Soldado 37

4 Fé, Bondade e 12 anos


Notas iniciais
desculpe o atraso galera!

FÉ, BONDADE E 12 ANOS:

Após controlar-se e voltar ao seu estado “normal", o soldado chorão colocou-se a andar sorrateiramente para um aglomerado de cobertas acinzentadas que tremia do lado oposto de onde se encontrava ele e o cadáver de Elizabeth Stein.

Cautelosamente se ajoelhou e tirou devagarzinho as cobertas de cima do causador do tremor, logo avistou um garotinho de cabelo liso e negro, com olhos assustados e molhados, sentou-se então do lado do garoto, e passando o braço por cima dos ombros pequenos puxou-o para si. Quando o menino já estava perto o suficiente, e calmo o suficiente Müller disse cautelosamente à ele:

_Desculpe Max, eu não sabia o que estava fazendo, sinto muito por sua perda -Contendo as lágrimas- de agora em diante vou cuidar de você, pode ser?

O menino calmo, que com toda a certeza ainda não tinha percebido direito o que havia acontecido naquele porão imundo, balançou a cabeça positivamente, atirando-se nos braços de Fredrich, que voltando a soltar as lágrimas claras, salgadas e sinceras o abraçou de volta.

_Espere aqui, não faça nenhum barulho, e se esconda de novo debaixo de suas cobertas._ Sussurrou Müller no ouvido pequeno do garoto dos olhos da cor da noite, e saiu em seguida para ver como estavam as coisas na parte superior da casa.

...

Todos mortos, além de Elizabeth e seu irmão, a jovem ariana que supostamente era dona da casa também estava morta, ao seu lado um alemão também morto, este deveria ser seu marido.

Horrorizado Müller adentrava o local bem devagar e se misturava com os outros soldados no intuito de que nenhum deles percebesse que ele não estava ali durante todo o assassinato de alemães.

E assim foi, ninguém se deu conta de que Müller passou um bom tempo afastado, já com o cair da noite o grupo nazista chegou aos seus respectivos dormitórios.

Fredrich então resolveu que esperaria todos adormecerem, para finalmente cuidar do sobrinho da Beth Stein. Era por volta de 2e15 da madrugada, quando finalmente todos os seus companheiros adormeceram, pareciam pedras, totalmente estáticos, realmente pareciam pedras, exceto pelo barulho de ronco que faziam, satisfeito e remotamente humorado pela situação o bravo soldado saiu sorrateiramente do dormitório — eu estou ficando profissional em me mover sorrateiramente- pensou ele com uma linha de riso no rosto. Pegou então uma mochila sua e colocou dentro dela alguns alimentos e algumas garrafas de água e suco.

Voltou depressa ao local do assassinato coletivo e agora reparava cuidadosamente nos detalhes da casa, que tinha o chão de madeira, muito bem limpo, se não pelo sangue ali derramado, que formava uma mancha realmente bem grande. Moveis antigos, bonitos, e bem conservados e muitas fotos espalhadas por sobre algumas mesinhas na sala de estar, a casa toda tinha paredes brancas, algumas possuíam rachaduras pequenas, mas que não passavam despercebidas, ninguém imaginaria que aquela casa serviria de cenário para uma chacina, mas foi o que aconteceu.

Müller então achou a escada que levava ao porão, muniu-se de uma lanterna para conseguir descer os degraus sem se estatelar no chão, chegou então ao cômodo inferior, que nem se quer parecia fazer parte da casa que ele viu acima, completamente sujo, úmido e frio, com paredes sujas e totalmente depredadas — deve ter sido muito difícil ter vivido aqui – pensou o soldado já caminhando na direção das mesmas cobertas acinzentadas daquela tarde, e sorrindo disse enquanto chacoalhava o garotinho que devia ter por volta de 10 a 12 anos:

_Max...Max, acorde, eu vim te buscar.

O menino começou a abrir os olhos lentamente, esfregando-os com as mãos semi cerradas e produzindo alguns sons sem sentidos, quando finalmente acordou e viu Müller sorrindo para ele, sorriu de volta e falou com clareza:

_Fredrich?

_Sim.

_Eu estou morto de fome, e com um pouco de sede também, desde que você foi embora eu não encontrei nada pra comer._ Disse o pequeno menino se espreguiçando e sentando no chão que a pouco tinha servido-lhe de cama

_Eu imaginei que você estaria com muita fome, então eu vim prevenido._ Falou Müller sorridente, entregando a mochila à Max, o mesmo fez uma expressão um tanto assustada quando a abriu, viu ali alimentos que ele, apesar de muito gostar, não comia com freqüência, muitas frutas, pães e até mesmo doces, além de sucos e água.

Mesmo com tamanha fome e desejo de comer aquelas comidas ele não tocou em nada instantaneamente, Fredrich perguntou então o porquê do menino não estar comendo nada, e ele simplesmente respondeu:

_É que nós ainda não oramos agradecendo a Deus pela comida que temos hoje._Falou o pequeno menino, enquanto juntava suas mãos se preparando para a oração.

Fredrich olhou espantado e emocionado para o menino, começou a pensar no quanto deveria ter sido difícil para ele, seu pai e sua tia todo o tempo em que passaram ali, mas mesmo assim não perderam a fé que tinham em algo maior que eles.

Ele não conseguia entender como aquela criança poderia ainda agradecer a algo tão cruel, que permitia que eles passassem por uma situação tão desumana quanto a que estavam passando, mas mesmo assim juntou as mãos e orou pela comida, terminada a oração, Müller sentou se do lado de Max e comeu um doce enquanto o menino se fartava da comida que o soldado havia lhe trazido, e parecendo ler o pensamento de Müller, Max , depois da refeição, sussurrou:

_Alguns humanos são muito cruéis, e ninguém pode se responsabilizar ou mudar isso.