Sobreviver

2 O homem que chegou tarde demais...


Seis meses haviam passado desde o dia em que o chão da Belloca Doceria se tornou o primeiro aviso de que o tempo de Bella não seria contado em anos, mas em ciclos de quimioterapia, exames de imagem e esperas silenciosas por resultados que nunca vinham leves. O sarcoma continuava ali, resistente, agressivo, comprimindo-lhe o peito como um lembrete constante de que respirar era agora um ato consciente, quase negociado. Bella aprendera a conviver com a fraqueza, com os enjoos, com a fadiga que transformava tardes inteiras em batalhas invisíveis, mas também aprendera algo mais perigoso: a urgência. Ela ria mais alto, abraçava mais demorado, dizia o que sentia antes que o medo a convencesse a guardar. E foi justamente nesse período, quando ela já conhecia o gosto metálico da quimioterapia e o peso das madrugadas insones, que Edward Anthony Masen voltou para Forks.

Ele chegou numa manhã cinzenta, vindo de New York, trazendo na mala contratos cancelados, convites ignorados e uma inquietação que não soube explicar nem para si mesmo. A cidade parecia pequena demais depois de anos entre arranha-céus e galerias de arte, mas havia algo naquele retorno que não era apenas visita; era pausa forçada. Filho de Esme Cullen e enteado do Dr Carlisle Cullen, Edward crescera ouvindo histórias sobre salvar vidas, mas escolhera construir prédios, estruturas que não sangram, não falham, não morrem. Ele nunca conheceu o pai biológico, Edward Masen, que partira cedo demais por causa de um câncer cruel de estomago quando Esme ainda estava grávida, e talvez por isso tivesse desenvolvido essa obsessão silenciosa por permanência, por deixar algo sólido no mundo que não pudesse ser levado pela doença.

No primeiro domingo após sua chegada, Esme insistiu que ele a acompanhasse ao hospital para uma reunião do grupo de apoio aos pacientes oncológicos. Edward aceitou mais por educação do que por vontade, imaginando encontrar um ambiente pesado, carregado de lamentos e despedidas antecipadas. O que encontrou, porém, foi uma sala iluminada demais para um hospital, com cadeiras dispostas em círculo, desenhos espalhados por uma mesa e risadas que pareciam deslocadas daquele contexto. E no centro daquilo tudo estava ela.

Bella usava um vestido simples azul-claro e a peruca perfeita que Alice trouxera meses antes, tão natural que ninguém desconfiaria. Ela segurava a mão de uma senhora idosa enquanto explicava como a respiração lenta poderia ajudar durante as crises de ansiedade, falando com uma calma que não parecia ensaiada. Edward a observou primeiro com curiosidade técnica, como quem analisa uma obra intrigante, perguntando-se quem era aquela voluntária que irradiava tanta serenidade em meio à doença alheia.

— Quem é ela? — ele murmurou para Esme, sem desviar os olhos.

Esme sorriu de leve, acompanhando o olhar do filho.

— Isabella Swan.

— Ela trabalha aqui?

— Não exatamente.

Edward continuou observando, notando como todos a escutavam, como crianças se aproximavam dela naturalmente, como até os homens mais endurecidos pareciam suavizar quando Bella lhes dirigia atenção. Ele sentiu algo estranho, uma espécie de desconforto silencioso diante daquilo que não conseguia racionalizar.

— É impossível alguém ser assim o tempo todo — ele comentou, quase cético. — Ninguém é tão gentil de verdade.

Esme olhou para ele com um brilho sereno.

— Ela é paciente, Edward.

A frase caiu entre eles como uma revelação que muda o eixo da conversa. Ele finalmente voltou os olhos para a mãe, como se tivesse ouvido errado.

— Paciente?

— Sarcoma mediastinal. Seis meses de tratamento. Ela perdeu o cabelo há meses. Voltou para o grupo assim que conseguiu ficar de pé por tempo suficiente.

Edward voltou a olhar para Bella, mas agora não via apenas a mulher que conduzia a roda com leveza; via alguém que carregava a própria sentença no peito e, ainda assim, escolhia sorrir. E, pela primeira vez em muito tempo, ele sentiu algo que não estava sob seu controle. Não era piedade. Não era compaixão. Era impacto.

A reunião terminou com aplausos tímidos após uma atividade artística proposta por Esme, e Bella foi a última a sair da sala, recolhendo papéis e organizando cadeiras mesmo com a respiração discretamente pesada. Edward se aproximou sem saber exatamente por quê, como se os próprios passos tivessem decidido por ele.

— Você devia descansar mais — ele disse, num tom que misturava observação e repreensão leve.

Bella ergueu os olhos para ele, curiosa, avaliando o desconhecido de postura elegante e expressão intensa.

— E você devia participar mais antes de dar conselhos — respondeu, com um meio sorriso.

Ele quase sorriu de volta, surpreso pela resposta rápida.

— Edward Masen.

— Bella Swan.

O aperto de mãos foi breve, mas firme. Havia algo ali que nenhum dos dois precisou nomear naquele instante, uma corrente silenciosa que não se explicava com lógica. Edward sentiu como se tivesse entrado numa sala onde o ar era diferente, mais denso, mais real. Bella sentiu como se aquele homem estivesse olhando para ela além da peruca, além do sorriso treinado, além da força que exibia para o mundo.

Ele não sabia ainda que voltaria na semana seguinte.

E na outra.

E em todas as outras.

Ele não sabia que começaria a ler sobre sarcomas de madrugada, nem que discutiria protocolos com Carlisle como se pudesse negociar com a ciência o tempo que restava a ela. Não sabia que a mulher que conhecera seis meses atrasado se tornaria a razão pela qual ficaria em Forks mais tempo do que planejara.

Mas naquela tarde, enquanto Bella saía do hospital sob a chuva fina e Edward permanecia parado sob a marquise, observando-a atravessar o estacionamento com passos lentos e determinados, algo nele compreendeu antes da razão:

Ele tinha acabado de encontrar alguém que estava vivendo de verdade.

E ele, pela primeira vez, queria aprender como.

Notas finais
Sinto cheiro de algo começando ai...Se preparem! Eu juro que tento postar só um capítulo por dia, mas sou muitooo ansiosa e odeio quando tenho que esperar dias para o próximo capítulo de uma fanfic que estou lendo kkk Me deixa perdida e super estressada, gosto de ler como um livro, direto e sem pausas. Essa fic já esta finalizada no meu computador, então porque fazer vocês esperarem ?