Branca havia desmaiado na porta dos anões, seu corpo exausto da fuga desesperada e do ferimento causado pela flecha do caçador e a torção no pé. Os pequenos habitantes da cabana trocaram olhares rápidos, incertos sobre o que fazer. Eles eram acostumados à solidão do bosque, mas não podiam simplesmente abandonar uma jovem ferida à própria sorte.


Sem demora, carregaram Branca para dentro da cabana e a acomodaram em uma cama simples, coberta por mantas de pele grossa para protegê-la do frio. Um deles, mais velho e experiente, preparou uma infusão de ervas e começou a tratar o ferimento em seu ombro.


Os dias seguintes foram de recuperação. Branca acordava entre dor e delírio, suplicando para que não a matassem, os anões a acalmavam dizendo que estava segura, na manhã do quarto dia sentindo acordou devidamente.


Branca piscou algumas vezes, ajustando-se à luz suave que entrava pela janela da cabana. Sua respiração ainda estava irregular, mas ao sentir o calor das mantas e os murmúrios preocupados ao seu redor, percebeu que não estava mais em perigo imediato.


Ao mover-se ligeiramente, sentiu uma pontada aguda no ombro e soltou um pequeno gemido de dor. Isso fez com que os anões se aproximassem rapidamente, olhos atentos e cheios de expectativa. O mais velho entre eles, com uma barba longa e grisalha, que mais tarde descobriu que seria o Mestre, inclinou-se levemente e falou com um tom gentil.


— Finalmente acordou. Está segura aqui.


Branca olhou para ele, sua expressão uma mistura de alívio e confusão.


— Onde... estou? — sua voz saiu fraca, quase um sussurro.


Outro anão, mais baixo e de expressão severa, cruzou os braços.


— No meio da floresta, onde não deveriam alcançá-la. Mas que tolice foi aquela de vagar sozinha?


Branca baixou os olhos, lembrando-se do medo e da fuga desesperada.


— Eu... não tinha escolha. — Engoliu em seco antes de continuar. — Se eu tivesse ficado, ela teria me matado.


O anão que não era muito mais jovem trocou olhares com os outros antes de perguntar suavemente:


— "Ela"? Quem é "ela"?


Branca apertou as mantas ao redor de si, seus dedos tremendo levemente.


— A Rainha. Mallory. Ela tomou tudo de mim... e agora quer minha vida também.


Um silêncio pesado caiu sobre o grupo. Os anões já suspeitavam que a jovem carregava um fardo, mas ouvir seu temor os fez entender a gravidade da situação. O mais velho assentiu e, com um tom mais firme, disse:


— Bem, então terá que se recuperar. Não pode fugir enquanto estiver ferida. Descanso, comida e depois... decidiremos como ajudá-la.


Branca olhou para eles, a gratidão brotando em seus olhos.


— Eu não sei como agradecer — murmurou.


O anão severo soltou um resmungo.


— Ainda não agradeça. Descubra primeiro se somos de confiança.


Apesar da dureza, havia um toque de humor na frase. E pela primeira vez, em muitos meses, Branca sentiu uma centelha de esperança. Branca ajeitou-se na cama, sentindo as dores do corpo ainda presentes, mas sua mente estava alerta. Os sete anões estavam diante dela, observando-a com curiosidade e cautela, e ela sabia que era hora de se apresentar. Com um sorriso tímido, ela respirou fundo e disse:


— Meu nome é Darcelle. Mas a maioria me chama Branca de Neve. — Seus olhos percorreram o grupo, tentando entender quem eram aquelas figuras peculiares que a salvaram.


O mais velho entre eles, que parecia ser o líder, cruzou os braços e respondeu:


— Pois bem, Branca, nós somos anões e somos sete. Cada um tem seu próprio jeito... E você vai conhecê-los logo, de antemão nossos nomes são Dunga ele é o mais jovem e único mudo, Atchim, Dengoso, Mestre, Feliz, Zangado e Soneca. Zangado.

O primeiro a se aproximar foi Atchim, que mal conseguiu terminar sua apresentação antes de soltar um grande espirro.


— Sou Atchim! Ah—ATCHIM! — Ele sacudiu a cabeça, sorrindo de forma simpática.


Dengoso veio logo atrás, escondendo parcialmente o rosto e olhando para Branca com um certo embaraço.


