Soft Heart
8 Capítulo VII
Notas iniciais
— Maggie, você está bem? — Glenn perguntou à esposa.
— Beth. Onde está a Beth? — Maggie questionou nervosamente.
Ela simplesmente não suportava a ideia de estar longe da irmã de novo. O desespero que sentiu na prisão quando não a encontrou em lugar nenhum era incapacitante. Não ter a encontrado antes fazia com que ela se sentisse culpada e inútil. Ela era a única família que Maggie ainda tinha e apesar de Glenn estar sempre ao seu lado, Beth ainda continuava sendo uma parte muito importante da sua vida, da sua ligação com o mundo de antes. Quando o Dixon apareceu em seu campo de visão, levando nos braços uma Beth desacordada e enrolada no colete de Daryl, Maggie sentiu que as coisas não estavam bem.
Um choro sufocado subiu pela garganta da Greene mais velha, Glenn a amparou em um abraço forte. Ver Beth tão pálida, com as roupas rasgadas e sangue pelo rosto fez com que Maggie tivesse um péssimo pressentimento.
Tudo ao seu redor parecia se resumir àquela cena e ela não conseguiu ouvir nenhuma palavra que fora dita a ela, até o momento em que Glenn chacoalhou seu ombro com um pouco mais de força.
— Maggie, amor — ele chamou em um tom calmo. — Ela está viva. Não se preocupe.
Aquela simples frase lhe tirou um peso enorme dos ombros, mas até que pudesse tocar em Beth e ouvir seu coração, ela não se convenceria. Por que ela estava tão pálida?
— Um maldito filho da puta — Daryl disse, carregado de ódio. — Eu não estava lá, eu não consegui protegê-la. Quando eu cheguei… — ele continuou a falar, sua voz falhando em lugares estranhos.
Maggie notou que mesmo com a fraca luminosidade ela podia ver algo molhado escorrendo pelo rosto do arqueiro. Ela nunca o tinha visto chorar, então algo mais sério do que ela pensava tinha acontecido ali.
— O que aconteceu, Daryl? — Rick perguntou ao amigo, sua expressão cheia de preocupação.
— Aquele filho da puta — Daryl repetiu. — Ele ia abusar dela.
Um silêncio se arrastou pelo local. Expressões de choque eram vistas de formas diferentes por cada um ali. Maggie havia chegado muito perto de ser molestada pelo Governador e mesmo que não tivesse demonstrado, estava aterrorizada. Ela não conseguia digerir o fato de que um homem asqueroso tivesse tocado na sua irmãzinha.
— Vamos levar ela lá pra dentro — Carol chamou a atenção dos demais.
— Vamos embora daqui — Rick disse. — Se houver mais deles… Não podemos arriscar.
— Mas você disse que não passaríamos mais uma noite na estrada — Tara argumentou.
— Não temos outra opção. Não vou colocar mais ninguém em perigo — o xerife concluiu e ninguém mais questionou.
Daryl estava meramente consciente dos acontecimentos que se desenrolavam ao seu redor. Ele havia perdido Beth uma vez e aquilo tinha sido simplesmente um inferno. Havia demorado tempo demais para descobrir que aquela garota era muito importante para ele para perdê-la uma segunda vez.
Ele se lembrava vagamente do episódio da fazenda com o celeiro. Estava preso demais no desespero de Carol para dar muita atenção a Beth. Mas ele conseguia recordar da garota loira e miúda chorando inconsolavelmente sobre o corpo da mãe. Naquele tempo ela não era o foco dos olhares de Daryl, mas ele soube que ela entrou em choque por vários dias, tentando cometer suicídio em seguida.
Ele tinha achado que Beth era fraca e estúpida, e continuou achando aquilo por muito tempo mais. Então ele acabou percebendo que aquela menina fora criada em um mundo de conto de fadas, não tinha tido nenhum motivo para aprender a ser forte ou a se virar sozinha. Talvez ela não quisesse atenção cortando seus pulsos. Agora ele compreendia. Ela queria se livrar daquele mundo de merda.
Daryl ficou espantado por notar que agora conseguia entendê-la tão bem.
A fim de ajudar os outros a reagrupar os pertences do grupo, ele depositou a garota sobre o colchonete e tirou um momento para encará-la. Era uma figura quase etérea, pálida como um papel, várias mechas loiras escapando do rabo de cavalo que ela usava, sangue manchando seu rosto e pescoço. Um pouco constrangido, ele abaixou-se e fechou o zíper do colete, cobrindo o corpo exposto de Beth.
