Solaris
2 Capítulo II - Queimando
Notas iniciais
– QUEIMANDO –
“Nos funerais, só se ouvem palavras de surpresa
Por aquele morto estar morto.” – Jacques Bossuet.
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– Bom dia!
No caminho para a escola, vi a sombra das minhas duas colegas ao meu lado, virei-me e acenei.
– Bom dia.
– Nicolas, você demorou.
Uma delas, com um belo sorriso no rosto, e a outra, com um sorriso tímido, me cumprimentaram.
A garota de cabelos longos que me cumprimentou é a Lucy Maud. Ficamos próximos depois que ela se transferiu para a escola St. James.
A outra que já veio pulando em mim, com o cabelo um tanto curto, estuda comigo desde o primário e seu nome é Alice Wilkes.
– D-Desculpa...
Enquanto eu dizia isso em voz baixa, meio sem graça, Alice ficou olhando minha gravata.
– Que bonita...
– Será? N-Não é muito chamativo? – Perguntei, ainda sem graça.
– Não, está bonito. – Disse Lucy, sorrindo.
Ao ouvir isso de Lucy, que é muito vaidosa, senti-me um pouco mais aliviado.
É assim que eu vou todos os dias à escola.
Hoje o céu não tinha nenhuma nuvem e estava completamente azul. Respirei fundo. Dei uma espiada em direção a estação de trem que tinha ali perto e pude ver a cidade como um todo. Mais ao longe, podia ver as montanhas, uma ao lado da outra. Lembrei do que minha mãe disse uma vez, com expressão muito tenra.
As coisas criadas pela natureza e pelo homem parecem estar em perfeita harmonia. Aqui é o melhor lugar para morar.
Pensando bem, é verdade. Na frente da estação, tem um shopping; aqui tem muitos parques razoavelmente grandes; vejo muitas pessoas passeando com seu animal de estimação de dia e de tarde. Sempre todos caminhando e sorrindo. Essa é a cidade que eu moro, a cidade de Cardiff, em Londres.
– Então, Nicolas... Você falou com a sua mãe sobre aquele assunto?
Senti um pouco de timidez no tom de voz dela. Fiquei um pouco espantado. Eu fiquei pensando sobre como falar isso para ela, mas acho melhor dizer exatamente o que eu ouvi da minha mãe.
– Bom, ela disse que garotos que não tem coragem de se confessarem pessoalmente não prestam.
– Imaginei que ela falaria algo assim... –Murmurou Lucy, abaixando a cabeça.
– Nossa, sua mãe é realmente incrível! – Disse Alice, exaltada.
– V-Você acha?
– Claro que sim! Ela é linda, bem sucedida... Tem como negar?
– É, tem razão...
De fato, isso é verdade. Fico feliz por isso e é algo que poderia me gabar, mas... Isso me faz sentir pressionada também. Ela sempre consegue expressar sua opinião, ao contrário de mim, pois tenho dificuldades para me comunicar. Sem contar que ela consegue colocar seus planos em ação facilmente, já eu, depois que finalmente decido algo, acabo travando na hora de agir. É como se ela fizesse as coisas 10 vezes mais rápido que eu. Quanto mais incrível ela parece ser, mas eu tento entender porque sou tão desajeitado. E assim, vou perdendo minha autoconfiança. Enquanto eu me perdia nos meus pensamentos, Lucy voltou ao assunto original.
– Queria poder ser direta com a sua mãe... Ah, como eu devo respondê-la? – Indagou suspirando.
Tentei pensar em algo para ajudar quando Alice resolveu falar:
– É um “problema” que me dá inveja...
Ela disse isso de maneira despreocupada, enquanto se espreguiçava. Na verdade, eu pensava da mesma forma. Como será que é receber uma carta de amor? Fiquei imaginando coisas e sem querer pensei alto:
– Ah, queria receber uma carta assim também...
– Hã?
Ué...? De repente, percebi que Alice estava olhando para mim com um sorriso muito esquisito.
– Então você está com tanta inveja dela que quer se transformar num garoto lindo e popular? É por isso que resolveu mudar seu visual com essa gravata?
– N-Não! Foi minha mãe que escolheu...
– Ah, então você aprendeu técnicas de como ser popular com a sua mãe? Que ultraje! Garotos pervertidos como você merecem punição!
– N-Não, pare, por favor!
Não importa a situação, eu sou muito fraco para cócegas, Só ver uma mão chegando perto que eu me encolho todo, mesmo que a pessoa não tenha encostado ainda. É quase uma fobia.
– A-Alice, pare! Ha ha ha.
