Sol da meia-noite: Midnight Sun
90 (T-Final-Nessie) Voa passarinho...morceguinho
O número apareceu na tela do celular e, por um momento, meu coração parou.
Bella;
Eu não hesitei em atender. Sabia que essa conversa viria — cedo ou tarde — e talvez parte de mim estivesse esperando por isso desde o momento em que Clara apareceu entre ela e Edward pela primeira vez.
— Renesmee — a voz dela soou calma, mas havia uma tensão por trás que só quem já sofreu em silêncio saberia reconhecer. — Podemos conversar? Sozinhas.
Aceitei. Havia perguntas demais, feridas demais, e amor demais entre nós para não encarar isso de frente.
Nos encontramos na trilha que levava ao velho campo das samambaias, o lugar onde tantas memórias da minha infância me abraçavam como vento. O sol filtrava entre os galhos altos, lançando sombras e luz no rosto da mulher que, por tanto tempo, eu achei que tivesse morrido.
Minha irmã.
— Você está decidida a ir — ela começou, antes mesmo que eu dissesse qualquer coisa.
Assenti, firme.
— Não vou deixar Clara ir sozinha. Ela é minha filha.
Bella me encarou. O dourado dos olhos dela cintilava, e embora seu rosto estivesse sereno como sempre — calmo demais, até — havia uma dor presa ali, bem no fundo. Uma dor que só uma mãe poderia entender.
— Renesmee... se você for até Volterra, pode não voltar.
Minha respiração falhou.
Ela deu um passo mais perto, e sua voz suavizou, embora cortante:
— Você sabe quem eles são. Sabe o que representam. Os Volturi não são apenas líderes — são predadores, estrategistas frios. E você... você tem uma família aqui. O pequeno Jimmy precisa de você. E se... se ele crescer sem os pais?
Fechei os olhos por um momento, o peito doendo como se algo me rasgasse por dentro.
— Não me peça pra escolher entre meus filhos — sussurrei. — Porque eu não consigo.
— Mas talvez precise — ela respondeu. — Por ele. Por Jimmy.
Senti o peso do mundo cair sobre meus ombros. Clara estava crescendo... e agora fazia suas escolhas. Jimmy ainda era só um bebê. Meu bebê. Como equilibrar o amor de dois filhos, quando proteger um parecia exigir que eu abrisse mão do outro?
Bella respirou fundo, e então disse algo que me pegou de surpresa:
— Se percebermos que há qualquer risco real... eu mesma trarei Clara de volta para a reserva. De volta para vocês. Eu prometo.
Abri os olhos, encarando-a.
— Você me jura?
Ela assentiu, devagar.
— Juro pela nossa Clara. Ela é sua filha, Renesmee. Eu jamais a afastaria de você. Eu só... só quero garantir que ela tenha a chance de crescer. De viver.
Houve silêncio entre nós por um tempo. O vento brincava com meu cabelo, e por um segundo, éramos só duas mães ali, tentando salvar uma criança.
— Eu odeio isso — murmurei. — Odeio esse medo constante de perdê-la. Como se nada nunca fosse o suficiente.
Bella se aproximou e, com hesitação, estendeu a mão até tocar meu rosto, como fazia quando eu era pequena.
— Você é mais do que suficiente — disse. — Ela sabe disso. Sempre soube.
Abracei minha irmã. Pela primeira vez desde tudo isso começou, me permitindo chorar.
E no fundo, sabíamos: o tempo estava se esgotando.
Quando voltei para casa, encontrei Jacob parado na sala, de pé, com Jimmy enroscado em seu colo. Seu corpo estava tenso, os olhos fixos na porta como se soubesse que algo em mim tinha mudado.
— Ness — ele murmurou, suavemente, com aquele tom grave que só usava quando se preocupava demais. — Onde você estava?
Fechei a porta atrás de mim e caminhei até os dois. O rosto de Jimmy estava enterrado no pescoço do pai, os bracinhos envolvendo o peito forte de Jacob como se aquele fosse o único mundo que ele conhecesse. Sorri, mesmo com o coração pesado, e toquei a bochecha macia do meu filho.
— Estava com a Bella.
Jake ergueu uma sobrancelha. — Você foi sozinha Ness?
Suspirei. As palavras pesavam, como se cada uma estivesse envolta em pedra. Toquei os cabelos bagunçados de Jimmy, acariciando com carinho.
