Sol da meia-noite: Midnight Sun
81 ( T Final- Nessie) Minha filha
A visão diante de mim era um choque absoluto. Eu olhava para Bella como se estivesse vendo um fantasma, meu coração batendo tão forte que mal podia ouvir o som da chuva nas folhas ao nosso redor. Não fazia sentido. Ela estava morta. Eu a enterrei. Chorei por ela. E ainda assim, ela estava ali, viva, olhando para mim com a mesma intensidade de sempre, mas... diferente. Algo nela estava errado. Jacob deu um passo à frente, mas não em minha direção. Ele olhou para os Cullen com uma mistura de raiva e frustração.
— Vocês sabiam que ela estava vindo! — acusou ele, a voz carregada de tensão. — Isso não estava nos planos.
Ninguém respondeu. Todos estavam me observando, como se estivessem esperando minha reação. Bella deu um passo em minha direção, sua expressão quase suplicante.
— Nessie... — começou ela, mas eu me afastei, erguendo a mão para interrompê-la.
— Não se aproxime! — minha voz saiu trêmula, mas firme. — Como isso é possível? Eu... eu te enterrei, Bella. Eu chorei por você!
Os olhos de Bella estavam cheios de uma mistura de dor e algo mais que eu não conseguia identificar.
— Foi necessário, Nessie. — A voz dela era suave, mas cada palavra soava como um golpe. — Precisávamos proteger Clara.
— Clara? — repeti, confusa e furiosa. Virei-me para Jacob, que parecia desconfortável, o peso da culpa evidente em seu rosto. — Jacob, o que está acontecendo?
Ele abriu a boca para falar, mas hesitou. Finalmente, balançou a cabeça.
— Eu ia te contar...
— Quando, Jacob? — minha voz aumentou, cheia de incredulidade. — Quando você achasse conveniente?
Minha cabeça girava. Eu precisava entender, mas nada fazia sentido.
— Por que estavam falando de Clara? — perguntei, minha voz tremendo de raiva e confusão.
Bella deu mais um passo à frente, ignorando minha resistência.
— Porque Clara é minha filha.
O ar pareceu sair do meu corpo. Olhei para ela como se estivesse louca.
— Não. Isso não é possível. — Minhas mãos tremiam, e eu as cruzei sobre o peito para me manter firme. — Clara é minha filha, Bella. Minha e de Jacob!
— Não, Nessie — Edward interveio, sua voz tão calma que me fez querer gritar. — Fizemos isso para protegê-la.
Eu olhei para Jacob, esperando, implorando por uma explicação que não me destruísse.
— Você sabia? — perguntei, minha voz agora um sussurro cheio de dor.
Ele hesitou novamente, mas finalmente assentiu.
— Há algum tempo.
A confirmação dele foi o golpe final. Algo dentro de mim se quebrou. As pessoas que eu mais amava haviam mentido para mim, e agora tudo que eu acreditava estar construindo desabava diante dos meus olhos.
Minha respiração estava pesada, os pensamentos um caos. Olhei para Bella, ou para o que quer que ela fosse agora, com toda a fúria e dor que estavam crescendo dentro de mim.
— Não ouse chamar Clara de sua filha. — Minha voz era baixa, mas cheia de veneno. — Minha irmã está morta. Você... não é Bella.
Bella pareceu estremecer com minhas palavras, mas deu um passo à frente, estendendo a mão.
— Nessie, eu sou sua irmã! Eu fiz isso para proteger Clara, para protegê-la...
Eu ri, uma risada amarga e cheia de incredulidade.
— Proteger? Proteger de quê? Você fingiu sua morte, me deixou para chorar e lidar com a dor de te perder! E agora aparece aqui, anos depois, dizendo que Clara não é minha filha? Que ela é sua? Não!
— Eu não tive escolha! — Bella insistiu, sua voz aumentando. — Se eu tivesse ficado, a vida dela estaria em risco. Nós fizemos o que era melhor para ela.
