Soft Heart

7 Capítulo VI


Notas iniciais
Então gente, que dia é hoje? É, hoje é quarta-feira, dia de capítulo fresquinho! Espero que vocês gostem. Boa leitura. ♥

­­— Nós vamos passar a noite na comunidade — Rick anunciou ao grupo.

Os ombros do xerife estavam eretos demais, em uma pose totalmente não natural. Beth sabia perfeitamente que Rick estava destruído, apesar de não querer demonstrar. Era claro como a luz do dia, mas ele insistia em manter a cabeça erguida.

— Eu não acho que seja uma boa ideia —Glenn interveio.

— Mas é o que faremos — Rick respondeu rispidamente.

— Mas os muros estão destruídos — dessa vez Michonne tomou a frente, fazendo Rick aliviar brevemente sua expressão.

— Nós não vamos passar mais uma noite na estrada — o líder deu sua última palavra sobre o assunto.

O restante do grupo — e isso incluía Beth — apenas concordou, cansados demais para levar a discussão a qualquer outro nível.

Arrastando-se desanimadamente, ela rumou para o trailer, ajudando os outros a descarregarem suas mochilas.

— Pode deixar — Maggie puxou gentilmente a mochila da irmã.

— Eu posso fazer isso — Beth rebateu ofendida.

— Beth, está tudo bem? — a mais velha insistiu.

Beth encarou os olhos verdes da irmã e sentiu-se horrível por deixá-la preocupada. Ela reconhecia que estava agindo com uma teimosia além do que gostaria, mas simplesmente não suportava mais a ideia de ser cercada por todos os lados, o tempo todo. Tudo o que ela queria provar era que podia ser capaz de fazer algo por si mesma, mesmo que não fosse nem de longe a melhor sobrevivente dali. Era difícil deixar seu orgulho de lado e admitir que precisava de ajuda.

A experiência com Dawn Lerner havia calejado-a, mas fez com que ela percebesse que havia uma espécie de força em si. Beth era forte também, ela queria ser forte, queria proteger e não ser protegida. Mas, Maggie era sua irmã. Ela a amava acima de tudo, não merecia o tratamento que Beth estava dispensando sobre ela.

— Eu sinto muito — Beth sussurrou, abraçando a irmã.

— Eu sei — Maggie devolveu. — Eu também.

Aquele abraço fora muito mais significativo para as duas do que qualquer longa conversa. Beth sabia que Maggie entendia exatamente o que se passava por sua cabeça. Apesar da diferença gritante entre a personalidade das duas, eram ligadas profundamente.

— Deixa comigo — Glenn juntou-se a elas, apoiando o braço de Beth sobre seus ombros, sustentando o peso da menor.

Dessa vez Beth não reclamou. Estava cansada e dolorida. Era difícil lutar contra sua própria natureza e por mais que ela repetisse como um mantra que era independente e capaz, aos poucos suas estruturas frágeis começavam a ruir. Ela queria fazer as coisas sozinha, porém, simplesmente não podia. Ela só desejava que seu pai estivesse ali para que ela pudesse aconchegar-se em seu abraço e chorar. Ele nunca julgaria sua fraqueza.

Daryl observou de soslaio quando Glenn cedeu apoio à Beth, levando-a em direção a comunidade. Ele quis de todas as formas controlar o seu gênio ruim, contudo, fora simplesmente impossível evitar que sentisse inveja daquela cena.

Glenn era magrelo o suficiente para se cansar no meio do caminho, mas Daryl admitiu que o coreano era prestativo o bastante para aguentar o trajeto inteiro sem protestar.

O silêncio durante o caminho era quase sufocante, mesmo para o Dixon, que era habituado com ele. Exceto pelo aviso de Rick sobre ficaram todos na mesma casa, nada mais fora dito e o arqueiro não fez questão de iniciar nenhuma conversa com ninguém.

Noah parecia totalmente destruído, a ponto de Daryl sentir pena do garoto. Beth saberia dizer algo, mas ela não parecia estar em seu estado de espírito normal após ter saído do hospital e a cada maldito momento ele se perguntava o que haviam feito para a loira naquele lugar para que ela voltasse daquela forma.

Shirewilt Estates parecia ter sido uma comunidade forte. Cercas, casas bonitas, um lugar onde riquinhos metidos deveriam morar antes da merda bater no ventilador. Agora era só um local destruído, como qualquer outro.

