Sol da meia-noite: Midnight Sun
89 (T-Final-Jacob) - Nós lutaríamos até o fim
O cheiro dela me atingiu como um soco no peito.
Renesmee.
Ela estava ali. A poucos metros atrás de mim. O coração acelerado, os olhos fixos em mim — e em toda a cena diante dela. Eu senti seu medo antes mesmo de me virar. O medo dela era meu também.
Mas eu não conseguia me mover. Eu era o lobo agora. Não por escolha, mas porque se eu voltasse a ser homem naquele momento... talvez não aguentasse.
A raiva. A dor. O sentimento de traição.
Ela deu mais um passo.
— Jake...? — a voz dela soou hesitante. — Por que você está aqui? O que está acontecendo?
E então... ela estendeu a mão.
Seus dedos, quentes e familiares, tocaram minha pelagem. E naquele gesto tão simples, eu quase desabei.
— Se você está aqui... assim... é porque é grave. — ela sussurrou. — Não mente pra mim, Jacob.
Minhas patas tremiam. A cauda imóvel. Eu virei lentamente o focinho na direção dela, encostando em sua palma com carinho. E então ergui os olhos.
Edward me encarava. Ele ouviu cada pensamento. Cada súplica silenciosa.
Diga a verdade. Agora.
As palavras não saíram da minha boca. Mas elas explodiram na mente de Edward com a força de um trovão. Eu estava pronto pra explodir se ele mentisse. Se qualquer um deles mentisse. Renesmee não merecia isso.
Edward fechou os olhos. E dessa vez, não hesitou.
— Ele quer que contemos a verdade... — disse em voz alta. — Jacob exige que você saiba tudo, Nessie.
Ela me olhou com os olhos brilhando, tentando entender. A outra mão tocou meu pescoço.
— O que eu preciso saber?
Foi Carlisle quem avançou. O olhar gentil de sempre, mas os ombros carregando um peso que ele não podia mais esconder.
— Renesmee... Clara não está apenas indo passar um tempo com os pais biológicos dela.
— Como assim...? — Ela perguntou, a voz ficando mais afiada.
Carlisle respirou fundo. Como se fosse difícil até mesmo para ele dizer.
— Aro soube da existência de Clara. Irina Denali a viu em nossa última caçada. Pensou que ela fosse uma criança imortal. E partiu para Volterra com a intenção de denunciar.
Nessie empalideceu. Os olhos arregalados.
— O quê?
— Então... Carlisle continuou, com cuidado. — Nós decidimos ir até os Volturi antes que eles viessem até aqui. Clara precisa ser vista por Aro. Para provar que ela não representa ameaça alguma. Mas...
— Mas? — A voz dela era um fio. Quase um grito contido.
— Aro não confia apenas em palavras. Ele vai querer observá-la. Ver o que ela é. Do que é feita. E nós... — ele engoliu seco — ...nós achamos mais seguro que ela vá até lá conosco, antes que o clã inteiro venha até aqui. Em guerra.
Nessie se afastou um passo. Me olhou.
Depois para Edward. Depois para Bella.
— Vocês sabiam? — Ela perguntou, a voz trêmula. — Vocês sabiam disso tudo e... e esconderam de mim?
Ninguém respondeu de imediato.
E isso foi o suficiente.
O silêncio falou mais alto do que qualquer explicação.
— Então era por isso que Clara queria ir com vocês? — Ela murmurou, mais pra si mesma. — Ela sabia? E vocês... TODOS VOCÊS... estavam me enganando?
— Renesmee... — Bella começou, mas ela levantou a mão, interrompendo a própria mãe.
— Não. Não me chama assim. Você... você me olhou nos olhos, Bella. Você me viu dormir com minha filha do lado, e ainda assim escondeu de mim que ela ia ser levada como um cordeiro até um clã que destrói qualquer coisa que considera um risco.
— Ninguém vai deixá-la sozinha, Nessie — Carlisle tentou aliviar. — Nós estaremos com ela. Ela estará segura.
— VOCÊS NÃO TÊM COMO PROMETER ISSO! — Ela gritou.
A floresta silenciou.
E mesmo eu, em forma de lobo, estremeci.
— Eu sou a mãe dela — disse Nessie, agora com lágrimas nos olhos, mas os punhos cerrados com força. — Eu sou a mãe. E vocês me tiraram o direito de protegê-la.
Edward tentou se aproximar, mas ela recuou. O olhar agora voltado pra mim.
Eu tentei me aproximar também, mas ela se virou e começou a andar de volta para a floresta.
Sem dizer nada.
Sem olhar para trás.
E eu sabia...
Aquilo não ia terminar ali.
Assim que ela se afastou correndo pela trilha entre as árvores, meu instinto me impulsionou a segui-la.
Eu me virei na direção dos Cullen. Nossos olhares se cruzaram uma última vez antes que eu disparasse floresta adentro. Um rugido abafado ainda vibrava em minha garganta, mas agora era de angústia. Eu precisava alcançá-la.
O chão passava sob minhas patas como se estivesse em chamas. Cada passo acelerava meu coração, até que finalmente, quando a vi diminuindo o ritmo, parei atrás de uma árvore e me transformei de volta à minha forma humana.
