Sol da meia-noite: Midnight Sun

91 (T-Final-Nessie)- Hora de cuidar do ninho



Os dias seguintes à partida de Clara foram silenciosos demais.

A casa parecia maior. Mais vazia. Os brinquedos que ela deixou espalhados no quarto de Jimmy estavam ali, intocados. Era como se ninguém ousasse mover nada, com medo de desfazer as últimas marcas da presença dela. Jimmy sentia sua falta, mas ainda era pequeno demais para entender a profundidade do que estava acontecendo. Às vezes ele apontava para a porta e dizia:

— Cadê a mana?

E eu... eu apenas o abraçava.

Jacob e eu tentávamos manter a rotina. Brincávamos com Jimmy, fazíamos caminhadas curtas na floresta, preparávamos o jantar juntos. Mas havia uma sombra pairando sobre nós. E ela tinha o nome da nossa filha.

Jacob não dizia muito, mas eu conhecia aquele olhar. Sempre que ele se afastava um pouco, eu sabia que ele estava escutando os sons ao redor da floresta, atento a qualquer sinal, qualquer cheiro que indicasse que Clara voltara. À noite, quando pensava que eu dormia, ele saía em forma de lobo e patrulhava a reserva como se aquilo pudesse diminuir o buraco no peito dele. Ou no meu.

Seth também sumira. Mandava notícias rápidas através de Alice, mas nada concreto. "Estamos bem", era tudo o que recebíamos. E o silêncio dos Cullen era ainda mais ensurdecedor.

Dormi pouco durante aqueles dias. Quando Jimmy cochilava à tarde, eu ficava olhando para o teto, tentando lembrar do toque de Clara em minha mão, do som da risada dela ecoando pela sala, dos desenhos que ela deixava pendurados na geladeira. Pensava em Bella. Pensava em mim. E em como o amor pode ser a coisa mais bonita e mais dolorosa do mundo ao mesmo tempo.

No quinto dia, depois do almoço, Jimmy estava adormecido no sofá, o cobertor até o queixo. Jacob veio até mim, os olhos cansados, a barba por fazer.

— Vamos aguentar — ele disse, sentando-se ao meu lado.

Assenti, encostando a cabeça em seu ombro.

— Eu sei. Mas... está doendo tanto.

Ele me envolveu com os braços, e ficamos assim, em silêncio. Até que o som de uma notificação cortou o ar.

— É o seu celular — Jake disse, se erguendo ligeiramente.

Peguei o aparelho com pressa. Na tela, um nome.

Clara chamando... (vídeo)

Meu coração disparou. Eu tremia. Apertei o botão verde com mãos trêmulas e a imagem levou alguns segundos para carregar. E então, lá estava ela.

Clara.

Os olhos vivos. Um pequeno curativo na testa. Mas sorrindo.

Atrás dela, Seth com cara de exausto e os braços cruzados, mas inteiro. Edward ao fundo. E Alice... acenando.

MÃE! — A voz da minha filha explodiu no quarto, e eu senti meu coração voltar a bater.

Jacob se aproximou, me envolvendo por trás, olhando para a tela por cima do meu ombro.

— Oi, morceguinha... — ele murmurou, os olhos marejados.

Clara sorriu.

— Tenho tanta coisa pra contar!

E naquele momento... a casa inteira voltou a respirar.

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A imagem de Clara na tela do celular parecia mágica. Como se por um instante o mundo tivesse voltado ao lugar, como se nada de ruim tivesse acontecido.

— MÃE! TÁ ME OUVINDO?

— Tô, meu amor — respondi, com a voz embargada. — Tô ouvindo e vendo você perfeitamente.

Ela estava com o cabelo preso em um coque bagunçado, o rosto um pouco pálido, mas com os olhos mais brilhantes do que nunca. Tinha algo diferente ali… uma luz que eu conhecia bem. Clara estava vivendo.

A gente tá bem! — ela começou a falar, animada. — Quando chegamos em Volterra, foi tenso… os Volturi são assustadores mesmo, mãe. Tipo... de verdade! Mas o vovô Carlisle falou tudo direitinho, e eu fiquei bem perto do Seth o tempo todo. Ele não deixou ninguém encostar em mim.

— E o que aconteceu? — perguntei, com o coração apertado. — Eles aceitaram?

Clara assentiu.

— Aceitaram. Disseram que eu sou... rara. Diferente. Mas como sou metade humana e não represento ameaça, eles deixaram a gente ir. E... — ela sorriu de canto — eu conheci alguém.

Jacob franziu o cenho.

— Alguém? — Perguntou, já em modo “pai em alerta”.

Clara riu.

— Calma, pai! É só um amigo! O nome dele é Nahuel. Ele é igual a mim! Metade humano, metade vampiro. Ele é incrível! A gente conversou um monte... ele já viajou o mundo com o tio dele. Ele me entende.

Jacob e eu trocamos um olhar. Eu percebi naquele instante que ela tinha encontrado um reflexo de si mesma, alguém que pudesse ajudá-la a compreender quem ela era.

— Ah, e o Seth... — ela revirou os olhos — está insuportável. Fica me seguindo por tudo! Até quando eu quero cinco minutos sozinha ele aparece do nada! Parece até um guarda-costas com superpoderes.

