Soft Heart
5 Capítulo IV
Notas iniciais
Beth secou o suor insistente que corria por sua testa, escorando seu rosto cansado na lataria do trailer. Tara lhe estendeu uma garrafa d'água praticamente vazia e a loira sorriu gentilmente em agradecimento. Ela sabia que a água que tinham era escassa, então bebeu a pequena quantidade de líquido e fez o melhor que pôde para convencer a si mesma de que estava saciada.
O grupo estava a poucas horas de distância de Shirewilt Estates, a antiga comunidade de Noah. O amigo de Beth estava certo de que encontraria sua mãe e seus irmãos gêmeos. “É uma comunidade segura, Beth”, ele havia lhe dito ainda no hospital.
Com todas as forças que tinha, Beth quis realmente acreditar que finalmente encontrariam um local seguro.
Seguro como a fazenda. Seguro como a prisão... Não, ela não queria se enganar novamente. Ela não suportaria mais uma decepção.
Ao longe, Daryl e os outros reviravam alguns carros velhos em busca de gasolina e suprimentos. A Greene lançou um sorriso para o arqueiro que retribuiu com um aceno de cabeça. As coisas estavam se encaixando, lentamente, mas estavam muito longe de voltarem a ser como antes.
Judith brincava em um cobertor a sua frente, os copos vermelhos sendo arremessados e amassados como se eles fossem o melhor brinquedo que a criança pudesse ter. Carl vigiava tudo de cima do veículo, a arma pronta para reagir a qualquer problema.
— Você acha que vamos encontrar alguém vivo lá? — Tara puxou assunto ao acaso, fazendo com que Beth se virasse para ela.
— Eu não sei — Beth respondeu sinceramente.
Ela gostava de Tara, ela era divertida e leal. Logo, as duas haviam se aproximado bastante nos últimos tempos.
Levantando-se do chão e esticando seu corpo dolorido e cansado, a Greene juntou-se aos demais em sua busca silenciosa.
O peso da arma no coldre em sua cintura a lembrava a todo instante que o perigo continuava os espreitando, por mais normal e corriqueira que a situação em que se encontravam pudesse parecer.
Empunhando sua faca, a loira forçou a trava do porta-malas, abrindo-o com um ranger estridente. Não havia nada de muito valor ali. Algumas ferramentas e o estepe. Derrotada, deixou o compartimento aberto para que os outros não perdessem tempo como ela havia feito.
Ao virar-se para outra direção, Beth não pode conter o grito de surpresa que escapou de sua garganta quando algo agarrou seu tornozelo machucado. Frustrada por talvez ter chamado a atenção dos demais, a garota chutou a cabeça do errante que saía debaixo do carro com toda a força que tinha, fazendo com que ela perdesse o equilíbrio. A loira caiu no chão em um baque, ralando os joelhos. Sua faca voando para longe.
— Mas que merda! — ela xingou, desferindo mais um chute no cadáver que agarrava sua bota, grunhindo.
Daryl apareceu em um átimo ao seu lado, a flecha atravessando a cabeça do caminhante em um zunido.
— Obrigada — a Greene resmungou irritada enquanto Daryl estendia sua mão na direção da menor.
Ela não queria parecer fraca para o grupo. Ela sabia que não era. Não queria ser um peso morto.
Pegando a mão que o Dixon a oferecia, ela deixou que ele a puxasse para cima. A dor lancinante percorreu seu tornozelo e sua perna inteira, ao passo que ela mordeu o lábio, disfarçando o desconforto.
— Me deixa ver — Daryl murmurou, não confiando em sua atuação.
— Não foi nada — Beth respondeu, afastando-se dele e recolhendo sua faca.
— Para de agir como uma criança idiota, porra! — ele cuspiu em um tom baixo e irritadiço, e Beth virou-se para ele enfurecida.
— Para de me tratar como se fosse a minha babá. Que inferno, Daryl! — ela bufou ofendida.
Para ele, ela sempre seria a garotinha da fazenda e aquilo a tirava do sério.
Ignorando os protestos de Beth, Daryl abaixou-se, agarrando a perna da garota e puxando a bota de seu pé, arrancando a meia em seguida.
Beth sentiu dor apenas por encarar o tornozelo. Roxo, esverdeado, amarelado, inchado. Estava terrível, de uma forma difícil de descrever. Ela sabia que não havia o quebrado quando pisou na armadilha, meses atrás. Mas havia machucado alguma coisa e o esforço que havia feito desde então… talvez agora tivesse tido a sorte de fraturá-lo.
— Consegue mexer? — o sentimento de déjà vu fez com que Beth estremecesse, lembrando-se do tempo que passara sozinha com o Dixon.
Esforçando-se com tudo o que tinha, ela tentou mexer o pé, mas tudo o que recebeu de volta foi uma onda de dor que fez com que seu corpo inteiro se retesasse. Ela não precisou responder.