– He He! Seu lindo! Não vou permitir que faça sucesso com meninas! Você vai ser meu marido! – É o que ela sempre diz.
– Pare...!
Por mais que eu esteja falando sério, por causa das cócegas, acabo dando risada. Graças a isso, a Alice vai piorando cada vez mais. Apesar de não gostar, meu riso sai, só que forçado. Queria gritar bem alto “cócegas é o pior castigo do mundo”, mas só conseguia rir e pedir para parar. De repente, ouço o pigarro da Lucy. Quando percebemos, estávamos sendo observados por todos os estudantes que estavam fazendo o mesmo caminho que nós...
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– Bom, hoje tenho um anúncio importante a fazer.
A primeira aula já começou assim. Lá na frente, estava a professora Giovanna. Sua voz parecia séria.
– Gostaria que todos ouvissem atentamente.
Seus olhos brilhavam. Nessas poucas palavras podíamos perceber sua ansiedade, por isso todos ficaram quietos.
– Bruno! Ao fritar um ovo, é melhor deixá-lo com gema mole ou dura?
O garoto escolhido pela professora levantou-se com um olhar confiante. Depois de alguns segundos em silêncio, ele dá um sorriso bobo e responde:
– Bom... Acho que tanto faz, não é?
– Exato! – Disse ela, elevando seu punho. – As duas opções são válidas! É um grande erro julgar uma mulher pela sua forma de fritar um ovo!
Depois de ver que deu uma boa resposta, Bruno se sentou aliviado.
– Garotas, prestem atenção, não fiquem com homens que não conseguem comer ovo frito com gema mole! Garotos, não se tornem adultos com frescuras para comer ovo frito! – Advertiu, dando um suspiro final.
“Ela separou”, “Ah, ela separou”. Eram os comentários que começam a surgir aos poucos pela sala toda. Contudo, depois de desabafar com a classe, a professora se ajeitou e voltou a sorrir como sempre.
– Ah, vou apresentar a nova aluna.
– Ei, isso não era mais importante? – Reclamou Alice, bem baixinho.
– Entre, Sol.
Quando a garota entrou na sala após o chamado da professora, meu coração deu um pulo.
Não pode ser...
Enquanto os demais da sala reagiam, falando:
– Nooooosssaa...!
– Cara, como ela é bonita!
Até Alice estava falando coisas assim. Só eu estava falando comigo mesmo, não acreditando naquela situação. É... Cabelos ruivos e longos, rosto perfeito como se fosse uma boneca... Era a menina que estava no meu sonho hoje de manhã.
– Certo, apresente-se por favor! – Disse a professora, tentando conter a sala.
– Sou Sol Aris, prazer em conhecê-los.
E...?
Independentemente do quanto esperássemos, ela não falaria mais nada. A professora só tinha escrita na lousa “Sol A”, enquanto olhava para a nova aluna com cara de “Não vai falar mais nada?!”. Mesmo assim, ela continuou calada. Os alunos começaram a sentir um clima pesado. De repente, Sol tomou o giz da mão da professora e terminou de escrever seu nome. Virou-se para a sala novamente e permaneceu calada.
Não sei dizer se ela é bem na dela, ou se é simplesmente estranha, mas ela tem uma presença forte e todos na sala perceberam isso. Não sei de onde começou, mas aos poucos a sala começou a bater palmas para ela. Porém, eu estava esquecendo de fazer a mesma coisa. E por quê? Porque ela estava olhando diretamente para mim. Fiquei preso naquele olhar direto, firme e sério, igual ao meu sonho.
Eu não conseguia me mexer. Comecei a relembrar aquele sonho terrível: o fim do mundo, o céu escuro, a cidade destruída e o “ser” que só aumentava o desastre. Instintivamente fechei os olhos, abaixei a cabeça e tentei tirar aquela imagem da minha mente. Abri os olhos. Ela ainda estava olhando friamente para mim.
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No intervalo, todos os alunos da classe estavam cercando Sol e perguntando várias coisas, como:
– Onde você estudava?
– Você participava de algum clube? Era esportivo ou cultural?
– Nossa, seu cabelo é lindo. Que xampu você usa?
À cada pergunta ela dava respostas curtas, desinteressada.
– Ela é diferente, né?
Olhei para o lado e vi Alice e Lucy, ambas observando a situação também.
– Nicolas, você conhece ela?
– Por q...
– É que tive a impressão de que ela estava te encarando mais cedo.
O que eu poderia responder? Ela estava me encarando mesmo? Por que será? Seria porque eu não a salvei? Claro que não. Teoricamente eu acabei de encontrá-la, mas eu já a conhecia em sonho. Isso é difícil de acreditar. No final das contas, acabei nem respondendo a Alice. De repente, Sol levanta-se e fala a todos que estão ao seu redor.
