Sol da meia-noite: Midnight Sun

78 ( T-Final- Nessie) Desconfianças


Cheguei cedo à universidade de La Push, ajustando a mochila no ombro enquanto o vento fresco da manhã acariciava meu rosto. Estava no último período de Biomedicina, e a rotina havia voltado ao normal depois de tempos difíceis. No entanto, o protocolo era claro: qualquer um que fosse usar o laboratório precisava fazer um teste rápido para o vírus.

Entrei no prédio e me juntei à pequena fila para o teste. Já estava acostumada com isso, mas, toda vez, aquele momento de espera me deixava um pouco ansiosa. O teste era rápido, e em poucos minutos recebi o resultado em mãos. Quando olhei para o papel, meu coração quase parou: positivo.

— O quê? Não, isso não pode estar certo — murmurei, sentindo o pânico subir.

— O que foi, Nessie? — minha amiga Mary, que estava logo atrás de mim na fila, perguntou ao perceber minha expressão.

— Positivo — sussurrei, mostrando o resultado para ela.

Mary arregalou os olhos, mas manteve a calma.

— Não se desespera. Esses testes rápidos às vezes dão falso positivo. Refaz logo outro.

Eu assenti, tentando controlar o tremor nas minhas mãos enquanto pegava outro teste. Mary ficou ao meu lado, me incentivando com palavras tranquilizadoras enquanto esperávamos o resultado. Foram alguns dos minutos mais longos da minha vida.

Finalmente, peguei o segundo papel. Meu coração disparava enquanto abria lentamente. Negativo.

— Graças a Deus! — exclamei, soltando um suspiro profundo de alívio.

Mary riu, dando um tapinha no meu ombro. — Eu disse que era um falso positivo. Esses testes rápidos são assim mesmo, às vezes pregam peças.

Eu ri também, o nervosismo finalmente começando a se dissipar.

— Pelo menos não vou ser tema de estudo no laboratório hoje.

Mary gargalhou. — Ainda bem. Agora vamos, ou vamos acabar atrasadas.

Entramos juntas no laboratório, e, apesar do susto inicial, não pude deixar de sentir uma pontinha de gratidão. Aqueles momentos me lembravam o quanto éramos resilientes, como pessoas e como comunidade. Depois de tudo o que o mundo passou, cada dia saudável era uma vitória.

Depois de guardar meus materiais e sair do laboratório, peguei o celular e disquei o número de Maggie. Enquanto o sinal chamava, olhei ao redor da universidade, observando os estudantes que passavam apressados. Finalmente, Maggie atendeu, e sua imagem apareceu na tela.

— Oi, Nessie! — Maggie disse, segurando Jimmy no colo. — Olha só quem está aqui com a mamãe Magg.

Jimmy, meu pequeno, estava com as bochechas rosadas e o sorriso mais adorável do mundo. Ele balançava os bracinhos animadamente ao me ver na tela.

— Meu amor! — falei, sentindo meu coração aquecer. — Oi, meu príncipe. A mamãe já tá morrendo de saudade.

— Tá tudo bem por aí? — perguntei, voltando a atenção para Maggie.

— Tudo ótimo. O Jimmy comeu bem, tirou uma soneca depois, e agora estamos brincando. Ele tá cheio de energia hoje — respondeu ela, acariciando os cabelos de Jimmy com uma expressão carinhosa.

— Que bom. Obrigada por cuidar dele, Magg.

— Imagina, é um prazer. Ele é um anjinho — disse ela, sorrindo. Então, sua expressão mudou levemente, como se lembrasse de algo. — Ah, o Jacob pediu pra avisar que ele não vai conseguir voltar pra casa pro almoço.

Minha sobrancelha arqueou involuntariamente. — Não vai? Por quê?

— Disse que tem uma entrega em Seattle. Parece que a logística deu algum problema, e ele mesmo precisou resolver.

Assenti, mas o incômodo se instalou. Não era a primeira vez que Jacob se ausentava sem muito aviso, e, embora confiasse nele, não conseguia evitar o desconforto quando Maggie falava sobre ele.

— Entendi. Bom, obrigada por avisar.

Maggie sorriu, mas havia algo na forma como ela me olhava que sempre me deixava alerta, como se tentasse medir minhas reações.

— Fica tranquila, Nessie. Eu cuido de tudo por aqui.

— Eu sei que cuida — respondi, mantendo o tom educado, mas firme. — E agradeço por isso.

