Sobreviver
4 Todos os dias
Edward começou a frequentar a Belloca Doceria com a disciplina de quem cumpre um ritual secreto, aparecendo todos os dias em horários diferentes, às vezes pela manhã sob o pretexto de café, às vezes no meio da tarde alegando uma súbita necessidade de açúcar, mas sempre encontrando uma forma de permanecer ali por pelo menos cinco minutos, como se aquele curto intervalo fosse suficiente para reorganizar algo dentro dele. A cidade já começava a notar, porque em Forks nada passava despercebido, e Bella também notou, claro que notou, embora fingisse não perceber a constância quase metódica com que ele se apoiava no balcão e pedia exatamente o mesmo brownie, observando-a trabalhar com um interesse que ia além da sobremesa.
— Você sabe que, se continuar vindo todos os dias, vai acabar me culpando quando não couber mais nas suas roupas elegantes de arquiteto — ela provocou certa tarde, cruzando os braços enquanto o observava dar a primeira mordida.
Edward mastigou lentamente, como se estivesse avaliando a gravidade da acusação.
— Meu estômago é apaixonado pelo seu brownie — respondeu, com falsa solenidade. — Se eu ficar sem, é capaz de morrer de abstinência.
Bella soltou uma gargalhada genuína, clara e livre, e o som ecoou pelo salão como música inesperada. Ele percebeu naquele instante que não vinha mais apenas pelo gosto do chocolate; vinha pelo som daquela risada, pela forma como os olhos dela brilhavam quando se divertia, pelo modo como parecia inteira mesmo quando sabia que estava em pedaços por dentro.
No sábado seguinte, porém, a cadeira de Bella no grupo de apoio permaneceu vazia. Edward tentou convencer a si mesmo de que era apenas um dia ruim, algo comum no tratamento, mas a ausência dela parecia alterar a temperatura da sala. Ele participou da atividade, falou mais do que o habitual, tentou preencher o espaço que ela sempre ocupava naturalmente, mas nada parecia suficiente.
Ao final da reunião, aproximou-se de Esme com uma inquietação difícil de disfarçar.
— Ela não avisou que faltaria?
Esme balançou a cabeça, preocupada.
— Não. E isso não é típico dela.
Sem precisar de mais palavras, os dois decidiram ir até a casa dos Swan. Edward passou antes numa pequena floricultura e escolheu um buquê simples, elegante demais para ser casual, discreto demais para parecer declaração.
Renee abriu a porta com um sorriso cansado, mas gentil.
— Que surpresa boa.
— Bella não amanheceu muito bem — explicou ela após cumprimentá-los. — A noite foi difícil. Ela tirou o dia para descansar. Bree e Jessica estão cuidando da doceria.
Edward apertou as flores com leve tensão nos dedos.
— Eu… trouxe isso.
Renee recebeu o buquê com ternura.
— Ela vai gostar.
O jantar foi decidido quase por impulso. Renee insistiu que ficassem, que não havia motivo para formalidades, e logo a mesa foi sendo preparada com a naturalidade de quem sempre acolhe. Foi ali que Edward conheceu oficialmente Charlie Swan, o xerife cuja presença impunha respeito mesmo em silêncio.
— Então você é o arquiteto de Nova York — Charlie comentou, avaliando-o com discrição.
— Era — Edward corrigiu, sem perceber que usara o passado.
Charlie arqueou levemente a sobrancelha, mas não insistiu.
Durante o jantar, Charlie notou as flores no centro da mesa.
— Renee, desde quando estamos decorando a casa com flores?
Renee riu, divertida.
— Não estamos. São da Bella.
— Ah, claro — Charlie suspirou teatralmente. — Os fãs da minha filha já estão me deixando louco.
Bella, que descia as escadas naquele momento, ficou imediatamente vermelha.
— Pai.
Esme sorriu suavemente.
— Esse fã veio direto de Nova York.
