Sol da meia-noite: Midnight Sun

83 (T-Final-Nessie) O pedido


Enquanto me sentava no sofá, observei Clara com atenção. Ela terminava o dever de casa com uma concentração que me fazia sorrir de orgulho. Mas havia algo no seu jeito, um nervosismo que ela não conseguia disfarçar. Quando Jimmy começou a resmungar no meu colo, aproveitei a desculpa para levantá-lo e levá-lo até sua cama. Ao voltar para a sala, Clara fechou o caderno e olhou para mim com uma expressão séria, mais madura do que eu achava que ela deveria carregar.

— Mamãe, podemos conversar?

Sorri, tentando aliviar o peso do momento.

— Claro, querida. Do que se trata?

Clara hesitou, mexendo nos dedos antes de finalmente responder.

— Sobre você e o papai.

Minha respiração ficou presa por um instante. Não esperava isso. Ajeitei-me no sofá e tentei parecer tranquila.

— Pode falar, estou ouvindo.

— Eu sei que você está brava com ele — começou, seus olhos fixos nos meus. — Mas eu não quero que briguem por minha causa.

Fiquei surpresa com sua percepção. Clara era tão jovem, mas às vezes parecia enxergar o mundo de uma forma que eu não conseguia explicar.

— Você não é o motivo, meu amor. Jacob... ele... — Parei, sem saber como explicar toda a confusão. — Algumas coisas aconteceram, coisas que me magoaram.

— Mas você ainda ama ele, não ama? — Ela perguntou com uma simplicidade que me desmontou.

Engoli em seco, sem saber como responder. Clara não me deu tempo para pensar.

— Eu só quero que a gente seja feliz. Todos nós.

Olhei para ela, sem palavras, e Clara continuou, sua voz agora um pouco mais hesitante.

— E tem mais uma coisa. Eu... eu quero conhecer minha outra mãe.

Meu coração quase parou. Senti o chão se abrir sob mim.

— Clara, por que você está dizendo isso?

— Porque eu sei que ela é importante. E porque... eu quero entender. Quero saber mais sobre quem eu sou. Mas isso não muda nada, mamãe. Você é minha mãe. Sempre vai ser.

Minha garganta se apertou. As lágrimas ameaçavam cair, mas eu as contive. Clara se levantou e veio até mim, segurando minhas mãos. Seus olhos estavam cheios de determinação, mas também de amor.

— Eu te amo, mamãe. Nada nunca vai mudar isso.

Eu puxei Clara para um abraço, segurando-a como se ela fosse a coisa mais preciosa do mundo — e era. Beijei o topo de sua cabeça, meu coração batendo acelerado.

— Eu também te amo, minha pequena. Mais do que você pode imaginar.

Fiquei em silêncio por um momento, sentindo o peso da decisão que teria que tomar. Era assustador, mas Clara tinha razão. Não podia simplesmente ignorar o que estava acontecendo ou proibi-la de conhecer Bella. Soltei um suspiro profundo e murmurei contra seus cabelos.

— Se é isso que você quer, Clara, eu não vou te impedir. Mas quero que saiba que, para mim, você sempre será minha filha. Nada nem ninguém vai mudar isso.

Clara sorriu contra meu peito, e naquele momento percebi que, apesar do medo e da mágoa, faria qualquer coisa por ela. Mesmo que isso significasse enfrentar meu próprio passado.

Sentei-me na varanda enquanto a noite se acomodava ao meu redor. A lua pendia no céu, lançando uma luz prateada sobre a floresta. As crianças estavam finalmente dormindo, e a casa estava em silêncio, mas minha mente não.


As lembranças voltavam como ondas, uma atrás da outra. Minha chegada a Forks para o casamento de Bella... aquele evento tinha mudado tudo. Às vezes, eu me perguntava como teria sido minha vida se Jacob não tivesse tido sua impressão comigo. Teria sido mais simples? Talvez. Ou talvez eu estivesse sendo egoísta agora, tentando achar respostas que nunca viriam. Tudo parecia tão complicado.

Olhei para a floresta à minha frente, os olhos fixos nas samambaias que se agitavam levemente com a brisa. Mas então, algo diferente aconteceu. Um movimento, um som conhecido que me fez prender a respiração. Meu coração acelerou quando vi Jacob surgir de entre as árvores, caminhando em minha direção.

Ele parou ao pé da varanda, com as mãos nos bolsos, e me olhou com aquela mistura de arrependimento e determinação que só ele conseguia transmitir. Eu mantive minha expressão neutra, mas senti meu coração fraquejar.

— Posso subir? — Ele perguntou, com a voz baixa.

Assenti sem dizer nada. Jacob subiu os degraus devagar, parando a poucos passos de mim. Ficamos em silêncio por um momento, apenas olhando um para o outro.

