Sol da meia-noite: Midnight Sun
80 (T- Final-Nessie) Árvore de Natal
Sentada à mesa da cozinha, tomava meu café da manhã enquanto Clara devorava seu cereal e Jimmy fazia mais bagunça do que comia na cadeirinha. Ele adorava passar os pedacinhos de fruta pelos dedos antes de colocá-los na boca, rindo a cada movimento desastrado. Clara, como sempre, estava cheia de energia, falando sobre os planos do dia enquanto eu ouvia, meio distraída.
Foi quando ouvi o som da caminhonete. Jacob finalmente havia voltado.
— Papai chegou! — Clara anunciou animada, empurrando a cadeira para trás e correndo até a porta.
Jimmy balbuciou algo que soava como "papá" e esticou os bracinhos em direção à entrada.
Eu suspirei, tomando um último gole do café antes de me levantar e segui-los. Jacob entrou pela porta com um sorriso satisfeito, suas botas molhadas deixando pequenas marcas no chão.
— Bom dia, família! — Ele se abaixou para beijar Clara na testa e bagunçou os cabelos dela. Depois, veio até mim e me deu um rápido beijo antes de se virar para Jimmy. — E você, pequeno? Tá cuidando bem das suas meninas?
Jimmy apenas soltou um gritinho feliz, batendo as mãozinhas contra a bandeja da cadeirinha.
— Onde você estava tão cedo, Jacob? — perguntei, cruzando os braços, tentando soar casual, embora a pergunta estivesse carregada de curiosidade.
Ele abriu um sorriso travesso. — Tenho uma surpresa pra vocês.
Clara praticamente pulou de alegria. — Surpresa? O que é?
— Venham comigo. Vocês precisam ver isso.
Clara disparou para fora da cozinha antes mesmo de eu poder protestar. Peguei Jimmy no colo e segui Jacob, minha curiosidade começando a superar a desconfiança.
Quando saímos, Clara soltou um grito de animação ao ver o enorme pinheiro deitado na grama do jardim.
— Nossa árvore de Natal! — Jacob anunciou com os braços abertos, claramente orgulhoso.
Clara correu até a árvore, tocando os galhos com cuidado. — É enorme, papai! Você escolheu a maior que encontrou?
Jacob riu. — Só o melhor para a nossa casa.
Olhei para ele, estreitando os olhos. — Você saiu cedo só para pegar uma árvore de Natal?
Ele hesitou por um instante, mas manteve o sorriso. — É claro. Achei que seria especial surpreender vocês.
A resposta foi rápida demais, e algo nela não me convenceu. Ainda assim, preferi não insistir. Se havia algo a mais nessa história, eu descobriria depois.
— Tudo bem, então. Vamos levar isso para dentro antes que a chuva molhe mais.
Jacob sorriu, aliviado, e levantou a árvore com facilidade, colocando-a no ombro. Clara pulava ao redor dele, claramente animada com a ideia de começar a decoração. Jimmy observava tudo com olhos curiosos, balbuciando palavras que só ele entendia.
Enquanto entrávamos de volta na casa, ainda segurando Jimmy, dei uma última olhada em Jacob. Por mais que houvesse algo estranho em tudo isso, decidi aproveitar o momento. Às vezes, as perguntas podiam esperar.
A manhã foi um turbilhão de risadas e cores. Clara estava absolutamente encantada com a árvore de Natal. Ela praticamente saltava ao redor de Jacob enquanto ele ajeitava o pinheiro no suporte, insistindo em ser a primeira a colocar os enfeites. Jimmy, por sua vez, estava mais interessado em explorar os próprios limites com os enfeites. Ele adorou os que brilhavam e fazia questão de pegar cada bolinha colorida, segurando-as como se fossem seus tesouros.
Eu me ocupava em organizar as luzes e distribuir as decorações entre Clara e Jacob, enquanto observava o sorriso radiante deles. Jacob parecia genuinamente feliz, brincando com Clara e Jimmy, e isso me fazia esquecer qualquer dúvida que eu tivesse tido naquela manhã.
— Mamãe, olha só! — Clara chamou minha atenção, segurando uma estrela dourada. — Eu quero colocar no topo!
— Então precisa esperar o papai terminar — respondi, rindo.
Jacob se inclinou para ela, pegando-a no colo. — Vamos lá, estrelinha. O topo é todo seu.
Ela riu alto, segurando a estrela com cuidado enquanto Jacob a ergueu. Jimmy bateu palmas, animado com o espetáculo.
A casa ficou ainda mais acolhedora com a árvore brilhando e os enfeites espalhados. Por alguns momentos, o mundo parecia perfeito.
Saí para a faculdade mais tranquila, sabendo que Jacob estaria com as crianças. Estava no último semestre do meu curso de Biologia Marinha, e aquele era um dia importante para entregar trabalhos finais e resolver pendências antes das férias.
