Sombra e Neve
5 Capítulo 5
Antes que Cassius deixasse o castelo para persegui-la novamente, Branca estava se recuperando ainda. Fazia poucos dias que estava no Bosque Sombrio e haviam sido duros, mas também libertadores. Ao lado dos Sete Anões, a princesa estava começando a aprender como sobreviver no bosque, seu corpo ainda estava frágil e sua recuperação era lenta.
À noite, enquanto os anões discutiam ao redor da mesa sobre sua segurança, Branca ficou à janela da cabana, observando a floresta se agitar ao longe. O vento carregava um aviso, uma inquietação que ela não conseguia ignorar. Estava em alerta, pois não sabia quando Mallory viria atrás dela. Olhando para seu reflexo fraco no vidro, Branca fechou os punhos.
Ela não fugiria para sempre. Se quisesse sobreviver, precisava enfrentar a Rainha e encontrar uma maneira de quebrar sua maldição. Mas ainda não sabia como. E então, quando a lua alcançou seu pico no céu, um arrepio percorreu sua espinha. Uma sombra estava em movimento. Algo no bosque havia mudado. Cassius em sua nova forma estava vindo. E desta vez, ele não era apenas um caçador ele era uma fera faminta.
Mallory havia criado Cassius para ser um predador um caçador implacável que não conhecia barreiras. Mas até mesmo ela sabia dos perigos do Bosque Sombrio. A floresta, protegida por forças ocultas, repelia intrusos, distorcendo caminhos e ocultando qualquer rastro. Era por isso que Branca ainda respirava. Mas Cassius não era mais um homem comum ele agora pertencia às sombras.
A maldição da Rainha fluía dentro dele, conectando-o à escuridão ao seu redor. Com cada passo, sentia o pulso da floresta, as criaturas escondidas, os antigos feitiços de proteção, mas, em vez de rejeitá-lo, a própria escuridão aceitou sua presença. Cassius não entrou no bosque como um invasor ele se tornou parte dele.
A vegetação não se fechou. O vento não o bloqueou. As árvores sussurraram ao seu redor, como se reconhecessem a fera que Mallory havia criado.
E assim, pela primeira vez, o bosque permitiu a entrada de um inimigo.
Dentro da cabana, Branca sentiu algo mudar. O ar se tornou pesado, o frio voltou a apertar sua pele. Algo estava vindo algo poderoso.
Quando os lobos da floresta começaram a uivar ao longe, os anões se alertaram. Zangado, com seu olhar duro e calculista, pegou sua lâmina e virou-se para a princesa.
— Algo atravessou o bosque! — disse com urgência. — Isso não devia ser possível. Mas aconteceu. Você precisa sair agora, nós vamos segurá-lo.
Branca hesitou. A cabana era seu refúgio se saísse, estaria sozinha novamente. Mas o olhar de Zangado não aceitava discussão.
— Vá para o coração da floresta. — Ele continuou. — Vive uma criatura antiga. Uma que carrega um poder que pode protegê-la.
Branca franziu a testa.
— Que criatura?
Zangado apertou os olhos.
— Dizem que é um vampiro.
O silêncio na cabana foi cortante. Um vampiro. Uma lenda? Um monstro? Um aliado? Não havia tempo para mais perguntas. Cassius estava se aproximando. Com a adrenalina queimando dentro dela, Branca correu para fora, desaparecendo na floresta antes que fosse tarde demais. Mas atrás dela, Cassius já sentia seu cheiro. E ele não erraria desta vez.
Sem alternativas, a princesa seguiu para o coração da floresta, para o centro do bosque, onde encontrava-se uma antiga ruina. O ar ficou frio, a névoa densa, e uma presença sombria pesava sobre ela. Enquanto Branca avançava entre as árvores retorcidas, cada passo ecoava na terra úmida, misturando-se ao sussurro da floresta. O silêncio era quase absoluto, interrompido apenas pelo som de folhas secas esmagadas sob seus pés. O cheiro de musgo e terra molhada impregnava o ambiente, mas, à medida que se aproximava da ruína, um aroma diferente surgiu, erro e flores murchas.
O homem no trono de pedra não apenas a esperava, mas parecia já saber de sua chegada. Seus olhos vermelhos brilhavam como brasas na penumbra da ruína, analisando-a como um predador paciente. A princesa sentiu um arrepio correr pela espinha, mas manteve a postura firme. Era ali que encontraria a ajuda que tanto precisava.
O ar dentro da ruína parecia mais denso, como se a própria escuridão tivesse peso. A luz da lua filtrava-se por frestas no teto destruído, espalhando feixes prateados que dançavam sobre o chão coberto de folhas antigas. As paredes de pedra, cobertas de musgo, pareciam respirar, exalando umidade e um perfume esquecido pelo tempo. Ecos suaves percorriam o espaço, sussurros do vento ou talvez vozes que já não pertenciam ao mundo dos vivos.
No trono de pedra, o vampiro se inclinou levemente à frente, como se estivesse saboreando a tensão no ar. Seus dedos, longos e pálidos, tamborilaram contra o braço do trono, produzindo um som suave e ritmado, como um relógio marcando os últimos instantes antes do inevitável.
