Sol Da Manhã
1 Casamento?
Notas iniciais
Quinta-feira
Amálie Müller.
A garota estava surpresa, nunca em seus dezesseis anos de vida vira seu pai caprichar tanto em um jantar.
— Já vou dizendo senhor Müller que não vou mesmo ir morar com a vovó Gertrudes — ela sorriu sentando à mesa e vendo o que teria para o jantar. — A que devemos tanta comida?
Ela tirou os sapatos de salto, e a jaqueta de couro.
— Queria te contar algo antes de sair — seu pai sentou, ele parecia estar apreensivo, Amálie arqueou as sobrancelhas para que ele continuasse. — Eu vou me casar. E nós vamos nos mudar, vamos morar próximo de Londres.
Amálie colocou o prato na sua frente e começou a rir.
— Que susto Harry — riu mais um pouco servindo-se de lasanha. — Agora sério, o que você quer me contar?
Ela colocou um pouco de lasanha na boca e se virou para seu pai, ela nunca vira ele tão sério na vida, chegava a ser intimidador, o sorriso dela se desmanchou aos poucos.
— Nem fudendo pai — a garota falou deixando o prato de lado. — Me diz que tá brincando, por favor, eu mal falo inglês. E nós moramos em Paris, a cidade luz. Je adore cette ville.
— Eu sei filha, mas eu amo a mulher com quem eu quero me casar — ele não ia nem pensar em considerar mudar de opinião.
— Uau, não esperava por isso — ela riu nervosa, estava quase jogando tudo para o alto, mas estava se controlando, passou as mãos pelo cabelo. — Eu to me sentindo da mesma forma quando encontrei Josh transando com aquela vadia.
O pai riu sem graça, o clima estava tenso, mas não tinha o que fazer, e embora Amálie fosse uma mimada rebelde ela tinha extrema consciência de que nada que ela fizesse ou dissesse iria fazer o pai mudasse de ideia, ela respirou fundo mantendo um sorriso calculado.
— Vou comer, sair e gritar um pouco, beber mais — ela podia berrar e tudo mais, mas não conseguia gritar com seu pai, nem brigar com ele, principalmente depois que ele tinha passado há alguns anos. — Quando eu voltar, a gente pode conversar sobre isso. Só quero uma resposta. Quando vamos embora?
— Daqui quatro dias, amanhã vamos jantar com ela, espero que se deem bem — o pai parecia cansado.
— Sim, eu tenho certeza que vou gostar dela — ela levantou e deu um sorriso calculado. — Só tenho que me acostumar com a ideia pai. Cada um tem seu tempo, vamos jantar.
— Só espero que reaja da mesma forma que eu reagi quando descobri que você beijava meninas — o pai colava cômoda no prato, ela o olhou incrédula.
— Ah pai não vai querer não. Lembro que você deu o maior piti senhor Müller. Lembro de você gritando "O que sua língua está fazendo dentro da boca dessa garota Eleanor Amálie Müller?"- a garota riu, a relação dela com o pai era de extrema cumplicidade, afinal de contas, ele era a única figura familiar que ela tinha além da vovó Gertrudes.
— Eu estava surpreso Amálie, o que eu deveria fazer? Era um almoço da igreja — ele riu. — Mas vamos comer, não me enrole.
Eles comeram em silêncio, embora demonstrasse que estava de boa o pai se casar de novo, ela estava atônita e em choque por dentro, nunca conhecera uma namorada dele e agora aparecia falando que ia se casar.
— To indo — ela beijou o topo da cabeça do pai. — Juro que vou me esforçar para que isso dê certo.
Ela subiu para escovar os dentes, o pai sabia que seria difícil, por dentro de Amálie havia um furacão, como ele podia ter feito aquilo com ela? Decidir tudo como se a opinião dela fosse nula, ela pegou um copo que tinha no seu quarto e jogou na parede e gritou, ela se sentia horrível, queria ser compreensível com a felicidade do pai, mas era difícil, Amálie ainda estava amarrada com algumas cordas do passado, escovou os dentes e desceu.
Seu pai estava sentado no sofá pensando se deveria perguntar algo.
— Amálie como está se sentindo com isso? — o pai perguntou, ela respirou fundo, não queria falar sobre aquilo.
— Acho que já decidiu tudo. Não tenho palavra, para onde você for eu tenho que ir. Só espero que eu não tenha que desistir da minha vida por nada — uma buzina cortou o ar. — Tenho que ir me despedir dos meus amigos e do meu quase namorado, ele ia vir falar com você no domingo.
Amálie bateu a porta, naquele momento ela realmente percebeu o peso daquela mudança nas suas costas, ela havia nascido em Paris, era sua cidade, já fazia parte da sua alma, ela pegou o maço cigarros da bolsa pequena e acendeu um enquanto entrava no carro esportivo que sua melhor amiga dirigia.
— Para onde vamos chére? — Amálie perguntou soltando a fumaça pelos lábios vermelhos.
