Sol da meia-noite: Midnight Sun
86 T- Final= Nessie - A decisão
Eu a observava pela janela. Clara corria entre as árvores da clareira com Emmett, rindo de algo que só os dois entendiam, enquanto Rosalie e Alice esperavam com sacolas de presentes novos para “uma última surpresa” daquele dia.
Era sempre assim ultimamente.
Ela saía pela manhã, prometendo não demorar, e voltava com o coração leve, os olhos brilhando e a voz apressada, cheia de histórias. Histórias que envolviam a tia Alice ensinando a montar combinações de roupas “de vampira estilosa”, o vovô Carlisle explicando sobre células e mutações, ou o papai Edward — sim, ela começou a chamá-lo assim — ensinando partituras no piano antigo da sala.
Ela não parava de sorrir.
E eu… não conseguia acompanhar.
A felicidade dela era o que eu sempre desejei. E ainda assim… me doía. Uma dor estranha, silenciosa, que se misturava com o medo de que, aos poucos, ela estivesse encontrando seu lugar… longe de mim.
Senti o toque quente e firme da mão de Jacob em minha cintura. Estava na cozinha com o pequeno Jimmy adormecido no colo. A cabecinha dele repousava contra o meu peito, e o cheirinho de bebê ainda era o que me ancorava à sanidade.
— Ela tá bem, Ness — Jacob disse, com a voz baixa, como se tivesse lido meus pensamentos.
Assenti, sem responder de imediato. Levei uma das mãos até os cabelos de Jimmy e comecei a acariciá-los devagar.
— Ela está feliz, Jake — murmurei. — Pela primeira vez, Clara não se sente deslocada. E eu deveria estar radiante… mas tudo o que sinto é que estou perdendo ela. É horrível, eu sei. Egoísta. Mas… é como se ela tivesse descoberto que há algo mais, algo que eu não posso oferecer.
Jacob se abaixou diante de mim, mantendo uma das mãos em minha perna, os olhos castanhos fixos nos meus.
— Você é o mundo dela, Ness. Sempre foi. Você a segurou nos braços quando ela era só um bebezinho indefeso. Você a ensinou a andar, a falar, a ser corajosa… a ser ela. Nada no universo vai mudar isso.
— Mas ela os chama de pai e mãe agora — confessei com a voz embargada. — E eu fico aqui, sorrindo, dizendo que está tudo bem, mas por dentro estou gritando, Jake. Porque no fundo… eu sinto que talvez ela pertencesse a eles desde o começo.
Jacob pegou minha mão livre e a levou até os lábios, depositando um beijo demorado.
— Não. Ela pertence a você. E a mim. E ao Jimmy. E, sim, também pertence a eles. Porque, às vezes, o amor não cabe só em dois braços. Às vezes, é preciso uma família inteira — disse ele com um sorriso carinhoso. — Mas você é a mãe dela. Sempre será.
Meus olhos se encheram de lágrimas, e inclinei a cabeça até tocar a dele.
— Eu só tenho medo… de que um dia ela não volte mais.
Jacob encostou a testa na minha.
— Ela sempre vai voltar, Nessie. Porque você é o lar dela.
Ficamos em silêncio por um tempo. O pequeno Jimmy soltou um suspiro pesado em meu colo e nos entreolhamos, sorrindo com ternura.
— Você acha que ela está se preparando pra me dizer algo? — perguntei em um sussurro.
Jacob não respondeu de imediato, mas seu olhar disse tudo.
Sim.
Algo estava por vir.
E eu precisava estar pronta.
O pôr do sol tingia o céu de tons dourados quando Clara entrou na sala com os ombros tensos e os olhos evitavam os meus. Ela parecia mais alta, mais decidida… mais distante. Jimmy dormia no sofá ao lado, com um ursinho entre os braços, alheio ao turbilhão que se aproximava.
Jacob estava sentado à mesa, lendo relatórios do hospital. Assim que viu Clara entrar, ele ergueu o olhar, atento.
— Oi, filha — eu disse, tentando soar leve, mesmo com meu coração apertado. — Como foi o dia?
— Legal… — ela respondeu, mas a voz dela carregava algo estranho. Clara respirou fundo, como quem junta coragem para uma batalha. — Eu… preciso falar com vocês.
Me sentei melhor, e Jacob fez o mesmo. Ela ficou de pé diante de nós, as mãos unidas como se apertasse um segredo entre os dedos.
— Meus pais… Bella e Edward… — ela começou, me lançando um olhar cheio de cuidado — vão precisar partir. É uma missão importante e… eu quero ir com eles.
Silêncio.
Meu mundo parou.
— Como assim partir? — Perguntei, tentando manter a voz firme. — Eles vão viajar? É perigoso? Onde?
— Não é perigoso para mim — disse ela rapidamente. — E eu preciso estar com eles. Preciso entender melhor… quem eu sou. De onde eu vim.
Jacob se levantou bruscamente.
— Não. Você é uma criança, Clara. Você pode conhecer sua origem aqui, com calma. Eles não têm o direito de te levar sem o nosso consentimento.
— Eu não sou uma bebê! — Clara ergueu a voz como nunca antes. Seus olhos estavam cheios de raiva contida. — Eu sei o que estou fazendo! Eles me entendem, me ouvem, me aceitam como eu sou! Vocês querem que eu fique aqui como se eu não tivesse direito de escolher nada!