Então, ele falou, e sua voz era profunda, envolvente, carregada de uma calma perigosa.
— A coragem de uma princesa, caminhando sozinha em minha morada… — ele sorriu, os caninos brilhando sob a luz fraca. — Diga-me, pequena princesa, o que é tão urgente que te leva a buscar um monstro?
Branca ergueu o queixo, mantendo o olhar firme no vampiro à sua frente. O frio da ruína parecia querer congelar sua coragem, mas ela não podia hesitar. Com voz firme, porém carregada de urgência, ela começou:
— Você é o vampiro do Bosque? — sua voz soou como um sussurro determinado, misturando medo e curiosidade.
Lucian, o vampiro, manteve-se imóvel, sua presença envolta em sombras como se a própria noite se curvasse a ele. Seus olhos vermelhos brilharam por um instante antes de ele dar um passo à frente, seu manto negro esvoaçando como se tivesse vida própria.
— Eu? Eu sou um viajante da escuridão, já me chamaram de muitas coisas..., mas podemos dizer que sou o vampiro... Mas, você pode me chamar de Lucian. — respondeu ele, sua voz profunda e sedutora. — E você, princesa, está longe da segurança de seu reino, por que um ser como você, tão repleto de vida, estaria tão perto da escuridão?
Branca de Neve manteve sua postura firme, mas não pôde evitar sentir um arrepio percorrer sua pele. Havia algo nele que parecia ao mesmo tempo perigoso e fascinante. Ela sabia que histórias sobre vampiros eram contadas por gerações, mas nunca imaginou encontrar um assim, no meio da floresta.
O vento soprou entre as árvores, agitando os cabelos dela e carregando o cheiro de terra úmida e folhas antigas. O vampiro esperou pela resposta, observando cada movimento dela com uma atenção intensa.
Branca respirou fundo. Ela sentia que aquele encontro não era um simples acaso o destino havia traçado esse momento, e agora, ela precisava descobrir se Lucian era um inimigo... ou algo mais
— Meu nome é Darcelle, muitos me chamam de Branca de neve, princesa do reino que minha madrasta governa com crueldade. Vim até você porque não há mais ninguém que possa me ajudar. Fui traída, perseguida… Mas não posso simplesmente continuar a fugir e abandonar aqueles que me protegeram.
Ela apertou as mãos ao lembrar dos sete anões, pequenos em estatura, mas gigantes em lealdade.
— Meus aliados, os sete anões que me deram abrigo, estão agora à mercê de um perigo enviado por ela. Eles me protegeram quando mais precisei, e eu não posso abandoná-los. Eu preciso da sua força, do seu conhecimento... — Branca respirou fundo, sentindo o peso das palavras. — Preciso de você para lutar ao meu lado contra minha madrasta.
O vampiro permaneceu em silêncio por um longo momento. Seus olhos vermelhos brilhavam na penumbra, avaliando-a, julgando-a. Então, ele sorriu, um gesto perigoso e cheio de promessas.
— Você é ousada, princesa… e isso me diverte. Mas diga-me... — Sua voz era quase um sussurro, cortante como lâminas na escuridão. — O que você tem a oferecer em troca da minha ajuda?
Branca respirou fundo, sentindo o peso da decisão que acabara de tomar. Seus olhos encontraram os do vampiro, sem medo, sem hesitação.
— Qualquer coisa que desejar, em troca do seu poder. — Declarou, sua voz firme, mesmo que seu coração martelasse no peito.
O vampiro inclinou-se ligeiramente para a frente, um sorriso perigoso curvando seus lábios pálidos.
— Qualquer coisa, pequena princesa? — perguntou ele, com uma voz profunda e envolvente.
— S... Sim. – Ela com sinceridade, confusão e relutância respondeu.
Branca endireitou a postura, apesar da presença esmagadora do dito vampiro. Seus olhos rubros brilhavam como brasas no crepúsculo da floresta, e seu sorriso carregava um misto de diversão e ameaça. Ele se levantou do trono de pedra com uma graça inquietante, cada movimento calculado, cada gesto carregado de um magnetismo hipnótico. Caminhou devagar ao redor de Branca, como se estivesse avaliando não apenas seu corpo, mas sua alma.
— Eu não compro batalhas dos outros — continuou, sua voz ressoando como um eco na ruína. — Mas poder… ah, poder eu posso conceder. O que você fará com ele, no entanto, será inteiramente seu fardo.
Ele parou diante dela, estudando sua expressão, buscando qualquer vestígio de dúvida.
— Há um preço para toda força adquirida — disse, sua voz como um sussurro que se infiltrava na mente da princesa. — Está disposta a pagar? Você realmente sabe o preço do que pede, princesa?
Ela respirou fundo, sentindo o ar frio preencher seus pulmões.
— Sei que não há vitória sem sacrifício — respondeu. — Mallory tomou tudo de mim, e se eu não lutar, jamais recuperarei o que perdi.
