Soft Heart
16 Capítulo XIII
Notas iniciais
Não havia bem clareado o dia quando Daryl acordou. Esfregando os olhos encontrou Beth aconchegada ao seu lado na cama pequena. Era uma bagunça de fios loiros sobre seu peito, a boca levemente entreaberta e as costas nuas.
Uma onda de autoconsciência quase o afogou enquanto pensava na noite anterior. A noite em que havia tomado Beth Greene.
O Dixon definitivamente não era o tipo de cara sensível e apegado a esses detalhes, mas aquele era um marco no relacionamento deles. Uma linha que havia cruzado e sabia que não tinha mais volta.
Importar-se com ela, protegê-la mantendo uma distância segura era totalmente diferente do que tinham agora. A ligação que eles possuíam naquele momento ultrapassava o limite do que era confortável para ele. Apegar-se daquela forma era difícil e perigoso para Daryl, um território pelo qual ele ainda não tinha andado.
Ajeitando o lençol sobre o corpo de Beth ele levantou-se com cuidado, resgatando suas roupas sobre o chão do quarto e saindo do cômodo em seguida.
Encontrou Carol sentada na cozinha, um cigarro entre os dedos e uma das mãos pressionando as têmporas. Ele a encarou desconfortável, seu corpo travando os pés no local quando ela olhou para ele, como se tivesse feito algo muito, muito sujo.
— Você realmente fez alguma coisa — ela disse, o riso cortando as palavras em lugares estranhos.
— Pelo menos ela dormiu — Daryl deu de ombros enquanto segurava seu próprio riso, sentindo-se finalmente a vontade na presença de Carol.
— Era algo que definitivamente eu não poderia fazer — ela engasgou por um momento, tossindo entre uma gargalhada contida.
Daryl se sentia estranhamente tranquilo na presença de Carol. Havia passado muito tempo com ela na época em que procurava por Sophia, criando um certo nível de amizade com ela que ninguém naquele grupo tinha com ele. Estar com Carol era confortável. Ela não exigia muito dele, alguns olhares e gestos eram suficientes para a comunicação deles.
Beth esticou-se preguiçosamente na cama encontrando o local ao seu lado vazio. Seu corpo doía e queimava em lugares estranhos, mas ela ficou contente com aquilo. Aquele pequeno descoforto em seu baixo ventre indicava que havia sido real, que Daryl realmente havia passado por ali.
Enrolando-se despretensiosamente no lençol, passou a tatear o chão do quarto, catando suas poucas roupas e as devolvendo para seu corpo.
Ouviu Daryl e Carol conversando na cozinha e aos poucos alguns passos começavam a ranger no assoalho de madeira, indicando que mais pessoas estavam acordando e se juntando a eles.
Caçando uma toalha no roupeiro ela rumou para o banheiro, ansiando por um banho morno, mesmo que o dia já começasse a dar sinais do calor que faria durante ele.
Girando o registro, o chuveiro afogou algumas vezes, antes de lançar um jato gelado sobre suas costas. O aquecimento a gás demorara mais do que o necessário para surtir algum tipo de efeito e Beth não ficou surpresa com isso. O encanamento era velho e estava sem manutenção desde que partiram de lá, então ela apenas aproveitou o banho frio para despertar.
A luz do banheiro piscou fracamente, antes de apagar com um estalido. O gerador costumava ser brevemente silencioso para o seu porte e a garota já estava acostumada com aquele zunido costante, mas agora ele parecia finalmente ter dado seu último suspiro de vida.
Secando-se rapidamente ela voltou para o quarto, retirando alguma calça jeans qualquer e uma camiseta, constatando desanimada que elas estavam grandes em seu corpo cada vez mais magro. Penteoou os cabelos com pressa e deixou-os caírem molhados por suas costas e então partiu porta a fora.
Sussurrou alguns bom dia enquanto passava pela sala, chegando até os fundos da casa branca e esbarrando com Abraham que encarava o gerador. Impaciente ele cutucava a grande máquina com a bota, bufando sem obter nenhum resultado.
— Acho que ele morreu — murmurou ao acaso, cruzando os braços e encarando a loira.
Beth acenou com a cabeça e mexeu em uma das peças, checando seu interior.
— O diesel secou — ela constatou enquanto retirava o dedo sujo de dentro de uma das cavidades.
— Não pensei que você entendesse dessas coisas — o ruivo comentou surpreso.
— Era nossa única fonte de energia. Acho que eu deveria entender — Beth sorriu orgulhosa.
— Seria mais eficiente e sustentável se tivéssemos placas de energia solar — Eugene inseriu-se sem cerimônias na conversa e Beth reagiu com uma carranca desgostosa.
— Seria mais eficiente e sustentável se você não tivesse falado um monte de merda pra garota ontem — Abraham devolveu ironicamente e a garota se surpreendeu com a velocidade com que as coisas se espalhavam por ali.
— Eu só disse a verdade — o suposto cientista deu de ombros sem remorso.
— Como sobre Washington? Faça um favor pra você mesmo, seu cientista de bosta, guarda suas porras de verdades pra você mesmo — Abraham voziferou irritado, empurrando Eugene contra a parede da casa.
— Ei! Já chega! — Beth interveio, colocando-se entre os dois. Ela estava chateada com o que Eugene havia dito, mas não o suficiente para que deixasse Abraham descontar todas as suas frustrações sobre ele.
O ruivo soltou as mãos que prendia na camisa de Eugene e lançou um olhar mais contido para Beth, finalmente saindo dali.
