Notas iniciais
Aqui está o segundo capítulo. Acho que postarei nesse ritmo. Espero que goste.

― Você anda muito preocupada ― Persuasão disse distraidamente. ― Gostaria que aproveitasse mais esse tempo que passamos a sós.

A bruxa lhe lançou um olhar confuso.

A rua por onde caminhavam estava bem movimentada, por se tratar do centro da cidade. Crianças riam alto e corriam de um lado para o outro numa praça; alguns vendedores seguravam suas mercadorias para que o vento não as levassem; pessoas usando ternos e segurando maletas passavam conversando baixo; mulheres usando roupas brancas empurravam carrinhos de bebês com crianças dorminhocas em seu interior. Tudo bem normal e agradável para uma cidade como aquela. Exceto pela voz na mente da bruxa que a dizia constantemente para tomar cuidado com o que dizia perto de Persuasão. Ele não era nem um pouco confiável e ainda poderia distorcer de forma astuta tudo o que fosse dito.

― Distraída, eu? ― Rose, a bruxa, perguntou. ― Na verdade eu estou aproveitando bastante essa nossa caminhada.

Persuasão a encarou com seus olhos azuis penetrantes. Ela sabia que ele poderia forçá-la a dizer a verdade se quisesse, só precisaria de algumas palavras. Por isso ela desviou o olhar do dele e encarou uma pequena tenda que vendia cordões com pedras.

― Eu só acho que não deveríamos nos expor desse jeito ― ela disse preocupada. Depois continuou com a voz mais baixa: ― Você é um Senhor Eterno, Persuasão. E eu sou uma bruxa da família Nox. Ninguém deveria nos ver juntos, isso pode nos trazer encrenca.

― Está preocupada novamente ― o Eterno disse e deu um meio sorriso de incredibilidade. Um meio sorriso perfeito. ― Não sobraram muitos Eternos depois do que aconteceu em Atlântida, Rose. Creio que não tenha que se preocupar tanto. Afinal de contas, ninguém te reconheceria como uma bruxa da família Nox.

Nisso Persuasão estava certo. O cabelo rosa tingido de Rose escondia perfeitamente o cabelo predominantemente negro dos bruxos que compunham a família Nox. Ela não seria percebida tão facilmente, a não ser pela aura que emanava. Porém isso poderia ser facilmente escondido pela aura que ele emanava, devido a ele ser um dos seres mais poderosos já existentes.

― Hum ― ela fez sem o encarar. ― Pode até ser verdade, mas isso não me deixa mais calma. Alguns Eternos ainda andam pela Terra. Isso explica porque você está aqui. Alguns deles podem farejar um bruxo a quilômetros de distância, dizer de que família é e até qual é o Elemento de Força dele.

Persuasão engoliu em seco. Rose estava certa no ponto de Eternos que tinham esse poder. Mas ele nunca encontrara um Eterno desse porte na Terra, somente uns de baixo escalão de poder. Não tinha tanta certeza se ainda existiam Eternos vivos de escalões tão altos como os descritos por ela.

― Você podia não pensar tanto nisso, não é? ― Persuasão insistiu. ― No centro estamos protegidos, com tantas pessoas humanas ao redor. Ninguém, Eternos ou bruxos, tentaria nos atacar aqui.

― E como pode ter certeza? ― ela retrucou e finalmente o encarou. ― Você estuda a história mágica tanto quanto eu e sabe o que os humanos significam para os Eternos: nada além de escravos que produzem matéria-prima para as riquezas deles. Acho que não se importariam em matar alguns na Terra só por diversão. E eu aposto mais: eles ainda criariam uma ilusão para parecer um acidente quando aparecesse na televisão.

Persuasão riu. Seu sorriso diabólico mais perfeito.

― Nisso você tem razão ― ele concordou e a encarou também. ― É exatamente isso o que eu faria se eu quisesse acabar com um Eterno acompanhado de uma bruxa.

Ela fechou a cara. Odiava estar certa nessas situações. Preferia quando Persuasão simplesmente guiava a conversa e vencia por estar completamente certo. Era preferível.

― Chegamos ― Persuasão disse apontando para uma espécie de arco branco e entalhado, o qual tinha uma porta dupla aberta ao centro que levava a uma longa escada.

Na fachada, um letreiro furta-cor dizia: Indra Mágico.

― Um outro bruxo? ― ela perguntou olhando fixamente o letreiro enquanto este mudava de cor.

