos para algum lugar.
― Não se preocupe com isso ― Rodrigo disse ainda sorrindo. ― Daqui a pouco levarão seus animais para o estábulo e lá alimentarão eles.
Ela voltou seu olhar para os animais e acabou assentindo, dando um sorriso perfeitamente demoníaco.
― Tudo bem, vamos ver a mansão.
Rodrigo a guiou em direção às portas da frente e finalmente entraram na grandiosa casa. O primeiro cômodo era uma alta e iluminada sala mobiliada com poltronas, sofás, mesas grandes e pequenas, tapetes, abajures, pinturas e divãs de variados tamanhos, todos com cores entre o coral e o vermelho. As janelas estavam espalhadas pelas paredes e eram enormes. As cortinas que as cobriam durante a noite eram vermelhas e feitas de um material bem pesado. Havia também, ao fundo desta sala, duas grandes escadarias que se encontravam no topo. Entre os pés destas, no mesmo nível onde se encontravam o solinu e a Eterna, havia um corredor longo, com sua entrada ladeada por colunas gregas, com uma luz ao final dele.
― As escadas levam aos quartos, à biblioteca e aos escritórios dos administradores da mansão ― Rodrigo ia explicando. ― Vamos pelo corredor, porque este é somente o primeiro cômodo.
― Espera ― Morte o interrompeu enquanto desviava o olhar para o teto da sala. ― E aquela? Quem é?
Rodrigo seguiu o olhar da Eterna e engoliu em seco. Havia uma pintura no teto que era a mais chamativa da sala, por suas cores e pelo seu tamanho. Retratava uma mulher negra que usava coroa e vestido dourados. Ao redor dela estavam crianças brincando e flores das mais diversas cores caíam por toda a cena. O sorriso da mulher em destaque era estonteante ao ver as crianças ao seu redor. Expressava uma alegria sem igual.
― Aquela é a Eterna da Terra ― Rodrigo lhe disse com certa reverência no tom de voz. ― É muito respeitada por aqui. E até é venerada por muitos de nós.
Morte lhe encarou e sorriu.
― Eu estava testando seus conhecimentos ― ela disse. ― Eu a conheci antes de desaparecer do mapa.
Rodrigo ergueu as sobrancelhas, surpreso. Morte não aparentava ser tão mais velha que ele próprio para ter conhecido a Eterna da Terra. Ela havia desaparecido há milênios e ninguém sabia de seu paradeiro.
― Era uma ótima mulher e Eterna ― Morte disse com o mesmo tom de reverência que o Diem Nox usara anteriormente. ― Uma pena ela ter desaparecido.
Ele assentiu.
― Mas vamos continuar ― Morte disse forçando um sorriso triste.
Os dois caminharam em direção ao corredor cuja entrada era ladeada por colunas gregas. Em seu interior havia candelabros e lustres pequenos para o iluminarem. A mobília não passava de algumas estátuas de guerreiros congelados em posições de batalha e alguns armários com portas de vidro que mostravam seu conteúdo: vários anéis, coroas, cordões e outros adereços que cintilavam sob a luz fraca dos lustres e candelabros.
― Gostei das estátuas ― Morte disse distraidamente. ― Provavelmente é para ser usada por aqueles que manipulam objetos em suas magias. Ou eu estou errada?
Rodrigo franziu as sobrancelhas e a encarou. Acabara de voltar, mesmo sem querer, a suspeitar da Eterna como traidora ou espiã.
― Como sabe disso?
Morte lhe sorriu.
― Bom, os Eternos que vivem fora da resistência têm servos ― ela disse. ― Aqui vocês provavelmente não pregam as classes, mas fora dessas paredes os Eternos têm humanos e solinus como servos. Nós escolhemos os que possuem melhores habilidades em suas respectivas áreas para nos servir de acordo com nossas necessidades. Não me orgulho disso, por isso quis me juntar a vocês.
Rodrigo viu sinceridade em sua voz e em seus olhos, então deixou para lá a voz no fundo de sua mente que insistia em suspeitar da Eterna.
― A maioria dos Eternos que se juntaram à resistência não fala muito de como é lá fora ― Rodrigo lhe confessou. ― Agora entendo porque se juntaram a nós.
― É, eu também prefiro não lembrar ― ela disse. ― Mas posso lhe contar qualquer coisa que queira saber depois do nosso tour.
― Tudo bem, vamos continuar.
Eles andaram por toda a extensão do corredor até chegarem à forte luz que viram do primeiro cômodo. Ali, estava a arena onde Rodrigo treinara com Jorge momentos antes à chegada da Morte.
Era uma grandiosa arena, com solo de areia clara, quatro saídas ladeadas por colunas e uma altíssima arquibancada de mármore claro. O teto era uma redoma de vidro que permitia a entrada da forte luz do Sol.