— Você pode levá-la? — Maggie chamou as suas costas. — Glenn e eu levamos as mochilas.
Daryl apenas acenou uma vez com a cabeça. Era óbvio que ele levaria Beth, ele não a deixaria longe de seus olhos de novo. Ele sentia seu corpo dolorido por percorrer o longo trajeto com a menina em seus braços, mas sentir a respiração dela em seu peito era como um calmante para ele.
Rick decidiu dirigir o trailer e deixar que Daryl conduzisse a picape levando Beth, Glenn e Maggie.
A Greene mais velha sentou-se atrás, com Beth deitada em seu colo. Ela acariciava os cabelos da loira em um ato nervoso.
Não era como se eles tivessem um rumo definido agora que descobriram que Eugene mentia, mas haviam decidido que teriam melhores chances de continuassem em direção a Washington DC.
Quando o dia amanheceu, o grupo fez uma pausa na estrada. A maioria desceu do carro para esticar as pernas e lavar o rosto no pequeno córrego que corria as margens da rodovia.
Beth acordou sentindo-se desnorteada e dolorida. Estava sozinha na picape e não se lembrava de como havia parado ali. Levantou-se tropegamente e se dirigiu até o som das vozes do grupo, descendo devagar a encosta da estrada para encontrar o pequeno riacho de água cristalina.
Ela tentou ao máximo desviar dos olhares que as pessoas lançavam a ela e então abaixou-se com um pouco de dificuldade para encarar seu reflexo na água.
Estava horrível, logo notou. Seu cabelo estava cheio de nós e seu rosto sujo de sangue seco.
Formando uma concha com as mãos ela bebeu um pouco d'água, sem importar-se com o fato dela ser potável ou não. Esfregou as mãos molhadas no rosto e a água gelada a despertou.
Só então as coisas foram se encaixando como um quebra-cabeça em sua mente. O fato de estar vestindo o colete de Daryl lembrou-a do que aconteceu na noite passada.
Um enjoo forte acometeu seu estômago e ela curvou seu corpo, vomitando a água que acabara de beber. O pânico tomou conta de seus pensamentos, a lembrança das mãos daquele homem nojento passeando por seu corpo, rasgando suas roupas.
— Beth — Rick chamou por ela, abaixando-se ao seu lado.
Ele não disse nada, mas ela entendeu que ele estava tentando confortá-la de algum jeito. Ela deixou que ele pusesse seu braço sobre os ombros dela e beijasse o topo da sua cabeça.
— Eu sinto muito pelo que aconteceu — ele continuou. — Sasha e eu deveríamos ter percebido antes.
Ela soltou um risinho baixo antes de se virar para ele.
— Você precisa parar de se culpar por todas as coisas, Rick. Você não pode estar em todos os lugares e fazer todas as coisas. Está tudo bem, eu estou bem — Beth murmurou, encarando as pedras no fundo do riacho. — Eu só… Eu só quero ir pra casa — ela desabafou.
Beth sabia o quanto aquilo que estava dizendo era estúpido e nunca aconteceria, mas ela realmente sentia falta da fazenda.
— Talvez… — Michonne apareceu em seu campo de visão. — Talvez nós pudéssemos reerguer as cercas. A casa ainda estava intacta.
— O que? — Maggie juntou-se a eles, a sobrancelha arqueada em espanto.
— Eu estive lá com Andrea. Eu a encontrei na floresta perto dali. Ela queria saber se havia restado alguém — Michonne deu de ombros. — O celeiro já havia parado de queimar, então os errantes já haviam se dispersado. A grande maioria.
— Você acha que podemos voltar pra lá? — Beth perguntou. Uma pequena fagulha de esperança acendeu-se em seu peito no meio de todo aquele caos.
— Acho que não temos muitos outros lugares pra ir, agora que sabemos que não tem porra nenhuma de importante em Washington — Abraham aproximou-se do grupo, entrando na conversa.
— Acho que também não estou afim de dividir espaço com mais nenhum grupo depois daqueles canibais — Rosita sorriu sem graça.
Beth percebeu que sua pequena conversa com Rick havia atraído todos os outros e ficou feliz que eles estivem a apoiando. Era apenas uma coisa boba que havia chegado aos seus pensamentos, nunca pensou que talvez eles pudessem topar.
— Nós vamos voltar — Rick acenou com a cabeça, bagunçando levemente os cabelos de Beth.
Em meio a todo o terror da noite passada, a Greene percebeu que ainda havia esperança.
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