Soft Heart
17 Capítulo XIV
Notas iniciais
Beth caçou o toca-fitas sobre o criado mudo e apertou o play. Uma gravação mal feita de Proud Mary soou pelos fones de ouvido enquanto ela ajeitava as botas e saia do quarto, descendo as escadas e cruzando pela sala, evitando encontrar o olhar daqueles que estavam ali.
Arrastando-se pela grama com seu tornozelo ainda dolorido, a loira alcançou algumas ferramentas no velho estábulo e se pôs a encarar os tomates emaranhados.
Ela suspirou profundamente quando vestiu as luvas para arrancar as ervas daninhas, um ódio crescente subindo por sua garganta e se transformando em cacos que desciam rasgando de volta por ela.
Beth sabia que era inútil ficar remoendo as coisas que Daryl havia lhe dito. Era infantil de sua parte estar fazendo marra como se fosse uma garotinha do primário impedida de descer no escorrega, porém, Daryl estava a tratando como tal.
Ele não fazia ideia nem sequer da metade das coisas que tinham acontecido com ela. O homem em Shirewilt havia sido apenas um pequeno vislumbre do que teria acontecido naquele hospital se ela não tivesse aprendido a ser forte, a sobreviver.
Agora Beth agarrava-se a vida com todas as forças, e sempre tinha sido assim desde o nascimento de Judith, desde que a pequena menina loira de olhos espertos havia lhe dado um propósito, uma serventia. Beth queria ser forte para protegê-la, para carregar aquele pequeno pacotinho de esperança e mantê-la segura.
Queria que Daryl a admirasse, que pudesse ver o quanto ela amadureceu, mas parecia uma tarefa tão difícil quanto tirar leite de uma pedra.
Na noite anterior, Beth pensou que houvesse mudado a visão do Dixon, mas se viu completamente enganada.
— O que esses tomates fizeram pra você? — Rick chamou às costas da loira, fazendo com que ela se sobressaltasse, arrancando os fones do ouvido.
— Você me assustou — ela resmungou ofegante.
— Sinto muito. Só fiquei preocupado.
— Não precisa se preocupar comigo, Rick — Beth sorriu gentilmente, voltando sua atenção às ervas.
— Não com você. Com os tomates — o xerife respondeu enquanto sentava-se ao lado dela, desprendendo alguns ramos do tomateiro e amarrando-os com precisão nas estacas que o conduziam.
Beth e Rick dividiram um silêncio tranquilo enquanto continuavam presos em suas tarefas. A loira sentiu-se mais calma na presença do xerife, pensando em como seus problemas pareciam grãos de areia perto de tudo o que aquele homem havia enfrentado.
— Você é bom nisso — ela elogiou, observando a facilidade com que ele removia os ramos ruins, deixando apenas os melhores.
— Graças ao seu pai — Rick respondeu com um sorriso contido. — Antes dele, os únicos tomates que eu tinha visto eram os enlatados.
— Ele estaria orgulhoso — Beth devolveu sinceramente, sentindo-se feliz por perceber que conseguia falar sobre o pai como uma lembrança boa, não com sofrimento.
A manhã passou devagar enquanto os dois continuaram cuidando da horta, passando dos tomates para os pepinos, então para as cenouras e beterrabas.
Maggie chamou-os para o almoço quando o sol já estava forte demais para ser suportado e os dois se juntaram a mesa para comer.
Beth suspirou cansada, olhando para o lugar vazio ao lado de Maggie, arrastando-se para ficar ao lado da irmã.
Daryl, Glenn e Eugene estavam lá fora e isso era terrivelmente desconfortável para a Greene mais jovem. Desde o dia em que retornaram para a fazenda eles nunca mais tinham se separado. De repente sentiu-se culpada por compartilhar a ideia das placas solares. Se não fosse por isso, todos estariam reunidos em volta da mesa.
Seu estômago resmungou, mas ela simplesmente não teve vontade de comer.
— Ei, Bravinha — Beth chamou a pequena menina que se debatia nos braços do irmão. — Parece que você está dando um grande trabalho para o Carl.
Carl lançou um olhar suplicante em direção a loira, que logo estendeu os braços para a neném.
— Carl, deixe a Beth se alimentar — Rick repreendeu o filho, mas a garota o respondeu com um aceno despreocupado.
— Estou bem, xerife. Posso tomar conta da Judy enquanto vocês almoçam.
Sem esperar pela resposta deles, Beth partiu porta a fora com Judith agitada em seus braços.
Ela ajeitou a menininha em seu colo enquanto a embalava, percebendo que o motivo de sua agitação era sono.
— Tudo bem se quiser dormir agora — Beth sussurrou para a pequena que lutava para manter os olhinhos abertos.
Ela sentou-se na varanda enquanto ninava a garotinha. Sentia falta de Daryl. Sentia falta da carranca mal-humorada e do cigarro brincando entre os dedos sujos de terra. Havia apenas algumas horas desde que ele tinha partido para a cidade e ela se via ansiando bobamente por seu retorno.