Lucian soltou uma risada baixa, como se apreciasse sua coragem.
— Você fala como alguém que já perdeu mais do que deveria. — Seus olhos a analisaram de cima a baixo antes que ele se levantasse, cada movimento dele carregado de uma elegância sobrenatural. — Eu posso lhe dar o que deseja. Força, velocidade, habilidades que nem sonha possuir.
Branca engoliu em seco. Já esperava que a proposta não fosse simples.
— Qual é o seu preço?
Lucian se aproximou, a sombra dele envolvendo-a como uma névoa viva.
— Seu sangue, seu vínculo com a luz. E, acima de tudo, sua humanidade.
Ela sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Sabia que não poderia vencer Mallory como estava agora, mas o preço que Lucian exigia era pesado.
— Se eu aceitar, ainda serei eu mesma? — questionou, sua voz quase um sussurro.
O vampiro inclinou a cabeça, divertido.
— Seria uma nova versão de si mesma. Uma criatura moldada pelo poder e pela vingança. Está disposta a pagar esse preço?
Branca de Neve fechou os olhos por um instante. Se aceitasse, jamais voltaria a ser a mesma. Mas se recusasse… Mallory venceria. A decisão pairava sobre ela como uma lâmina prestes a cair. Branca sentiu um arrepio percorrer sua espinha ao ouvir as palavras do vampiro.
Lucian, estava parado a frente dela, inclinou a cabeça, seus olhos vermelhos brilhando com um interesse afiado. Ele não precisava da princesa, não como ela precisou dos anões que a protegiam e precisava dele agora, diante de um perigo, não como Mallory a caçava. Mas ela viera até ele, e isso tornava a proposta intrigante.
Branca de Neve sentiu o frio da noite envolvendo-a enquanto encarava Lucian. As palavras dele ainda ecoavam em sua mente: poder, sacrifício, transformação. Não havia mais espaço para dúvidas. Ela inspirou profundamente, depois ergueu o queixo.
— Eu aceito. Se isso me tornar forte o suficiente para derrotá-la. — disse ela, sua voz firme. — Eu aceito.
Os lábios do vampiro se curvaram em um sorriso satisfeito. Sem demora, ele estendeu uma mão, seus dedos pálidos e longos como os galhos retorcidos das árvores ao redor.
— Que coragem admirável, venha, pequena princesa — murmurou. — Dê-me seu sangue, e eu lhe darei um destino novo.
Branca esticou o braço direito, mostrando seu pulso até ele, seu coração martelando no peito. Lucian inclinou-se para perto e, com uma precisão quase elegante e predatória, perfurou seu pulso com as presas. A dor veio rápida, mas logo foi substituída por um calor febril e uma energia pulsante que se espalhou pelo seu corpo.
Lucian bebeu apenas o necessário antes de se afastar. Seus olhos vermelhos estavam intensos, brilhando com um misto de prazer e mistério.
— Está pago — disse ele, limpando os vestígios do sangue com um gesto descuidado.
Lucian observou com satisfação, seu sorriso afiado brilhando sob a luz pálida da lua. Com um movimento elegante, ele retirou um objeto do bolso de seu manto, a maçã. Vermelha, reluzente, perfeita. Ele a segurou na palma da mão, como se oferecesse um destino selado.
— Aqui está o que precisa, pequena princesa — disse ele, sua voz carregada de mistério. — Nesta maçã há mais do que um simples fruto. Há conhecimento, há poder. Uma dádiva e uma maldição. — Seus olhos brilharam. — Com ela, você terá força suficiente para enfrentar suas batalhas. Mas lembre-se, pequena princesa, tudo que nasce do sangue dos condenados jamais é puro. Ela a ligará você à noite. Sua força crescerá, seu corpo mudará. Sua alma sentirá o chamado da escuridão. Você será rápida como a tempestade, implacável como a noite…
Branca segurou o fruto, sentindo seu peso e sua promessa. Ela respirou fundo. O frio parecia mais intenso, e dentro de si, uma dúvida surgiu seria esse o preço necessário para enfrentar Mallory? Não havia alternativa. Então, sem hesitar, mordeu a maçã.
A floresta ficou em silêncio. A lua brilhou sobre as ruínas. Um calor estranho percorreu seu corpo, como um fogo gelado, uma energia que queimava e reconstruía ao mesmo tempo. Era como se cada célula dentro dela fosse transformada. Branca, cambaleando por um instante, sentiu algo diferente dentro de si.
Sua respiração estava mais controlada. Seu coração batia mais forte. O mundo ao seu redor parecia mais nítido os sons, os aromas, até mesmo o vento contra sua pele. Ela sentia que não era mais a mesma. Lucian sorriu, observando-a e disse.
— Agora, vá, pequena princesa.
Branca ergueu o olhar.
— O que acontece agora?
O vampiro que já havia voltado aonde estava anteriormente, apenas recostou-se em seu trono, seus olhos penetrantes observando a jovem princesa.
— Agora, pequena princesa, você descobrira se consegue sobreviver à sua própria transformação e o inimigo que a espreita.
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