Solaris
1 Prólogo
A alma que pecar, essa mesma morrerá.
Ezequiel 18:20
Prólogo
No início de tudo a Terra era um paraíso chamado de Solaris. Os cinco continentes que hoje conhecemos, separados por oceanos – Atlântico, Pacífico e Índico – eram unidos numa mesma terra, sem que houvesse mares para separá-los.
Um dia o Criador de tudo, Aquele cujo nome desconhecemos, resolveu criar todos os seres, os animais, os peixes, os pássaros e os humanos.
Mas antes disso, muito antes, a primeira tarefa foi criar a hoste[1] de Anjos; Os anjos possuíam asas, grandes e brancas, e cada ser possuía uma característica física própria, os quais Ele colocou em Solaris para que vivessem para sempre na perfeita felicidade.
O primeiro ser criado foi o Arcanjo Yasmine, em toda sua perfeição, bondade e força. Yasmine era a extrema beleza, absoluta em juízo, paciência e amor. Sua tarefa era reinar sobre o Paraíso. Formou do nada como em uma magia também os Serafins, conhecidos como Guardiões do Trono, que ficariam eternamente na companhia de seu Criador.
Logo após, criou Seth, a quem chamou de Arcanjo Guardião da Humanidade; ele foi criado como protetor do Conhecimento, assim sua função era que levasse os imortais ao ideal perfeito de evolução espiritual. Embora Seth fosse um Arcanjo como Yasmine, não era tão poderoso quanto esta.
E então o Criador finalmente criou o Arcanjo Ethaniel, cujo esplendor podia ser visto por todos. Chamou-o de Guardião de Solaris, a quem deu a tarefa de manter a ordem e a paz. Dotou-lhe de muito poder, já que ele estaria em frequente contato com Solaris. Ethaniel estava em todos os lugares de Solaris, mas seu lugar preferido era nas montanhas, como uma espécie de Sacerdote. Os humanos frequentemente o consultavam sobre todas as questões que brotassem em suas mentes e corações, geralmente coisas rotineiras da vida, pois aquele era um mundo de paz.
Depois de ter criado os Arcanjos Yasmine, Seth e Ethaniel, o Criador continuou a criar anjos, todos de uma categoria inferior aos que até então havia criado. Criou milhões de anjos alados, divinos e perfeitos em tudo quanto intentassem fazer. A cada um deu missões diferentes para velarem por Solaris, segundo suas classes. Os Querubins para guardarem o trono; os Serafins para guerrearem nos Céus e em Solaris se fosse preciso. Existia uma lenda de que existia um Arcanjo terrivelmente poderoso, que vivia com o Criador nos tempos remotos. Um agente entre os Anjos, na falta de definição melhor da palavra. Tal Arcanjo fora visto por alguns Anjos, nos confins do Universo, perto da Constelação de Alcíone. Os que chegavam a vê-lo mudavam de hierarquia na escala celeste, como se fossem convocados. Mudavam até sua aparência. Por ser um desses mistérios celestes, os Anjos que tiveram tal privilégio e honra jamais revelaram quem era o tal Arcanjo ou qual a fonte de seu poder. Assim a classe angélica apenas murmurava a respeito. E se os Arcanjos nada comentavam, não existia motivos para especulações. Anjos em sua maioria, são seres dóceis, fortes e simples, porém perigosos quando provocados.
Somente após a festa da criação dos Anjos, os seres humanos foram criados. Porém, eram imortais. Tinham uma beleza tão perfeita quanto às dos anjos. Os seres imortais viviam em Solaris, guardados e protegidos por Ethaniel e seus anjos, sob o reinado de Yasmine e Seth — dois Arcanjos que unidos, conduziriam o povo à suprema paz.
O Criador deu à Yasmine e Seth uma caixa que continha toda a sorte de Males. Claro que isso era para ser um segredo oculto à humanidade, mas havia muitos Anjos que sabiam da existência da Caixa, e um segredo guardado entre milhares deixa de ser segredo. Muitos humanos, ouvindo os rumores da tal caixa poderosa, começaram a se interessar por ela. A Caixa, fechada, emitiria uma força positiva que manteria Solaris balanceada com perfeição. Aberta, liberaria uma força negativa tal, que traria destruição, doenças e morte. Eles deveriam assegurar que nada e nem ninguém tivesse acesso à Caixa.