— O que era melhor para ela? — interrompi, dando um passo à frente, meu corpo inteiro tremendo de raiva. — Você acha que mentir, desaparecer e fingir que morreu foi o melhor para ela? Clara é minha filha, Bella! Eu a criei, eu a amei, eu chorei por ela quando ela ficou doente! Onde você estava quando ela teve pesadelos? Onde você estava quando ela chorou no meu colo pedindo por uma mãe?
Bella abriu a boca para responder, mas nenhuma palavra saiu. Eu continuei, minha voz ficando cada vez mais firme.
— Você não estava lá, mas eu estava! E agora você acha que pode aparecer do nada e tomar meu lugar? Não! Você não vai chegar perto dela. Nunca.
Bella parecia atordoada, incapaz de encontrar palavras. Sua expressão mudou de súplica para algo mais duro, mais frio.
— Você não entende, Nessie. Clara tem o direito de saber quem ela é.
— Ela sabe quem ela é! — gritei, sentindo as lágrimas queimarem meus olhos. — Ela é minha filha, e eu não vou deixar você ou ninguém tirar isso dela.
— Você está sendo irracional, Nessie! — Bella se aborreceu, dando mais um passo. — Clara precisa de mim, e eu não vou desistir dela!
Antes que ela pudesse chegar mais perto, Seth e Embry surgiram, suas posturas rígidas, bloqueando Bella. Jacob também deu um passo à frente, posicionando-se ao meu lado, sua expressão protetora.
— Já chega, Bella. — A voz de Jacob era baixa, mas carregada de autoridade. — Se ela disse que não, então é não.
Bella olhou para ele, surpresa e irritada, mas Jacob não cedeu. A matilha inteira parecia pronta para agir, protegendo-me.
Eu não disse mais nada. Apenas dei as costas, minha respiração pesada, meus olhos ardendo com lágrimas que eu me recusava a deixar cair.
— Isso não acabou, Nessie! — ouvi Bella gritar atrás de mim, mas eu continuei andando.
Ignorando a dor que parecia crescer a cada passo, eu deixei a clareira para trás. Bella podia achar que isso não tinha acabado, mas para mim, ela já não fazia parte da minha vida. E eu protegeria Clara com tudo que tinha.
Minha mente fervilhava enquanto eu fechava a porta atrás de mim. Magg estava na sala, como se estivesse me esperando. Jacob entrou logo depois, fechando a porta com cuidado, mas sua expressão tensa só aumentou minha raiva.
Olhei para Magg, cruzando os braços.
— Onde estão as crianças? — perguntei, tentando manter a voz calma.
— Estão dormindo. — Ela respondeu rapidamente, mas o jeito como ela olhou para Jacob logo depois fez meu sangue ferver.
— Então... é sobre isso que vocês têm agido com tanto segredo? — explodi, olhando de Magg para Jacob. — Foi sobre o que eu descobri hoje na clareira? É isso?
Magg levantou as mãos, como se quisesse se defender.
— Nessie, você está entendendo tudo errado...
— Errado? — ri amargamente, encarando-a. — Eu deveria acreditar que você não sabia de nada, Magg? Desde quando você está envolvida nisso?
— Eu só queria ajudar! — ela retrucou, sua voz subindo. — Jacob pediu minha ajuda porque sabia que você reagiria assim.
— Ajudar? — eu avancei um passo, sentindo as palavras saírem com veneno. — Você acha que eu sou idiota? Todo esse tempo, Magg, você agiu como se estivesse ao meu lado, mas na verdade, estava conspirando com ele!
— Não é nada disso! — ela gritou, mas eu já tinha perdido a paciência.
— Eu não preciso mais dos seus serviços, Magg. — Minhas palavras saíram frias e definitivas. — Pegue suas coisas e saia da minha casa.
— Você está sendo injusta! — ela retrucou, furiosa.
— Injusta? — avancei outro passo, sem me intimidar. — Injusta é você ficar na minha casa, cuidando dos meus filhos, enquanto esconde coisas de mim! Não vou mais tolerar isso.
Magg olhou para Jacob, esperando algum tipo de intervenção, mas ele ficou em silêncio. Furiosa, ela pegou sua bolsa e saiu batendo a porta.
Eu me virei para Jacob, minha raiva ainda queimando.
— Vai me dizer o que mais está escondendo de mim? Ou vai ficar aí, calado, como sempre faz?
