Sobreviver
3 O brownie
Edward chegou à casa dos pais ainda com a imagem de Bella atravessando o estacionamento sob a chuva fina gravada na mente, como se tivesse observado não apenas uma mulher, mas um enigma. A sala estava silenciosa, iluminada pela luz amarelada do fim de tarde, e Esme organizava algumas pastas sobre a mesa quando percebeu que o filho não parecia o mesmo homem que saíra horas antes para acompanhá-la ao hospital. Havia algo diferente na postura dele, menos arrogância, menos pressa, mais reflexão.
— Ela te intrigou, hein? — Esme disse sorrindo, antes mesmo que ele falasse.
Edward soltou um pequeno suspiro, passando a mão pelos cabelos.
— Como alguém que sabe que pode morrer a qualquer momento parece… tão leve? — perguntou, finalmente encarando a mãe. — Não era negação. Não era fingimento. Era real. Ela parecia mais serena do que qualquer pessoa saudável que eu conheça.
Esme o observou com um sorriso que misturava ternura e conhecimento.
— Bella dá vida ao grupo, Edward. Quando ela chega, o ambiente muda. As pessoas esquecem por alguns minutos que estão doentes. Ela faz isso desde o primeiro dia.
Ele caminhou até a janela, encarando a chuva que começava a engrossar.
— É impossível alguém ser assim o tempo todo.
— Ela não é assim o tempo todo, ela também é humana, também sofre — Esme respondeu com suavidade. — Mas escolhe ser assim quando está com os outros para mostrar que a vida é muito curta para lamentações.
Houve um silêncio breve antes que Esme completasse, com um leve tom de advertência carinhosa:
— E ela não é o tipo de garota que você costuma flertar e levar para a cama em Nova Iorque.
Edward virou-se rapidamente, pego de surpresa arregalando os olhos.
— Mãeeee!
— Estou apenas dizendo a verdade, meu filho — Esme continuou, cruzando os braços com serenidade. — Bella é especial. Nunca a vi envolvida com ninguém. Ela sempre foi focada na própria vida, na doceria, nos sonhos dela. Enquanto as amigas casavam, ela crescia. Enquanto os outros buscavam estabilidade em alguém, ela construía a própria. Ela é diferente...Especial!
Edward permaneceu em silêncio, absorvendo cada palavra, notando o brilho nos olhos da mãe ao falar sobre Bella.
— Você fala dela como se fosse… a coisa mais extraordinária.
— Porque ela é.
Esme então levantou-se com um ar decidido.
— Venha comigo. Preciso te mostrar um lugar.
Minutos depois, estavam diante da fachada acolhedora da Belloca Doceria, cujo cheiro de chocolate escapava pelas portas como um convite irresistível. Edward ergueu uma sobrancelha ao entrar, analisando o ambiente com curiosidade crítica. Esme pediu dois brownies sem sequer olhar o cardápio.
— Você vai provar o melhor brownie do mundo — anunciou ela.
Edward sorriu com arrogância leve.
— Isso é bem difícil. Eu sou fanático por brownie. Meu paladar não é fácil.
— Confie em mim — Esme respondeu, divertida. — Esse é o melhor do mundo inteiro.
Ele levou o primeiro pedaço à boca com ceticismo elegante. Mastigou. Parou. Piscou. E então soltou um som involuntário, baixo e sincero, que arrancou um riso satisfeito da mãe.
— Eu odeio admitir — murmurou —, mas… é o melhor que já comi.
— Eu sei.
Esme fez sinal para o balcão.
— Vou te apresentar quem faz essa maravilha.
Renée aproximou-se com um sorriso aberto e acolhedor.
— Edward, querido, que prazer. Sou Renée.
— Esse brownie é absurdo — ele interrompeu, sincero demais para ser diplomático.
Renée riu.
— Fico feliz que gostou, mas eu não fiz.
Ela olhou em direção à porta, e naquele instante Bella entrou, acompanhada por duas crianças que corriam pelo salão enquanto ela tentava conter a energia delas entre risadas. Ao lado vinha Alice, cabelos curtos perfeitamente alinhados, comentando algo animadamente.
— Belloca! — Renee chamou.
Bella ergueu os olhos e viu Edward. O mundo pareceu diminuir por alguns segundos, como se o som ao redor tivesse sido abafado. Ele também a observava com intensidade silenciosa, reconhecendo ali não apenas a paciente do hospital, mas a mulher que criava o melhor brownie que já provara.
— Foi ela quem fez o melhor brownie do mundo — anunciou Renee com orgulho.
Esme quebrou o breve transe.
— Edward disse que é o melhor que ele já comeu.
Bella sorriu, levemente tímida.
— Então eu fico oficialmente honrada.
Edward deu um passo à frente.
— Eu falei sério.
— Eu também levo brownie a sério — ela respondeu, arqueando levemente a sobrancelha.
O sorriso dele surgiu mais fácil dessa vez.
A conversa fluiu com naturalidade inesperada, passando de receitas para arquitetura, de arte para a importância de pequenos negócios em cidades pequenas. Edward parecia genuinamente interessado, não apenas educado. Bella, por sua vez, sentia-se curiosamente confortável, como se aquele homem estivesse enxergando algo além da peruca impecável e do sorriso treinado.
Mais tarde, já no parque com as crianças, Alice puxou Bella discretamente pelo braço.
— Você estava assanhada hoje com a senhora Cullen e o filho gostosão.
Bella riu.
— Assanhada? Alice, eu estava quase vomitando neles devido aos remédios...
— Não seja ridícula, o tensão sexual estava quase explodindo a doceria.
Bella balançou a cabeça rindo.
— Ele é só um homem normal, Alice.
— Um homem que não parou de te olhar, ele estava comendo o brownie e provavelmente imaginando que comia você.
Antes que Bella pudesse responder, uma voz familiar surgiu atrás delas.
— Espero que eu não esteja interrompendo.
Edward estava ali, casual demais para parecer coincidência.
Alice sorriu como quem já esperava aquilo.
— De forma alguma.
As crianças correram para o balanço, e, pela primeira vez, Bella e Edward caminharam lado a lado sem plateia, sem hospital, sem cheiro de antisséptico, apenas o vento frio de Forks e a sensação silenciosa de que algo estava começando rápido demais.
— Eu não sabia que você era a mente genial por trás da Belloca, aquele brownie é muito incrível e eu sou chato em relação a isso — ele comentou.
— Eu não imaginava que você era tão exigente com brownie.
Ele riu baixo.
— Talvez eu só estivesse esperando provar o certo.
Ela sentiu o coração comprimido , não pela doença, mas por algo novo, inesperado e perigosamente vivo.
E Edward, ao observá-la sob a luz pálida do fim de tarde, teve a primeira certeza que não conseguia explicar:
Ele não tinha voltado para Forks por acaso.
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