Solaris
2 CAPÍTULO 1 - O ESTRANHO PERFEITO
DAFNE
Eu estava estressada.
Tão logo o sinal que anunciava o término da aula soou estridente e irritante, corri para o banheiro o mais rápido que pude. Precisava verificar como eu estava –– não que considerasse minha aparência importante ––, era apenas uma questão de hábito, olhar-me no espelho antes de fazer qualquer outra coisa.
Olhei-me no espelho enquanto dava curso aos meus pensamentos. Possuía uma pele morena que contrastava bem com os meus olhos verdes. Meus cabelos eram ondulados, pretos e iam até a cintura. Eram bonitos quando bem penteados; no entanto, depois de uma aula de educação física, conservar os cabelos bonitos é algo que nem as modelos profissionais conseguem fazer –– especialmente com um professor exigente como o nosso. Peguei um elástico de meia-calça, que eu mesma pintei e colei uns botõezinhos para parecer novo, de modo que não ficasse parecendo sem graça demais e com ele amarrei meus cabelos em um rabo-de-cavalo enorme. Percebi que meu uniforme estava um pouco sujo. Estava vestindo uma blusa branca básica e uma calça jeans azul marinho, com o adorado tênis azul escuro e já bastante surrado. Fiz uma careta. Não tinha tempo para trocar de roupa agora. Precisava ir para casa, já que planejava sair depois e eu realmente não estava de bom humor para pensar nisso agora.
Depois de uma semana de avaliações brutais na escola –– que não pareciam ter fim –– hoje, sexta-feira, eu finalmente teria o meu descanso merecido. Enquanto caminhava para longe do perímetro da escola, achei que seria uma ótima ideia ir ao cinema e pensei em chamar meu namorado Jonas para ir comigo.
–– Dafne! –– ouvi meu nome sendo chamado.
–– Oi, Jonas! Que coincidência, eu queria mesmo falar contigo... –– ele envolveu meu ombro com seu braço e me deu um beijo na bochecha.
–– E então –– ele falou olhando nos meus olhos –– sobre o que é que você queria falar comigo?
–– Bem, você sabe como esta semana de provas foi difícil –– ele balançou a cabeça concordando comigo –– então eu estava pensando que seria bom se fôssemos ao cinema para relaxar. O que você acha?
Ele ficou em silêncio durante algum tempo e depois retirou o braço que estava apoiado nos meus ombros. Olhei nos seus olhos, e vi a reação que eu já percebera há alguns dias... Distância... Ultimamente sempre que combinávamos algum programa –– ou melhor, quando eu combinava algum programa ––, ele sempre dava uma desculpa e acabava por não ir. E o pior de tudo isso, era que eu mesma não me importava muito... De fato, eu preferia que fosse assim. O que é que havia de errado comigo? Uma namorada deveria reagir assim com toda essa naturalidade e indiferença, que partia de minha parte, bem como da dele? A meu ver, parecia que o fim estava próximo, mas que nenhum de nós era forte –– ou corajoso –– o suficiente, para decretar o fim.
–– Ah, sabe o que é Dafne... Eu... –– ele começou com suas desculpas.
–– Eu já sei, você não vai poder ir, não é? –– completei, a mesma fala que por dias se repetia.
–– É sim. Eu sinto muito. –– ele falava como se realmente se importasse.
–– Tudo bem. –– e eu fingia entender.
–– Mas então... Podemos nos vemos depois? –– ele perguntou.
–– Sim... –– respondi e então ele se foi –– ...bem depois –– murmurei enquanto ele se afastava.
Respirei fundo e deixei se esvair o pensamento de um namorado ingrato e desinteressado, para que fosse pegar o ônibus que me levaria até a minha casa.
Entrei no ônibus que não tardou a chegar. Procurei um lugar bom para sentar –– de preferência que fosse ao lado da janela. Achei um lá no fundo, aonde o ônibus sacoleja mais. Suspirei conformada. Sentei-me no único lugar vazio e grudei a cabeça na janela. Fiquei a pensar. Pensei no meu nome, Dafne, que me meus pais me deram. Acho que era a única coisa que gostava em mim, o meu nome. Talvez por ser diferente, de origem grega. Fiz dezoito anos em fevereiro. Vivia no subúrbio de São Paulo, junto com meus pais. Minha família não era rica, nem era perfeita; tínhamos bons e maus dias. Era uma família normal. Eu era filha única, não tinha irmãos. Nós tínhamos um carro que não era novo, mas funcionava bem. No entanto, meus pais precisavam dele para ir para seus respectivos trabalhos, e como minha escola ficava na contramão, eu tinha que me virar –– o que explicava a necessidade do ônibus para me locomover. Minha família não tinha luxos, nem poderíamos nos dar esse prazer, mesmo que quiséssemos. Ambos os meus pais trabalhavam, mas o dinheiro que ganhavam não era o suficiente para que nos permitisse respirar. Éramos humildes, sim, mas não faltava comida na nossa mesa.