No entanto, algo deu errado. Houve uma rebelião de Humanos Imortais e Anjos. Centenas de milhares de anjos e humanos acreditavam que de posse da Caixa, dominariam a Terra. Hordas de Anjos, homens e mulheres, influenciados e ajudados pelos numerosos clãs que habitavam Solaris juntaram-se, aos pés da Montanha Resplendor, em uma busca desesperada pela Caixa. O resultado foi catastrófico. A Caixa fora roubada. Este acontecimento ficou conhecido como a Grande Queda. Solaris foi dividida em cinco continentes. Os terremotos e oceanos cumpriram a tarefa de separá-los. O motivo da separação era evidente: Graças à abertura da Caixa, o Mal antes desconhecido pelas forças do Bem, instalou-se no âmago de cada ser, anjo e humano. A força maléfica liberada pela Caixa penetrou cada centímetro de Solaris fazendo morrer a terra verde e impregnou o ar com um veneno que alterou a estrutura genética de todos os seres imortais que habitavam a terra. Eles passaram a envelhecer, adoecer e morrer. Com os corações, mentes e sangues corrompidos, e as forças malignas da Caixa reinando no ar e contaminando a tudo e a todos, começaram a surgir os primeiros assassinatos, os primeiros roubos, as primeiras guerras.
Foi para evitar que sua própria criação se auto-aniquilasse que o Criador decidiu pela divisão dos continentes. O Grande Terremoto sacudiu o globo e mudou a geografia da terra. Mas ainda era pouco, o castigo precisava ser exemplar. Reuniu-se então no Céu os anjos que não se rebelaram, e o Criador passou-lhes o castigo que haveria de aplicar. Foi assim que Yasmine e Seth tornaram-se porta-vozes das mensagens do Alto, e levaram o julgamento do Grande Senhor à humanidade imortal.
Foi decidido que os seres humanos imortais que apoiaram diretamente a rebelião incitando-a, virariam meros mortais fadados a sofrer toda a sorte de males. Infelizmente a quantidade desses que a incitaram era imensa, mais de um milhão de seres. No entanto o amoroso Criador lhes daria o perdão, se a partir daí vivessem uma vida justa. Prometeu-lhes restaurar Solaris um dia e acordar a todos do Grande Sono.
Aos anjos que se rebelaram, lhes foi negado o acesso ao Céu. Ficaram conhecidos com Daemons. Alguns foram trancados em prisões eternas, reservados no inferno para o dia do Juízo. As cores de suas asas enegreceram devido à maldade em seus corações. Porém um ser rebelde envolto em mistérios, cujo nome não fora revelado, escapara dessa prisão. O articulador de toda a blasfêmia, o cabeça da rebelião, logo se viu livre dos grilhões do Inferno, e foi liderar os Daemons. Como isto aconteceu exatamente ainda é desconhecido. Os imortais banidos de Solaris, aqueles que estiveram na empreitada pela caixa, ou a apoiaram, não perderam sua imortalidade; graças a Caixa, receberam poderes; ganharam Asas Negras. No entanto, ficaram conhecidos como uma classe inferior de Daemons.
Começaram então a praticar suas maldades, atos horrendos com os quais seriam eternamente conhecidos: atormentar a humanidade; o motivo de sua raiva era simples: aos Daemons não fora reservado o perdão, nem o retorno à restauração futura de Solaris. Cegos de ódio, resolveram perseguir a humanidade, outrora imortal. O veredicto final selou a futura destruição de todos os Daemons.
