Sol da meia-noite: Midnight Sun
84 T-Final_Nessie- Pertencimento
Notas iniciais
A floresta estava silenciosa demais. Nem os pássaros ousavam cantar naquela manhã carregada de tensão. As árvores ao nosso redor pareciam guardar a respiração junto conosco, como se a natureza também compreendesse o peso do reencontro que estava prestes a acontecer.
Jacob caminhava ao meu lado, em forma humana, os músculos tensos. Ao redor, a matilha de Sam nos acompanhava, todos em suas formas de lobo, como sombras vivas entre as árvores. A presença deles era uma garantia. Uma fronteira de proteção.
Quando chegamos à linha que dividia La Push da propriedade dos Cullen, todos já estavam lá.
Os olhos dourados nos observaram em silêncio. Carlisle, ao centro, com a expressão serena. Esme ao lado dele, com um sorriso contido. Emmett e Jasper mais atrás, firmes. Alice, imóvel, quase etérea. Rosalie, tão bela quanto sempre, mantinha um olhar protetor.
E na frente de todos, estavam eles.
Bella e Edward.
Meu coração deu um salto incômodo. Mesmo depois de tudo, vê-la assim, viva... não, imortal… ainda me causava um abalo difícil de descrever. Meu sangue sabia que ela era minha irmã, mas minha memória ainda lutava contra a lembrança do caixão, da perda, da dor.
Jacob parou ao meu lado, e um rosnado baixo soou de algum dos lobos atrás de mim. Todos atentos.
Edward foi o primeiro a falar, a voz baixa, como se não quisesse quebrar o ar tenso ao redor:
— Nossa filha... pediu para nos conhecer.
Ele olhou para Bella com algo entre dor e esperança. E ela... ela parecia ter prendido a respiração que nem precisava mais.
Meus olhos se encontraram com os dela. E mesmo que uma parte de mim gritasse para voltar, fugir, outra sabia que Clara merecia respostas. Merecia essa chance.
— Sim — respondi. — Mas será do meu jeito. Haverá regras.
Bella assentiu, os olhos brilhando com algo que talvez fosse emoção.
— Eu e Jacob estaremos com ela o tempo todo — continuei. — Ninguém se aproxima sem que ela queira. E Seth também estará conosco. Clara confia nele.
Jasper, que permanecia em silêncio, ergueu os olhos como se analisasse meu tom. Provavelmente estava, com sua habilidade.
— Essas condições são mais que justas — disse Carlisle, calmo como sempre.
— Nós concordamos — afirmou Edward, e sua voz foi firme, mas sem qualquer desafio.
Bella apenas assentiu. Os olhos presos aos meus como se ela tivesse medo que eu mudasse de ideia.
— Levo Clara até vocês em uma hora — anunciei, erguendo o queixo. — Preparem-se.
E então me virei, sem esperar mais uma palavra. Senti Jacob se mover ao meu lado, a presença sólida e quente dele me ancorando.
Enquanto deixávamos os limites para trás, com os uivos da matilha ecoando baixo pela floresta, só um pensamento me atravessava com força:
Será que o amor que Clara sente por mim resistirá ao peso da verdade?
Eu teria uma hora para me preparar para descobrir.
O caminho de volta para casa parecia mais curto do que o normal, mesmo com os galhos estalando sob nossos pés e o som abafado da matilha nos acompanhando entre as árvores. Jacob não disse uma palavra, mas eu sentia a tensão em cada movimento seu. Ele respeitava meu silêncio. Sabia que dentro de mim, o caos rugia.
Uma hora. Sessenta minutos. Era tudo o que eu tinha antes que o mundo que construí para Clara se partisse em dois.
Quando atravessamos a porta de casa, encontrei Clara sentada na poltrona, com um dos livros da escola no colo e os olhos atentos. Ela ergueu a cabeça imediatamente, como se soubesse.
— Está tudo bem, mamãe?
A voz dela era suave, mas eu percebi o nervosismo nos olhos castanhos. Os mesmos olhos que um dia pertenceram a Bella... minha irmã.
Jacob passou a mão nos cabelos dela com carinho e se afastou discretamente, indo para o quarto. Ele sabia que esse momento era meu.
— Clara — chamei, tentando manter minha voz firme. — Lembra do que me pediu ontem? Sobre querer conhecer... a outra parte da sua história?
Ela assentiu devagar, os dedos apertando o livro entre os joelhos.
— Sim. Mas... só se você estiver pronta também.
Me ajoelhei na frente dela e segurei suas mãos pequeninas.
— Você é a minha filha. Isso não muda. Nunca vai mudar. Não importa o que aconteça hoje, você precisa lembrar disso. Eu te amo. E sempre vou te amar. Entendeu?
Ela sorriu, e colocou a palma da mão pequena na minha bochecha.
As imagens começaram a fluir da mente dela direto para a minha.
Nós duas dançando na cozinha. Ela caindo de sono nos meus braços. Eu contando histórias antes de dormir. A risada de Jimmy. O cheiro do café pela manhã. O som da chuva no telhado.
E por fim, a imagem mais forte de todas: meu rosto, sorrindo, enquanto ela desenhava com os dedos no meu braço, dizendo que eu era o melhor lar do mundo.
— Eu sei quem você é — ela sussurrou, mesmo que não precisasse. — Sempre vou saber.
As lágrimas escorreram antes que eu pudesse controlar.
