Sol da meia-noite: Midnight Sun

82 ( T-Final- Nessie) Entre irmãs


Acordei com o som das risadas de Jimmy e Clara vindo da cozinha. O cheiro de café fresco e pão torrado chegou até mim, mas o peso no meu peito continuava lá. A noite tinha sido longa, e as lágrimas que derramei ao lado de Clara ainda pareciam marcadas no meu rosto. Respirei fundo e saí do quarto, tentando me recompor.

Ao chegar à cozinha, vi Clara rindo de algo que Seth dizia a ela enquanto Jacob dava colheradas de mingau para Jimmy. Ele estava concentrado, mas levantou os olhos quando me viu. Um sorriso leve apareceu em seu rosto.

— Bom dia, dorminhoca — disse ele, tentando parecer descontraído. — Você estava tão cansada que achei melhor não te acordar.

Seth se virou para mim, dando um sorriso caloroso.

— Nessie, você perdeu a piada do século. Eu estava contando pra Clara sobre a vez que o Jacob caiu no rio tentando pescar.

Clara soltou mais uma risadinha, seus olhos brilhando de diversão. Eu forcei um sorriso, sentindo meu coração apertar.

— Acho que vou ter que ouvir essa história depois. — Me aproximei, beijando os cabelos de Clara e depois de Jimmy, que balançou as perninhas animado ao me ver.

Jacob me olhou com cuidado, claramente percebendo minha expressão.

— Vem tomar café com a gente. Tem torrada e panquecas.

Eu o encarei por um momento, tentando esconder o turbilhão de sentimentos dentro de mim.

— Não, obrigada. Estou enjoada.

Ele franziu a testa, preocupado, mas não insistiu. Eu passei a mão pelo cabelo de Clara e sussurrei:

— Coma tudo, minha princesa.

Ela assentiu com um sorriso, e eu me virei, caminhando de volta para o quarto. Assim que fechei a porta, soltei um longo suspiro e me sentei na beira da cama. Tudo parecia sufocante, e o peso do que descobri ontem ainda estava esmagadoramente presente.

Alguns minutos depois, ouvi a porta se abrir atrás de mim. Jacob entrou, fechando-a com cuidado antes de se encostar contra ela cruzando os braços enquanto me encarava. Sua expressão estava carregada de determinação, mas havia um peso em seus olhos que ele não conseguia esconder. Eu permaneci sentada na beira da cama, o coração apertado, sem forças para enfrentá-lo novamente, mas sabia que ele não sairia dali até falar.

— Renesmee, eu preciso que você me escute.

Levantei os olhos, meu tom frio.

— Escutar o quê, Jacob? Mais mentiras? Mais desculpas? Você sabia. Durante todo esse tempo, você sabia que Clara era filha da Bella, e ainda assim me deixou acreditar...

— Eu sabia. — Ele me interrompeu, sua voz firme mas suave. — Sabia desde o começo, sim. Mas você não entende o que estava em jogo.

Levantei da cama, encarando-o com indignação.

— Então me explique! Porque, até agora, tudo que eu vejo é você e Bella decidindo o que é melhor para mim, escondendo segredos enquanto eu crio uma filha da irmã que pensei estar morta.

Jacob respirou fundo, passando a mão pelo cabelo.

— Clara é metade imortal, Nessie. Isso a torna... diferente. Alguns vampiros viram isso como uma ameaça. A Bella fez o que achou que precisava para proteger a Clara. Para protegê-la de um destino que você nem imagina.

Eu ri sem humor, cruzando os braços.

— Proteger? E onde isso me deixa? Eu enterrei a Bella. Eu chorei por ela. E agora ela aparece, querendo tomar Clara de mim?


Jacob se aproximou, sua expressão suavizando enquanto tentava se conectar comigo.

— Bella não quer tirar Clara de você, Nessie. Ela quer que vocês duas tenham um relacionamento, mas acima de tudo, quer que Clara esteja segura. É só isso. Por favor, me escute. Escute a Bella.

Balancei a cabeça, as lágrimas se formando novamente.

— Eu não sei se posso. Eu não sei se consigo, Jake.

Ele deu mais um passo à frente, a proximidade me deixando desconfortável. Eu levantei a mão como um alerta.

