Solaris
1 Capítulo I - Sol
Notas iniciais
– SOL –
“Somente aqueles que nunca deram um tiro,
Nem ouviram os gritos e os gemidos dos feridos,
É que clamam por sangue, vingança e mais desolação.
A guerra é o inferno.” – Gen. Willian T. Sherman.
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O que será que as pessoas pensam sobre a guerra?
Depois que entrei no ginasial, comecei a pensar muito sobre isso. Guerra é aquilo que fazem quanto duas nações ou mais estão intrigadas, certo? Ou é aquilo que, quando uma pessoa não gosta da outra tenta fazer algo parecido com a guerra, ou apenas porque não gostamos daquela pessoa...? Começaram a surgir dúvidas desse tipo e, como não consigo definir nada, acabo ficando sem entender. Não sei quando posso considerar apenas como “briga” e a partir de que posso considerar “guerra”. No fim das contas, acho que nunca entenderei o que é “guerra” e fico com a consciência pesada.
Se eu falar isso abertamente, com certeza a sociedade ficaria insegura e diria “Hã? Não está sendo precipitado demais? O que vivenciamos então?”. Ou também falariam “Isso fere as pessoas. Quer dizer que toda a nossa paz é mentira?”. Provavelmente eu considero os dias de hoje como uma guerra, com toda a minha insegurança, estou em dúvida se isso pode ser verdade ou mentira. Na verdade, sempre acho que a guerra está em nós, e que um dia ela irá transbordar.
Pode ser que tudo tenha acontecido porque fiquei pensando nessas coisas antes de dormir. Nesse dia, tive um sonho muito inusitado. Eu estava no “Fim do Mundo”. O céu estava negro e a cidade, toda destruída.
A situação realmente não parecia ter solução. E eu estava ali sozinho, parado diante de um precipício. Então um ser desconhecido entrou no meu campo de visão. Esse ser parecia ser uma pessoa normal, mas ria extremamente alto. Com seu corpo em movimento, derrubava e queimava prédios como se fossem papel. Parecia que ele odiava toda e qualquer coisa criada pelo ser humano.
Minhas pernas tremiam muito. Queria fugir logo dali. Era o que eu pensava, mas meus pés não se mexiam.
– Ué...?
Aí eu percebi. O “ser” não estava focado na destruição, mas sim em espantar algo. E esse “algo” seria... Uma bela garota, de cabelos vermelhos, que comparada àquele ser vivo, não passava de papel.
Ela vestia um uniforme escolar, azul e preto. A garota pulava para lá e para cá e ás vezes chegava a dar cambalhotas. Então, como uma folha, ela foi levada pela ventania causada pelo “ser”.
– Aaaah!
E, junto com o meu grito, a garota era arremessada contra um prédio distante.
– Isso não é justo...
Comecei a tremer tanto que até meus dentes estavam batendo. A garota que eu achava ter morrido, na verdade estava bem viva entre os escombros do prédio. Estava toda machucada e com uma expressão dolorosa, mas de alguma forma me parecia linda, pois estava usando todas as suas forças para se reerguer.
Foi nesse momento que... Por um breve instante, tive a impressão de que ela estava olhando para mim. Nesse curto momento que nossos olhos se encontraram, por algum motivo, senti meu coração acelerar. O brilho de seu olhar forte, confiante e solitário ao mesmo tempo parecia penetrar meu coração. Tinha a impressão de que estava esquecendo algo importante... De repente, o “ser” esquisito começou a rir de novo e, junto com um som estrondoso, a garota e o prédio foram arremessados.
– Por quê...? Por quê? – Gritei, começando a chorar.
– Você gostaria de saber... Porquê está vendo isso?
Quando me viro, assustado, vejo um ser muito inusitado e estranho. Seus olhos vermelhos não paravam de se mexer, tinha um grande chapéu preto, longo como o de um bruxo, com uma espécie de vassoura em suas mãos.
– Quem... É você?
Contudo, não houve resposta. Ele apenas sussurrou:
– Não tem jeito. É algo muito pesado para ela agüentar sozinha. Mas ela estava ciente disso.
Como se essa fala tivesse atraído a garota, foi possível vê-la ao longe sendo arremessada e, logo em seguida, tentando se levantar. Segundos depois, os escombros de um dos prédios destruídos começam a cair sobre a menina de cabelos ruivos. Sua tentativa de desviar-se de todo aquele entulho foi em vão e um pedaço grande de concreto caiu sobre a perna dela, causando uma fratura bem feia.
– Aaaah! – Cobri o rosto instintivamente. – Não... Isso já é demais!
Lágrimas começaram a correr meu rosto sem eu perceber enquanto gritava. De repente, percebi que a garota de cabelos ruivos estava dizendo alguma coisa para mim.