No campus, a correria era inevitável. Passei boa parte da tarde no laboratório revisando um projeto sobre a preservação da vida marinha no Pacífico. Entregar aquele trabalho trouxe uma sensação de alívio. Meu grupo e eu havíamos trabalhado nele durante semanas, e finalmente o professor nos deu um retorno positivo.
Após uma última reunião com minha orientadora, encerrei o dia na biblioteca, revisando as anotações para os últimos exames do semestre. Quando finalmente guardei meus materiais e saí do prédio, o sol já estava se pondo, tingindo o céu de tons laranja e rosa.
De volta para casa
Cheguei em casa animada, pronta para contar a Jacob sobre meu dia. Mas, ao abrir a porta, percebi que algo estava diferente. As luzes da sala estavam acesas, e Clara estava deitada no tapete, folheando um livro, enquanto Magg estava sentada no sofá com Jimmy no colo.
— Oi, pessoal. — Entrei, tentando esconder a surpresa. — Cadê o Jacob?
Magg desviou o olhar por um segundo, ajustando Jimmy em seu colo. — Ele... ah, ele precisou sair.
Franzi o cenho, tirando o casaco. — Sair? Ele não comentou nada.
Magg deu de ombros, tentando soar casual. — Disse que era algo rápido. Acho que tinha a ver com uma encomenda atrasada.
Havia algo na forma como ela falou que me deixou desconfiada. Magg sempre foi prestativa, mas havia momentos em que parecia tentar ocupar um espaço que não era dela.
— Entendi... — respondi, ainda desconfiada.
Jimmy estendeu os bracinhos para mim, e eu o peguei no colo. Seu sorriso inocente sempre me fazia esquecer, pelo menos por alguns minutos, as preocupações.
Ainda assim, minha mente estava cheia de perguntas. Por que Jacob saiu sem me avisar? E por que Magg parecia tão nervosa? Resolvi não pressionar naquele momento, mas uma coisa era certa: eu descobriria o que estava acontecendo.
Caminhei até a garagem depois de pedir a Magg que ficasse com as crianças. Seu sorriso rápido de aceitação não me convenceu, mas eu estava mais preocupada em descobrir o que estava acontecendo com Jacob. Quando cheguei lá e vi a caminhonete estacionada, meu coração disparou. Ele estava em algum lugar, mas não havia saído de carro. Isso só reforçava a ideia de que sua ausência tinha algo a ver com a matilha.
Suspirei, ajustando meu casaco, e comecei a caminhar em direção à trilha que levava à clareira. A noite se aproximava rapidamente, e a escuridão começava a envolver o bosque. Mesmo assim, continuei, ignorando o arrepio na nuca e os sons da floresta que pareciam mais altos do que o normal.
A clareira onde a matilha costumava se reunir ficava a poucos minutos de caminhada. A cada passo, o silêncio parecia mais denso, e minha mente trabalhava rápido, imaginando o que Jacob poderia estar fazendo ou discutindo.
Quando me aproximei, ouvi vozes. Parei entre as árvores, tentando identificar quem estava falando. Foi então que ouvi Jacob, sua voz firme e carregada de irritação.
Fiquei entre as árvores, meu coração martelando com as palavras que acabava de ouvir. Jacob estava discutindo, e sua voz estava cheia de determinação.
— Clara é minha filha e de Nessie. Você não pode simplesmente aparecer e a reivindicar como se fosse uma peça de ornamentação da sua casa.
Fiquei completamente imóvel, meu cérebro tentando processar o que ele acabara de dizer. Clara era filha dele e minha? Como assim? Antes que eu pudesse entender o que aquilo significava, Jacob continuou, a voz mais baixa, mas ainda cheia de frustração.
— Nessie nunca vai aceitar isso. Não assim.
Minha respiração ficou presa na garganta, e antes que eu pudesse pensar em sair dali, uma terceira voz, feminina e calma, soou no meio da clareira.
— Ela precisa saber. Clara é minha filha.
Minha mente girou, e uma onda de náusea tomou conta de mim. Quem era essa mulher? O que ela estava dizendo? Antes que pudesse reagir, ouvi outra voz, masculina e firme.
— Tem alguém por perto.
Meu coração disparou, e percebi que, se havia uma chance de descobrir o que estava acontecendo, era agora. Respirei fundo e saí de trás das árvores, caminhando em direção à clareira com passos firmes, embora minhas pernas estivessem tremendo.
Assim que pisei na clareira, o que vi me fez parar no mesmo instante. Jacob estava ali, ao lado de outros membros da matilha. Mas era a mulher no centro da clareira que fez meu coração praticamente parar.
Ela tinha o rosto que eu conhecia tão bem, um rosto que eu nunca imaginei ver novamente.
— Bella? — sussurrei, minha voz saindo trêmula, quase inaudível.
A mulher virou-se para mim, e seus olhos se encontraram com os meus. O tempo pareceu parar enquanto eu tentava compreender o impossível. Bella estava ali, viva.
Fale com o autor