Sol Da Manhã
2 Jantar
Sexta-feira.
Amálie Müller
Amálie acordou o sol já estava se pondo, ela tirou a roupa que ainda estava úmida e vestiu um roupão, sua cabeça latejava, quando se viu no espelho e contemplou seus fios pouco acima da cintura veio a mente tudo o que falara para o pai na madrugada anterior, olhou o relógio e viu que já eram seis horas.
Amálie desceu as escadas devagar, estava com vergonha de olhar na cara do pai dela, foi até a cozinha e lá estava o pai, bebendo café, ele ainda estava usando as roupas do trabalho.
— Bon souir— ela falou baixinho pegando um copo de água.
— Bon souir minha filha — ele não levantou os olhos da xícara, ela pode ver as olheiras embaixo dos olhos dele, ao contrário dela não tinha pregado os olhos.
— Adianta alguma coisa eu pedir pardon? — ela perguntou sentando na frente dele.
— Se forem sinceras vale sim — ele olhou para ela e sorriu triste.
— Pai tudo que eu quero é que você seja feliz, eu estava bêbada, sabe que eu nunca sei o que eu digo quando estou bêbada... Eu realmente prezo pela sua felicidade. Você merece ela, eu sei que sou uma filha "rebelde" e tudo mais. Mas eu nunca quero que você pense que quero empatar sua vida.
O pai sorriu mais e concordou, mas logo depois ele curvou os ombros e sua expressão ficou triste de novo.
— Livea disse que a reação do filho dela foi quase a mesma que a sua. Um pouquinho pior eu acho.
— Filho? Ela tem um filho? Eu vou ter um "irmão"? — a expressão dela era divertida e surpresa.
— É, vai ter, já acendi dezenas de velas pra ver se vocês se dão bem.
— Acho que temos um jantar pra ir — ela levantou, o pai viu que o cabelo da filha não estava mais quase nos joelhos.
— Cortou o cabelo?
— É já fazem nove anos, eu bem que queria cortar mais, mas não tive coragem, cidade nova, vida nova, corte de cabelo novo — eles deram um risinho. — Vou me arrumar, nos vemos daqui meia hora na porta de entrada.
Amálie subiu as escadas e foi direto para o banheiro do quarto, tomou um banho rápido e vestiu uma meia calça grossa e um vestido preto estilo mullet feito de lã e com mangas compridas. Ela soltou o cabelo que havia prendido para não molhar, passou rímel nos cílios e batom vermelho vibrante nos lábios, procurou seu sobretudo bege e calçou seus saltos pretos.
Ela desceu as escadas digitando mensagens para os amigos avisando que só ficaria em Paris por mais um dia, eles começaram a bombardeá-la com dezenas de questões sobre como isso era possível, ela respondeu apenas que o pai ia se casar de novo e ignorou o restante das mensagens.
Quando ia se sentar no sofá escutou a campainha tocou, ela deixou o celular no sofá e foi abrir a porta, ao encontrar aqueles olhos esverdeados a primeiro momento sentiu uma alegria inundar seu peito, mas ao perceber a tristeza que eles carregavam e a expressão no rosto do rapaz o chão desapareceu sobre seus pés.
— Quando ia me contar Am? — ele sussurrou, ela fechou os olhos.
— Eu queria te contar pessoalmente, chére — ela saiu do calor da casa e parou do lado dele sentindo o vendo frio bater em seu rosto.
— Cortou o cabelo? Quer dar inicio a uma nova Amálie?
— Algo como isso. Pelo menos por fora. Quem te contou que eu vou embora?.
— Sam.
Ela apenas assentiu, não tinha o que dizer, nada ia mudar o futuro dela, pelo próximo ano ainda tinha que seguir os passos do pai, até entrar na faculdade.
— Se dependesse de mim eu juro que ficaria aqui. Com você. Com nós — ele concordou pressionando os lábios, ambos falavam baixinho como se compartilhassem um segredo.
— Tento acreditar nisso Amálie — os lábios dele se esticaram em um misto de ironia e saudade.
— Sabe que eu te amo Nick, sabe disso, você é o amor da minha vida — ela esticou o braço para tocar o rosto dele.
— Tanto faz — a voz do rapaz estava amargurada, ela recolheu a mão com olhos arregalados, ele sabia que era verdade o que ela estava dizendo, ela não se aproximava daquele jeito de pessoas que ela não amava de verdade, Amálie respirou fundo.
— É, tanto faz. Agora vou ter uma nova vida. Ninguém lá vai saber que sou ruim. Foi bom ter ficado com você Nick, de verdade — Amálie manteve seu orgulho acima de tudo, e sufocou os sentimentos com sua amargura. — Para eles eu posso ser a perfeitinha. Ainda bem que você vai seguir a sua vida Nick. Agora pode ficar a vontade para pegar a Sam, ela é linda e te merece de verdade...