Ao chegar a casa, não tinha ninguém. Ser filha única tinha suas vantagens: Uma delas é ter a casa para si quando os pais trabalham –– e este realmente é o significado da palavra silêncio. Fui até o meu quarto, que ficava logo após a sala, onde larguei de qualquer jeito a minha mochila pesada em cima da minha cama, que fez um barulho estranho. Sentei na cama só para confirmar que ainda não a havia quebrado. Decidi que tomaria um banho, por causa do imenso calor que estava fazendo nestes dias e para me livrar do odor que estava impregnado na roupa de educação física. Argh! Eu odiava o calor. Gostava mesmo era do frio, da neve. Mas em São Paulo nunca nevou. Fiz uma anotação mental de guardar dinheiro para visitar a Europa no inverno, um dia. Não custava nada sonhar.
Despi minhas roupas que cheiravam mal, e joguei-as no cesto de roupas sujas. Quando fiz isso, quase desanimei. O cesto estava cheio de roupas que eu vinha adiando o dia de lavar. Eu era a responsável por lavar as minhas próprias roupas. Você tem que fazer isso, Dafne. Tem que saber se virar sozinha. Lavar as próprias roupas é um símbolo de liberdade. As palavras da minha mãe ecoaram na minha mente. Quem inventou a psicologia não devia ter tido uma mãe psicóloga.
Tomei um banho rápido e vesti um conjunto de camiseta e shorts e fui até a cozinha para preparar alguma coisa para mim, pois meus pais só estariam em casa depois das dezenove horas. Fiz uma refeição rápida: macarrão com queijo e suco de laranja –– já pronto. Quando terminei, lavei os pratos e fui dormir um pouco, pois mais tarde eu iria sozinha ao cinema.
Meus pais não se importavam que eu saísse sozinha –– ou acompanhada ––, desde que os mantivesse informados. Eu havia ganhado um celular pré-pago de presente no meu aniversário, e que era para ser usado exclusivamente para informá-los dos meus passos, bem como em alguma emergência.
Às dezessete horas acordei e fui me arrumar, pois a sessão do filme começaria às dezoito. Dada a condição da minha família, as roupas que eu usava eram simples: camisetas, pares de jeans, casacos e tênis compunham a maior parte do meu guarda roupa. Escolhi um par de calças escuras, uma camiseta azul marinho e um casaco que era da mesma cor da calça. Calcei meu tênis preto –– porque eu definitivamente não gostava de andar de salto alto –– e meias, para que o tênis não ficasse com aquele cheirinho que todos adoram quando os calçamos sem meias. Antes de sair, troquei a água e a ração do meu gato, o Snow, que nem se dignara a abrir os olhos e ver que eu estava saindo.
O filme em questão era um desses hits do verão que todos estavam comentando; Não que o tema me interessasse, pois era no mínimo inconcebível o fato de que anjos e demônios habitassem entre nós. Mas, como eu não tinha nada melhor para fazer –– e eu realmente precisava arejar a minha mente ––, decidi que ia assim mesmo e depois poderia falar mal do filme à vontade, sendo que eu era a única do meu grupo de amigos que ainda não o tinha visto.
Por sorte, o ônibus se aproximava do ponto de ônibus no mesmo momento em que eu me aproximava. Calculei mentalmente que se o trânsito estivesse bom, não demoraria mais que meia hora para que eu chegasse até o shopping.
Dei sorte! Cerca de meia hora depois, eu havia chegado ao shopping e fui para a fila comprar o meu ingresso, usando a minha carteirinha de meia entrada. Eu considerava que este era o único benefício de ainda ser estudante.
Depois que comprei meu ingresso, verifiquei o meu relógio de pulso –– eu adorava relógios de pulso ––, e vi que ainda faltavam dez minutos para o início do filme. Mesmo assim decidi ir logo para a sala onde o filme seria exibido, pois não estava com paciência para ficar do lado de fora, aguardando o cinema encher para só depois entrar.