Pouquíssimas casas estavam inteiras e quando encontraram uma ao centro da comunidade, com uma visão razoavelmente boa dos arredores, eles simplesmente abrigaram-se ali. A noite começava a chegar, a luz do sol se esvaindo aos poucos.

Noah conseguiu alguns lampiões, acendendo-os em lugares aleatórios da casa.

— Posso? — Beth apareceu ao lado do Dixon, despertando-o de seus devaneios.

Ele demorou um momento para entender do que o pedido da Greene se tratava, até notar o pequeno colchonete que ela trazia, apontando com o objeto para o local vago ao lado do tapete que Daryl havia escolhido para ser sua cama naquela noite.

Uhum — ele respondeu desconfiado, acenando com a cabeça.

Daryl sabia que gostava de estar na companhia da garota, mas não tinha certeza se era algo recíproco. Sentiu-se como um adolescente babão quando ela ajeitou o colchonete e deitou-se ao seu lado, seus corpos perto o suficiente para que os ombros se tocassem. Ele não se mexeu, temendo que ela se afastasse.

Every man has a right to live / Love is all that we have to give / Together we struggle by your will to survive / And together we fight just to stay alive. . .

[Todo o homem tem o direito de viver / O amor é tudo o que temos para dar / Juntos lutamos para nossa sobrevivência / E juntos nós lutamos para estarmos vivos]

— Achei que você não cantasse mais — Daryl resmungou em um tom baixo.

— Nós não temos nenhum jukebox, então...

Ele riu ao ouvir sua frase na voz da garota. De uma forma estranhamente confortável, ficou feliz por saber que Beth lembrava-se tão bem quanto ele da noite que dividiram na pequena casa mortuária. Devagar, para não assustá-la, ele virou seu rosto na direção dela e viu que os olhos azuis de Beth haviam recuperado um pouco do brilho que ele tanto admirava. Ele percebeu, também, que ela cantava baixo o suficiente para que apenas ele ouvisse.

Igual, porém, diferente, ele concluiu. Agora Daryl era capaz de perceber que não era atenção que Beth queria quando cantava na prisão. Ele deu-se conta de que aquela era a forma que ela havia arranjado de lidar com as coisas difíceis. Enquanto buscava paz, ela lhe dava conforto.

— Daryl? — Beth chamou baixinho, mas logo viu que o arqueiro dormia.

Ela sequer percebeu que havia pegado no sono. Na verdade, a calma que Daryl transmitia a ela a proporcionou que tirasse aquele cochilo.

Quase todos dormiam na sala. Abraham e Rosita enroscados em um canto, Maggie e Glenn abraçados em outro. Com exceção de Rick e Sasha, que Beth logo concluiu que estavam fazendo a ronda, Noah estava sentado em uma das poltronas, a expressão vazia encarando a parede a sua frente. Ela sabia qual era a sensação de perder os pais e os irmãos, mas ela ainda tinha Maggie e o restante do grupo que a tratavam como família. Para Noah, tudo era muito recente, todavia, ela sabia que ele logo se sentiria melhor, assim como tinha acontecido com ela.

Levantando-se pé por pé, Beth cruzou a sala silenciosamente, rumando para a porta dos fundos da casa. Noah a encarou no caminho e ela apenas levou o dedo indicador aos lábios, em um pedido de silêncio.

Beth só precisava de um pouco de ar fresco e de um momento sozinha para observar as estrelas. Ela sentia uma necessidade enorme de se reencontrar, de voltar a ser quem era. Agora, fora do hospital, ela precisava reaprender a viver sem ser pressionada a todo instante para fazer coisas que não queria. Ela estava cercada por pessoas que se importavam com ela e que a protegeriam.

Ela arrastou-se lentamente pela comunidade, atenta para que não forçasse o tornozelo mais do que o necessário. Exceto pelo som dos grilos, tudo parecia silencioso demais.

O corpo de Beth simplesmente congelou no momento em que viu algumas lanternas aproximando-se no horizonte.

— Eu disse que havia mais gente — um homem sussurrou para o restante do pequeno grupo de lanternas.

A claridade do objeto vislumbrou pelo rosto dele e tudo o que Beth pode ver fora um "W" marcado em sangue na testa do homem grande e sujo. Aquela letra despertou um sentimento de déjà vu na Greene, mas ela não conseguiu associá-la a nada antes que alguém cobrisse sua boca e pressionasse seu corpo com força contra uma árvore.

