Som das Palavras
6 A Semente de Othello
Notas iniciais
and she leaves with someone you don't know, but she makes sure you saw her: she looks right at you and bolts. as she walks out the door, your blood boiling your stomach in ropes and when your friends say "what is it? you look like you've seen a ghost" and you walk under the streetlights and you're too drunk to notice that everyone is staring at you and you so care what you look like the world is falling around you. you just have to see her (...) and you know that she'll break you in two
(Sometime Around Midnight — The Airbone Toxic Event)
Começava como uma semente.
Pequeno, sutil, inofensivo. Caía meio sem querer no solo, começava a querer se intrometer, testava a dureza de seu pequeno casulo até achar uma brecha. Quando a achava, fazia uma leve força, um pequeno esforço para quebrar a casca, e iniciava seu crescimento.
Bem, nada de especial. Era só um fiapo de um caule meio tosco, uma aparição única que não denunciava a possibilidade, quer dizer, ele sabia que aquilo poderia crescer, mas ninguém imagina que chegasse a ser uma grande árvore. Para todos os efeitos, era como uma muda: sem som, quieta, introspectiva. Só esqueceu de pensar que ninguém planeja um assassinato em voz alta.
Dentro de si, a muda se fortalecia. Por fora, continuava uma muda; por dentro, as raízes iam achando fundamento. Não bastasse a paranoia dele, ela também fornecia motivos, quer dizer, alimento.
As raízes cresciam em seu organismo. As raízes afundavam em seu psicológico. As raízes se enraizavam nele.
Logo, a analogia com o mundo vegetal já não era mais cabível. A metáfora mais certa, agora, seria com algum animal, provavelmente algo pequeno, mas hiperativo. Algum tipo de bolinha felpuda que ninguém daria nada, mas que se mexia demais, demonstrava muita força e energia.
Essa bolinha tinha um crescimento exponencial. E, nossa, como ela bagunçava tudo: ela puxava um fio, derrubava uma peça, reprogramava o homem de lata. Coitado do robô, sendo consumido por algo assim tão orgânico.
Essa coisa, esse bichinho, esse demônio — não tinha como ser algo racional, mas era. O problema dos humanos é confundir sentimento com razão, e normalmente as situações degringolam a partir daí. Esse bichinho ficava louco, corria, um pequeno furacão interno; roía-lhe as vísceras, causava-o ataques de raiva, crises ao som de gritos.
Nem era mais um bichinho, no diminutivo. E esse tipo de coisa aumenta muito, viu? Pode até te consumir.
Se não tomar cuidado, explode, e aí voam estilhaços para todos os lados.
Ele não tomou. Mas foi ela que ficou ferida.
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