Acomodei-me na quarta fileira –– algo que eu sempre fazia quando me era permitido; ou seja, quando o cinema ainda não estava cheio ––, e eu tinha a oportunidade de escolher o lugar onde sentaria.
O cinema começou a encher e de repente senti um incômodo, não, uma necessidade compulsiva de olhar para trás. Foi quando ele entrou pela porta da sala. Tudo deveria estar escuro, mas não estava. As luzes de emergência ainda permaneciam acesas e eu o vi entrar pelo corredor da sala lotada de gente e sentar-se ao meu lado, aparentemente o único lugar vazio. O filme começou e tentei prestar atenção. Mas, por alguma razão, aquele estranho ao meu lado interrompia meus pensamentos de tal forma que era impossível não observá-lo. Tomei o cuidado de esticar uma olhadela enquanto o filme exibia uma daquelas cenas sem sentido e fantasiosas.
Ele era inumanamente belo. Seu rosto era perfeito, simétrico, e brilhava em minúsculos pontos, quase imperceptíveis, como se houvessem muitas pedras preciosas. Mas isso parecia ser impossível, não é? Afinal, estávamos numa sala escura na qual a única fonte de luz provinha da tela logo a nossa frente. Bem possível que eu precisasse fazer uma consulta ao oftalmologista, pensei. O cabelo era curto, em tons de louro e preto, uma mistura graciosa em formas que me lembravam as ondas do mar. Seu tórax era forte e bem delineado, podia ser visto através da blusa justa que ele usava e o mesmo podia dizer de seus braços. E enquanto o cinema exibia o filme, o brilho da tela em seu rosto fazia-o parecer um anjo divino. Era um pecado alguém ser tão belo. Imediatamente me senti desconfortável. Eu não era lá dessas pessoas que ficavam o tempo todo inspecionando as pessoas desavergonhadamente. Encolhi-me na cadeira como se pudesse sumir nela.
–– Terminou de me observar? –– perguntou ele, placidamente. Seus olhos brincalhões percorrendo os meus. Ali, naquele lugar, não consegui definir a cor deles: eram de uma cor que não existia. Parecia que eram de outro mundo. Senti vontade de me inclinar para ele, a fim de desvendar qual seria a cor dos seus olhos.
Mas a sua pergunta me pegou de surpresa, até porque eu estava encolhida numa posição não muito bonita. Decidi que ele era convencido. Fechei a cara, e mantendo olhar fixo na tela, com uma força que me era sobre-humana, devolvi-lhe o que considerei um insulto –– ou melhor, o que eu considerava um insulto:
–– Eu estava apenas pensando que você pegou o lugar do meu namorado –– defendi-me. A palavra “namorado”, no entanto, vacilou na minha boca, como se não quisesse sair, como se protestasse para vir à tona. Torci para que ele não percebesse o meu vacilo.
Ele riu, riu gostosamente; Não como alguém que ri de uma piada, ou vê algo engraçado. Ele riu como alguém que reconhece o jeito da outra pessoa; como se esperasse que eu me sentisse contrariada. Senti-me invadida.
–– O filme é bom –– sussurrou perto de meus ouvidos e senti um calafrio. Seu hálito tinha um gosto de hortelã; Era refrescante. Que pasta de dente será que ele usava? Dava o que pensar. –– Você acredita em anjos? –– franzi a testa. Seja lá que pasta de dente ele usava, não me interessava. Não era como se eu fosse comprar a tal pasta de dentes. E esse papo de anjos? Não ia conversar com um estranho sobre seres alados povoando a terra. Mordi meu lábio inferior com força. Só depois lembrei que estávamos realmente assistindo um filme sobre anjos e quase me senti uma boba por meu pensamento ter seguido numa outra direção. Quase...
–– Não. –– foi minha resposta dura e firme. Senti que ele vacilou por um segundo como se quisesse protestar, mas não o fez; o que quer que ele fosse dizer tinha morrido ali entre seus dentes. Por fim, se recostou na cadeira e não falou mais nada. Finalmente esqueci sua presença e mergulhei no universo da tela brilhante que contava uma história.
Quando as luzes se acenderam, ao término do filme, eu estava completamente decepcionada. O filme era um completo “abacaxi”. Sobre anjos que protegiam a humanidade de demônios sádicos e cruéis. Uma perda de tempo sem tamanho, para não falar do figurino do filme. Nem podia acreditar que gastei dinheiro –– mesmo que eu tivesse utilizado minha carteirinha de estudante e pagado a metade da entrada –– vendo esse “lixo surreal, dramático e extremamente irritante”, como diria meu pai. Saí do cinema apressada, fazendo um caminho contrário do estranho que me importunara e fui em direção à minha lanchonete favorita; eu adorava o Milk Shake que eles faziam. Fora do cinema, já em frente a lanchonete, tirei o celular da bolsa e liguei para meus pais. Eram vinte horas, eles já deveriam estar em casa. Caiu na secretária eletrônica. Revirei os olhos.