Ele tinha uma consideração muito grande por aquela menina. A loira havia passado por várias coisas e continuava com a cabeça no lugar. De uma forma estranha ela o lembrava de sua filha, sempre alegre e ativa. Ele se encolheu com a memória e chacoalhou a cabeça como se pudesse afastar a comparação, procurando por Rosita.
Beth ficou em silêncio por um momento. Eugene continuava ali parado sem dizer nada enquanto observava o gerador.
— As placas. Na fazenda dos Harmon eles tinham esse tipo de coisa. Não é tão longe daqui — a Greene sussurrou ao acaso.
— Se as peças estiverem em boas condições…
— Você acha que pode montá-las aqui? — Beth interrompeu-o seriamente.
— Se vocês trouxerem tudo o que eu preciso… Sim, eu posso — Eugene afirmou convicto.
Beth acenou com a cabeça e partiu por um momento, voltando logo em seguida com uma caneta e um bloquinho de notas.
— Anote tudo o que precisa aqui. Podemos encontrar as peças na cidade também. Não podemos ficar dependendo dessa lata velha pra sempre — ela sentenciou antes de finalmente deixar Eugene sozinho.
O cientista pensou que talvez estivesse enganado em relação a garota magrela. Ela podia parecer uma criança, mas, definitivamente, não o era.
Beth entrou na casa e encontrou todos reunidos em torno da mesa para o café. Parecia uma visão comum e tranquila de uma família normal, não fosse o mundo em que viviam.
Havia uma cadeira vaga ao lado de Daryl, e Beth achou muito sensível da parte dele. Suas bochechas ferveram quando ela percebeu os olhares e risinhos de Glenn e Maggie sobre si, e seu subconsciente insistia em alertá-la que era algo envolvido com a noite anterior.
Tentando ignorar todo o rebolisso causado, Beth inclinou-se e depositou um beijo nos lábios de Daryl, que correspondeu um tanto sem jeito.
Timidamente, ele pousou a mão em uma das pernas dela, fazendo com que Beth se remexesse surpresa.
Pescando uma maçã na cesta de frutas, ela comentou ao acaso:
— Eugene e eu estamos pensando em mudar o sistema elétrico da fazenda, colocar placas solares e essas coisas.
— O que? — Maggie tossiu atônita, um pouco de café escapando pela xícara mal posta na mesa.
— O gerador está velho, não temos combustível. Os Harmon tinham as placas solares, é só as trazermos de lá. Precisaremos de algumas coisas da cidade, mas ele me deu uma lista…
— Nem fodendo você vai pra cidade, Beth — Daryl rosnou irritado ao seu lado.
— E por que eu não iria? — Beth devolveu em uma voz calma e doce, sem importar-se com a grosseria dele.
— Da última vez que esteve em Atlanta estava presa naquela porra de hospital cheio de gente pirada — ele resmungou irredutível.
— E eu fugi de lá, Daryl. Eu não preciso mais que você seja minha babá! — Beth finalmente perdeu a paciência e se levantou da cadeira, afastando-se da cozinha.
Daryl fechou suas mãos com força. Ele tinha vontade de socar alguma coisa, talvez alguém. Eugene era uma ótima opção. Quem aquele filho da puta pensava que era para ficar colocando merdas na cabeça de Beth? Que ficassem sem energia, então. Já haviam passado por coisas muito piores.
Daryl terminava de carregar alguns poucos suprimentos na picape quando Glenn chegou. Eles pretendiam voltar em poucas horas, mas preferiam estar preparados para imprevistos.
O coreano chacoalhou uma pequena folha de papel e esboçou um sorriso vitorioso.
— Como você conseguiu arrancar isso dela? — Daryl ajeitou a besta nas costas e entrou no veículo pelo lado do passageiro.
— Da Beth? — Glenn perguntou retoricamente. — Na verdade foi a Maggie. Mas se você quer saber, ela está furiosa.
Glenn sentou-se no banco do motorista e deu a partida enquanto Daryl dava de ombros, fingindo desinteresse.
O arqueiro sabia como Beth estava ansiosa para ir naquela busca pela aparelhagem que o cientista havia pedido, mas Daryl não se arriscaria, não de novo.
Eugene estava com uma expressão de puro pavor, enroscado em um dos cantos dos assentos de trás. Se Beth desejava ardentemente ir, o total oposto se aplicava ao cara patético que tremia como uma criança.
De nada adiantaria aquela lista gigante se Glenn e Daryl não saberiam identificar nenhuma daquelas peças.
— Como você faz isso? — Daryl questionou, roendo o dedo polegar para disfarçar o nervosismo.
— Isso o que? — Glenn respondeu curioso.
— Com a Maggie. Como você faz pra ela não ficar com raiva de você o tempo todo? — o Dixon continuou, lembrando-se da expressão no rosto da loira quando ela se levantou da mesa.
— Às vezes eu preciso fazer com que ela entenda que eu me preocupo — Glenn deu de ombros. — E eu não preciso gritar com ela por isso. Ela tem razão na maioria das vezes — ele riu. — Na verdade, você precisa entender que elas sempre têm razão.
Glenn viu Daryl fechar a cara e encarar a paisagem pela janela. Ele sabia como as irmãs Greene podiam ser teimosas, mas Beth tinha razão. Se eles queriam ser um casal, Daryl precisava parar de agir como se fosse pai dela.
Era um longo caminho pela frente, contudo, Glenn sabia que Daryl podia ser bem teimoso quando queria. E agora, acima de qualquer dia, ele parecia realmente querer.
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