— Eu... Eu sou Dengoso — disse ele baixinho, desviando o olhar.


Mestre, com sua postura confiante, ajeitou os óculos e falou com um tom de autoridade:


— Como pode ver, sou Mestre, o mais sábio entre nós.


Feliz deu um passo animado para frente, com um sorriso radiante no rosto.


— E eu sou Feliz! É uma sorte ter você aqui conosco. A casa vai ficar mais animada!


Soneca, ainda bocejando, levantou uma mão num gesto lento de cumprimento.


— Soneca... — disse ele, arrastando as palavras antes de soltar um novo bocejo.


Por fim, Zangado permaneceu de braços cruzados, olhando para Branca com um olhar desconfiado.


— E eu sou Zangado. E, para falar a verdade, não vejo por que deveríamos nos meter em problemas por alguém que nem conhecemos, principalmente alguém humano... — disse, bufando.


Branca percebeu o tom crítico, mas não se intimidou. Sabia que, mesmo com o ceticismo de Zangado, aqueles pequenos guerreiros eram sua única esperança.


— Eu agradeço por terem me ajudado — disse ela, olhando para todos eles. — Não sei o que teria acontecido comigo sem vocês.


O grupo trocou olhares e Mestre tomou a palavra.


— Bem, se está aqui, precisa descansar e se recuperar. Depois disso, veremos o que fazer.


Branca assentiu, sentindo que, pela primeira vez em muito tempo, não estava completamente sozinha.


— Sou muito grata pelo que fizeram, não sei como posso retribui-los.


Os anões se entre olharam receosos e Zangado disse por fim.


— É claro que a ajudaríamos, não somos como os humanos que gostam de atacar uns aos outros. – Os outros anões o empurraram o mandou se calar. Branca riu compreensiva da situação não negando e Mestre ajeitou os óculos e pigarreou antes de falar, sua voz carregada de sabedoria e firmeza.


— Bem, Branca, há algo que precisa entender — disse ele, olhando diretamente nos olhos da jovem. — Nossa ajuda não foi por acaso, nem por mero instinto de bondade. Sabemos quem você é e o que carrega. E sabemos que sua luta está longe de terminar.


Branca endireitou a postura, absorvendo o peso das palavras do anão. Os outros, mesmo os mais descontraídos, mantinham-se atentos à conversa, como se compartilhassem um entendimento silencioso.


— Mallory não é uma rainha justa — Mestre continuou. — Seu domínio se espalha como uma sombra pelo reino. E agora que você está aqui, terá que decidir se pretende apenas fugir ou se está disposta a enfrentar o que vem pela frente.


Branca sentiu sua garganta apertar. A ideia de simplesmente desaparecer e viver longe da dor sempre foi uma tentação, mas em seu coração sabia que a injustiça não desapareceria por si só.


— Eu... — começou, hesitante. — Eu não quero que ela vença. Mas eu não sei como lutar contra ela.


Mestre assentiu, como se já esperasse essa resposta.


— A força não está apenas nas espadas ou na magia, Branca. Está na inteligência, na resistência e em saber quando agir. E se você quiser aprender... Estaremos aqui para ajudá-la.


Os outros anões murmuraram palavras de apoio, mesmo Zangado, que cruzou os braços, mas não contestou. Branca respirou fundo. Pela primeira vez, não estava apenas sendo salva, estava sendo convidada a recuperar o que era seu. Enquanto isso no castelo...


Mallory sentiu o peso do pequeno baú em suas mãos, seus olhos brilhando com a expectativa do triunfo. A princesa finalmente estava fora de seu caminho, e seu feitiço poderia ser concluído sem obstáculos.


Com mãos delicadas, abriu a tampa e observou o coração repousando dentro da caixa vermelho, intacto, pulsando com o calor da morte recente.


Mas, conforme seus dedos roçaram a carne, um arrepio inquietante percorreu sua espinha. Algo estava errado.


Mallory franziu a testa e, sem demora, ergueu a mão, lançando um feitiço sobre o coração. O ar ao redor tremeu, uma névoa negra se formou sobre o órgão… e então, a verdade surgiu.


Não era o coração de Branca de neve.