— Ness... eu não vou pedir desculpas pelo que fiz para proteger Clara — ele começou, com a voz firme, mas cheia de emoção. — Mas eu sinto muito por ter escondido de você. Por ter te magoado. Isso é algo que eu nunca quis.

Desviei o olhar, sentindo a confusão borbulhar dentro de mim.

— Você não entende, Jake. Não é só sobre o segredo. É sobre tudo. Sobre como tudo sempre parece estar fora do meu controle.

— Eu sei. — Ele deu um passo à frente, a voz mais suave agora. — Mas você nunca esteve sozinha nisso. Nunca estará.

Eu o encarei, minhas defesas começando a ceder.

— Jake... eu não sei se consigo continuar assim. É muito para carregar.

— Não precisa carregar tudo sozinha — ele disse, se ajoelhando na minha frente, os olhos presos aos meus. — Eu estou aqui. Sempre estive. E eu te amo, Nessie. Não importa o que aconteça, eu te amo.

Meu coração parecia querer explodir no peito. Antes que eu pudesse dizer algo, Jacob se inclinou, e seus lábios encontraram os meus. Por um momento, tentei resistir, mas era impossível. Meu amor por ele era tão forte quanto sempre tinha sido. Cedi ao beijo, permitindo que ele levasse embora toda a dor e a dúvida, nem que fosse por um instante.

Quando nos separamos, minha testa encostou na dele. Fechei os olhos, tentando recuperar o fôlego.

— Jacob... eu te perdoo.

Ele suspirou de alívio, mas antes que pudesse dizer algo, continuei.

— Amanhã, eu quero falar com Bella. Quero entender tudo.

Jacob hesitou por um momento, mas então assentiu.

— Eu vou estar com você, Ness. Não importa o que aconteça.

Eu apenas o abracei, sentindo o calor do seu corpo contra o meu. Por mais complicado que tudo fosse, eu sabia que, juntos, podíamos enfrentar qualquer coisa.

Estávamos deitados na cama, entrelaçados. A noite lá fora parecia ainda mais silenciosa agora, como se respeitasse o momento de paz que dividíamos. Eu estava aninhada nos braços de Jacob, ouvindo o som constante e reconfortante do coração dele. Seus dedos acariciavam meus braços suavemente, me fazendo esquecer, por um breve instante, do turbilhão de emoções que ainda pesava sobre mim.


— Clara entende tudo melhor do que eu — murmurei, quebrando o silêncio.

Jacob parou de acariciar meu braço por um momento, provavelmente surpreso com a confissão, mas logo retomou o movimento, mais delicado agora.

— Como assim? — ele perguntou, a voz grave e reconfortante.

Suspirei, ajustando minha cabeça no peito dele.

— Ela é tão madura... tão sensível. Quando me disse que queria conhecer Bella, eu fiquei sem palavras. Clara me vê como sua mãe, mas também entende que Bella tem esse direito, mesmo sem saber toda a história.

Jacob ficou em silêncio, ouvindo atentamente, como sempre fazia quando eu abria meu coração para ele. Continuei, minha voz tremendo um pouco com o peso do que eu estava prestes a dizer.

— Eu tenho medo, Jake. Medo de perder Clara, de que essa aproximação com Bella mude algo entre nós.

Ele apertou meus ombros levemente, me puxando para mais perto. Sua voz era baixa, mas firme.

— Nessie, ninguém pode tirar o lugar que você tem no coração da Clara. Você é a mãe que esteve com ela todos esses anos. Nada vai mudar isso.

Fechei os olhos, tentando absorver as palavras dele. Apesar do conforto que elas traziam, o medo ainda estava lá, sussurrando no fundo da minha mente.

— Eu sei... mas não é fácil. Como mãe, eu entendo que Bella merece esse direito. Mas como alguém que já perdeu tanto, pensar em dividir Clara... é doloroso.

Jacob inclinou-se e beijou minha testa, seus lábios quentes contra minha pele fria.

— Você é forte, Ness. E Clara também. Ela quer conhecer Bella porque sente que é a coisa certa, mas isso não significa que ela te ame menos. Ela sempre vai ser sua filha, e vocês sempre terão essa conexão.

Levantei os olhos para ele, tentando buscar força na profundidade de seu olhar.

— Você acha que estou sendo egoísta?

Ele sorriu levemente, aquele sorriso que sempre conseguia acalmar meus piores medos.

— Não, eu acho que você está sendo humana. Amar alguém tanto assim é assustador, mas também é o que faz de você a mãe incrível que Clara admira tanto.

Eu me aninhei ainda mais em seu abraço, deixando suas palavras preencherem meu coração. Mesmo com todos os medos e incertezas, eu sabia que Jacob estava certo. Clara era minha filha, e nada, nem mesmo o retorno de Bella, mudaria isso.