― Um velho amigo meu, para ser sincero ― ele respondeu. ― Tem uma das melhores lojas de magia que você vai ver na vida. ― E fez uma pausa. ― Então, vamos entrar?

― Se é uma loja de objetos mágicos... ― Rose respondeu interessada e começou a subir a longa escadaria, sendo seguida pelo Eterno.

Imediatamente, suas narinas foram preenchidas com o forte odor de incensos acesos. Uma neblina leve e branca se espalhava por toda a extensão da escada, vinda do topo. A temperatura ali era bem mais amena do que do lado de fora, o que sugeria uma refrigeração condicionada. Nas paredes laterais do corredor que abrigava a escadaria, havia pôsteres de deuses e mais deuses hindus, alguns se repetindo, mas em poses diferentes.

― Um bruxo indiano, Persuasão? ― Rose lhe perguntou em voz baixa. ― Estou surpresa.

― O que posso dizer? ― ele sorriu e deu de ombros. ― Tenho contatos em todos os cantos do mundo.

Rose revirou os olhos quando eles finalmente chegaram ao topo da escada. O novo ambiente era absolutamente fabuloso.

Havia mesas de madeira espalhadas por todo o lugar, de variados tamanhos, repletas de caixas de vidro com conteúdos que iam desde besouros com cores metálicas até garrafas de vidro com líquidos coloridos. Outras mesas, menores, tinham múmias em forma de animais sobre elas, além de outras que tinham manoplas e esculturas de vários tamanhos e formas. A parede do fundo era uma estante de madeira enorme com livros sobre os mais variados assuntos. As demais paredes eram preenchidas com pôsteres, pinturas, esculturas, estátuas, máscaras, crânios e mais uma porção de outros artefatos religiosos. Alguns estavam dentro de armários, também de madeira, com portas de vidro. No centro, estava a maior mesa da loja, com formato elíptico, porém nada havia sobre ela. Tinha palavras esculpidas em suas laterais numa língua desconhecida para Rose, além de desenhos coloridos em sua superfície. Em frente à gigantesca estante do fundo, havia um balcão, onde um homem os encarava com surpresa. Talvez fosse o dono. Próximos a ele, sobre a bancada de madeira, alguns incensos estavam acesos, lançando a fumaça leve que Rose vira na escada pelo ar. Era uma loja realmente magnífica.

Rose deixou escapar um assovio longo. O homem atrás do balcão a encarou, parecendo só ter notado-a naquele momento.

― Persuasão? ― ele perguntou incrédulo enquanto voltava a encarar o Eterno. ― Não esperava vê-lo tão cedo.

― E não é bom me ver, mesmo que antes do tempo? ― ele abriu os braços como se fosse abraçar o dono da loja de onde estava.

― Não ― o dono respondeu diretamente enquanto saia de trás do balcão com ódio emanando do olhar. ― Parece que esqueceu o que me fez passar, Persuasão. O tempo corrompeu sua memória? Porque a minha permanece intacta.

― Olha, Indra, eu sei que te fiz muito mal ― o Eterno começou a dizer. ― Mas isso foi há muitos anos. Não acha que está na hora de nos reconciliarmos?

― Eu já disse e repito: não! ― e estendeu a mão para uma das estátuas da loja, dizendo: ― Shiva Nataraja!

No mesmo instante, a estátua, que estava no canto esquerdo da loja, virou seu rosto lentamente para o Eterno, emitindo um rangido metálico. Era uma divindade dourada que trazia uma coroa bem exagerada na cabeça, além de ter quatro braços e estar em posição de dança, com o pé esquerdo erguido no ar. Ao redor do deus dançarino havia um enorme arco dourado, que logo começou a se transformar em chamas vivas e douradas.

― Não podemos apenas conversar? ― Persuasão não pareceu abalado, apenas deixou os braços caírem. ― Não quero lutar contra você.

― Depois do que me fez? ― Indra pareceu incrédulo. ― Nem pensar.

O deus se soltou de seu arco de chamas douradas e pousou ambos os pés no chão, iniciando uma dança compassada e complicada. Acompanhando seus movimentos, as chamas douradas começaram a serem lançadas na direção do Eterno, que estendeu a mão direita para frente e absorveu às chamas com facilidade.

― Não precisamos passar por isso, Indra.

― Para o inferno com sua formalidade, Persuasão!