Edward e Charlie se engasgaram ao mesmo tempo com o café, arrancando risadas generalizadas da mesa.
Pouco depois, a campainha tocou novamente. Alice e Jasper chegaram com as gêmeas, seguidos de Rosalie e Emmett, trazendo consigo o tipo de energia que enche uma casa inteira. Bella apresentou Edward ao grupo, e a dinâmica foi surpreendentemente fácil. Emmett o cumprimentou com um aperto de mão firme demais, Jasper observou com análise silenciosa, e Rosalie ofereceu um sorriso avaliador que dizia que ele estava sendo medido.
Edward, no entanto, não conseguiu desviar a atenção de Bella ajoelhada no chão brincando com as crianças de Alice, deixando que uma delas ajeitasse sua peruca torta enquanto ria sem vaidade alguma. O amor que ela demonstrava pelos filhos da amiga era instintivo, profundo, quase maternal, e aquilo o tocou de forma inesperada.
Mais tarde, afastado por alguns minutos na varanda, Edward conversou com Emmett e Jasper.
— Ela sempre foi assim? — perguntou, sem precisar especificar.
Emmett sorriu.
— Sempre.
— Nenhum garoto de Forks tinha coragem de se meter com ela — Jasper acrescentou. — O xerife deixava bem claro que as filhas dele eram três: Bella, Alice e Rosalie.
Edward riu baixo.
— Imagino.
O sorriso de Emmett suavizou.
— Agora ela precisa viver, cara. Não se envolver demais. O tempo é curto. Cada segundo é especial.
A frase ficou suspensa no ar, lembrando-o da realidade que vinha tentando ignorar.
Depois que os amigos foram embora e a casa silenciou, Edward e Bella ficaram sentados na varanda, envoltos pela noite fria e tranquila. Ela parecia cansada, mas não frágil; havia força até no modo como segurava a própria xícara.
— Como é Nova York? — ela perguntou.
Ele falou sobre prédios altos, galerias, inaugurações, noites que nunca dormem. Falou sobre contratos milionários e a sensação constante de ter que provar algo. Depois, hesitou antes de continuar.
— Eu nunca conheci meu pai biológico. Ele morreu de câncer antes de eu nascer. Carlisle foi quem me criou.
Bella o observou com atenção genuína.
— Então você sabe.
Ele assentiu.
— Sei o que é perder alguém antes de ter tempo suficiente.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos antes de responder.
— Eu sempre pensei em casar. Em ter filhos. Mas agora… isso se tornou impossível. Eu nunca namorei, Edward. E ter filhos sabendo que posso morrer a qualquer momento… seria cruel.
Ele engoliu em seco.
— E amar?
Ela desviou o olhar para a escuridão.
— Amar agora seria ainda mais cruel.
O silêncio entre eles não era vazio; era carregado de algo que ambos sentiam e nenhum tinha coragem de nomear. E ali, sob o céu nublado de Forks, ficou claro que o que estava nascendo entre eles não era simples, não era seguro — mas era, acima de tudo, vivo.
-------------------------------------------------
Edward já não fingia mais que ia à Belloca Doceria apenas pelo brownie; a cidade inteira percebia, e Bella também, embora mantivesse a brincadeira como se ambos estivessem participando de um acordo silencioso. Ele aparecia quase todos os dias, às vezes com um livro de arquitetura aberto diante de si que nunca realmente lia, às vezes apenas apoiado no balcão observando-a se mover com aquela mistura de força e delicadeza que o deixava inquieto. Naquela tarde, enquanto ele dava a primeira mordida no doce como se fosse um ritual sagrado, Bella apoiou os cotovelos no balcão e o encarou com um brilho diferente nos olhos.
— Você já conhece La Push?
Ele limpou os dedos com o guardanapo, curioso.
— Ainda não tive esse privilégio.
— Então está perdendo a melhor parte de Forks. — Ela inclinou levemente a cabeça. — Vamos comigo hoje?
O convite veio simples, mas carregado de algo maior: confiança.