— Ela me disse... que talvez eu não volte. Que se eu for com Clara para Volterra, posso não retornar.
Jacob franziu o cenho. Seus braços se apertaram instintivamente em volta do nosso filho, e meu coração afundou ao ver aquilo.
— Disse isso por causa de Jimmy. Que ele ainda é só um bebê. Que merece crescer com os pais por perto.
Eu me aproximei e encostei a cabeça no ombro de Jake, abraçando os dois. Jimmy se mexeu levemente, resmungando em um daqueles sonhos infantis que não significam nada, mas que sempre me faziam sorrir.
E naquele momento, tudo me atingiu.
Bella também era mãe da Clara.
Ela amou a filha dela. A nossa filha. E mesmo assim... ela abriu mão.
Abriu mão de criá-la. De vê-la dar os primeiros passos, de ouvir suas primeiras palavras. Abriu mão de embalá-la nas noites ruins e rir com ela nas boas.
E tudo isso... por mim.
Porque me amava.
Uma lágrima quente escorreu silenciosa pelo meu rosto.
— Jake... — sussurrei, com a voz quebrada — você consegue imaginar como deve ter sido pra ela? Entregar a filha nos braços de outra mulher e desaparecer?
Ele não respondeu. Apenas me envolveu com o braço livre e me puxou contra seu peito, onde Jimmy já dormia.
— Não sei se consigo ser forte assim, Jake. Abrir mão da Clara. Mas talvez... talvez seja isso que o amor exige, às vezes. Talvez amar também seja... saber a hora de deixar ir.
Ele beijou o topo da minha cabeça.
— Você não vai deixá-la sozinha. Nem Bella fez isso. Vocês só estão tentando protegê-la — disse com a voz baixa. — E isso... isso é ser mãe.
Fiquei ali, entre os dois amores da minha vida, sentindo o peso e a beleza daquele instante.
A maternidade me transformou, me rasgou, me ensinou a amar de formas que eu jamais imaginaria. E agora, pela primeira vez, eu entendi. O amor também era renúncia.
E talvez... eu estivesse pronta para amar Clara até o ponto de deixá-la ir.
Mesmo que tudo dentro de mim gritasse para mantê-la aqui.
Perfeito. Vamos para esse momento intenso, delicado e profundamente emocional entre mãe e filha — um instante de despedida, de amor e promessa, onde Renesmee finalmente conta sua decisão a Clara. Será do ponto de vista da Nessie, mantendo o tom íntimo e materno que temos seguido.
---
Subi as escadas devagar, sentindo cada degrau pesar como se o tempo estivesse mais denso. O corredor parecia mais silencioso que o normal, como se até a casa soubesse o que eu estava prestes a fazer. Parei em frente à porta do quarto da Clara e respirei fundo antes de bater de leve.
— Pode entrar, mãe.
A voz dela, suave e firme ao mesmo tempo, me alcançou como uma brisa morna. Abri a porta e a encontrei sentada no tapete, cercada por algumas roupas e brinquedos que havia começado a separar. Ela levantou os olhos para mim, e aquele olhar... aquele olhar era o mesmo que vi a primeira vez que ela me chamou de mãe. Amor. Confiança. E um medo escondido ali no fundo, que só uma mãe consegue perceber.
Me ajoelhei ao lado dela. Toquei sua bochecha e sorri, mesmo com o nó apertando minha garganta.
— Você já decidiu o que vai levar?
Ela assentiu, sem dizer nada.
— Está tudo bem — falei, minha voz trêmula — eu... eu vim te dizer que... você pode ir.
Clara piscou rápido, como se não tivesse certeza se tinha entendido certo.
— Como assim?
— Eu vou deixar você ir com seus pais. Com Bella e Edward. Sei que precisa fazer isso. E sei que você os ama. — Engoli em seco — E sei também... que talvez seja o que uma mãe faz quando ama muito uma filha. Ela deixa que ela vá.
Os olhos da Clara se encheram de lágrimas.
— Mãe... você tá... — ela tentou falar, mas a emoção prendeu suas palavras.
— Não tô desistindo de você — sussurrei, segurando suas mãos pequenas. — Nunca vou desistir de você. Mas hoje... eu vou deixar você ir porque eu confio em você. E porque eu te amo mais do que qualquer coisa nesse mundo.