Ela foi interrompida pela porta que havia sido aberta.
— Amálie, vamos... — o pai se interrompeu ao sentir o péssimo clima que rodeava o casal. — Boa noite Nick.
— Boa noite senhor, como está? — ele pareceu ficar envergonhado pela intensidade do olhar do pai e da filha.
— Bem, obrigada. Não quero ser mal educado, mas estamos atrasados para um jantar, tenho que apresentar para nossa querida Amálie minha noiva. Mudei o cronograma, vamos viajar amanhã pela manhã, assim poderá aproveitar todo o domingo — Harry passou pelos dois e andou na direção do carro prata.
— Acho que isso é um adeus — ele olhou para os lados, ela apenas assentiu. — Um último beijo?
Amálie não respondeu, apenas colou os lábios dela aos dele em um singelo beijo.
— Adeus Nick, foi um prazer te conhecer.
Amálie caminhou até o carro, não falou nada para seu pai apenas deu um aceno com a cabeça e o pai arrancou.
❤ ❤ ❤
O lugar era estupendo, Amálie quase nunca jantava em restaurantes, ela não gostava de ver aqueles casais e famílias felizes com a vidinha perfeita, mas ela tinha que se render a arquitetura daquele local simples.
As paredes eram pintadas num tom bem claro de bege, adornadas por luminárias de ouro da era vitoriana, as mesas eram redondas e todas tinham rosas vermelhas em seu centro, quase todas estavam com jovens casais, o pai a guiava até uma mesa perto da janela que dava vista para um lago artificial.
Tinha uma mesa com apenas uma mulher, ela estava de costas para eles, Amálie olhou para o rosto de seu pai que se iluminou ao ver a mulher, naquele momento ela teve certeza que o pai estava apaixonado de verdade.
— É ela? — o pai apenas assentiu com o sorriso aumentando ainda mais.
Amálie havia se esquecido do quando seu pai era romântico, embora uma das suas lembranças mais vivas era seu pai falando para a sua mãe a quase todo momento "Vou te amar enquanto o sol brilhar", ela respondia falando a mesma coisa e os dois se beijavam de forma calorosa.
Amálie estava tão centrada em sua nostalgia que nem percebeu a mulher de olhos iguais a esmeraldas e de sorriso largo que estava a sua frente.
— Como é bonita — Amálie falou bobamente.
— Obrigada querida — ela foi abraçar a garota, mas esta sorriu envergonhada e apenas esticou a mão, mesmo que ela parecesse ser a bondade em pessoa, Amálie não podia se entregar tão fácil, afinal de contas aquela mulher podia ser uma megera.
— É um prazer te conhecer madmoseile, sou Eleanor Amálie — ela sorriu.
— Livea, apenas Livea.
Eles sentaram e conversaram por um tempo até a comida chegar, Harry fez o pedido para ele e Livea, Amálie apenas sorriu para o garçom que era seu amigo desde criança e disse "surpreenda-me".
A garota não falou muito, apenas observou as expressões corporais dos dois, às vezes eles apenas ficavam se olhando e sorrindo sem falar nada, apenas como se curtissem o momento.
— A comida daqui é maravilhosa — essa foi a última coisa que disse enquanto comia seu sorvete de creme caseiro e calda de chocolate.
O casal aproveitou a deixa e começaram uma conversa acalorada sobre cozinha e tudo mais, eles deixaram Livea no hotel, eles foram em silêncio para casa.
— O que achou de Livea? — seu pai perguntou quando eles entraram em casa.
— Shepa * — então ela deixou o pai ali sozinho no meio da sala e foi para o quarto.
Ela pegou as malas que estavam em cima de seu guarda roupa e começou a guardar suas roupas e coisas que achava importante levar a primeiro momento, o restante mandaria despachar.
Amálie não dormiu naquela noite, quando o pai bateu na sua porta às sete da manhã falando que deveriam ir ela já estava pronta.
Ela parou na porta enquanto seu pai terminava de colocar as coisas no quarto, os olhos dela se encheram de água ao olhar para escada, ela sentia cheiro de alfazema, um cheiro tão característico na sua infância, ela não sentia aquele odor há tempos, então Eleanor podia vê-la novamente, na base da escada gargalhando de algo que o pai falara.
Os fios negros de seu cabelo ondulado se movendo delicadamente e seus olhos azuis felizes e intensos quase sendo coberto pelas pálpebras, era aquela visão que ela mantinha da mãe, sorridente e alegre como sempre era, sua mãe sentou nos primeiros degraus da escada e apenas manteve um sorriso largo nos lábios.
— Tenha uma boa vida petit Eleanor — escorriam lagrimas do rosto da jovem, quando pequena a mãe dizia "tenha uma boa aula".
— Au revoir mama — Eleanor deu um sorriso triste antes de fechar a porta branca e caminhar na direção do carro prateado.
Em momento algum ela olhou para trás.
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Shepa: Não sei.
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