Havia, no entanto, muitos seres humanos imortais que não se rebelaram, mas posicionaram-se firmemente contra os Daemons. Eles tomaram o partido dos Anjos. Tentaram sem sucesso defender Solaris da loucura impensada dos Daemons. O que deveria ser feito deles? Viram a destruição tomar conta de toda a terra, observaram as divisões, viram mortes, sofrimentos e dores. Mas não eram culpados. Por conta de sua atitude neutra e firme, os males da caixa não os atingiram. Então o Alto convocou Yasmine e Seth e lhes ordenou que liderassem essa pequena classe de seres humanos; como recompensa pela coragem e bravura, o Criador os transformou em Anjos. Então todos os Anjos com exceção dos Arcanjos passaram a se chamar de Ângelus. Os Ângelus não passavam de poucas centenas, diferentemente dos Daemons, que reuniram para si alguns milhares. A eles por conta do fracasso em conter a rebelião e de evitarem a desgraça, foi ordenado que auxiliassem o Criador na tarefa de guardar a humanidade. Ethaniel, o Guardião de Solaris desaparecera misteriosamente, e não foi mais visto. Havia um murmúrio entre os Anjos de que um ser de negritude imensa, que se auto-intitulava Darkken, que ninguém sabia o que era, ou quem era –– muitos duvidavam de sua existência –– havia inspirado o Guardião de Solaris a começar a rebelião. Boatos. Boatos murmurados ao vento.
Após muitos anos – depois de passado o julgamento, e a transformação de Solaris em cinco continentes – Yasmine e Seth foram proibidos de voltarem ao Céu, até que cumprissem a tarefa de proteger a humanidade de um novo perigo que ainda estava por vir.
Os Daemons encontraram uma forma de procriar a raça, já que a maldição os deixou semi-estéreis. Entre eles próprios não podiam procriar pois seus corpos foram amaldiçoados; porém tendo relações com os humanos, isso se tornava possível.
Essa é uma parte importante da história que conta a verdadeira origem da Terra que vivemos. A glória de Solaris e seus habitantes imortais e angélicos fora transformada numa história para fazer criança dormir. Para os agora seres humanos mortais, Solaris e a caixa nunca existiram. Mergulhada na ignorância a que ela própria submeteu-se, a humanidade não notou quando os Daemons materializaram-se disfarçados de simples humanos para casar com mulheres e homens humanos, gerando assim, novamente, filhos imortais.
Esses novos imortais, filhos de Daemons e humanos mortais, foram chamados Nephilins. A fusão do sangue humano com divino despertou a maldade inata existente em seus corações. Os Nephilins tinham seu coração totalmente voltado ao mal. A terra encheu-se desses seres e foi tomada por guerras e violências alarmantes. Os Ângelus tentaram em vão controlar o crescimento desmedido, mas estavam em menor número, e alguns foram mortos por Daemons. O Criador mais uma vez teve de agir, e mandou o dilúvio para exterminar a raça humana juntamente com os Nephilins, deixando apenas alguns humanos vivos para procriarem e dar continuidade à raça. Essas pessoas mais tarde repovoaram toda a terra novamente.
Os Daemons ficaram furiosos, pois perceberam que nada podiam contra a força do Criador e resolveram desistir. Novamentre a história já estava sendo esquecida. É preciso lembrar que entre os Daemons havia duas classes distintas. A Superior, que eram os ex-anjos, e a Inferior, daqueles que eram os ex-habitantes de Solaris, humanos imortais, que receberam o castigo do banimento. E estes, através das negritudes do oculto, da magia inominável, ganharam asas, asas negras. Esses são portanto os Daemons Inferiores, e como tais, eram discriminados e muitas vezes torturados por aqueles ex-anjos que agora estavam amaldiçoados. Muito tempo depois esses Daemons de classe Inferior, lembrando-se do feito dos Daemons Superiores que geraram Nephilins, resolveram seguir-lhes o exemplo, pois aqueles que nunca tinham sido Anjos, eram os únicos que não tentaram a façanha de engravidar humanos. Eles só observaram. Acreditando que desta vez a história seria diferente, já que eles nunca foram anjos, eles decidiram repetir a façanha.
Pesquisando durante milênios, perceberam que em alguns humanos especiais havia alterações genéticas que lhes permitiam gerar filhos inumanos, filhos estes que certamente não seriam desordeiros e infiéis. A descoberta feita pelos Daemons Inferiores, foi recebida com festa. Liderados pelo mais poderoso e misterioso dos ex-Anjos, saíram à caça dessas pessoas, a quem chamaram de Chaves.
Assim, proscritos no Céu e exilados na Terra, o Arcanjo Yasmine e Arcanjo Seth uniram suas forças com os Ângelus para evitar a procriação maldita sabendo que chegava o grande clímax do porvir: A destruição de todos os Daemons ou a aniquilação da raça humana.
[1] Multidão
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