Clara se jogou nos meus braços com um soluço, e eu a apertei forte contra meu peito. Seu coraçãozinho batia rápido. Era tudo tão familiar, tão nosso.
— Eu te amo, mamãe... — ela chorou. — E eu prometo... eu prometo que vou te amar pra sempre. Sempre. Mesmo se estiver longe. Mesmo se eu tiver que lutar contra o mundo, você vai ser a minha mãe pra sempre.
Fechei os olhos com força, sentindo o calor das lágrimas caindo pelo meu rosto. Beijei o topo da cabeça dela, entre os cachinhos que tanto amava afagar.
— E você vai ser minha menina. Sempre.
Ficamos assim, abraçadas, enquanto o tempo parava. E por mais que o medo ainda morasse no fundo do meu peito, naquele instante... eu sabia que nosso amor era maior do que a distância, do que os perigos, do que qualquer coisa.
O amor era renúncia. Mas também era promessa.
E a nossa... era eterna.
----------------------------------------------------------------------------------
O sol mal tinha subido no céu quando Clara desceu as escadas com a mochila nas costas. Seus olhos brilhavam, não de tristeza, mas de expectativa. Havia um mundo esperando por ela. Um mundo que talvez eu nunca pudesse alcançar — mas que era dela.
Seth já estava à porta, mãos nos bolsos, semblante mais sério do que o habitual. Ele não dissera uma única palavra naquela manhã. E não precisava. O olhar dele seguia Clara como se estivesse ancorado nela. Um imprinting, como o de Jacob por mim. Era por isso que ele iria. Porque simplesmente... não podia ficar.
Jacob estava ao meu lado, com Jimmy no colo, e mesmo sem olhar para ele, eu podia sentir a tensão em seu corpo. Mas também havia uma aceitação silenciosa. Sabíamos que não podíamos impedir.
— Está pronta, passarinha? — sussurrei, abrindo os braços.
Clara correu até mim e me envolveu num abraço apertado. Segurei aquele corpinho pequeno com todo o amor do mundo, como se pudesse guardar para sempre a sensação de tê-la assim, perto do meu peito.
— Você lembra o que prometeu? — perguntei contra seu cabelo.
— Amar você pra sempre — ela respondeu, a voz abafada. — E voltar.
Me afastei só o suficiente para encará-la. Seus olhos castanhos estavam firmes, decididos. Clara já não era mais aquela menina assustada de três anos atrás. Era alguém que sabia o que queria. E isso me dava força.
— Voa, passarinho — falei, acariciando seu rosto. — Vai viver sua história. Mas volta pra casa.
Antes que eu pudesse me perder novamente na emoção, Jacob se aproximou e agachou na altura dela. Jimmy, no colo dele, agarrou o pescoço do pai e observava tudo com curiosidade. Clara sorriu para o irmão e bagunçou os cabelinhos dele.
— Não esquece da gente, morceguinha — Jacob disse com um sorriso torto.
Clara deu uma risada, limpando uma lágrima solta.
— Morceguinha? Sério, pai?
— Com esses dois vampiros como pais... achei que combinava.
Ela o abraçou com força, e Jacob fechou os olhos por um segundo. Ele nunca fora bom em deixar ir, mas ali, naquele instante, ele também estava soltando. Por ela.
Edward apareceu ao longe, seguido por Bella, Alice e Jasper. Era hora. Seth se aproximou de Clara, e ela segurou sua mão sem hesitar. Ao lado dele, não parecia frágil. Parecia invencível.
— A gente vai se proteger — Seth nos garantiu, olhando nos nossos olhos. — Eu juro.
Assentimos em silêncio.
Clara deu o último olhar para trás. Seus olhos encontraram os meus, e por um momento, ela não era só minha filha. Era minha coragem. Meu maior amor.
E então ela se virou e caminhou para a floresta, de mãos dadas com seu lobo.
Ficamos ali, parados, vendo as sombras os engolirem pouco a pouco, até não haver mais nada. Apenas o som do vento, e o aperto em meu peito.
— Ela é nossa, Jake — sussurrei, apoiando a cabeça no ombro dele. — Mas o mundo precisa dela agora.
— Então vamos torcer pra esse mundo merecer — ele respondeu, beijando o topo da minha cabeça. — Porque se não merecer... ele vai ter que se ver comigo.
Sorrimos, mesmo com os olhos marejados.
Porque o amor... ah, o amor sabia esperar.
Fale com o autor