O deus dourado e dançarino começou a executar uma dança mais rápida, fazendo as chamas serem lançadas com mais velocidade em todas as direções. Rose, utilizando um de seus objetos mágicos, acionou seu anel, que cresceu e se tornou seu cetro mágico de batalha. O usou para se defender das perigosas chamas douradas que, sempre que acertavam seu objeto, emanavam uma poderosa aura.

― Mas o que é isso? ― a bruxa disse sobre a aura incomum das chamas.

Indra franziu as sobrancelhas e, com um movimento da mão, fez com que o deus dançarino voltasse ao seu arco dourado, cessando o ataque e voltando a ser apenas uma estátua dourada no canto da loja.

― Obrigado ― Persuasão disse e revirou os olhos. ― Não vim aqui para lutar, eu vim para...

― Kali! ― Indra o interrompeu.

Outra estátua, desta vez negra, encarou os dois com seus olhos arregalados, fazendo a bruxa engolir em seco. Esta tinha pelo menos dez braços ― com cada mão portando uma arma diferente ― e retratava uma divindade feminina. Tinha uma coroa igualmente exagerada ao deus anterior, mas possuía um cabelo revolto e esvoaçante, diferente do outro. A língua, vermelha e chamativa, estava posta para fora, como se debochasse dos dois. Porém, o que mais chamou a atenção de Rose foi que a deusa usava o que se parecia com um colar de cabeças humanas e uma saia com braços amputados, também humanos.

― Essa não ― o Eterno disse e engoliu em seco.

― O que foi?! ― Rose o encarou incrédula.

― Essa deusa é conhecida por devorar demônios, Rose ― ele disse em voz baixa. ― É uma das mais poderosas da religião hindu. E, como você usa o mesmo tipo de magia que Indra, sabe que objetos tem poder. Tome cuidado com as armas dela e, principalmente com seus cabelos. Acho que é uma boa hora para você usar as luvas que te dei antes de chegarmos aqui.

Ela, imediatamente, vestiu as luvas negras que tinham, por cima do tecido, uma armação metálica com forma dos ossos da mão, esperando o pior. Entretanto, nada aconteceu. Ela só passou a sentir um leve formigamento adicional.

― Acabe com esses dois ― Indra disse e deu um sorriso sádico.

A deusa, imediatamente, começou a caminhar na direção deles, fazendo seus passos ecoarem na mente da bruxa como um martelar. Seus cabelos negros ganharam vida, se espalhando ao redor de sua cabeça como tentáculos venenosos prontos para agarrar uma vítima. Rose, portando as luvas e o cetro, se posicionou para se defender. Persuasão encarou a estátua com seriedade e pronunciou:

― Ego dominus persuadendo invoco servi mei.

Imediatamente, uma fumaça negra começou a se erguer do piso de madeira, se espalhando ao redor do Eterno como um anel negro. A fumaça logo se agrupou novamente em seis silhuetas humanas que tomaram forma de guerreiros fantasmas portando espadas e escudos prateados.

“Servos do Persuasão”, Rose pensou sem dizer nada. “É a primeira vez que os vejo ao vivo.”

Kali, a deusa, começou a desferir golpes rápidos e ritmados contra a bruxa, que se defendia como podia usando seu cetro contra pelo menos cinco braços. Ela era bem habilidosa e tinha conhecimento de artes marciais, mas ainda estava em desvantagem contra a deusa. Persuasão, vendo a situação de Rose, decidiu ajudar, mandando seus guerreiros atacarem a deusa. Porém, com apenas alguns movimentos dos outros cinco braços, a deusa os derrotou ― os transformando novamente em fumaça negra ― e os devorou, os puxando para sua boca como um aspirador. A aura dos fantasmas pareceu rejuvenescer a deusa, que começou a desferir golpes ainda mais rápidos contra Rose.

― Você está de que lado, afinal?! ― ela gritou entre o agachar para não ser acertada por uma espada e o pular para o lado para não ser lançada longe por uma maça.

O Eterno se viu sem escolha. Desfez seus guerreiros fantasmas e estendeu a mão esquerda na direção da deusa. Imediatamente, um disco prateado se formou ao redor de sua mão, disparando uma carga de energia prateada na estátua. Como resultado, a deusa caiu de joelhos no chão, mas não pareceu sofrer mais que isso, visto que continuou a série de ataques à Rose.

― Rose, use as luvas ― Persuasão gritou e disparou outra carga de energia contra a deusa, dessa vez sem efeito algum.