Shhhh — a voz rouca chegou aos ouvidos de Beth, junto ao arrepio de puro pavor. — Faz tanto tempo que não vejo uma menina bonita — a criatura asquerosa continuou a dizer, a mão deslizando pela coxa dela e parando entre suas pernas. — Eu vou te libertar, mas acho que eles não vão se importar se eu aproveitar só um pouquinho.

Beth sentiu vontade de vomitar quando um objeto pontiagudo alcançou seu cinto e ele tocou o chão com um baque silencioso. Ela remexeu-se violentamente, tentando soltar-se do aperto dele e correr, porém, o homem era mais forte e puxou sua camisa com tanta força que o tecido rasgou-se ao meio, deixando seu sutiã à mostra.

Daryl acordou-se em um salto quando o som de tiros ecoou pela sala, vindo da parte da frente da casa onde Rick e Sasha estavam. Judith caiu em um choro agudo, assustada com o barulho. O arqueiro sabia que eles não atirariam em errantes, arriscando atrair mais deles quando poderiam se livrar das criaturas com alguma arma branca, então o alerta de perigo se espalhou em pura adrenalina por seu corpo.

Virando-se para o lado ele pode ver que Beth não estava em nenhum lugar daquela sala e sua primeira reação foi sair dali porta a fora, a procura da garota. Os outros saberiam se cuidar sozinhos.

Logo ao pôr o pé para fora se deparou com um grupo de cerca de quinze homens espalhados pela rua que atravessava a comunidade. Eles estavam armados com lanças e facões, mas Rick e Sasha não permitiram que eles se aproximassem. Aquelas pessoas não pareciam preocupadas em morrer, pois avançavam como animais contra as armas, como se tivessem a menor chance.

Derrubando um deles com a sua pistola, Daryl armou-se com sua besta e correu pelos becos a procura da Greene. Ele apenas torcia para que ela fosse esperta o suficiente para sobreviver a mais aquilo.

Quando virou à esquerda seu sangue ferveu em puro ódio. A garota esguia gritava para que o homem a soltasse, enquanto ele segurava as duas mãos da loira com a sua mão direita e com a outra tentava desajeitadamente abrir seu zíper.

Beth sentiu o aperto em suas mãos simplesmente desaparecer e então se deu conta que o homem estava caído aos seus pés. As lágrimas jorravam desesperadamente por seus olhos quando ela se virou e deu de cara com Daryl.

— Beth — ele gemeu em um tom amargo, correndo em direção a ela e a abraçando com muita força.

A garota sequer se importou por estar com o corpo tão exposto. Sua camisa estava rasgada e o sutiã cortado com a faca bem no centro. Ela sentiu quando Daryl soltou seu aperto por um momento e logo sentiu o calor do colete que ele enrolava em seu corpo.

Daryl estava simplesmente apavorado. Ele não sabia como fazer com que Beth parasse de soluçar em seu peito. Ela estava aterrorizada de uma forma que ele jamais havia visto, o que fez com que ele se sentisse um grande bosta por não ser capaz de protegê-la.

Quando os soluços da Greene cessaram, ela soltou-se do arqueiro e virou-se para o corpo sem vida do homem. As mãos dela tatearam o chão a procura de algo, que ele logo percebeu que era a faca que o outro havia usado para atacá-la.

Em um momento de pura frustração, a loira golpeou o cadáver com a faca, fazendo com que o sangue jorrasse em seu rosto pálido. Daryl foi incapaz de reagir por um longo minuto, assistindo Beth esfaquear aquele corpo de novo e de novo, os soluços voltando cada vez mais altos.

Ele correu em direção a ela e se ajoelhou, abraçando-a pelas costas e ela soltou a faca, em choque.

Ei, ei — o Dixon sussurrou. — Acabou. Acabou agora — ele repetiu diversas vezes, até perceber que o corpo dela cedeu em seus braços.

Naquele momento Daryl jurou a si mesmo que jamais deixaria a Greene longe dos seus olhos novamente. Já havia fugido dela por tempo demais, e sabia que não suportaria estar tão perto de perdê-la outra vez.

Notas finais
Obrigada por lerem. Agora, que tal me deixar saber o que vocês acharam? Xoxo ♥