— Não faça isso. Não se aproxime.

Mas ele ignorou meu aviso. Antes que eu pudesse reagir, ele segurou meu rosto entre as mãos, seus olhos fixos nos meus.

— Eu não posso perder você, Renesmee.

Eu abri a boca para protestar, mas ele me interrompeu ao inclinar a cabeça e me beijar. No início, tentei resistir, minhas mãos empurrando levemente seu peito, mas o calor dele, a familiaridade, era mais forte do que minha raiva. Aos poucos, minhas mãos pararam de empurrá-lo e se agarraram à sua camisa enquanto eu retribuía o beijo.

Quando nos separamos, ambos estávamos ofegantes. Ele olhou para mim com intensidade, ainda segurando meu rosto.

— Eu te amo, Nessie. Tudo o que eu fiz foi por você.

Eu desviei o olhar, as lágrimas escorrendo pelo meu rosto. Estava dividida entre a dor, a raiva e o amor que ainda sentia por ele.

— Isso não apaga o que você escondeu de mim, Jake.

Ele assentiu lentamente, afastando as mãos.

— Eu sei. Mas eu vou fazer você entender. Nem que isso leve o resto da minha vida.

Sem esperar por uma resposta, ele se afastou, me deixando sozinha no quarto, perdida nos meus próprios sentimentos.

O dia na faculdade parecia arrastar-se. Minhas colegas estavam animadas como sempre, mas eu estava distante, envolta em um turbilhão de pensamentos que não me davam paz. Sentada na cafeteria do campus, tentei me concentrar na conversa, mas minha mente não conseguia se desviar de Clara e do que havia acontecido na noite anterior.

— Então, Nessie, e o resultado do teste? — perguntou Melissa, uma de minhas colegas mais próximas, com um sorriso brincalhão. — Ainda falso positivo?

— De novo? — riu outra colega, Sophia, cutucando meu braço. — Já pensou que você pode ser a cura para o vírus?

Tentei sorrir, mas o som da risada delas parecia distante. Brincadeiras como essa normalmente me faziam rir, mas, naquele momento, tudo o que eu conseguia pensar era em Clara. Minha filha. Nada, nem mesmo a verdade chocante que Bella jogara sobre mim, mudaria isso. Clara era minha e ninguém a tiraria de mim.

— Nessie? — Melissa acenou na minha frente, trazendo-me de volta à realidade. — Você tá aí?

— Desculpa, meninas — respondi, pegando minha bolsa. — Preciso ir.

As duas trocaram olhares confusos, mas não insistiram. Saí da faculdade mais cedo, ignorando as mensagens que chegavam no meu celular enquanto dirigia pela estrada ladeada de árvores. O silêncio do caminho era quase reconfortante, mas minha mente continuava inquieta.

Foi então que a vi. No meio da estrada, parada como uma estátua, estava Bella. Meu coração disparou, uma mistura de susto e raiva me atingindo como um choque. Pisei no freio com força, o carro derrapando levemente antes de parar a poucos metros dela.

Sem pensar, saí do carro, batendo a porta com força. A raiva que estava contida desde a noite anterior explodiu.

— O que você está fazendo aqui? — gritei, caminhando em sua direção. — Você sabe que está em território Quileute, não sabe? Ou será que acha que pode simplesmente aparecer onde quiser, como se nada tivesse acontecido?

Bella não se moveu, apenas me encarou com os olhos carregados de algo que parecia culpa e determinação.

— Renesmee, nós precisamos conversar.

Cruzei os braços, mantendo a distância.

— Não temos nada para conversar, Bella. Você já disse tudo o que tinha a dizer, não acha?

— Eu sei que está magoada, mas...

— Magoada? — interrompi, minha voz aumentando. — Você destruiu tudo, Bella. Minha confiança, minha família, minha paz! E agora aparece aqui, no meio da estrada, achando que podemos resolver isso com uma conversa?

Ela deu um passo à frente, mas levantei a mão, sinalizando para que parasse.

— Fique onde está. Por que eu deveria te ouvir agora?

Bella suspirou, o peso das palavras parecendo marcá-la.