“Aqui é a casa do professor de filosofia Adalberto do Colégio Estadual Félix Berta, e de sua esposa Carla, psicóloga. Deixe seu recado após o bip.”
Eu bem que queria deixar algo mais divertido do que essa frase de central de atendimento telefônico, mas quem tem um pai filósofo e uma mãe psicóloga, não pode esperar muito mais do que isso.
–– Pai, mãe, quero lhes dizer que estou bem, o cinema foi o maior “abacaxi” do século, fiquei super traumatizada e acredito que terei de fazer várias sessões de terapia para superar. Brincadeirinha. –– eu ri. –– O filme é levinho... Estou tomando um Milk Shake no shopping agora, mas vou só voltarei para casa de madrugada, porque hoje é sexta e toda sexta a turma se reúne na casa da Elisa, vocês sabem. Se puderem me buscar depois seria ótimo. Amo vocês.
Desliguei, suspirando. Ser filha é uma profissão difícil. Não vou querer ter filhos para poupá-los de ter de me aturarem. Pedi um Milk Shake de morango, não sem antes reclamar do preço alto –– o preço das coisas sempre é alto quando não se tem um emprego e depende da mesada que os pais oferecem. Escolhi a mesa que ficava perto da entrada do cinema, que curiosamente tinha o número 13. Dei um sorriso. O número do azar –– algo que eu particularmente não acreditava. Recostei-me na cadeira e observei o ambiente e a movimentação das pessoas. O lugar era bem iluminado. As cadeiras e as mesas possuíam um formato singular: eram ovaladas, com cheirinho de madeira nova e em vários tons de marrom. Era sexta feira e o shopping estava lotado. Assustei-me quando subitamente me senti observada. Olhei ao meu redor, mas não vi ninguém. Surpreendi-me pensando no estranho –– ele bem que poderia estar ali... Senti um súbito arrependimento pesando na minha consciência.
Não. Balancei a cabeça convicta. Ele fora um convencido, tentando adivinhar meus pensamentos e puxando conversa de louco dentro do cinema. Quem faz isso em sã consciência?
Quando chegou o Shake, esqueci de tudo. Ir ao shopping automaticamente significava que eu teria que tomar aquela deliciosa batida de sorvete e leite. Para mim, era um ritual. Quer estivesse feliz, quer estivesse triste, vinha sempre aqui para refletir. Às vezes trazia um caderninho onde anotava meus pensamentos, idéias, soluções. Retirei-o de dentro da bolsa e fui escrevendo enquanto saboreava a deliciosa mistura de morango.
Terminar com Jonas.
Meu lápis parou no último ponto. Não queria largar o papel. Não queria dar um ponto final a algo que já estava no fim. Mas como terminar o que já estava terminado? Era preciso, é verdade, colocar esse ponto final. Minha mãe vivia me dizendo que isso era uma espécie de fuga. Que seja. Um dia eu ia terminar mesmo. Talvez fizesse isso hoje, ou amanhã...
Fiquei tão absorta em meus pensamentos que nem notei que alguém estava à minha frente.
–– Parece que você está mesmo ocupada com um pedaço de papel. Se não se importa, gostaria de lhe fazer companhia –– o estranho do cinema deu um meio sorriso e sentou-se, sem esperar minha resposta. Meu queixo caiu. Pisquei várias vezes, incrédula. –– Meu nome é Raphael. Com ph.
Ele deu uma ênfase irritante no “ph”. Ph. Ph. Raphael com Ph. O nome dele, apesar de minha irritação, dançou nos meus pensamentos no tempo de uma fração de segundos. O “ph” também, o que me deixou uma raiva tal, que senti o ácido em meu estômago. O que me importava se o nome dele era um simples Rafael ou Raphael com Ph? Isso era alguma cantada nova?
Aproveitei que agora estávamos num ambiente claro e pude reparar bem nele: O seu cabelo preto e louro, que parecia ser daqueles de surfista, com o uso da parafina. Mas não o dele. Era bem cuidado e parecia natural o suficiente para mim. Sua pele tinha um leve tom dourado. Seus olhos eram grandes e na tonalidade azul clara, e na minha opinião, era o que mais chamava atenção no seu rosto. E eu também não ia reparar nos seus lábios carnudos... Não mesmo! Balancei a cabeça para os lados para espantar esse pensamento. Afinal, ele era o louco do cinema, que puxava conversa com um estranho.