A bruxa, diminuindo o cetro de volta para anel e o guardando no bolso, estendeu uma das mãos cobertas pela luva em direção à deusa, esperando uma solução que os ajudasse. Porém, nada aconteceu. Kali a segurou com uma de suas mãos e se colocou de pé novamente. O Eterno, reagindo, pulou nas costas da deusa, que o capturou com outra mão. Os dois foram derrotados, vencidos.

― A luva não devia ser usada assim ― Persuasão parecia impaciente.

― Você nem me ensinou como usar!

Indra batia palmas enquanto se aproximava dos dois, presos no forte aperto das mãos da deusa.

― Grande show ― ele disse. ― Uma pena Kali ser o ponto fraco de todo e qualquer tipo de divindade ou demônio, não é? E olha que essa aqui é só uma estátua. ― E cruzou os braços. ― Ela é adorada por muitos, Persuasão. Depois do que aconteceu em Atlântida, você e os outros Eternos perderam credibilidade e força. A religião atual é extensa e poderosa. A crença está neles, não mais em vocês.

― Me solte, Indra, ou vai se arrepender! ― Persuasão o ameaçou.

― Tudo bem ― ele disse e estalou os dedos, fazendo a deusa os soltar.

Os dois caíram em pé sobre um tapete azul e dourado da loja sem entenderem muito bem o que estava acontecendo ali.

― Pode ir, Kali ― ele disse e a deusa retornou para seu lugar de origem, voltando a se tornar uma estátua inanimada.

― Como assim? ― Rose perguntou confusa.

― Eu te explico: La Santissima Muerte ― Indra disse misteriosamente ainda de braços cruzados.

― O que? ― Rose estava ainda mais confusa.

― Essas luvas que você usa. Elas foram inspiradas na Santa Muerte, uma figura religiosa do México. Não era uma deusa, mas representava a morte. Foi por isso que não teve efeito algum sobre a estátua: ela não tem vida. O que fazia ela se mexer e lutar era a minha magia.

― Eu sei muito bem ― Rose disse secamente. ― Também sou uma solinu transmutadora.

― Eu vi você transformando o anel num cetro de batalha ― Indra deu um sorriso orgulhoso. ― Tem grande talento. Mas foi exatamente por conta de você estar usando as luvas que eu mudei de ideia. Se não, já estariam mortos.

― Maldito ― Persuasão sorriu. ― Sabia que as luvas iam te fazer mudar de ideia. Mas elas pertencem à Rose agora.

― Não me oponho ― Indra respondeu. ― Mas, como lojista de artefatos mágicos, achei que alguém que detém desse poder merecesse pelo menos saber como usá-lo. Sem falar que a senhorita tem um coração obviamente limpo. Por que se juntou com esse imundo?

Rose bufou e riu.

― Negócios antigos.

― Hum ― Indra fez, erguendo as sobrancelhas. ― Sei bem como é isso. ― E começou a caminhar em direção à mesa do centro da loja, a maior e com formato elíptico.

Rose e Persuasão o seguiram em silêncio. Ainda estavam um pouco confusos.

― O que querem? ― Indra perguntou diretamente quando chegaram ao derredor da mesa.

O Eterno o encarou com seus olhos azuis.

― Preciso que me ajude numa jornada ― ele respondeu. ― Estou prestes a completar uma coleção de artefatos antigos de Atlântida e vou precisar de apoio. Esses artefatos são únicos e de obtenção bem difícil. Mas se estiver disposto, valerá a pena no final.

Rose franziu as sobrancelhas enquanto se virava lentamente para encarar o Eterno. Não esperava um terceiro parceiro. Mas ficou animada por ele ser poderoso e ter uma loja magnífica como aquela. Talvez pudesse aprender muito com Indra.

O lojista apenas ergueu uma de suas sobrancelhas.

― Ela também vai? ― disse apontando para Rose. ― Porque não vou embarcar numa enroscada só com você.

Persuasão deu sua risada demoníaca, que mais parecia um som gutural.

― Vai sim ― ele respondeu. ― Rose é minha parceira.

― Bom saber ― Indra disse assentindo. ― Então... Acho que tudo bem. Mas só aceito sua proposta se eu tiver algo em troca.

O Eterno deu um meio sorriso perfeito.

― Prometo que quando essa jornada acabar você poderá ver sua mãe uma última vez ― ele disse se divertindo com as palavras que saiam de sua boca.

Os olhos de Indra se arregalaram e ele engoliu em seco.

― Mi-minha mãe? ― seu queixo tremia. ― Como ousa falar dela?!