— Porque eu preciso que você entenda. Tudo o que fiz, eu fiz para proteger Clara... e você.

Meu peito subiu e desceu rapidamente com a respiração pesada. As palavras dela soavam como uma desculpa que eu não queria ouvir, mas, ao mesmo tempo, algo dentro de mim me dizia que havia mais nessa história. Fechei os olhos por um momento, tentando conter as lágrimas que ameaçavam cair.

— Você tem cinco minutos, Bella. E eles começam agora.

Fiquei parada no meio da estrada, encarando Bella como se cada palavra que ela dissesse fosse um enigma que eu não queria decifrar. A raiva pulsava em minhas veias, mas havia algo em sua expressão que fazia com que eu não conseguisse simplesmente virar as costas e ir embora.

— Fale, Bella. Você disse que eu precisava entender. Então me faça entender.

Bella respirou fundo, hesitando por um momento antes de começar.

— Tudo começou na minha noite de núpcias com Edward. Eu... — Ela parou, seus olhos buscando os meus como se procurasse coragem para continuar. — Eu engravidei.

Aquelas palavras atingiram como um soco. Franzi o cenho, confusa e incrédula.

— Isso é impossível. Vampiros não podem ter filhos, Bella.

Ela balançou a cabeça lentamente.

— É o que todos acreditavam. Mas Clara foi... um milagre. Algo que ninguém esperava ou conseguia explicar.

Minha mente girava, tentando processar aquilo. Mas antes que eu pudesse dizer algo, Bella continuou.

— A gravidez foi rápida, intensa, e me deixou muito fraca. Clara crescia rápido demais, consumindo toda a minha energia. Edward e Carlisle estavam desesperados, tentando encontrar uma solução para salvar nós duas.

Eu cruzei os braços, minha postura rígida enquanto tentava manter a calma.

— E por que você não me contou? Por que ninguém me contou?

Bella olhou para o chão, a culpa evidente em seu rosto.

— Carlisle achou que era melhor assim. Quando Clara nasceu, eu estava à beira da morte, Renesmee. Meu corpo humano não suportou. Edward me transformou para que eu pudesse sobreviver.

Senti uma onda de emoção me atingir, mas me recusei a demonstrar qualquer fraqueza.

— Então, o que aconteceu depois? Por que você desapareceu? Por que deixou todos acreditarem que estava morta?

— Eu não tive escolha! — Bella ergueu a voz, os olhos brilhando com lágrimas que não caíam. — A transformação me deixou debilitada, e Clara era metade imortal. Isso fez dela um alvo, uma ameaça para outros clãs. Carlisle usou a pandemia como desculpa para manter tudo em segredo. Edward e eu decidimos que o melhor para Clara era escondê-la... e protegê-la a qualquer custo.

Eu ri sem humor, uma risada amarga que ecoou pela estrada deserta.

— Proteger Clara? É assim que você chama abandonar sua família, sua filha? Você não pensou em mim, Bella. Não pensou no que isso faria comigo.

— Eu pensei em você todos os dias! — Bella rebateu, sua voz cheia de emoção. — Não houve um único momento em que eu não quisesse voltar. Mas não era seguro. Não para Clara, não para você.

As palavras dela me atingiram, mas eu ainda não conseguia deixar a mágoa de lado. Eu balancei a cabeça, olhando para ela como se estivesse diante de uma estranha.

— Clara é minha filha agora. Eu a criei, eu cuidei dela, e nada — absolutamente nada — vai mudar isso.

Bella deu um passo em minha direção, a urgência em sua voz quase quebrando minha resistência.

— Renesmee, eu não estou tentando tirar Clara de você. Eu só quero... Eu só quero que você saiba a verdade. Ela é parte de você e de mim. Por favor, me deixe fazer parte da vida dela novamente.

As lágrimas que eu segurava começaram a cair, mas minha voz saiu firme.

— Eu não sei se posso te perdoar, Bella. Não agora. Talvez nunca.

Bella não respondeu, mas a dor em seu rosto era visível. Por um breve momento, o silêncio nos envolveu, pesado e cheio de tudo o que não foi dito. Então, sem olhar para trás, voltei para o carro e fechei a porta com força, deixando Bella sozinha na estrada.