O Raphael com Ph olhava para o pedaço de papel que tinha em minhas mãos. Ele parecia curioso –– e ansioso –– para saber sobre o que eu escrevia. Não que eu fosse mostrar a ele...
–– Sobre o que você está escrevendo? –– perguntou.
–– Nada demais. Nada importante –– eu já estava dando permissão para que ele continuasse a me importunar. –– Espera! Por que é mesmo que eu estou falando com você? Eu nem te conheço.
–– Meu nome é Raphael Ângelus. Prazer em conhecê-la. –– ele disse, estendendo sua mão na minha direção, para que eu a segurasse. Decidi que o seu nome lhe caía bem –– muito embora para mim, ele não tivesse nada a ver com um anjo. E muito embora minhas mãos descansassem em cima da mesa, fiquei em dúvida se deveria retornar o cumprimento. Não era falta de educação; Tendo como pais um professor e uma psicóloga, um conteúdo de informação muito maior do que o normal me era repassado –– e eu também era muito mais cobrada por isso. Eu me lembrei do que minha mãe sempre me dizia: Nunca fale com estranhos. Mesmo que eles tenham cara de bonzinhos, não significa que eles o sejam. Suspirei. A realidade não era assim tão fácil. Enquanto esses pensamentos passavam por minha mente, percebi que sua mão ainda aguardava a minha.
–– Vamos lá. Não seja mal educada. Segure minha mão. Eu não vou mordê-la. E eu sou bonzinho –– ele me provocou.
Eu ofeguei. Era como se ele tivesse lido a minha mente. Mas não, não era nada disso. Esse tipo de coisa não existia. Ele deve ter deduzido que eu deveria ter sido previamente orientada por meus pais, a evitar esse tipo de comportamento. Era o que todo pai e mãe consciente faria.
–– Eu não sou mal educada. Apenas precavida –– eu me defendi. Minha voz se elevara além do normal e tratei de controlar meu temperamento, para assim evitar atrair atenção para mim mesma. Contra meu melhor julgamento, me vi erguendo minha mão direita para ele, segurando-a.
–– Meu nome é Dafne –– evitei lhe dizer meu sobrenome propositalmente. E no momento em que nos tocamos, senti algo estranho. Era como se uma força poderosa pudesse ser sentida através do toque dos seus dedos. Não sabia se era algo bom ou ruim, mas para afastar qualquer dúvida, recolhi minha mão imediatamente, e abaixei meus olhos para o papel que ainda estava sobre a mesa. Eu não ousei questioná-lo a respeito do que acabara de acontecer.
Novamente olhei nos seus olhos, e ele já me encarava. Seu olhar fixo em mim e seus lábios levantados para cima, formando um sorriso debochado. Aquele sorriso foi o suficiente para dar munição ao desconforto que sentia para com o estranho sentado de frente para mim. Era como se ele soubesse de um segredo e estivesse se divertindo muito às minhas custas, que me mantinha ignorante sobre o que quer que fosse.
Olhei para o meu relógio de pulso e vi que já estava ficando tarde. Estava sem tempo para ficar conversando com estranhos. Eu deveria ir para a minha casa ou então ir para a casa da Elisa, pois meus pais com certeza já deveriam estar se perguntando o motivo de eu ainda não ter ligado. Guardei o papel dentro do pequeno caderno na bolsa e me levantei para ir embora. Para não ser rude, obriguei-me a falar com Raphael, para que ele não me acusasse de ser mal educada novamente. Não que isso fosse importar, pois certamente depois do dia de hoje, eu não o veria mais. Esse pensamento me deu certo alívio, e um sorriso se espalhou nos meus lábios.
–– Bom, Raphael, eu já vou indo. Está ficando tarde –– ele também se levantara.
–– Foi muito bom conhecê-la Dafne. Muito bom mesmo –– ele falava com uma voz convencida. –– Você deveria sorrir mais.
Eu me virei para ir embora, procurando pela lixeira mais próxima para deixar minha embalagem agora vazia, quando eu o ouvi falar: –– Vá com cuidado, Dafne. Até uma próxima vez.
Minha expressão de paz converteu-se numa careta. Olhei para trás para lançar-lhe meu melhor olhar que dizia não-quero-te-ver-nunca-mais, mas ele já não estava mais lá. Tinha se perdido no fluxo da multidão que caminhava pela área de alimentação.