– O que?
Sua voz não me alcançava. Mesmo assim, ela continuava gritando em minha direção. Sua expressão estava extremamente séria, o que tocava meu coração de uma forma muito estranha. Mesmo assim, meus pés tremiam e não saiam do lugar. Como sou fraco! Não sou capaz nem de ir até ali para ajudar.
Sou inútil...
Comecei a ficar com vergonha de mim mesmo. Vergonha e muita raiva. E as lágrimas não paravam de cair.
– Se desistir será o fim. – Mais uma vez aquela voz se fez ouvir. – Mas você pode mudar o futuro.
Num piscar de olhos, aquele homem estava sentado ao meu lado.
– Mesmo os problemas inevitáveis, as coisas tristes... Você pode evitá-los! Você tem poder para isso.
Enquanto prestava atenção nessas palavras, percebi que elas estavam sendo enviadas diretamente para a minha mente. Aquela voz rouca ia penetrando profundamente, enquanto imagens de pessoas que nunca vi na vida surgiam e sumiam.
Uma garota com saia pregueada amarela, rasgada e cheia de sangue. Outra garota, com uma minissaia prateada toda esfarrapada, segurando uma espada quebrada. Mais uma garota, usando uma blusa rasgada, morrendo de olhos abertos.
– Quem...? Quem são elas...?
– Você é capaz de evitar isso: os acontecimentos que eram inevitáveis e até os que ainda não aconteceram.
Dei uma olhada para a garota de cabelos ruivos novamente. Ela ainda estava desesperadamente tentando dizer algo para mim. Esforcei-me o máximo para fazer uma leitura labial, mas não consegui entender.
–- É... Verdade? – Perguntei com uma voz rouca e fraca. – Mesmo alguém como eu... Pode mudar alguma coisa...? Eu posso mudar tudo?
– É claro que sim.
Os olhos vermelhos do homem brilhavam enquanto ele se levantava.
– Você com certeza é capaz de mudar as coisas, você mudará tudo! Por isso...
Por isso...?
– Por isso, acorde! E vá fazer acontecer!
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TRIIIIIIIIM.
– O-o quê!?
Acordei assustado com aquele som estridente, estava no meu próprio quarto, que já estava enjoado de ver. Na beirada da minha escrivaninha, estava meu livro favorito, o “Diário de Guerra Mitológica”, ao lado um Kappa¹ de pelúcia e uma almofada de zumbi que eu amo. Lentamente olho para a janela e vejo a luz cegante do sol entrando.
– Hmm... Foi um sonho...?
Alonguei meu braço preguiçosamente e desliguei o despertador. Respirei fundo. Destranquei o fecho da janela e a abri. Senti o calor do inicio de verão e uma brisa bem gostosa. Para uma pessoa comum como eu, só isso era o suficiente para afastar meus pensamentos daquele sonho assustador. Olhei para baixo e vi meu pai no quintal. Ao vê-lo de avental, como todas as manhãs, me deu um certo alívio.
– Bom dia, papai! – Disse acenando.
– Bom dia, Nicolas.
Sim, aquele ali que levantou-se e sorriu para mim é meu pai, Thiago Christopher.
– E a mamãe?
– A Bianca foi acordar ela. Poderia ajudar ela? – Disse com uma voz aconchegante, ajeitando sua postura.
– Claro!
Saí do meu quarto correndo. Essa era uma tarefa diária aqui em casa. Corri pelo corredor e entrei no quarto da minha mãe.
– Mamãe! Já é de manhã!
Minha mãe estava encolhida em sua cama. Em cima dela estava minha irmã de três anos, dando tapinhas. Acho difícil ela acordar só com aquilo, por isso fui até a janela e abri a cortina. Pedi licença para a Bianca e puxei o cobertor dela de uma vez. Respirei fundo e gritei:
– ACORDA!
– Aaah!
Por algum motivo, esse momento tem sido minha maior diversão matinal.Essa mulher que acorda todos os dias com reações diferentes, Marcia Christopher, minha mãe, é realmente incrível!
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– O que você queria perguntar para mim ontem? – Disse ela com cara de sono enquanto escovava os dentes.
– Ah, então... A Lucy recebeu outra carta de amor. Já faz uma semana, mais ou menos.
– Nossa!
– E ela não sabe o que responder, por isso gostaria de saber a sua opinião.
– Minha? Por quê?
– Uhm...
Como é que eu vou saber disso?
– Talvez mesmo para Lucy, você seja alguém confiável.
– Hum... Talvez. Posso ser sincera então?
– S-Sim...
– Garotos que não tem coragem de se confessarem pessoalmente, não prestam.