Jacob gargalhou tão alto que Jimmy no sofá se remexeu no sono.

— Eu avisei! — Ele disse entre risos. — Acha que é fácil ter um imprinting Quileute na cola? Isso porque você ainda não viu quando ele começa a implicar com quem você conversa.

— Já começou, pai! — Clara respondeu rindo. — E ele nem disfarça!

Ela suspirou, mais tranquila, e por um segundo, ficou séria.

— Mamãe... tem uma coisa que eu preciso contar. A gente não vai poder voltar pra Forks. Pelo menos, não por enquanto.

— Por que não? — Perguntei, mesmo já imaginando a resposta.

— Porque... os Cullen não envelhecem, né? Já tem gente demais desconfiando. E a mamãe Bella... ela não pode ser reconhecida. É perigoso. Então, vamos viajar. Eles querem me levar pra conhecer o mundo. Paris, Egito, Japão… todos os lugares que você dizia que um dia ia me mostrar.

Meu coração apertou, mas eu sorri.

— Quando você volta?

Clara hesitou por um instante.

— Ainda não sei. Posso ficar mais um tempinho com eles? Só mais um pouco? Eu prometo que vou mandar mensagens, vídeos, tudo! Eu só... eu só quero descobrir quem eu sou.

As palavras dela me atingiram com a doçura e o peso de uma verdade inevitável. Clara precisava voar.

Eu olhei para Jacob, que estava ao meu lado, e ele me deu um leve aceno de apoio. Então sorri para nossa filha.

— Claro que pode, passarinho... — sussurrei.

— Mor-ce-gui-nha! — Jacob corrigiu, fazendo Clara rir.

— Eu amo vocês! — Ela disse, os olhos brilhando. — E eu prometo que mando notícias todos os dias. Beijem o Jimmy por mim. Diz pra ele que a mana vai trazer presentes incríveis!

— A gente te ama, filha — respondi, com lágrimas nos olhos.

— Até logo, meus lobinhos! — ela acenou e desligou.

A tela ficou preta.

E então Jacob me puxou para seus braços, me abraçando forte.

— Ela tá crescendo — sussurrei contra o peito dele.

— Ela tá voando — ele respondeu.

E ali, entre o silêncio da casa e o calor dos braços do homem que amo, entendi que a maternidade não era só sobre proteger. Era também sobre libertar.


A casa estava mais silenciosa do que o normal. Clara não corria pelos corredores, não fazia mil perguntas durante o jantar, e ninguém tocava violão desafinado no fim da tarde — sim, ela estava aprendendo. Mas, ainda assim… havia paz.

E dessa vez, ela não vinha da ausência. Vinha da certeza.

Clara estava bem.

O sol de fim de tarde banhava a varanda em tons dourados enquanto Jimmy brincava no quintal com uma das bolinhas que Jacob trouxe da garagem. A risada dele era cristalina, uma melodia que curava qualquer dor.

Jacob se aproximou por trás, passando os braços ao redor da minha cintura.

— Você tá com essa cara... — ele murmurou contra meu pescoço.

— Que cara?

— De quem tá planejando dominar o mundo.

Eu ri.

— Só tô feliz. Por mais estranho que pareça, eu tô mesmo feliz, Jake.

Ele me virou de frente, segurando meu rosto com carinho.

— A gente passou por tanta coisa… Eu só queria isso, sabe? Um pouco de normal. Uma casa, um quintal, risadas. Você. Jimmy. Clara, mesmo que longe.

— Ela tá voando, Jake.

— E a gente precisa continuar construindo o ninho.

Eu sorri com ternura e me aninhei em seu peito. Ele passou os dedos nos meus cabelos, devagar, como se pudesse eternizar o toque.

— Sabe o que eu tava pensando? — ele disse, olhando para o céu tingido de laranja.

— Medo de perguntar.

— Que a gente podia começar a pensar em viajar também. Não agora… mas daqui a uns meses. Levar o Jimmy pra conhecer outros lugares. Mostrar o mundo pra ele como a gente queria mostrar pra Clara.

— Você fala sério?

— Falo. Eu quero ver você sorrir em Paris de novo. Quero ver o Jimmy correr nas praias do Havaí. Quero criar novas memórias com você, Nessie.

Meus olhos encheram de lágrimas.

— Você sempre sabe o que dizer.

— Porque te conheço, amor. E porque... pela primeira vez em muito tempo, a gente tem tempo.

Ficamos ali em silêncio, vendo o céu mudar de cor, sentindo o vento passar por entre nós como uma promessa tranquila.

Jimmy gritou:

— Mamãe! Papai! Olha!

Ele tinha desenhado algo na terra com um graveto. Me aproximei e vi dois corações e quatro nomes escritos de forma torta: “JIMI, MAMÃI, PAPAI, C’ARA”.

Meu coração derreteu.

Jacob se abaixou, pegou o pequeno no colo e me olhou com aquele sorriso que era só dele.

— Nosso mundo, Nessie. Ele começa aqui.

E naquele momento, eu soube. Tudo estava recomeçando.

Juntos.