― Não quer isso, Indra? ― Persuasão tinha agora os olhos da cor do limão fresco. ― Não quer contatar sua mãe uma última vez? ― E azuis novamente.

Rose já tinha visto aquilo: a dualidade de cores do poder de Persuasão. Ele estava dissuadindo Indra a fazer o que ele queria, mesmo sem saber.

― Lógico que quero! ― Indra disse abalado. ― E você acha que pode me proporcionar isso? Acha que consegue me fazer falar com ela uma última vez?

― Mas é claro, velho amigo ― o Eterno disse enquanto seus olhos ainda mudavam de cor. ― Basta dizer que aceita o acordo.

― Está bem ― Indra disse decididamente. ― Eu aceito o acordo.

Os olhos do Eterno se incendiaram com chamas prateadas. Um pacto estava sendo feito. E foi naquele instante que Rose percebeu que Indra também tinha uma cicatriz, idêntica à sua, no pulso esquerdo. Ele era outro bruxo aliado à Persuasão. Uma aliança tão antiga quanto os dois podiam lembrar. O terror com olhos de duas cores que sempre apareciam em seus pesadelos. O pacto não estava sendo feito naquela ocasião. Estava sendo renovado.

― Muito bom poder negociar com você, velho amigo ― ele disse com um sorriso diabolicamente perfeito. ― Voltarei quando for a hora de começarmos a procurar os artefatos.

― Muito bem ― Indra concordou. ― Apenas peço que, sempre que nós três formos tratar desses assuntos, que nós venhamos para essa mesa. As inscrições e os desenhos nela contidos permitem que toda a conversa falada ou pensada ao redor dela seja impossível de rastrear por deuses, demônios, bruxos, pessoas, ou Eternos. A não ser por Surya, o deus que nos dá esse favor.

― Certo. ― Os dois disseram quase em uníssono.

― Se você prefere acreditar nesses deuses modernos, o que eu posso fazer? ― Persuasão deu de ombros.

― Muito bem ― Indra disse e sorriu, encarando Rose. ― Se a senhorita quiser saber como usar as luvas da Santa Muerte, eu ficaria muito lisonjeado em ensinar.

A bruxa assentiu, agradecendo. Indra não era um homem tão mal assim, afinal de contas. Fora, talvez, a mágoa que ele guardava de Persuasão por algo ocorrido no passado ― e isso era algo que ela podia entender muito bem ― ele era um bondoso e gentil vendedor de artefatos mágicos. Sem falar na sua inegável beleza. Indra tinha uma pele cor de canela indiana e músculos que se marcavam na camisa social branca e na calça jeans preta. A aparência se completava com o sapato social preto, o que o dava um ar de um homem de negócios bem sério. Os cabelos castanho-escuros e encaracolados caíam sobre o rosto másculo de maneira quase angelical. As sobrancelhas eram grossas e bem escuras, o que contrastava com os olhos verdes. Para completar a beleza do homem, ele ainda usava uma pequena argola dourada na orelha esquerda. “Ele não é de se jogar fora”, Rose se pegou pensando isso, o que a fez corar um pouco.

― Enfim, eu tenho que ir ― Persuasão disse já com os olhos normais novamente. Parecia aborrecido com alguma coisa. ― Você vem comigo ou não, Rose?

― Vou sim ― ela respondeu. ― Ainda precisamos discutir algumas coisas.

Indra alternou o olhar entre eles.

― Então eu posso te ensinar na próxima vez que nos encontrarmos ― Indra sugeriu gentilmente.

― Acho uma ótima ideia ― ela respondeu lhe cumprimentando. ― Obrigada por tudo e, a propósito, você tem uma loja magnífica.

― Oh, muito obrigado ― ele agradeceu encabulado.

Em seguida os acompanhou até a porta, se despedindo de ambos.

― Então, você quer um café? ― Persuasão perguntou à Rose, assim que saíram da loja, ainda parecendo aborrecido com algo.

― Quero sim, senhor ciúmes ― ela respondeu e riu.

― Se manca, Rose ― ele disse desviando o olhar do dela e colocando as mãos dentro dos bolsos da jaqueta. ― E guarda essas luvas.

Ela o obedeceu, ainda achando graça, e os dois se puseram a andar para uma cafeteria ali próxima.

Notas finais
E então, o que achou da Rose? Espero que tenha gostado, porque ela é uma das minhas favoritas. Até a próxima ^^
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.