Beijei sua testa, e sussurrei contra os cabelos castanhos:
— Hoje você vai conhecer a mulher que te gerou. Bella. Ela é... minha irmã. E ela te ama. Do jeito dela, com os erros dela. Mas você tem o direito de conhecê-la. Só quero que você me prometa que vai ser honesta com o que sentir. Seja bom ou ruim.
Ela assentiu com seriedade, e pela primeira vez, notei como Clara estava crescendo.
Jacob reapareceu com o casaco dela e entregou com um meio sorriso.
— Prontas?
Assenti, mesmo com o coração apertado. Clara enlaçou minha mão e Jacob caminhou ao nosso lado, o cheiro da floresta nos abraçando outra vez.
E quando nos aproximamos da mansão dos Cullen, com a luz filtrando pelas árvores e as sombras se mexendo entre os troncos, Clara olhou para mim e disse baixinho:
— Posso confiar neles!
Engoli em seco.
— Mas mais do que tudo, pode confiar em mim.
Então seguimos adiante, até que as silhuetas brancas dos vampiros apareceram na clareira. Eles estavam lá. Todos. Em silêncio, esperando.
Clara parou por um segundo, os olhos arregalados. Emmett deu um passo à frente com um sorriso largo, e Alice acenou com doçura.
E foi quando Bella deu um passo à frente.
— Clara — ela sussurrou, a voz falhando. — Sou eu...
Clara olhou para mim por um instante, e então soltou minha mão e caminhou devagar até ela.
Clara se aproximou devagar, os passos pequenos sobre a grama molhada. Por um instante, ela olhou ao redor, os olhos correndo pelas figuras que se destacavam contra o verde da floresta. Eram como estátuas — frios, silenciosos, belos.
Mas foi Bella quem prendeu toda sua atenção.
Minha irmã parecia petrificada, os olhos cor de âmbar marejados, as mãos trêmulas, como se não soubesse se devia se ajoelhar, sorrir ou apenas chorar. Edward estava ao lado dela, imóvel, mas com uma dor serena no olhar. Era o olhar de um pai que espera há muito tempo.
Clara parou a menos de um metro de distância de Bella e a observou com calma.
— Você... — começou Clara, hesitante. — É minha mãe de verdade?
Bella se ajoelhou, sem hesitar, os olhos fixos nos dela.
— Sou, sim. Você cresceu linda. Tão mais linda do que eu sonhei. E... mais forte do que eu jamais conseguiria ser. Me desculpa por tudo.
Clara inclinou a cabeça, e então estendeu a mão. Tocou o rosto de Bella, e Edward narrou ela que estava mostrando a ela memórias. Pequenos flashes.
O som da nossa casa. As risadas no café da manhã. Jimmy babando o travesseiro. Jacob roncando no sofá. Eu, dançando com ela na sala. A fogueira em La Push. O mar.
E Bella... demonstrou emoção mesmo não tendo lagrimas.
— Obrigada por ter cuidado dela — sussurrou Bella, me olhando por cima do ombro. — Você a tornou feliz.
Não consegui responder. Só balancei a cabeça.
Alice então se aproximou, sorrindo com a leveza de quem sempre soube como suavizar momentos duros.
— Clara, olá, querida. Eu sou Alice. E trouxe algo para você — disse, estendendo uma pequena caixa de madeira. — Não sabia o que você gostava, então fui com o meu instinto.
Clara abriu a caixa com cuidado. Lá dentro, havia um colar de prata com uma pedrinha azul cintilante.
— É uma safira, representa sabedoria e proteção — disse Alice. — E combina com você.
Clara sorriu.
Emmett se aproximou em seguida com uma caixa enorme.
— Bom, se Alice deu sabedoria, eu resolvi dar diversão. — Ele abriu a tampa revelando um kit de equipamentos para trilha e aventura: bússola, canivete, lanterninha solar e até uma garrafa térmica com o nome “Clara” gravado. — Quero te levar para fazer uma boa caçada. Aventura mesmo. Posso?
Clara arregalou os olhos, surpresa.
— Eu... quero! — disse, empolgada pela primeira vez, olhando para mim de relance. — Posso?
Suspirei. Aquele olhar... impossível de resistir.
— Desde que seja com alguém de confiança. E com Seth por perto.
Seth sorriu do outro lado, em forma de lobo, abanando o rabo.
— Fechado! — disse Emmett, dando um pulinho animado. — Já ganhou meu coração, pequena.
Esme, sempre tão doce, chegou por último com uma caixinha embrulhada em tecido claro.
— Eu preparei isso para você com carinho. — Era uma manta bordada com flores e folhas. — Use sempre que quiser lembrar que tem uma família que te acolhe aqui também.
Clara a abraçou sem hesitar.
E naquele momento, pela primeira vez, vi nos olhos dela algo que me quebrou — pertencimento.
Ela olhou para mim de novo. Correu até onde eu e Jacob estávamos, e me abraçou forte.
— Eu ainda sou sua filha, mamãe. Mas... acho que posso ter mais de uma casa, né?
— Sempre que seu coração permitir — sussurrei, enterrando o rosto nos cabelos dela.
Jacob me puxou para perto, passando o braço ao redor dos meus ombros.
E ali, sob o céu cinzento de Forks, com os dois mundos finalmente se encarando, pela primeira vez em anos... eu respirei em paz.
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