Sombras

1 Capítulo 1


As coisas não estavam nada bem, na verdade as coisas estavam ótimas, era eu que não me sentia bem. Hoje eu deveria estar correndo e brincando com as crianças (que mamãe pagou para estar aqui, aposto) afinal, era o meu aniversário. Sabe quando você sente um mau pressentimento, uma coisa ruim? Então, era isso que eu sentia.

Depois de cantarem o Parabéns e eu apagar as 10 velas de cima do bolo, corri brincar no balanço em cima da montanha, onde o vento assoviava nos meus ouvidos.

–Sabe Amy, às vezes nem todas as coisas estão em nosso alcance. – Lembrei-me do que vovó disse logo depois que cheguei.

–Gosto dela. – disse Eveline lendo meus pensamentos. – Ela vive falando coisas que não fazem sentido, na hora. – acrescentou com uma expressão preocupada. Eveline estava usando seu famoso vestido branco de alcinha até o joelho e seus cabelos castanhos estavam mais bagunçados do que de costume.

–Aaamy – gritou Johnny correndo ao meu encontro. Olhei do lado, Eveline não estava mais lá, nunca entendi por que sempre que o Johnny estava por perto ela sumia. – Eu descobri. – disse ele ofegante.

Johnny estava com seu cabelo loiro bagunçado, isso era sinal que ele andou lendo algum livro, quero dizer, vários. – Descobriu o que? – Segurei firme nas correntes que prendiam o balanço.

–O que você vê Amy... – ele olhou para os dois lados e disse num sussurro. – são pessoas que já morreram.

O sítio da vovó ficava a mais ou menos meia hora de casa, no caminho antes de adormecer as palavras de Johnny não saia da minha cabeça. – morreram. – morreram. Vovó sempre disse que era normal ter amigos imaginários (eu nunca contei pra ela de Eveline), isso, deveria ser só isso, Johnny podia estar enganado.

Acordei já em minha cama, com meus pais discutido alto, outra vez.

–EU NÃO AGUENTO MAIS, OK? ... VOCÊ NÃO ME ESCUTA, SEMPRE COMETENDO OS MESMOS ERROS...

–A CULPA É SEMPRE MINHA, NÃO É DAVE? SOU SEMPRE EU QUE FAÇO AS COISAS ERRADAS, EU QUE...

Na boa, já estava cansada de ter que aturar isso, por que eles não podem ser pais normais? De repente ouço a porta bater com força.

–VOU DAR UMA VOLTA. – disse meu pai.

O relógio marcava 02h15min da manhã, isso não ia dar coisa boa, eu tinha que impedir. Desci as escadas correndo, mas já era tarde. Ele deu partida no carro e saiu cantando pneu. Fiquei parada com a porta aberta olhando o carro se afastar, tomado pela escuridão.

Não consegui dormir mais do que uma hora, alguma coisa iria acontecer, um pressentimento ruim me tomou. As pessoas simplesmente não fazem as escolhas certas quando estão com a cabeça quente. Levantei e fui correndo para o quarto da mamãe, ela estava chorando enquanto procurava alguma coisa na bolsa.

–Mãe... o que... – Me vendo observando-a ela enxugou as lágrimas que desciam uma atrás da outra, com as costas das mãos.

–Hã... que-erida. – disse ela num soluço. – mamãe já volta, hã... se comporte. – Ela me deu um beijo na testa e saiu.

Lílian – nossa nova vizinha – levou-me até sua casa e me colocou para dormir com a sua filha mais nova, Julian. O problema era que eu não conseguia dormir. a) perguntas como: “O que aconteceu? Tinha alguma coisa haver com meu pai?” não saiam da minha cabeça. b) Metade de mim estava deitada na cama e a outra metade estava pra fora, Julian ocupava a cama toda.

–Você deveria dormir. – disse Eveline no pé da cama. Seus cabelos estavam extremamente armados, juro que me deu um medinho. Ela estava diferente.

–Que bom que...

– Amy... Sinto muito por seu pai.

–Hã? Não, não, ele não... – lágrimas brotaram nos meus olhos rapidamente, eu sabia o que significava “Sinto Muito”, foi a mesma coisa que disseram quando Nór, meu cachorro, morreu.

Eveline se aproximou, vi que estava com uma expressão de dor, sua cara estava pálida (muito mais do que o normal) – Sinto muito. – Ela repetiu levando sua mão na direção da minha testa e no mesmo instante tudo ficou preto e não vi mais nada.

Foi a nossa última conversa.

Notas finais
Até o próximo :D