Som das Palavras
5 crises da metrópole
Notas iniciais

but you'll feel better when you wake up, swear to God I'll make up. everything and more when I get back someday. this is more than just a phase, love, shooting stars all break up and even though it seems like half the world away
Era vida de casal jovem, sabe?
Risadas, ilusões de um mundo melhor, aquela vontade de fugir que nos acomete quando somos bobos, sexo todo dia. Esse tipo de coisa, quando um casal jovem decide deixar tudo para trás para viver o próprio amor; um pequeno apartamento alugado com o pouco dinheiro que tinham. Bem, os pais não eram grandes apoiadores daquele romance. Ela cancelara a matrícula na faculdade, ele desistira do curso no meio mesmo.
Eram apenas dois jovens apaixonados contra o mundo.
E suas visitas ocasionais: os envelopes que passavam por baixo da porta. Ela deu um deles para o namorado, dirigindo-se para a cozinha.
“Conta?”, ele perguntou. Ela nem respondera, deixando que o silêncio falasse enquanto se afastava, apesar de ele tê-la seguido até o cômodo, apoiando-se no batente da porta.
É que era a quarta do mês, e eles não tinham dinheiro. Fora o aluguel.
“E o proprietário disse que vai cobrar juro pelos meses atrasados”, ela informou, sem olhá-lo nos olhos; mexia na louça, ajeitava uns copos, ia na dispensa. Qualquer ação que a distraísse por uns segundos de anestesia. “Eu vou dar um jeito”, ele prometeu, como sempre fazia. “Eu pensei em vender umas fotografias para os jornais, sabe? Eu conheci um cara que ganhou um emp…”
Ela riu, sem graça na voz. As lágrimas já ameaçavam correr.
“É, você sempre dá um jeito.” Não soava o tom dela; parecia mais o da mãe, o do pai que odiava a vida “vadia” que os dois levavam.
“Eu tô falando sério. Eu posso, não sei, talvez…”, mas vacilou. Denunciara a insegurança. “Eu não sei.”
Ela soluçou, cortando-se superficialmente com a faca que fatiava um pedaço de queijo, e deu um pequeno pulo. Ele suspirou e foi para perto, tentando aninhá-la, mas ela se afastou.
“Me deixa”, pediu, irritadiça, só que ele não foi.
“Calma, vai dar tudo certo…”
Mas não ia. E ela sabia disso. E ela gritou isso.
Gritou, empurrou-o para longe, soltou poucas e boas sobre a situação, tentou atacá-lo; fazia tudo numa raiva inofensiva, porque não estava efetivamente brava, mas triste.
Desconsolada.
Quando o breve momento de fúria passou, ela se jogou no chão e chorou. Ele tentou se aproximar, mas novamente fora repelido.
E aquilo doeu.
Não é como se fosse fácil pra ninguém. Ele também não acreditava cegamente em suas palavras, ele sabia que não era confortável, ele sabia que todo seu idealismo juvenil perdia força…
E pegou a chave de casa e saiu.
Correu para a rua, desprendeu a bicicleta do poste, pedalou por aí; pedalou sem destino, cansando as pernas, forçando os músculos, até que mesmo chorar fosse muito esforço para seu organismo, e só acabando largado em algum parque.
De noite, voltaria para ela, se não tivesse sido atropelado no caminho.
(...)
Acordou tonto, cheio de aparelhos ao seu redor. Apoiada no braço da cama de hospital, ela caía em breves cochilos.
Seus olhos se cruzaram.
No final, ainda tinham um ao outro.
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