Ela desviou os olhos por um instante, como se notasse o peso das minhas palavras, mas logo voltou a sorrir, agora para Will.

— Ele tá chamando a mamãe, olha só. Não é, Jimmy? — Maggie disse, balançando Jimmy levemente.

Jimmy soltou uma risada, o som mais doce que eu já ouvi, e balbuciou algo que soava como “mamã”.

— Meu coração não aguenta — falei, sorrindo para ele. — Magg, vou pra casa assim que sair daqui. Se precisar de qualquer coisa, me avisa, tá?

— Pode deixar. A gente se vê mais tarde — respondeu ela, acenando.

Desliguei a chamada com um suspiro. Embora Maggie cuidasse bem de Jimmy, havia algo nela que nunca me deixava completamente à vontade. Talvez fosse a forma como ela mencionava Jacob de maneira casual, ou aquele brilho nos olhos dela quando falava sobre ele.

Mas uma coisa era certa: ninguém conhecia Jacob melhor do que eu, e não havia espaço para dúvidas no nosso relacionamento. Clara e Jimmy eram as maiores provas do amor que compartilhávamos, e eu sabia que nada, nem ninguém, mudaria isso.

Estava em casa, sentada no sofá da sala, com o pequeno Jimmy no colo, enquanto a tela do meu laptop exibia meus pais. Renée sorria calorosamente, e Phil estava ao lado dela, acenando para o neto que ainda não conheciam pessoalmente.

— Ele é tão lindo, Nessie! — Renée exclamou, com os olhos brilhando. — Essas bochechas, meu Deus!

Jimmy balbuciou algo incompreensível e bateu palmas, fazendo todos rirem.

— Ele tá crescendo tão rápido — comentei, beijando o topo da cabecinha dele. — Queria que vocês já tivessem conhecido ele e a Clara.

— Nós também, querida — disse Phil, com um tom gentil. — Estamos planejando uma viagem pra La Push no próximo mês. Não vemos a hora de finalmente conhecer vocês pessoalmente.

Renée assentiu, animada. — E eu quero passar o maior tempo possível com meus netos. Tenho tantos presentes guardados pra eles!

Sorri, mas o peso da mentira sobre Clara ainda pairava no fundo da minha mente. Meus pais acreditavam na história que Jacob e eu criamos, de que Clara era filha de uma mulher da reserva que havia falecido e que nós decidimos adotá-la. Era a única forma de protegê-la e evitar perguntas desconfortáveis sobre sua verdadeira origem.

— Eles vão adorar conhecer vocês, mãe. A Clara tá super animada com a ideia de ganhar mais avós.

Renée riu. — Vou mimar ela e o Jimmy de um jeito que você não vai gostar, Nessie.

— Não tem problema, mãe — respondi, rindo. — Eles merecem.

Depois de alguns minutos de conversa, nos despedimos. Quando fechei o laptop, um suspiro escapou de meus lábios. Sentia tanta saudade deles.

Coloquei Jimmy na cama, cobri-o com cuidado e o observei por um momento. Meu pequeno era tão perfeito, um pedaço de Jacob e de mim, um presente que eu nunca imaginei receber.

Em seguida, fui ao quarto de Clara. A menina dormia profundamente, com a TV ainda ligada. Desliguei o aparelho, ajeitei o cobertor sobre ela e beijei sua testa antes de sair silenciosamente do quarto.

Enquanto caminhava de volta para a sala, ouvi o som da caminhonete de Jacob chegando na entrada. Um sorriso imediatamente se formou em meu rosto. Fui até a janela, afastando levemente a cortina para vê-lo.

Mas meu sorriso se desfez ao vê-la. Maggie.

Ela saiu do banco do passageiro, trocando algumas palavras com Jacob. Ele olhou ao redor, como se verificasse se estavam sendo observados. Então, Maggie tocou o braço dele, e, por um momento que pareceu durar uma eternidade, eles ficaram ali.

Meu coração apertou. Não consegui desviar os olhos, mesmo que quisesse. Jacob se afastou ligeiramente, e Maggie deu um último sorriso antes de se virar e ir embora.

Fechei a cortina rapidamente, tentando processar o que havia acabado de ver. Por que Jacob a trouxe para casa? O que estavam conversando? Por que aquele toque parecia tão familiar?

Minha mente disparava perguntas, mas uma coisa era clara: algo não estava certo, e eu precisava descobrir o que era.