Soft Heart

4 Capítulo III


Notas iniciais
Viram que dessa vez eu nem demorei? Obrigada aos três docinhos que comentaram no capítulo anterior, vocês são nota dez. Vou tentar regularizar as postagens para uma vez por semana, possivelmente nas sextas, já tenho mais um capítulo pronto e estou tentando adiantar mais, então, não me abandonem. Boa leitura. ♥

­— Bem no meio dos olhos, Beth — Maggie instruiu a irmã, ajudando-a a posicionar a arma da forma correta, enquanto miravam em um caminhante amarrado a uma árvore.

Era claro que Beth aprendera a usar uma arma, mas atirar freneticamente sem acertar efetivamente em lugar nenhum, não era algo que eles poderiam se dar ao luxo. Além do mais, o grupo tinha algum tempo sobrando e se Beth não se ocupasse com nada acabaria enlouquecendo.

— Quando essa coisa tenta comer as suas tripas, fica mais fácil — Daryl resmungou.

— Você só precisa manter a calma, Beth — Glenn adicionou às costas da esposa.

Eu sei. Eu sei — Beth gemeu nervosamente, a arma tremendo em sua mão.

Ela sentia-se como uma pré-adolescente tendo que apresentar um trabalho em frente à classe inteira. Todas as atenções estavam focadas nela, o que fazia com que ela tremesse como uma vara verde sacudida pelo vento.

Respirando profundamente, Beth apertou o gatinho uma única vez. O silenciador na ponta do cano aquietou o ruído da melhor forma que pôde.

A loira encarou o corpo em decomposição; agora ele havia parado de se debater e grunhir, apenas um buraco pequeno jazia em sua testa. Não era precisamente entre os olhos, mas fora certeiro o suficiente. Ela sorriu aliviada, ouvindo os elogios dos demais.

Não era como se Beth nunca tivesse atirado na vida. Vez ou outra, quando Shane dera aulas de tiro na fazenda, Hershel havia deixado que ela e Maggie participassem. Quando fugira do hospital também tinha abatido alguns errantes, contudo, ainda não estava cem por cento segura com a arma de fogo. Ela havia gostado muito mais de praticar com a besta de Daryl, tendo-o como seu instrutor.

A garota olhou para o Dixon de soslaio, percebendo que ele também a encarava, um sorriso contido nos lábios. Ela não esperava nada diferente dele, que logo desviou o olhar novamente para as flechas que limpava com afinco, o cigarro passeando pelos lábios rachados. Beth se perguntava como ele ainda conseguia encontrar aquilo. Talvez fosse porque os sobreviventes do fim do mundo estivessem mais preocupados com comida e munição do que com tabaco.

Já havia duas semanas desde que fugira do Grady com Carol e como esperado, ninguém veio procurar por elas.

O trailer que compartilhavam estava abarrotado de pessoas, inclusive alguns rostos novos para Beth, como Rosita, Abraham, Eugene e Tara. Devagar, as coisas estavam voltando para os eixos.

No momento eles rumavam para a antiga comunidade de Noah. Ele acreditava que os pais estavam vivos, visto que o local em que estavam era suficientemente protegido contra os caminhantes. Beth não sabia como se sentia sobre isso. Havia visto coisas demais para saber que o menor risco do apocalipse eram os mortos.

Aos poucos, Daryl havia voltado a trocar algumas palavras com ela. Não era como quando estiveram sozinhos, mas já era alguma coisa desde que ela voltara. Maggie fazia perguntas sobre isso o tempo todo e Beth já não sabia como se esquivar de todas elas. A verdade é que a loira estava plenamente consciente de que precisava da atenção de Daryl muito mais do que gostaria de admitir.

— Encontraram alguma coisa? — a voz de Maggie trouxe Beth de volta para a realidade.

A Greene mais nova virou-se para a origem da conversa, encontrando Rick, Michonne, Carl e Carol carregando algumas poucas sacolas e meio galão de gasolina.

— Nada de muito valor — Michonne respondeu, um tanto desanimada.

O grupo estava realmente grande e pela quantia de sacolas Beth calculou que os suprimentos não durariam muito tempo. Seu estômago protestou de forma ruidosa e ela logo tratou de disfarçar.

Apesar dos pesares, havia se alimentado bem durante o tempo que estivera no hospital. Voltar para a estrada, alimentando-se raramente, estava cobrando o preço sobre seu corpo magro.

Daryl havia caçado com toda a determinação que tinha nos últimos dias, mas parecia que nenhuma criatura viva vagava por aqueles lados. Seu estômago reivindicava algum tipo de proteína, contudo, já passara fome o suficiente antes do fim do mundo para acostumar-se com aquele desconforto. A nicotina em seu sistema estava desempenhando um bom papel, também.

Olhar para Beth era quase doloroso. A garota, que já era magra desde os tempos da fazenda, agora era pele e osso. Alguma coisa tinha mudado nela; as cicatrizes pelo rosto endureceram um pouco sua aparência juvenil e nas poucas vezes em que falava, sempre trazia assuntos sérios e maduros.

Algo havia feito com que Beth se transformasse em uma pessoa mais próxima de sobreviver ao mundo dominado pelos mortos e Daryl não sabia como realmente se sentia sobre aquilo. Beth sempre fora a pequena chama de esperança naquele poço de merda, seria muito injusto se justo ela se trancafiasse em uma concha impenetrável. Como eu, o Dixon pensou a contragosto.

Um chorinho agudo fez com que a Greene se sobressaltasse, fazendo o arqueiro disfarçar um sorriso. Era quase como um alarme de perigo para Beth e ela sempre corria em direção a Judith ao menor resmungo. A Bravinha sabia muito bem disso, é claro. Em um grupo tão grande de pessoas, Beth havia sido escolhida pela menor.