Horas depois, o som das ondas em La Push Beach misturava-se ao vento frio que fazia o cabelo dela — ou a peruca perfeita — dançar suavemente. Bella caminhava pela areia com passos lentos, mas decididos, e Edward a acompanhava com atenção silenciosa, como se cada gesto dela merecesse ser registrado. Ela tirou os sapatos e deixou que a água gelada tocasse seus pés, soltando um pequeno suspiro.
— Aqui eu lembro que ainda estou viva — disse, encarando o horizonte.
Ele a observava mais do que o mar.
— Você nunca deixa de parecer viva.
Ela riu baixo.
— Você não me vê às três da manhã, quando a dor aperta e o medo resolve aparecer.
Eles caminharam mais, brincaram de correr quando uma onda veio maior que o esperado, riram como dois adolescentes fugindo de algo invisível. Edward tirou fotos dela com o celular, capturando o momento em que ela girava na areia, braços abertos, como se estivesse abraçando o vento.
Mais tarde, sentaram-se sobre um tronco de madeira trazido pela maré. O silêncio entre eles não era desconfortável; era denso.
— Você tem medo? — ele perguntou, finalmente.
Bella demorou a responder.
— Tenho. Não de morrer. Tenho medo de deixar as pessoas tristes. Tenho medo de que minha mãe não saiba como acordar no dia seguinte. Tenho medo de que meu pai não consiga fingir que está tudo bem.
Ele engoliu em seco.
— Eu tenho medo de não ter tempo suficiente.
Ela virou o rosto para ele.
— Tempo suficiente para quê?
— Para aprender tudo sobre você.
O vento pareceu suspender-se por um instante. O olhar dela suavizou, mas havia sombra ali.
— Edward…
Ele não deixou que ela terminasse. Aproximou-se devagar, como se estivesse pedindo permissão sem palavras, e quando seus lábios tocaram os dela, não houve pressa, nem desespero — apenas uma urgência contida, uma certeza silenciosa de que aquele momento era precioso demais para ser desperdiçado. O beijo foi quente apesar do frio, profundo apesar da delicadeza, e por alguns segundos Bella permitiu-se esquecer diagnósticos, exames e prognósticos.
Quando se afastou, foi como se tivesse lembrado de tudo de uma vez.
— Não — ela murmurou, recuando um passo. — Isso não é justo.
Ele franziu o cenho.
— Não é justo sentir?
— Não é justo fazer você se apaixonar por alguém que vai embora.
— Eu já estou — ele respondeu, firme demais.
Ela balançou a cabeça, os olhos marejados.
— Eu não posso, Edward. Eu não posso começar algo que eu sei que não vou terminar.
E virou-se antes que ele pudesse impedi-la, caminhando de volta pela areia com passos que misturavam força e fuga.
Naquela noite, Edward procurou Carlisle Cullen no escritório silencioso da casa. O homem levantou os olhos do livro que lia, percebendo imediatamente o conflito estampado no rosto do enteado.
— Ela se afastou — Edward disse, sem rodeios.
Carlisle fechou o livro com calma.
— Porque ela sabe o que está em jogo.
Edward passou as mãos pelos cabelos, frustrado.
— Eu não me importo com o fim.
— Mas ela se importa com o que vai deixar para trás — Carlisle respondeu com serenidade. — Amar alguém em estado terminal não é apenas sobre o amor. É sobre a culpa que pode ficar.
— Eu não tenho medo da dor.
Carlisle o observou com compaixão.
— Talvez você não tenha. Mas ela tem medo de causar a sua.
O silêncio que se seguiu era pesado, mas esclarecedor. Edward percebeu que amar Bella não seria apenas sobre desejo ou paixão; seria sobre escolha diária, sobre aceitar limites, sobre lutar contra o tempo sem poder vencê-lo.
E, mesmo assim, ele sabia.
Ele escolheria ficar.
Mesmo que a maré levasse tudo depois.
Fale com o autor