― Bela arena ― Morte comentou. ― Areia de verdade para o chão e uma arquibancada alta... Gostei.
Os outros aliados ali presentes, ao verem a alta mulher passar pelas portas, retesaram os músculos e emudeceram. O clima era de tensão. Carolina, no meio deles, alternava o olhar arregalado entre Rodrigo e Morte. Ele a sinalizou, discretamente, para que se acalmasse, mas pareceu não adiantar.
― Sim, usamos mais para treinar de maneira casual. Temos uma maior no quintal de trás.
Morte balançou a cabeça de maneira impressionada. Rodrigo percebeu que a Eterna tinha certo interesse por arenas, visto que havia notado a qualidade do solo e da arquibancada. Era algo a se suspeitar. Pelo menos, era o que achava a voz irritante do fundo de sua cabeça.
Em seguida, Rodrigo guiou a Eterna até a saída da esquerda, que estava fechada. Ele a abriu rapidamente, fazendo um delicioso aroma se espalhar. Isso porque agora se encontravam no meio da cozinha, onde pelo menos vinte aliados, todos distraídos demais para notarem a presença dos dois, preparavam o almoço de toda a mansão.
― Hum ― Morte fez. ― Sinto cheiro de almas.
― Ahn, na verdade nossos cozinheiros não são todos humanos, então algumas coisas são só feitas por mágica.
― Vocês não precisam matar para fazer a própria comida... Entendi.
― A carne é exclusivamente feita por mágica, para falar a verdade. A única coisa que os humanos produzem são os vegetais e verduras, que vêm da nossa estufa. A família que nos doou a mansão é a Solum e eles têm um rígido critério a respeito de comer a carne de animais propriamente ditos.
Morte assentiu e esquadrinhou o local com os olhos. Era uma grandiosa cozinha, com cinco fogões a gás e inúmeros temperos em potes de vidro próximos a janelas pequenas. No meio estava uma grande bancada onde se encontrava os alimentos, alguns já prontos e outros ainda por fazer. Acima deste havia um grande porta utensílios, com panelas e colheres de pau, suspenso por correntes. Os frangos assados acima da bancada estavam com uma ótima cara, pensou a Eterna. Duas grandiosas pias também se faziam presentes, onde os cozinheiros lavavam as mãos de cinco em cinco minutos.
― Ótima organização ― Morte sussurrou para si mesma. Estava gostando do local mais do que pensara que gostaria.
― Vamos ― Rodrigo disse a guiando pelas portas até o próximo cômodo.
Agora se encontravam no local onde os jantares deveriam ser servidos, visto as quatro longuíssimas mesas ali dispostas, onde três destas estavam paralelas umas as outras e uma quarta, a maior de todas, encabeçava todas as outras três. Era uma arrumação em formato de “m” perfeito, pensou Morte.
Aquela sala era, sem sombra de dúvida, o cômodo mais suntuoso do local, depois da sala alta. As mesas estavam impecavelmente limpas e cobertas com toalhas brancas de cetim brilhante. Sobre elas estavam arranjos das flores mais diversas e coloridas. Do teto pendiam lustres magníficos de cristal, que deviam ser acesos somente durante a noite, visto que as janelas na parede à direita eram enormes e iluminavam muito bem todo o local. As cadeiras ao redor das mesas eram vermelhas e acolchoadas, assim como os banquinhos espalhados ao redor. Pinturas de Eternos célebres estavam nas paredes, assim como de solinus da família Solum. No chão estava estendido um lindíssimo tapete vermelho com bordas douradas. À direita, havia uma porta de madeira alta que dava para um corredor ao ar livre, notara Morte.
― Meu local favorito da mansão ― admitiu Rodrigo, retirando Morte de seus devaneios.
― Eu imagino o porquê ― ela disse e sorriu, arrancando um sorriso do mestiço também.
― Mas ainda temos várias coisas para ver, então vamos ― ele disse e caminhou até metade da sala, virando à esquerda.
Ali, estava uma porta muito bem camuflada na parede da sala de jantar. Rodrigo a abriu e eles se viram novamente no longo corredor que dava na arena. Porém, desta vez, eles seguiram para em frente, encontrando outra porta camuflada, em frente à anterior.
― Essas portas me lembram de passagens secretas ― a Eterna comentou dando uma risadinha divertida.
Rodrigo deu outro sorriso e a abriu. O cômodo a frente deles era exatamente do mesmo tamanho que o anterior. A única coisa que o diferenciava do outro era o seu conteúdo: feno, tonéis de madeira, utensílios para cavalgada, etc.
― Aqui é o estoque para as coisas do estábulo ― sugeriu Morte.
― Exatamente ― disse Rodrigo já caminhando para o próximo cômodo, que deveria se encontrar no fundo deste, visto a enorme porta ali presente. ― Aqui nós temos o cômodo mais bonito de nossa mansão. ― Ele disse enquanto acariciava a maçaneta de cristal. Está pronta?