Nossa que sinceridade...
Mas... Como será que devo passar isso para a Lucy? Minha mão ficou parada por um instante. Enquanto isso, minha mão já tinha acabado de escovar os dentes e já estava lavando o rosto. Tentei me apressar, mas quando fui lavar o rosto, ela já estava penteando seus lindos cabelos. Ela estava tão acostumada a fazer isso com rapidez que sua mão ao parava.
– E a Giovanna, como está?
Eu estava boiando de novo, apressei-me em lavar o rosto.
– Parece que ainda está com ele. Ela fica boiando nas aulas...! Essa semana fazem três meses que estão juntos, parece um recorde.
– É, talvez. Agora é a hora da verdade.
Minha mãe, com toda a sua agilidade, já estava se maquiando.
Aliás, a Giovanna... Ela é a professora responsável pela minha sala. A professora e a minha mão são amigas desde o colégio. Ela é bonita e muito gentil, mas... Atualmente está com 34 anos e é uma solteirona.
– Se não for algo sincero, vai aparecer algum podre logo mais. Caso dê tudo certo, acho que eles ficam juntos por pelo menos um ano.
– É...
Esse sou eu que não entende de relacionamentos. Quer dizer, acho que não é só isso. Depois de lavar o rosto, tentei arrumar meu cabelo, meio amassado, com dificuldade, enquanto minha mãe estava pronta. Quando finalmente consigo ajeitar meu cabelo, fico indeciso em qual gravata escolher: vermelho ou marrom?
– Qual fica melhor...?
Minha mãe aponta para o vermelho.
– Vermelho? Não é chamativo demais?
– Qual o problema? Um garoto não é só julgado pela aparência.
Sorrindo, ela ajeitou a gravata cuidadosamente no meu uniforme.
– Pronto. Ficou Bom. Suas fãs irão à loucura!
– Eu não tenho fãs...
– Você precisa pensar que tem. Esse é o segredo dos garotos atraentes.
Fiquei um pouco sem graça e comecei a encarar meu reflexo no espelho. Eu ainda acho que é meio chamativo. Esse sou eu, que não tem coragem nem de mudar de vez em quando.
– Ah, o café da manhã!
Arrumei minha postura e fui correndo até a cozinha, como se minha mão estivesse me puxando igual um imã.
Lá, pude ver Bianca sentado em sua cadeira para criança e o papai terminando de fazer o café da manhã com toda sua habilidade. A cozinha estava tomada por um cheiro delicioso, o que fez minha barriga roncar.
Vou contar o que ele fez para o desjejum: uma torrada no capricho, salsicha defumada feita em casa,ovo frito de galinha caipira e salada de alface. Ele é realmente muito bom nos afazeres de casa. Não é de se espantar que logo depois do casamento minha mãe pediu para que ele assumisse o lar, já que ela é muito mais prática.
– Ah, como sou feliz. – Disse minha mãe, sentando na cadeira.
– Pode ir comendo. Você quer sair logo, não é?
– Desculpa, então vou comer primeiro.
Com muita destreza, ela pegou a torrada com a mão esquerda, enquanto abria o jornal com a direita. Ela lia rapidamente os artigos do jronal, enquanto bebia o café servido pelo papai e ao mesmo tempo cuidava de Bianca. Falando assim, até parece que tem uns seis braços, mas ela é sempre assim. Faz o trabalho por três pessoas e consegue ser mais rápida que eu em tudo.
Será que puxou isso de alguém da família? Bom, ela diz que tudo isso é treino. E sempre tenta passar bastante tempo com a gente, se esforça muito para terminar todo o serviço que tiver. Segundo ela, isso é ser multitarefa. Graças à isso, conseguiu ser promovida para um cargo de muita responsabilidade na empresa, apesar de não ser bem o que ela queria.
– Quer mais café?
Recusando o café, minha mãe terminou de ler o jornal e limpou a boca de Bianca.
– Pronto! Estou indo!
Ela deu um beijo na testa do papai e da Bianca e depois estendeu a mão para mim. Levantei e bati na mão dela, o famoso high five. A imagem da minha mãe sorrindo enquanto saía para trabalhar realmente era a mais linda do mundo. Será que um dia eu serei como ela?
– Nicolas, você também precisa se apressar.
– Hã...?
Quando vi o relógio, já eram quase 8 horas.
– Nossa, vou me atrasar!
Comi a metade da torrada que faltava e o resto da salada com toda a pressa do mundo. Peguei minha mochila. Fiz carinho na cabeça da minha irmã, fiz um high five com meu pai e saí correndo de casa.
Naquele dia ensolarado, o sonho ruim que tive aquela manhã havia sumido completamente da minha cabeça.
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