O feitiço revelou a essência de outra alma humana. Mallory ficou pálida. Seu sorriso desapareceu, seus olhos se incendiaram com uma fúria avassaladora, e então, em um movimento brusco, lançou o baú contra o chão, espalhando sangue pelo mármore negro da sala do trono.


— VOCÊ TENTOU ME ENGANAR!


O grito ecoou pelos corredores do castelo, um trovão de pura ira. Guardas e servos congelaram no lugar, sentindo o peso da magia no ar. Cassius, que até então mantinha sua postura fria e calculada, mal teve tempo de reagir quando Mallory se ergueu de seu trono como um espectro de pura vingança.


Com um gesto rápido, a Rainha lançou um feitiço, e correntes sombrias se materializaram ao redor do caçador, apertando seus pulsos, tornozelos e pescoço, prendendo-o no chão.


— Você ousa me desafiar, Cassius? — Sua voz era um sussurro cortante, mortal. — Acha que poderia enganar a maior feiticeira deste reino e escapar impune?


Cassius rosnou, tentando se libertar, mas as sombras não cediam. Sua pele queimava sob a magia, e pela primeira vez, ele sentiu medo. Mallory não perdoava traições.


Ela caminhou em círculos ao redor do caçador, sua expressão gélida, seus dedos tremendo de ódio. — Se não pode me entregar Darcelle… — murmurou, inclinando-se sobre ele. — Então não merece continuar entre os vivos.


A Rainha ergueu a mão, sua magia negra tomando forma, pronta para consumir Cassius, mas, no último instante, um pensamento a interrompeu. Cassius ainda podia ser útil.


A princesa continuava viva, e a Rainha precisava dela para seu feitiço de imortalidade. Mallory sorriu, mas não com vitória com crueldade absoluta.


— Não… matar você agora seria muito fácil. — Sua voz era sedosa como veneno. — Em vez disso, você será minha ferramenta… minha sombra. Meu predador.

Com um estalar de dedos, as correntes desapareceram, mas Cassius sentiu algo diferente dentro de si uma força sombria, um feitiço invisível, uma marca que queimava em seu peito. Mallory o havia amaldiçoado.


— Você vai encontrar Darcelle, — Ordenou ela, seus olhos como buracos negros de pura malevolência. — E desta vez, não haverá erros.


Cassius engoliu em seco, sentindo sua própria alma envolta pela magia da Rainha. Ele não podia recusar. O calor intenso se espalhou pelo corpo de Cassius, queimando seus músculos como ferro em brasa. Seu peito arfava, seu coração disparava era como se algo dentro dele estivesse sendo desfeito e refeito ao mesmo tempo.


Mallory o observava com um sorriso satisfeito, deleitando-se com sua dor, como um artista admirando sua obra distorcida.


Cassius tentou falar, mas seu próprio grito se transformou em um rosnado gutural, profundo e selvagem. Seu corpo dobrou-se contra a força do feitiço, suas unhas rasgando o chão de mármore, sua pele tremendo enquanto se rasgava e se reconstruía.


Seus ossos se expandiram, sua mandíbula se alongou, seus olhos brilharam em um amarelo sobrenatural. A força que crescia dentro dele era incontrolável, cada célula de seu corpo pulsava com um novo propósito ele não era mais homem.


Com um último grito de dor, Cassius caiu de joelhos, seus braços tremendo, seu peito subindo e descendo freneticamente. Sentia tudo. O cheiro do sangue, o medo daqueles ao redor, a pulsação de cada criatura viva. Era como se estivesse desperto pela primeira vez. Mallory se aproximou, sua mão fria tocando o ombro agora coberto por um pelo negro e denso.


— Agora, você entende. — Murmurou ela. — O que significa servir a mim corretamente.


Cassius levantou a cabeça, e seus olhos brilhantes refletiram uma única certeza: ele estava preso na maldição. Ele era um predador, forçado a servir à Rainha, ligado à sua vontade sombria até que seu destino fosse selado. E sua presa ainda respirava. Branca não fazia ideia do que a estava caçando agora.


Mallory havia transformado sua missão em algo muito pior do que uma simples caçada. Agora, Cassius estava ligado ao feitiço de Mallory. Se falhasse novamente, seria destruído pela própria Rainha. E, desta vez, ele não podia errar. Branca ainda respirava, mas por quanto tempo?