— Tem uma social na casa da Cristine, e aquela boate dos ingleses, onde quer ir?
— Boate — ela jogou o bituca pela janela do carro, ela não sabia como contar para a amiga que ia embora, então simplesmente despejou tudo. — Meu pai vai casar, e ai vou me mudar para a Inglaterra, e só deus sabe quando vamos nos ver de novo Samanta.
— O que Am? — embora a garota de pele dourada tivesse gritado em português a francesa sabia exatamente o que ela queria falar.
— Isso mesmo darling. Daqui a quatro dias embarcar em um voo só de ida para uma cidadezinha perto de Londres.
— Já contou para Nick?
Amálie apenas negou com a cabeça e suspirou, Nick ia pirar, mais do que ela estava demonstrando, o que menos queria era ter que se separar dele, agora que estavam se acertando, até poucas semanas atrás eles eram melhores amigos, agora eram quase namorados, ela sentiu seu coração ficar apertadinho, já podia ver a expressão desolada no rosto dele.
— Vou falar amanhã assim que eu acordar — Amálie falou decidida.
Elas chegaram a boate, estava tão cheia que haviam pessoas do lado de fora esperando para entrar, ao sair do carro quentinho Amálie sentiu seus ossos congelando instantaneamente, as duas já foram para o início da fila, elas já eram clientes assíduas da tal boate.
Ao entrar e sentiram mais confortáveis, estava quente lá dentro, na pista de dança jovens dançavam e roçavam o corpo suados e bêbados uns nos outros, Samanta logo seguiu para a pista de dança deixando Amálie sozinha, esta se sentou em um doa banquinhos do bar e pediu uma cerveja.
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Já se passavam das três da manhã e Amálie nem sabia o que bebia, apenas pegava os drinks coloridos que estava na bandeja dos garçons e remexia os quadris no ritmo da música.
— Vamos Am, já tá muito tarde — ela tocou o braço da garota alterada.
— Vamos Sam, tenho que acordar cedo e falar com o Nick — ela embolava as palavras em um francês embolado, e Samanta não conseguia entender nada.
Ela arrastou a garota para fora da boate e a colocou dentro do carro, Amálie havia bebido pelas duas, ela falava coisas misturando um inglês ruim com um francês de bêbado.
— E além do mais chére por que aquela mulher não pode vir para cá, por que aquele Fils de pute do Harry tinha que fazer isso. Bordel — ela encostou a cabeça na janela e pareceu se acalmar.
Samanta apenas a escutou, achou perigoso interrompe-la naquele momento, ela murmurava coisas como acidente, mãe, morta, e culpa.
— Chegamos querida — Amálie soltou o próprio cinto com dificuldade e desejou parabéns mesmo que não fosse aniversário da garota, Samanta achava incrível a capacidade de Amálie conseguir andar de forma elegante com os saltos altos mesmo podre de bêbada, talvez aquilo fosse a elegância francesa que corria pelas veias da morena de cabelos absurdamente longos.
A jovem de cabelos negros entrou em casa, seu pai estava saindo da cozinha.
— Está tudo bem Amálie?
— Se eu to bem? To ótima, acabei de perder minha vida ali sabia? — ela sorria irônica.
— Vou subir, não vou mesmo conversar com você nesse estado Amálie.
— Você nunca quer conversar sobre coisas importantes Senhor Müller. Não quer nem minha opinião sobre o que fazer da minha vida. Até vai se casar com uma qualquer.
Ele balançou a cabeça negativamente, se ela não rinha coragem de falar o que pensava sóbria então despejaria as palavras bêbada mesmo.
Amálie continuou falando asneiras, o pai dela a deixou ali.
— ISSO MESMO ME IGNORE PAI. SEMPRE QUANDO QUERO FALAR A VERDADE SOBRE O QUE EU PENSO. VAI CONVERSAR COM A SUA MULHER. FAZ ISSO HÁ MUITO TEMPO, DESDE QUANDO... — a voz dela acabou, a garganta fechou. — Vou subir.
Ela entrou no quarto e se trancou, os cacos de vidro já não estavam no chão, Amálie estava possessa, triste, amargurada, na verdade não sabia o que sentia.
Ela só sentiu as lagrimas quentes escorrerem pelo rosto, Amálie as secou com raiva.
— Não acredito que ele fez isso comigo, não acredito — ela sentou na cama.
Amálie resolveu que era melhor tomar banho, tirou os sapatos, e foi direto para o banheiro, ligou o chuveiro e entrou debaixo da água morna. Depois de meia hora ela saiu de debaixo do chuveiro, o álcool estava tão presente na corrente sanguínea dela que ela esqueceu de tirar a roupa, ela parou em frente ao espelho, os fios negros estavam colados em seu rosto e costas até a bunda, e seus olhos azuis tristes estavam envoltos de uma maquiagem preta que escorrera pelo seu rosto, ela sorriu divertida e pegou uma tesoura.
— Disons au revoir à notre vie.*
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*Disons au revoir à notre vie: Diga adeus a nossa vida
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