Pensou na primeira vez em que Daryl realmente havia dirigido a palavra a ela, pedindo para que Beth cuidasse da bebê. A loira agarrou-se aquilo como um bote salva-vidas, Lori havia acabado de morrer e tudo estava um caos.
Foi a primeira vez que a garota havia notado que apesar da casca, Daryl guardava um bom coração. Desde então, as coisas foram acontecendo fora de controle. A forma como ela passou a admirá-lo, a quase adorá-lo, havia a deixado confusa sobre seus sentimentos.
Zacky tinha sido gentil com ela e eles tinham a mesma idade, mas não havia sido um relacionamento longo, muito menos intenso.
Beth não se sentia aflita quando ele saía nas buscas, nem mesmo ansiava por sua volta como fazia quando Daryl partia.
Pensou no tempo que passou sozinha com Daryl e como teve sentimentos conflitantes, oscilando entre a vontade de beijá-lo e acertá-lo com uma pedra.
Não conseguiu controlar a vontade de rir. Sim, em diversas vezes teve vontade de acertá-lo com alguma coisa, mas sempre sentiu-se atraída pela segurança que ele lhe proporcionava. Pelo cuidado que ele dispensava sobre ela, mesmo de seu jeito bruto.
De uma forma um tanto torta, Beth percebeu que há bastante tempo o amava. Céus, como ela o amava.
Daryl chocou-se com toda a sua força contra a porta, enquanto Glenn apressadamente enfiava um machado entre os puxadores dela, travando-a.
O arqueiro encarou Eugene que se encolhia como uma mocinha, espiando sobre os ombros como se algum caminhante realmente estivesse por ali. “Frouxo”, o Dixon pensou. Nem mesmo Beth agiria daquela forma. Aquele nome o cutucou como um soco no estômago.
— Nós precisamos sair daqui — Eugene comentou com a voz trêmula.
— Grande ideia, imbecil! — Daryl respondeu impaciente, tirando a pequena lista do bolso e esfregando no rosto do cientista. — Hora de fazer algo útil — ele bufou enquanto o outro segurava a lista em suas mãos suadas e pegajosas.
Glenn lhe lançou um olhar de advertência, mas Daryl estava pouco se fodendo com os sentimentos daquele cara. Por culpa da genial ideia dele agora estavam presos bem no meio de Atlanta em uma loja de ferragens, encurralados por uma horda de errantes.
O Dixon ajeitou a besta sobre os ombros e encarou o lado de fora através das janelas empoeiradas. Cada vez mais deles se acumulavam contra a porta, o barulho causado atraindo mais e mais daquelas coisas.
Glenn e Eugene reviravam as prateleiras, enchendo rapidamente suas mochilas enquanto Daryl permanecia ao lado da porta, preparado para o pior.
Ele simplesmente odiava a ideia de ficar preso naquele lugar. Nunca teve medo de morrer, realmente. Depois de perder Merle pela primeira vez, simplesmente não tinha mais nada a temer, não tinha um motivo forte o suficiente para que ele se agarrasse à vida. Ele simplesmente continuava, dia após dia, esperando apenas ser útil o suficiente para o grupo.
Agora ele estava com medo. Medo de não voltar pra casa e não poder abraçar ou beijar Beth novamente. Era uma sensação nauseante que o deixava terrivelmente desconfortável.
"Eu preciso voltar, preciso sair daqui. Preciso tirar Glenn daqui", Daryl só conseguia pensar nisso, a todo instante. Se algo acontecesse com Glenn, Maggie estaria arrasada e, consequentemente, Beth também. Ele não podia deixar que isso acontecesse.
— Ei — Glenn chamou baixo ao seu lado. — Temos tudo.
— Precisamos dar um jeito. A saída está bloqueada — Daryl respondeu.
— Vamos sair pelo terraço. Descemos pela escada de emergência e damos a volta por eles — o coreano concluiu com um sorriso presunçoso.
Daryl sorriu também, mesmo que Eugene não entendesse o porquê. O arqueiro lembrou-se dos velhos tempos, do acampamento na pedreira e em como Glenn simplesmente entrava e saía da cidade como se fosse um fantasma. Muitas coisas tinham mudado desde então, mas Daryl tinha uma admiração estranha pela persistência daquele cara.
Os errantes ainda batiam de forma insistente contra a porta, despertando Daryl de volta para a realidade. Com um pouco mais de pressa, os três subiram os dois lances de escada até o terraço. Não havia caminhantes ali, afinal, era só uma loja de ferragens, não era algo realmente tido como importante no fim do mundo.
Daryl segurou a besta com força encarando a longa descida até o chão enquanto Glenn tentava sem muito sucesso forçar a escada a descer. Ela emperrou no meio do caminho, o que deixava uns bons cinco metros de queda até o solo.
— Ainda é alto — Eugene gemeu.
— Cala a boca, droga! — Daryl devolveu muito mais irritado do que o habitual.
— Daryl — Glenn começou, tocando o ombro do Dixon. — Nós vamos voltar. Vamos voltar pra elas. Tá tudo bem.
Daryl engoliu em seco, sentindo que pela primeira vez tinha algo realmente em comum com Glenn. Eles precisavam voltar, e eles iriam.
Por elas.
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