— Nessie... — chamei, minha voz rouca e falha.
Ela estava parada no meio da clareira, de costas pra mim, com os braços cruzados e os ombros tensos. A respiração dela era pesada, como se o mundo tivesse desabado sobre os pulmões.
Me aproximei com cuidado. Eu sabia que ela me ouviria. Sempre ouvia.
— Renesmee — repeti, mais próximo agora. — Olha pra mim.
Ela virou devagar. Os olhos vermelhos de chorar me acertaram como uma facada. Ela estava machucada de um jeito que eu não conseguia curar com força ou fúria.
— Por que, Jake? — ela sussurrou. — Por que ninguém confiou em mim?
Cheguei mais perto e abri os braços. Ela hesitou só por um segundo antes de se lançar contra o meu peito, como se tivesse esperando por aquele abrigo o tempo todo.
— Eu confio — sussurrei contra o cabelo dela. — Sempre confiei. Foi por isso que fui atrás da verdade. Foi por isso que estou aqui.
Ela se apertou mais contra mim. O corpo tremia.
— Eles estavam levando ela embora, Jake. E eu estava acreditando... acreditando que era só mais uma fase, uma viagem. E ela ia... ela ia...
— Eu sei — sussurrei. — Eu sei.
A envolvi com força. Meus braços a seguravam como se pudesse impedir o mundo de tocar nela de novo.
— Eles não deveriam ter escondido de você. De nós. Mas agora sabemos. E não importa o que aconteça... nós vamos proteger a Clara.
— Mesmo se isso significar ir contra os Volturi? — ela perguntou, com a voz embargada.
— Mesmo que signifique ir contra o mundo inteiro.
Ela ergueu o rosto e me olhou. Os olhos ainda marejados, mas com uma centelha de quem nunca foi fraca. De quem é mãe. De quem é loba.
— Ela é nossa filha, Jacob. Nossa.
— E ninguém vai levar ela de nós — prometi.
Ela assentiu lentamente, e pela primeira vez desde que tudo começou, senti sua respiração se acalmar.
Ficamos ali, abraçados no meio da floresta, como se aquele fosse o único lugar do mundo que restava.
E talvez... naquele momento, fosse mesmo.
A floresta parecia respirar conosco enquanto voltávamos. As folhas farfalhavam sob nossos pés como se sussurrassem “estamos com vocês”. Renesmee estava em silêncio ao meu lado, mas sua mão firme na minha dizia tudo. Ela havia feito sua escolha. E eu estaria com ela até o fim.
Quando avistamos a casa, notei a silhueta pequena e familiar de Clara sentada na varanda. Seth estava logo atrás dela, braços cruzados, como um cão de guarda devoto — e claramente desconfortável com a situação.
Clara ergueu o olhar antes mesmo de nos aproximarmos, como se sentisse nossa presença. Seus olhos se arregalaram, e por um segundo o sorriso morreu em seu rosto.
— Eles sabem — ela disse, se levantando devagar.
Seth abaixou os olhos, sem coragem de encará-la. Renesmee soltou minha mão e caminhou até a filha, o olhar duro. Ela estava ferida, mas também determinada.
— Então era verdade — disse Renesmee, sua voz saindo firme apesar da dor. — Você ia embora, Clara... ia me deixar.
— Eu ia voltar! — a menina respondeu rápido, os olhos já brilhando. — Eu não ia sumir, mamãe!
— Mas você ia para Volterra, com os Volturi, sem me contar! — a voz de Nessie subiu. — Você achou mesmo que eu aceitaria isso?
— Eu não queria te machucar! — Clara gritou, os olhos fixos na mãe, desesperados. — Mas eu preciso ir. Eles precisam de mim. Aro quer me ver com os próprios olhos e... e se isso pode evitar uma guerra...
— Clara... — Nessie sussurrou, e dessa vez havia algo quebrado em sua voz. — Você é minha filha. Não é uma oferta de paz. Não é moeda de troca!
Clara se aproximou dela com passos vacilantes e pegou suas mãos.
— Mamãe... por favor... confia em mim.
Renesmee respirou fundo. Seus olhos marejados encontraram os de Clara. Havia uma luta visível ali — entre o medo de perder e o orgulho por aquela menina forte à sua frente.
Ela então soltou as mãos da filha, deu um passo atrás e ergueu o queixo.
— Se você vai... então eu vou com você.
Clara congelou.
— O quê?
— Eu vou com você — repetiu Renesmee. — Você é minha filha. E se você tiver que ir até aquele covil, não vai ser sozinha.
Seth, quieto até então, ergueu os olhos com surpresa. Clara olhou para mim em busca de resposta, e eu apenas cruzei os braços e encarei os dois.
— Nós vamos todos.
Clara mordeu o lábio, emocionada. Ela assentiu devagar e se lançou nos braços da mãe.
— Eu te amo, mamãe — ela sussurrou. — Eu só... só não queria que você corresse perigo.
Renesmee a abraçou com força, as lágrimas agora caindo livremente.
— Eu te amo mais. E nenhum perigo vai me afastar de você. Nunca mais.
Eu respirei fundo, observando as duas ali abraçadas. E naquele instante, por mais sombria que fosse a estrada à frente, eu sabia que juntos... nós lutaríamos até o fim.
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