Eu me senti melhor por saber que o estranho tinha seguido o seu próprio caminho e que agora, eu também seguiria o meu. Dentro de alguns minutos estaria na casa de minha melhor amiga, Elisa, onde nós conversaríamos e a estranha interação entre mim e Raphael seria facilmente –– e rapidamente –– esquecida.
Antes de sair do shopping, tive o cuidado de alertar minha mãe de que já estava indo para a casa da minha amiga, e ela, como sempre, me advertira para que eu tomasse cuidado e não falasse com estranhos. Eu respondi: “Pode deixar mãe, eu terei cuidado. Quando chegar lá, ligarei novamente avisando. Vou desligar –– os créditos já estão acabando.” Só não comentei que eu tinha falado, mesmo sem querer, com um estranho. Ela não aprovaria esse tipo de comportamento e eu não estava pedindo por um sermão, não depois do esgotamento mental daquela semana.
Dirigi-me ao ponto de ônibus mais uma vez, agradecendo por não estar vazio. Àquela hora as pessoas estavam de saída do shopping para suas respectivas casas. Eu não gostava quando tinha o infortúnio de ser a única a aguardar o transporte; dava-me medo. Com certeza minha mãe deveria saber de muitas dessas histórias –– mesmo que ela não as compartilhasse comigo respeitando, o segredo profissional para com seus pacientes ––, a ponto de sempre me dar palestras sobre o assunto. E eu a escutava. Todas as vezes.
Quando cheguei à casa de Elisa, meu celular vibrava e um ring tone antiquado tocava. Verifiquei a tela do aparelho para ver que minha amiga estava me ligando. Eu a chamei através do interfone e Elisa deixou-me entrar rapidamente.
–– Onde você estava? –– falou acusadoramente, para depois se jogar nos meus braços, dando-me um abraço apertado.
–– Boa noite para você também, Elisa. –– eu lhe disse acidamente, para depois sorrir.
–– Isso não é engraçado Dafne. Nós pensamos que tinha lhe acontecido alguma coisa. Ou que tivesse desistido de vir. Ah, boa noite para você também.
–– Eu estou aqui agora, não estou? É o que importa. –– Sorri.
–– É claro que você está aqui –– depois de um momento ela sorriu também, toda a preocupação desaparecendo do seu rosto. –– e é o que importa. Vamos logo! Todos estão esperando por você lá dentro.
Elisa e eu éramos melhores amigas, mas até pouco tempo, não nos conhecíamos. A verdade é que nós nos conhecemos através da internet, numa sala de bate papo há cerca um bom tempo; conversávamos diariamente. Um dia seus pais resolveram que seria melhor mudar para uma cidade maior, a fim de que ela pudesse ter mais oportunidades na vida, que eram escassas na cidade do interior na qual ela vivia. E então o que era improvável e ao mesmo tempo inevitável, aconteceu: Elisa e eu nos conhecemos –– ou melhor, nos encontramos –– no mesmo colégio, na mesma sala de aula. Quando se fala em coincidência, acho que ela e eu esgotamos todas as possibilidades.
Ao entramos na casa, Marcos, Alexandre e Deise já nos esperavam espremidos entre si na porta. Eu ri com a cena que se apresentava diante de mim. E como se tivessem ouvido nossa troca de palavras, todos ecoaram no mesmo instante:
–– Onde você estava?
Eu caí na gargalhada!
–– Eu te disse! –– Elisa me lembrou.
–– Com certeza –– respondi.
Todos os meus amigos vieram ao meu encontro, me abraçando; Marcos, namorado de Elisa, me deu um beijo na bochecha e depois foi para o lado de minha amiga, segurando sua cintura com as mãos. Eles formavam o casal perfeito; o tipo de casal que Jonas e eu nunca seríamos. Não senti inveja e nenhum outro sentimento negativo ao vê-los assim, felizes. Eles eram certos um para o outro. Deveria existir alguém perfeito assim para mim também, não é?
–– Dafne! –– agora era a minha amiga Deise que me chamava. –– Você demorou! –– ela também me abraçou. Percebi que ela estava com sua parafernália eletrônica de sempre: celular –– mais que moderno –– numa mão; na outra ela segurava o seu Ipod de última geração e com muitos gigabytes de memória. Eu sinceramente não sabia como alguém escutava tanta música assim! Para onde quer que fosse, carregava seu precioso brinquedinho consigo. Ela dizia que ouvir música sempre a ajudava estudar melhor. Se duvidar, ela poderia até ter trazido seu notebook –– também moderno –– para a nossa pequena reunião de sexta feira.