— Está quebrado, ou no mínimo, torcido — Daryl afirmou. Dessa vez a raiva se dissipando e dando lugar a um tom preocupado.
Beth não queria admitir que gostava além do permitido do toque rústico do Dixon em seu pé dolorido. Seus olhos cheios de lágrimas nublavam sua visão, mas ela engoliu o choro. Não tinha tempo para ser "fresca", como Daryl diria. Precisava fazer alguma coisa. Mancando um passo para trás e calçando a bota como pôde sem se importar em vestir a meia, virou-se de volta para o trailer.
Daryl bufou atrás de si e logo ela estava em seus braços. Contrariando toda e qualquer lógica, ela riu. O Dixon acabou cedendo e rindo também. As lembranças do dia em que passaram na casa mortuária atingindo sua mente em curtas cenas.
O arqueiro encarou a garota loira em seus braços e quis se socar por estar sorrindo como um viadinho. Merle o zombaria até o inferno, mas Beth tinha aquele efeito sobre ele e não era como se ele pudesse se sentir de todo culpado.
Agora uma linha profunda marcava a testa da Greene que encarava o horizonte, e Daryl sabia que ela estava tentando parecer durona, mesmo que de fato não fosse. Beth havia se tornado forte a sua maneira, mas com aquele corpo magrelo e frágil, definitivamente a força física não era o seu melhor.
O Dixon assoviou, chamando a atenção dos outros. Maggie logo estava ao seu lado, o olhar inegável de preocupação com a irmã caçula.
— O que aconteceu aqui? — Beth fechou a cara para a preocupação da mais velha, cruzando os braços e encarando a lataria do trailer.
Daryl engoliu o riso com a atitude marrenta dela, mas logo se lembrou de que ainda tinha a garota em seus braços. Sem jeito, depositou a loira ao lado de Judith que ainda brincava em seu cobertor empoeirado.
Vendo que a garota não responderia, Daryl não fez cerimônias para tirar novamente sua bota, deixando que Maggie tirasse suas próprias conclusões.
Incomodado com o possível discurso que viria da mais velha, o Dixon apenas as deixou a sós, partindo novamente para suas buscas, agora empenhado em algo que pudesse imobilizar o pé da Greene.
Aquele local o lembrava de quando Sophia se perdeu, dezenas de carros parados em meio à estrada, como se os ocupantes tivessem fugido as pressas. Lembrou-se, também, de quando chegou à fazenda e tudo o que mais queria era que o deixassem em paz em seu canto. Beth era a filhinha chorona do fazendeiro que achava que aquela merda toda teria cura. Sim, ela ainda era como uma adolescente teimosa, mas havia crescido em muitos sentidos desde então, inclusive ocupando um espaço considerável em seus pensamentos.
Irritado com o rumo que as coisas estavam tomando, Daryl abriu mais um porta-malas. Vazio, como a grande maioria. Decidiu revirar o porta-luvas, se tivesse sorte encontraria um kit de primeiros socorros, o que para seu alívio aconteceu.
Na pequena maleta vermelha havia alguns analgésicos, ataduras, faixas, esparadrapo e tesoura. Como não tinha outra forma de imobilizar um tornozelo, imaginou que enfaixá-lo e encher a pequena Greene de analgésicos a manteria quieta o suficiente para não fazer mais nenhuma besteira que fosse perigosa.
Voltando para o lugar onde havia a deixado, encontrou Maggie sentada ao seu lado e Noah tocando o tornozelo da garota como se tivesse alguma porra de direito de fazer aquilo.
Daryl sentiu seu sangue ferver com aquela cena, não suportava o fato de Beth agir com tanta naturalidade com aquele moleque, mas dessa vez não deixaria os dois adolescentes risonhos como já havia feito anteriormente.
Abaixando-se ao lado de Noah e empurrando-o bruscamente com o ombro, Daryl tomou o tornozelo de Beth, rasgando a embalagem da faixa com os dentes, enfaixando-o com um pouco mais de força do que deveria. Beth gemeu baixinho, mas não disse mais nada.
Noah e Maggie saíram silenciosamente, deixando os dois sozinhos.
— Toma isso — Daryl estendeu os comprimidos que havia achado em direção à loira. — E tente não fazer nada estúpido depois que estiver dopada.
— Obrigada — ela sorriu para ele, derrubando a irritação do Dixon. — Eu sei que você se importa comigo, Daryl — a loira sorriu convencida.
O arqueiro a encarou perplexo. Aquela garota conseguia o deixar confuso. Beth mexia com sua cabeça muito mais do que ele estava preparado para lidar.
Revirando os olhos, Daryl fez o que sabia de melhor: ajeitou sua besta nas costas e levantou-se dali, fugindo dos olhos azuis e questionadores da garota.
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