Jacob suspirou profundamente e deu um passo em minha direção.
— Nessie, eu não estava escondendo nada para te machucar. Eu... eu estava tentando proteger você.
— Proteger? — gritei, cruzando os braços. — Isso é proteger, Jacob? Deixar que eu descubra tudo sozinha? Me trair com segredos enquanto ela... — apontei para a porta onde Magg havia saído — ...age como se estivesse do meu lado?
— Não é traição! — ele insistiu, o tom implorando por compreensão. — Eu sabia que seria difícil para você. Eu só queria encontrar o momento certo para te contar.
— O momento certo? — balancei a cabeça, incrédula. — Não existe um momento certo para isso, Jacob! Você me traiu. Não com outra mulher, mas com a verdade.
Ele passou as mãos pelos cabelos, frustrado.
— Eu nunca quis te machucar, Nessie. Nunca!
— Mas machucou. — Minha voz tremeu, mas me recusei a chorar. — Jacob, você quebrou a única coisa que nos mantinha juntos: a confiança.
Ele se aproximou, tentando segurar minha mão, mas eu dei um passo atrás.
— Não. — balancei a cabeça. — Não tente consertar isso agora. Eu não consigo nem olhar para você.
O silêncio que se seguiu era ensurdecedor. Jacob parecia devastado, mas eu não tinha mais energia para lidar com isso. Dei as costas e subi as escadas, deixando-o sozinho na sala. Minha cabeça estava a mil, e meu coração, partido, mas eu sabia que precisava de espaço para pensar.
Eu abri a porta do quarto de Clara e a encontrei sentada na cama, abraçando seu ursinho de pelúcia. Seus olhos grandes estavam fixos em mim, assustados, enquanto a luz fraca do abajur iluminava o quarto. O nó na minha garganta apertou ainda mais ao perceber que ela havia acordado com a discussão.
Me aproximei lentamente, sentindo meus olhos marejarem.
— Oi, meu amor — sussurrei, me ajoelhando ao lado dela.
Clara não respondeu com palavras, mas estendeu a mão em minha direção. Quando seus dedos tocaram meu rosto, fui inundada por uma onda de emoções que não eram minhas: confusão, medo e, acima de tudo, um desejo desesperado por segurança.
Suas palavras surgiram em minha mente, claras como se tivessem sido ditas em voz alta.
— Você está triste, mamãe?
Eu fechei os olhos, respirando fundo para conter as lágrimas.
— Estou um pouco, meu anjo. — Segurei sua mão e a apertei contra meu peito. — Mas você não precisa se preocupar, tá? Eu estou aqui, e nada nem ninguém vai nos separar.
Clara inclinou a cabeça, os cachinhos caindo sobre seu rostinho delicado.
— Eles querem me tirar de você?
Meu coração apertou. Me perguntei como ela sabia disso. Apertei sua mão um pouco mais forte, tentando passar toda a certeza que eu mesma mal conseguia sentir.
— Como você sabe disso?
— Eu ouvi o papai e o Seth, eles dizem que são meus pais , ele vão me tirar de você?
— Ninguém vai te tirar de mim. Você é minha filha, Clara. E eu te amo mais do que tudo neste mundo.
Ela piscou devagar, como se processasse minhas palavras, e em seguida senti outra onda de sentimentos: alívio e carinho.
— Eu também te amo, mamãe.
Minha voz saiu trêmula quando me sentei na cama ao lado dela, puxando-a para o meu colo.
— Você é tudo para mim, minha pequena. Nunca se esqueça disso.
Ela se aninhou em meus braços, e eu beijei o topo de sua cabeça, sentindo o cheiro doce de seus cabelos. Não consegui mais segurar as lágrimas. Elas rolaram silenciosamente enquanto eu a abraçava com força, como se o simples ato de segurá-la pudesse proteger-nos de tudo.
Naquele momento, com Clara nos meus braços, decidi que lutaria com todas as forças. Ninguém ia nos separar. Não Jacob, não Bella, nem mesmo Edward. Clara era minha filha, e eu faria o que fosse necessário para mantê-la comigo.
Fale com o autor