–– Eu estava no shopping, desculpe pelo atraso. –– Justifiquei.
–– Sem problema –– disse ela, afrouxando o seu abraço quando seu celular começou a tocar, me deixando para atender a ligação.
–– Ei Dafne! Não vai se esquecer de mim! –– meu melhor amigo do sexo masculino veio me cumprimentar. Alexandre era o meu melhor amigo desde sempre. Desde o primeiro dia em que nos conhecemos no jardim de infância, nos tornamos amigos. Ele era adorável. Seus olhos e cabelos castanhos contrastavam com o tom de sua pele –– que era muito branca. E como era de se esperar numa amizade de muitos anos, ele me conhecia muito bem. Ele havia presenciado todos os meus altos e baixos, meus bons e maus momentos. Eu era muito grata por sua presença na minha vida, mesmo quando eu mesma não me suportava, ele sempre estivera lá. Alexandre me abraçara longamente, e me beijara as duas bochechas.
–– E como é que eu poderia me esquecer de você, meu amigo? Impossível –– eu o lembrei. Ele concordou comigo, assentindo com a cabeça.
–– Onde está Jonas? –– perguntou Elisa. –– Pensei que ele viria com você.
–– Eu não sei onde ele está. Jonas não quis ir comigo ao cinema quando eu convidei mais cedo. –– Justifiquei. –– Ele deve estar fazendo coisas mais interessantes do que estar com sua namorada numa noite de sexta feira –– dei de ombros. Meus amigos sabiam que nosso relacionamento já não estava bem há semanas. Eles não interferiam, nem comentavam nada; só diziam que se eu precisasse conversar, estariam lá por mim. Eu lhes era imensamente grata. Esse tipo de amizade era muito raro de se encontrar. Atualmente as pessoas dizem se importar com umas com as outras, mas isso não é verdade –– não para todas afinal. Elas só fingem que se importam, quando na verdade, suas vidas são o centro do seu próprio universo.
–– Quem está com fome? –– perguntou Elisa, mudando de assunto. Ela era a melhor para mudar o clima de um ambiente quando este ficava pesado demais.
–– Eu estou –– todos nós levantamos as mãos respondendo à sua pergunta, como se fôssemos criancinhas.
–– Vamos colocar umas pizzas no forno para esquentar –– anunciou Elisa. Sua mãe, Marta, era especialista em massas; A melhor! E suas pizzas eram as minhas favoritas; sua massa era macia e seu recheio divino! Ela caprichava nas suas criações, como ela as chamava. Ela era do ramo de massas, então não era de estranhar que a geladeira e o freezer de sua casa estivessem repletos de todo tipos de receita nas quais a massa pudesse ser utilizada. Sua mãe trabalhava muito na pizzaria da família –– e passava a maior parte do seu tempo lá ––, certificando-se de que tudo correria bem; desde o preparo até o serviço de atendimento. Uma das vantagens de ser amiga de Elisa –– além de poder desfrutar do incrível ser humano que ela mostrava ser, era o fato de que eu sempre ganhava muitas “quentinhas” apetitosas que me davam água na boca para levar para casa.
As pizzas como sempre estavam ótimas. Nós conversamos e rimos muito. Exatamente à uma e meia da manhã, meu pai ligou para dizer que já estava a caminho e às duas em ponto, ele buzinara na frente da casa de Elisa. Marcos daria uma carona a Deise e Alex, já que ele tinha carro próprio e suas casas não eram muito distantes umas das outras. Todos nos despedimos.
Caminhando na direção do carro, comecei a sentir o peso do cansaço e do stress que se acumulara durante toda a semana sob minhas costas.
–– Se divertiu? –– perguntou meu pai sorrindo, destravando a porta de trás para que abrisse.
–– Muito. O filme não foi tão bom, mas me distraiu. E meus amigos e eu realmente precisávamos da nossa reuniãozinha semanal. As provas dessa semana foram difíceis. Tudo o que eu quero agora é chegar em casa, tomar um banho e ir dormir.
–– Certo. Eu também estou pronto para dormir. –– Papai concordou comigo.
–– Só não durma ao volante –– brinquei.
–– Nunca –– ele concordou comigo.