Se o mundo não fosse toda aquela grande porcaria fedida à morte, Beth teria sido uma boa mãe. Teria se casado com aquele moleque mijão da fazenda e tido um monte de pacotinhos barulhentos correndo ao redor de Hershel. Por mais normal que aquela visão devesse ser, sequer imaginá–la fazia com que Daryl sentisse náuseas, como se alguém lhe desse um soco muito forte no estômago. Não, ele não conseguia mais ver Beth em qualquer outro lugar que não fosse ali, e aquilo o deixava irritado como o inferno.

Perdido em seus próprios pensamentos, Daryl nem se deu conta de que a noite já havia caído. Aos poucos os reflexos azulados traziam um tom escuro ao céu. As estrelas pontilhadas indicavam que teriam mais um dia sem chuva, para variar.

Levantando-se um tanto dormente do chão, o arqueiro juntou alguns gravetos e se uniu aos poucos sobreviventes acordados que se encontravam em silêncio ao redor da fogueira que estalava vez ou outra. Aquela cena o lembrava remotamente do começo de tudo. Do acampamento pequeno na pedreira, Jim, Amy, T-Dog, Dale, Lori, Sophia, Shane, Andrea, Jacqui, Merle... Tantos que já haviam se perdido pelo caminho.

Daryl lembrou-se também do motivo que o uniu ao grupo. Merle e ele pretendiam saquear o acampamento, mas tinham percebido que estar em um grupo maior tinha também as suas vantagens. Até que Rick apareceu e Merle acabou algemado no telhado. Olhando para trás, o Dixon percebeu o quanto tinha mudado, o quanto aquelas pessoas tinham se tornado próximas. Família: essa era a palavra certa.

Acenando para os poucos que ainda estavam acordados e agora se recolhiam para suas barracas, ele subiu no trailer, assumindo sua posição para a ronda da noite. Tirando do último cigarro do bolso, puxou o isqueiro e o acendeu, levando-o aos lábios.

A nicotina em seu sistema relaxou um pouco seus músculos tensos enquanto ele se ajeitava na velha cadeira de praia. Lembrou-se brevemente do velho Dale, que parecia fazer parte daquele trailer com seu rifle na mão e seu chapéu brega de pescador. Parando para pensar, Daryl nunca o tinha visto pescando. Bufando com a estupidez do pensamento, o arqueiro virou-se rapidamente para trás. O ouvido de caçador atento para o farfalhar das folhas às suas costas. Ficou levemente surpreso quando viu que era Beth que se aproximava do trailer.

— Ei — a pequena chamou e Daryl de pronto estendeu a mão para ajudá–la a subir no veículo.

Por um breve instante Daryl aproveitou o toque suave da mão pequena e sedosa da Greene. O pulso dela ainda estava roxo e inchado, mas ele não se lembrava de tê–la ouvido reclamar uma vez sequer.

A garota apenas sentou-se no teto branco e gélido, as mãos repousando displicentemente sobre os joelhos.

— Posso? — ela apontou para o cigarro que Daryl já havia esquecido que segurava, ainda acesso. Um sorriso travesso brincava em seus lábios.

— Isso? — o Dixon indicou o objeto entre seus dedos. As sobrancelhas arqueadas e os olhos semicerrados indicando seu espanto.

A loira apenas acenou sorridente, fazendo com que o homem desconfiado alcançasse o cigarro para ela.

Beth tragou o cigarro profundamente, caindo em uma tosse rouca, meio segundo depois, arrancando um largo riso de Daryl.

— Você precisa devolver a fumaça, garota. Não engolir.

Fechando a cara para o mais velho, Beth tragou mais uma vez, soltando a fumaça despretensiosamente. Daryl não conseguia parar de fitar os lábios finos de Beth entorno do cigarro. Por um momento sentiu uma inveja tremenda daquele maldito objeto barato que era sugado vorazmente pela Greene. Ele não queria admitir, mas há tempos Beth havia deixado de parecer apenas uma garotinha para ele e vê–la fumando tão despreocupadamente, as gotículas de suor correndo levemente por seu pescoço e se perdendo dentro da regata colada que ela usava... Céus, aquilo era quente como o inferno.

— Meu pai me mataria — Beth pigarreou, chamando a atenção de Daryl para si enquanto lhe devolvia o cigarro.

— Ele queria o melhor para você — o Dixon respondeu, rindo logo em seguida por perceber que parecia um velho de oitenta anos dando conselhos para suas netas.

— Mas agora ele não está mais aqui — ela interrompeu o pensamento de Daryl, ignorando totalmente o que ele havia dito.

Daryl não soube o que responder, então Beth ficou em silencio de novo e ele aproveitou para tragar profundamente o cigarro, sorvendo o gosto doce de Beth que estava impregnado ali.

A garota estava de olhos fechados, as cicatrizes em semicírculo em sua testa e bochecha brilhando a luz fraca da lua cheia. O arqueiro reparou na diferença entre a velha e a nova Beth. Ele tinha certeza de que antiga estaria choramingando uma canção triste, os olhos cheios de lágrimas; a nova parecia estar aproveitando o pesar da situação, a testa enrugada em um linha fina, os pensamentos firmemente guardados para si.

— Você tinha razão — Daryl murmurou, devolvendo o que restara do cigarro a ela.

— Sobre o que? — a Greene virou seu rosto para ele, encarando-o com seus olhos grandes azul-piscina.

— Eles estavam vivos.

Beth sorriu largamente, dando de ombros com aquele ar de "eu te avisei". Daryl sorriu, de novo. De um jeito estranho e desconfortável, percebeu que estava sorrindo demais desde que Beth voltara para sua vida.

Notas finais
E então? ♥