— Ei! — Me levantei também, sentindo uma dor rasgar meu peito. — Não fale assim com seu pai! E comigo! Eu sou sua mãe, Clara. Nós lutamos por você.
— E eu sou grata! Mas isso… isso é maior do que vocês, mãe. Eu preciso ir.
Jacob se aproximou, tentando suavizar.
— Então me diz a verdade, Clara. Por que essa pressa? Que missão é essa?
Ela hesitou. Um segundo. O suficiente para que eu soubesse.
Ela estava escondendo algo.
— É pessoal. E não vou te contar — respondeu, com os olhos brilhando de frustração. — Me desculpem, mas eu vou de qualquer jeito.
Ela virou as costas, subindo as escadas com passos pesados. Jacob passou a mão pelo rosto, como quem tentava se manter no controle.
Eu não disse nada. Apenas peguei meu casaco.
— Nessie, aonde você vai?
— Atrás da única pessoa que pode me dar respostas — murmurei, saindo pela porta antes que Jacob pudesse impedir. — A irmã que me deixou sozinha.
A floresta estava silenciosa, exceto pelo som dos meus passos rápidos esmagando folhas secas. A cada batida do meu coração, a angústia crescia. Clara estava indo embora. E eles tinham convencido ela a me deixar.
Quando cheguei ao limite entre nosso território e o dos Cullen, não precisei esperar. Bella já estava ali, como se soubesse que eu viria. Ao lado dela, Edward observava em silêncio, o olhar grave. Seth surgiu atrás deles, nervoso, inquieto.
— O que você disse a ela? — Perguntei direto.
Bella deu um passo à frente.
— Nessie... calma. Podemos conversar com tranquilidade.
— Tranquilidade?! — A palavra saiu como um cuspe. — Vocês a convenceram, não foi? Fizeram a cabeça dela com promessas e presentes. Vocês... vocês estão roubando minha filha!
— Isso não é verdade! — Bella ergueu a voz, algo raro para ela. — Eu nunca forçaria Clara a nada. Eu só... só a deixei ser ouvida!
— Claro, porque vocês são os pais verdadeiros, não é? — Cuspi com veneno. — E eu sou só a garota que a criou, a que ficou! Eu a amei quando ela era só um bebê que chorava à noite e tinha medo do escuro!
Seth se aproximou, inquieto.
— Renesmee... ela ama você. Isso não mudou.
— Então diga a verdade, Seth — exigi, me virando pra ele. — O que está acontecendo? Que missão é essa? Por que ela quer ir agora?
Jacob chegou logo atrás, em forma humana, o corpo tenso.
— Seth — ele rosnou baixo — se transforme. Agora. Eu quero saber o que você está escondendo.
Seth abaixou a cabeça.
— Eu não posso.
— O quê?! — Jacob deu um passo à frente. — Você vai me desobedecer?
— Eu prometi proteger a Clara. E manter o que ela me confiou em segredo faz parte disso.
— Você tem imprinting com ela — sussurrei, sentindo meu estômago se revirar. — Então vai protegê-la até mesmo de mim?
— Não é sobre proteger de você... — ele murmurou — é sobre respeitar o que ela quer.
Bella se aproximou mais um passo.
— Renesmee... eu sei que está com medo. Eu também estive. Eu precisei te deixar quando você era bebê pra te proteger. Eu daria tudo pra ter ficado, mas...
— Você não ficou! — gritei, o peito explodindo de dor antiga. — E agora quer levar minha filha?! Ela é minha! Minha!
Os olhos de Bella brilharam com algo indefinível. Talvez fosse tristeza. Talvez fosse controle absoluto para não mostrar mais.
Então Jacob rosnou, e quando vi, sua forma humana desapareceu. O lobo se impôs entre mim e Bella, dentes à mostra, avançando lentamente.
— Jacob, não! — Gritei, mas ele estava cego de fúria.
Edward deu um passo à frente, mas antes que algo acontecesse, uma voz alta cortou o silêncio:
— Parem!
Clara surgiu correndo entre as árvores, os olhos arregalados.
Ela se colocou entre Jacob em forma de lobo e Bella, os braços abertos como um escudo.
— Parem agora!— ela chorava, mas sua voz era firme. — Por favor!
Jacob parou, os olhos ferozes se fixando nos dela. Ofegante, ele recuou lentamente, voltando para o lado da floresta. Bella não se moveu.
Clara se virou pra mim.
— Mãe… ninguém me convenceu de nada.
Eu não conseguia falar. Só a encarei, com lágrimas nos olhos, sufocada.
— Eu escolhi ir. Porque... porque eu quero entender quem sou. Quero ver o mundo além das árvores de La Push. Quero conhecer as outras partes de mim. Mas... isso nunca vai mudar o quanto eu amo você.
Ela se aproximou, estendeu a mão e tocou minha bochecha.
— Você é minha mãe. E sempre será. Mas eu... eu preciso ir.
Meu coração parecia despedaçar.
— Você... você volta pra mim? — Perguntei com a voz baixa.
Clara assentiu.
— Eu sempre volto pra casa.
E naquele momento, mesmo partida em dois, eu sabia: o amor não aprisiona.
Ele liberta.
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