– Desculpem, mas acho que fiquei ansiosa de mais e estou me sentindo meio mal. Posso ir tomar um ar?
O pessoal, exaltado, começa a agitar-se mais ainda.
– Ai! Deixa que eu te levo até lá!
– Eu também vou!
– Não precisam se preocupar, vou pedir para o aluno responsável da sala.
Assim, ela virou-se e olhou para mim. Meu coração acelerou novamente. Ela olhava diretamente para mim e vinha se aproximando. Meus joelhos começaram a tremer.
– Nicolas Christopher.
– Eu! – Respondi nervosamente.
– Você é o responsável pela sala, não é?
– Bom, eu...
– Poderia me levar até a lá fora?
O olhar com o qual ela me observava era o mesmo do sonho. Era intenso e forte. Não tinha nem como eu recusar o pedido dela. Acompanhei-a tentando igualar os passos, enquanto olhava seus longos cabelos ruivos balançarem.
Sol Aris andava na frente, com segurança. Até parecia que eu estava sendo guiado pela escola. Todos que passavam por nós olhavam fascinados para ela. Pode ser que seja porque ela é aluna nova e ninguém a conhece ou porque ela é muito bonita. Não tenho certeza, mas acho provável a segunda opção, já que a maioria que ficava encarando-a eram garotos. Estava me sentindo como em um mangá, onde ela era a personagem principal, capaz de fazer tudo, e eu o secundário. Para alguém insegura como eu, foram momentos muito ruins. Mas não adianta sofrer pensando nessas coisas. Resolvi criar coragem e conversar com a Sol.
– Err... Como soube que eu era o responsável pela sala?
– ...
– Bom, hum...
– A professora Giovanna me disse.
– Ah...É, tem razão. Verdade... Ha ha.
Pude sorrir um pouco quando o silêncio foi quebrado, mas eu não conseguia levar a conversa adiante.
– Então, a saída...
– É por aqui, não é?
– Não. Sim, é sim... Ah, então... Quer dizer... Bem, você já... Já sabia onde era?
– ...
– ...
Senti um clima pesado entre nós. Todos estavam felizes e rindo no corredor, menos nós dois. Até parecia que estávamos presos em uma cela. Preciso dizer algo. Preciso dizer algo, não agüentarei essa situação por muito tempo.
– Sol Aris?
– Pode me chamar só de Sol.
Mesmo que diga isso, é um tanto estranho.
– Err... Então... Sol?
– O que foi?
– Bem, eu... É... Que nome diferente, né?
Nesse instante, Sol parou de andar, do nada. Foi então que, desesperadamente, tentei melhorar o que disse.
– Não foi um comentário negativo, longe disso! Eu quis dizer que é um nome muito legal e...
Sol Aris virou-se lentamente. Seus lábios bem definidos estavam rígidos e seu olhar estava ainda mais intenso. Então fiquei olhando para ela enquanto tentava pensar no que dizer. Meus joelhos, pareciam ter vida própria, de tanto que tremiam. A tremedeira das pernas começou a subir até atingir o corpo todo. Estávamos bem no meio do corredor da escola e... Ao nosso redor, não havia ninguém. Sim, só estávamos eu e ela ali.
– Nicolas Christopher, você... Você acha sua vida uma dádiva? Você tem tratado com importância sua família e amigos?
– O que...?
O que será que ela quis dizer? Por que ela perguntou isso para mim? Eu não conseguia entender porque logo eu estava neste lugar em uma situação dessas. Estava com muito medo e queria fugir. Porém, meus pés não se mexiam. Talvez seja por causa do olhar dela, que estava extremamente sério. Eu só sabia que não poderia fugir dessa pergunta, respondendo coisas como “não sei” ou “nunca pensei nisso”. Por isso respondi.
– Eu... Claro que acho importante. Minha família, meus amigos,todos são muito importantes para mim.
– De verdade?
– Claro que sim. Não mentiria sobre isso! – Gritei instintivamente.
– Se realmente pensa assim, não queira se tornar uma pessoa diferente do que é.
– Como...?
– Caso contrário, nada dará certo.
Sol Aris virou-se e continuou a andar. Eu acabei ficando para trás. Repeti as palavras dela várias vezes na minha cabeça. Mas quanto mais eu pensava, menos eu entendia. Percebendo que fiquei para trás, ela parou e voltou-se para mim. Em sua expressão pude notar tristeza.
– Você tem que ser o Nicolas Christopher de agora. É assim que precisa ser, para sempre...
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