Quando chegamos em casa, as luzes ainda estavam acesas; para dar a impressão de que tinha alguém em casa, quando na verdade os únicos seres vivos que ali estavam era minha mãe, que havia acabado de chegar do trabalho e o meu gato, Snow. Eu lhe dei esse nome por motivos óbvios: Ele era bem branquinho, como um floquinho de neve. Ele me foi dado por papai quando tinha apenas dois meses de idade. Entrando em casa cumprimentei minha mãe e fui para o meu quarto. Assim que passei pela porta Snow me atacou, miando e passando por entre minhas pernas, como um pedido silencioso para que eu o pegasse e o segurasse nos meus braços.
Peguei-o no colo e sentei na cama. Por uns minutos fiquei assim, fazendo festa no gatinho que eu tanto adorava. Olhei no relógio. Passava das duas horas da manhã. Pelo menos era sexta-feira, e eu não precisaria acordar tão cedo no dia seguinte. Afastei-o gentilmente, resolvendo comigo mesma deixar para tomar banho pela manhã. O que eu queria mesmo era dormir. Abri meu modesto guarda roupa de 4 portas para roupas de inverno e verão. Peguei uma camisa velha, cinza, que rasguei na gola para que ficasse caída nos ombros. Vesti o short roxo e fresco de algodão, que era meu companheiro das noites de verão e me atirei na cama. Soltei os cabelos e comecei a escová-los. Então o celular que estava na minha bolsa tocou. Praguejei. Isso lá eram horas de se ligar para alguém? Mas como sou uma pessoa muito curiosa e impulsiva, peguei o telefone sem ver que a chamada não era identificada. A voz que ouvi me fez gelar, gelar de frio embora meu coração batesse loucamente, saltasse e desse uma súbita parada, atropelando-se e batendo novamente, injetando sangue e calor, espantando o frio imaginário.
–– Bom dia, Dafne... Acordada a essa hora? Aposto que está morrendo de sono e eu interrompi...
Fiquei estupefata. Era o louco do shopping! Por que ele tinha meu número? Como Raphael poderia ter meu número? Eu não havia dado nenhum telefone a ele... Só se... Deixei o telefone cair. Comecei a suar. Corri para minha bolsa e enfiei as mãos nela, procurando avidamente o meu diário. Não estava conseguindo encontrar.
Onde está? Onde? Não posso tê-lo deixado... Meu Deus...
Virei a bolsa de cabeça para baixo e despejei todo o seu conteúdo em cima da cama, feito uma mulher louca. Batom, espelho, estojos de maquiagens, brincos, muitos papéis, canetas e lápis. Nada do bendito diário.
Olhei com o canto do olho para o celular que estava no chão. A ligação ainda estava de pé, o que significava que Raphael certamente estava de posse do meu diário. Coloquei a mão esquerda no coração e com a direita alcancei o telefone portador de más notícias.
–– Oi, Raphael... Eu... Olha...
–– Quanta hesitação para falar de uma coisa tão simples. Sim, seu diário está comigo. Eu não resisti à tentação de lê-lo, me desculpe. Quer ele de volta?
–– O meu diário! Você leu o meu diário? –– elevei minha voz. Ao menos o quarto dos meus pais ficava longe do meu –– bom, tão longe quanto nossa pequena casa poderia acomodar...
–– Escuta, Dafne, você vai querer seu diário de volta ou não? –– ele estava impaciente, e seu tom de voz não era mais educado do que eu o meu.
–– Aham... –– Minha voz estava presa. Simplesmente não saía. Fiquei cega de ódio de mim mesma. Eu sabia que essa idéia de diário da minha mãe era uma furada. Perde-se o diário e no dia seguinte está todo mundo sabendo do seu conteúdo.
–– Posso entregar amanhã. Onde? –– Ele parecia estar se divertindo.
–– Você sabe onde fica a Praça Álvares Cabral, em frente à biblioteca?
–– Sim, eu sei onde é. Estarei lá, às quinze horas. –– E desligou o telefone.
Fiquei imóvel por um tempo que não soube definir. Naquele diário estava toda a minha vida. As pessoas que detestei... Minha família, meu gatinho, minha escola, meus professores, meus amigos. E Jonas. Muito sobre Jonas. Absolutamente TUDO sobre Jonas. Não me importava que soubesse toda a minha vida, mas que soubesse que havia um Jonas na minha vida. Uma súbita tristeza abateu-se sobre mim. Afastei o pensamento. Jonas era meu namorado, ora, e Raphael, era apenas uma coincidência infeliz do destino.
Uma infeliz coincidência...
Deitei na cama e dormi um sono sem sonhos.
Fale com o autor