Ela assentiu e ele abriu a grande porta de madeira maciça. O título de ”cômodo mais bonito de nossa mansão” fazia jus, achou Morte.
Tratava-se de um grande espaço cheio de água da mais cristalina. Cinco degraus grandes levavam à enorme e linda piscina. As paredes e o teto abobadado eram enormes arcos de metal branco e vidro que lançava sobre as águas as mais diversas cores do arco-íris. Erguendo todo esse aparato estavam, espalhadas pelo local, várias colunas brancas. Ao fundo, três enormes vitrais ilustravam grandes e coloridos Eternos: uma mulher de coroa e vestido dourados, um homem de terno branco e uma mulher que usava roupas coloridas. Do lado de fora deste ambiente estava um lindo jardim florido e com árvores altas, lançando sombras e luzes nos vitrais.
― Uau ― Morte deixou escapar com os olhos brilhando de admiração. ― É realmente um lindo cômodo.
― Sim, os Solum fundadores da mansão que mandaram fazê-lo. É uma homenagem à Terra, por causa das árvores e flores lá fora; à Água, por causa da piscina de águas coloridas; e ao Céu, por causa da luz que harmoniza tudo.
― É realmente magnífico ― Morte concordou com um sorriso.
― Sim ― Rodrigo disse. Depois de alguns instantes, ele continuou: ― Agora vamos para fora.
E os dois voltaram à sala de suprimentos do estábulo. Desta vez, não voltaram pela porta camuflada, mas pela outra feita de madeira em local contrário a esta. Havia, do lado de fora, o mesmo corredor ao ar livre que Morte vira na sala de jantar. E foi exatamente onde eles foram parar ao atravessar a porta de madeira.
O corredor tinha o teto abobadado e colunas em arcos lindíssimos. Tinham também um parapeito de tamanho médio e duas saídas ao meio. À direita estava a torre de vigilância que viram mais cedo. À esquerda estava o início de uma floresta, com árvores altas e de tronco corpulento.
― Illuminatoribus é realmente bonito ― Morte disse enquanto andavam pelo corredor para outro edifício.
― Sim, é o lar de muitos ― Rodrigo disse. ― Ele tem que se parecer com um.
A Eterna sorriu com a constatação do mestiço. Era uma boa descrição da mansão pela qual faziam o tour.
― Se seguirmos reto chegaremos ao estábulo ― Rodrigo disse. ― É o ponto final de nosso tour.
― Mas e o outro corredor que eu vi na sala de jantar?
― Ele dá para outras áreas da mansão que não são muito convencionais, como a estufa e os jardins. Eu só te mostrei os lugares necessários para não se perder por aí.
― Ótimo ― Morte disse com um meio sorriso diabolicamente lindo. ― Mas eu ainda quero ver esses lugares não convencionais. Você me mostra outro dia?
― Com certeza ― ele disse nervosamente. ― Te mostro a arena externa, a estufa e os jardins amanhã.
― Então tudo bem ― a Eterna disse.
― Agora eu preciso voltar e treinar alguns dos aliados na arena interna ― ele disse. ― Se quiser se juntar a nós depois de se acomodar, seria muito bom.
― Claro ― Morte disse. ― Eu só não vi onde é meu quarto.
Foi quando ouviram as portas baterem à frente deles. Do estábulo saiu uma garota não muito mais velha que Rodrigo, devia ter entre dezessete e dezoito. Tinha a pele da cor do caramelo e cabelos encaracolados pretos. Os olhos tinham um tom de castanha derretida e não pareciam muito felizes. Usava uma longa vestimenta roxa com uma faixa dourada que atravessava o ombro até o quadril.
― Larissa ― Rodrigo disse.
― Oi, Rodrigo ― ela parecia irritada. ― Você deve ser nossa nova aliada. É um prazer ter entre nós mais uma Eterna ― e lhe estendeu a mão num cumprimento muito bem educado. ― Eu sou Larissa Solum, líder, combatente e administradora de Illuminatoribus.
― Eu sou a Senhora Eterna da Morte e adorei sua mansão.
― Muito obrigada ― Larissa sorriu. ― Então Rodrigo já lhe mostrou tudo?
― Quase tudo, a não ser os quartos ― e piscou na direção do mestiço. ― E o estábulo, onde meus guepardos estão.
― Então eu mesma lhe mostrarei estes itens restantes ― Larissa disse e, voltando-se para Rodrigo com uma expressão mais séria, disse: ― Rodrigo, pode voltar à arena, eu termino o tour.
― Tudo bem, Larissa, como quiser.
Ela ergueu uma das sobrancelhas e guiou Morte pra o estábulo. Rodrigo deu meia volta e pôs-se a caminhar em direção à arena, com sua mente gravitando entre seu trabalho e odor das rosas que a Eterna deixara no ar.
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